Mostrar mensagens com a etiqueta Ângelo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ângelo. Mostrar todas as mensagens

12/06/2014

14/02/2014

Ser dia e Noite ser de Sílvia Mota Lopes (opinião)


Ser dia e Noite ser de Sílvia Mota Lopes



No âmbito da literatura “infanto-juvenil”, deixo aqui uma sugestão:



Aqui está um livro onde se consegue provar que com esforço dedicação e muita paixão se podem fazer coisas únicas, um livro muito bem construído com ilustrações fabulosas e repleto de uma ambivalência generosa. Ser dia e Noite ser transporta o leitor para um lugar de sonho e fantasia bem terreno onde crianças e adultos são “alimentados” nas suas próprias especificações.

Um livro que recomendo sem reservas.

Debatemos este livro no Clube de Leituras Bertrand de Braga com a presença da autora, que tornou essa sessão num dia (sessão) muito especial, quero agradecer publicamente a sua simpatia e disponibilidade para se submeter às “garras” do nosso clube. Se duvida uma sessão a repetir.

http://clubedeleiturabertrand.blogspot.pt/

Blog da autora, para quem quiser saber mais informações:
http://mitosonhorealidade.blogspot.com/

12/06/2013

Leitura conjunta do livro Crónica dos Bons Malandros de Mário Zambujal

Crónica dos Bons Malandros de Mário Zambujal

Manuel 
A Crónica dos Bons Malandros é a mais divertida comédia que li nos últimos tempos.
Jornalista de profissão e boémio por natureza, Mário Zambujal demonstra neste clássico da malandragem um conhecimento profundo do meio em que evoluem os personagens. 

Este livro, na verdade, é um clássico da malandragem; no entanto, há um pressuposto que deve estar bem presente na mente de todos os que decidirem ler o livro: malandros não são criminosos. Malandros têm sentido de humor e agem sempre em função de um certo código de honra que coloca a camaradagem entre os membros do grupo acima de todos os outros interesses. Aliás, quando as coisas correram mal nesta deliciosa história foi na sequência de um ato de traição em que um dos personagens tentou ser criminoso em vez de malandro.

Mas, mais do que defensor de qualquer catálogo de ética, este livro é uma divina comédia. Grande parte do sentido de humor do livro advém dos contrastes delineados logo no início do livro: um malandro que até conhece o museu Gulbenkian e os artistas lá representados; um outro malandro que até detesta armas. E um conjunto de malandros que até se comovem com as desgraças dos camaradas.

Ao longo do livro, Mário Zambujal vai fazendo também uma espécie de psicanálise do malandro nos seus diversos tipos: o malandro de raiz, cleptomaníaco, que hoje seria cliente de qualquer psiquiatra; o malandro tiranizado por uma infância desgraçada; o malandro que foi levado para a “má vida” por causa dos males de amores, enfim, um verdadeiro catálogo da malandragem…

Um dos aspetos que mais cativa o leitor é a linguagem super-objetiva de Zambujal; ali não há nada em excesso nem repetições; se o leitor se distrai um pouco, só tem um remédio: recuar até ao ponto onde começou a distração, porque aqui tudo é sintético e objetivo. Isto dá ao livro um ritmo narrativo muito interessante, que agarra o leitor até à última página. O final do livro é o culminar de uma grande odisseia; é um final dramático e épico onde não falta o sentimento de levar à lágrima as almas mais sensíveis.

Enfim, um livro genial que devia ser de leitura obrigatória para todos aqueles que amam a literatura portuguesa.

Ana
Há cerca de um ano atrás, li um excerto deste livro e achei imensa graça. Na altura decidi que, assim que pudesse, o iria ler.
Infelizmente, com o tempo, passou também algum do fascínio que o excerto tinha criado em mim.
Ao ler este livro, apesar das ocasionais risadas, achei que não foi tão engraçado como me lembrava. 

O ponto forte deste livro são as personagens e a comédia de situação. O autor tem um humor muito próprio. Sarcástico, mas não ao ponto de ser exagerado. Além disso a escrita do autor está perfeitamente adaptada ao estilo da história.
No entanto, também é verdade que a história central, a intriga, é praticamente inexistente. Do assalto lemos cerca de 30/40 páginas, se tanto. O resto são relatos mais ou menos bem conseguidos das vida passadas dos elementos da quadrilha. E aqui o autor consegue trabalhar bem as histórias, excepto do caso do Renato e da Marlene.
Durante todo o livro o autor fala-nos como o Renato e a Marlene são unha com carne, como ela é uma parte indissociável dele, e como ele é pacífico mas tem ocasionais ataques de fúria incontroláveis. Até aqui tudo bem. Mas quando fui ler o capítulo dedicado ao passado dos dois, eu esperava descobrir porque Renato tinha esses ataques de fúria (pois da sua aversão a armas já sabíamos o que havia para saber) e porque ele a Marlene eram 'unha com carne' e ela nada mais era que uma perna extra dele. Ora, nenhuma destas duas coisas foi explicada. Não de maneira satisfatória, pelo menos.
Em quase todas as restantes personagens isto não aconteceu, excepto com o Flávio, cuja motivação para as falcatruas, permanece um mistério.

Ainda assim, tenho de confessar que este foi um livro divertido, que me fez boa companhia nos poucos minutos que conseguia roubar para ler. Ri-me várias vezes, especialmente na parte final. E por falar no final, achei-o muito bom e algo inesperado, ou pelo menos foi uma boa jogada do autor.
Mas, no geral, não fiquei encantada com este livro. Não foi uma leitura que me marcasse, nem sequer foi tão satisfatória como esperava.
Percebo porque é tão conhecido, mas podia ter algo mais. 

Ângelo
Um líder mais meia dúzia de infortunadas vidas que se irão entrelaçar cumprem o desígnio deste livro.

Renato (o pacifico) é o líder desta quadrilha de malandros composta por:

Pedro (o justiceiro), um fugitivo por ter um desentendimento com a sua professora, encaixilhou-lhe um quadro na cabeça, os colegas apelidaram-no de justiceiro e assim ficou. Pedro após este incidente foge para a capital onde passado algum tempo está a trabalhar para um “repara tudo” especializando-se assim em fechaduras...

Flávio (o doutor), no último ano do seu curso de advocacia e já estando a trabalhar para sustentar a sua família Flávio é preso por desfalque, a mulher, Zinita, não lhe perdoa e divorcia-se levando-lhe a filha, na prisão Lúcio é a sua tormenta e Renato a sua salvação.

Arnaldo (o figurante) incapaz de manter um emprego Arnaldo vê no boxe uma fuga para um resto de vida, após um combate perdido ele desiste de ser boxeador, tenta o cinema mas não passa de um mero figurante.

Adelaide (a magrinha) casada com carlos que a quando da sua prisão a deixou sem nada, Adelaide vê-se amparada por Lina a puta ou melhor a meretriz. Procura nos amigos de carlos algum conforto ou amizade que só consegue ter com Renato e Marlene.

Silvino () gémeo o seu irmão sofreu o seu sadismo, com tanta traquinice é obrigado a frequentar um colégio interno em Lisboa, aqui forma um gang com o objectivo de assaltar automóveis, um assalto correu mal e foge segundo rezam as histórias para os Palma de Maiorca e Estados Unidos da América do Norte, volta passados alguns anos e encontra Renato no bar do Japonês.

Marlene e Renato, saltimbancos; Marlene trapezista voadora, encontra Renato num dia triste para este, no dia em que seu pai morre, Marlene ajuda-o. Oito anos passados o reencontro e os dois ficam a trabalhar no circo, até que os pais de Marlene adoecem, está fica com a promessa do director do circo que irá ter um novo companheiro, assim Renato e Marlene decidem fugir, para ganhar a vida passam a assaltar casas, são presos.

Apresentadas as personagens desta quadrilha muito peculiar, muito portuguesa, estes decidem fazer o assalto das suas vidas, o assalto final a pedido de um Italiano, como se processará o assalto algo irá correr mal, porquê?

Numa linguagem acessível e muito divertida, Mário Zambujal, faz uma crítica pitoresca da sociedade dos anos 70, onde a predominaria de afectos é encontrada naqueles que a sociedade mais despreza. Não se pense que nesta aventura fácil é tudo seco, Zambujal com o seu olhar jornalístico explorou muito bem esta divertida aventura, onde preciosidades destas também podem ser encontradas:

“e exarou, ao ouvido de Renato, o seu voto de desconfiança”

“...gente era briga, medo, sangue, gente podia chamar a morte ou a polícia”

Um livro que recomendo.

14/05/2013

O filho de mil homens de valter hugo mãe - Leitura Conjunta

Leitura Conjunta O filho de mil homens de Valter Hugo Mãe



Ângelo
Crisóstomo, vive só e pretende ter um filho para colocar alguma razão na sua existência, Camilo (um jovem a quem o avô faleceu) “cair-lhe-á” aos seus braços, para completar a sua felicidade Isaura (mulher de vida dura mas com o nome mais bonito do mundo) juntar-se-á a este dueto, para assim criarem um triângulo amoroso muito genuíno.

Com um preconceito homossexual muito forte, exagerado em certos aspectos, impressionante por vezes, esse é o poder que valter hugo mãe tem ao imprimir conceitos tão marcantes de uma forma quase poética. A narrativa envolve-nos numa espécie de nevoeiro matinal que nos protege das agressividades solares.
Uma crítica à sociedade onde a salvação se poderá encontrar através do amor e compreensão.

Está em linha com os últimos livros editados pelo autor, sem o vigor e a força do Remorso de Baltazar Serapião... mas não deixa de ser um bom livro.

Ana
Sem nunca ter lido nada do autor e apenas lhe conhecendo a fama, foi sem expectativas que comecei este livro e fui agradavelmente surpreendida.

A história parece, à primeira vista, corriqueira, mas chega a ser bastante complexa, na sua humanidade. Passada numa qualquer vila portuguesa, num qualquer tempo (e, sim, isto faz-me impressão, porque certas coisas apontam para um tempo moderno, enquanto muitas outras fazem parecer que estamos nos anos 60/70), julgo que qualquer leitor poderá identificar várias caricatas personalidades como muito realistas, muito próximas do português da aldeia de outros tempos, ou será de hoje? (e com isto não pretendo ofender)
Algumas situações representadas neste livro, testaram a minha credulidade, especialmente pela sua crueldade e malícia. Mas não chegou a cruzar os limites e também na bondade este livro se excedeu, mais lá para o fim.

A nível de personagens, há-as para todos os gostos. Personagens que nos parecem familiares, que nos tocam, que nos movem, que nos enojam e nos fazem pensar que as pessoas ainda têm muito que aprender sobre a diferença, e que infelizmente isso é tão verdade agora, como antes.
Escusado será dizer que o meu favorito foi o Crisóstomo, com o seu singelo desejo de ser pai e o seu amor incondicional por todos. Também as outras personagens principais foram marcantes, mas não da mesma forma. Camilo, Isaura, Antonino, Matilde a Mininha, foram personagens cheias de defeitos e cheias de virtudes, que me mantiveram agarrada às páginas.

Já no que toca à prosa do autor, gostei bastante desta, em quase todo o livro, e foi ver que neste livro o autor não usou certos artifícios literários que me teriam deturpado a leitura (ex: não usar maiúsculas). Contudo, há que dizer que certas partes do romance me soaram falsas, especialmente quando personagens que sempre foram 'labregas', se saíam com pensamentos ou discursos mais elucidados e eruditos, que nada mais pareciam que pregações. 
A já mencionada falta de localização temporal, levou-me a questionar várias vezes os acontecimentos e as vivências das personagens, e isso não foi bom. Fiquei com a sensação que o autor não quis dizer a data, para não correr o risco de ser chamado à atenção por alguma inconsistência.

Em suma, este foi um livro que me agradou bastante e que, apesar de começar num tom muito triste (por vezes até macabro), no fim terminou de uma forma inesperadamente optimista. E sabe bem ler algo assim para variar.
Irei com certeza revisitar o autor!

Manuel
Depois de magníficos livros como A Máquina de Fazer Espanhóis e, principalmente, O Remorso de Baltazar Serapião, as expectativas eram altas para este livro de Valter Hugo Mãe. Anunciava-se o regresso às maiúsculas e o assumir de uma perspectiva mais positiva e uma escrita mais suave. Desde logo, anunciava-se o abandono de uma linha pessoal que VHM ia seguindo nas suas obras anteriores.

Esse abandono de um estilo bem pessoal não me agradou mas devo dizer antes de mais nada que estamos perante um bom livro. A leitura é agradável, a escrita poética dá uma certa musicalidade ao livro e a sensibilidade do autor está sempre “à tona da água”.
Conta-se a história de um homem que, como o autor, cruza os quarenta anos de idade e questiona o sentido da sua existência, decidindo-se pela procura de algo que o complete: uma mulher e um filho.
Crisóstomo, pescador, era metade. Fez 40 aqnos e sentiu-se só. Procurou um filho e encontrou-o: Camilo, catorze anos. Encontrou uma mulher e sorriu: Isaura (o nome mais belo que existe). Sorriu.
Uma anã sem nome era infeliz. Só. Mas 15 homens, quase todos os que havia na aldeia a visitavam. E da doença e da solidão nasceu um filho. A mãe, anã, completou-se e morreu.
Isaura com 16 anos cedeu ao amor carnal e começou a morrer. Conheceu um maricas e casou. Mais tarde o maricas será chamado pelo seu nome (Antonino); antes disso foi sempre renegado porque maricas não é ser gente. Um dia o maricas foge e Isaura descobre que o amor é esperar. Chora.
Camilo, o filho da anã, é adoptado pelo velho Alfredo. Alfredo morrerá e Camilo herda a solidão. Para Isaura “ser o que se pode é a felicidade”. Assim foi até conhecer Crisóstomo e Camilo, entretanto adoptado pelo homem que fez 40 anos. Todas as metades se completaram e o maricas voltou. Antonino é acolhido pela nova família: Isaura, Crisóstomo e Camilo. A união entre os pobres, solitários deserdados da vida. Ainda havia tempo para que todos sorrissem.
Como se vê a mensagem é bonita, o enredo é interessante mas falta aqui (na minha opinião, é claro) Valter Hugo Mãe. Falta o cunho pessoal, o estilo “tsunami” a que VHM nos vinha habituando.
A solidão foi derrotada, assim como o preconceito, esse monstro devorador da vida, do qual nasce a solidão.
Independentemente da qualidade inegável da obra, a palavra chave que me assoma à mente é esta: cedência.

14/03/2013

A Conspiração dos Fidalgos de Alexandre Rocha (opinião)

A Conspiração dos Fidalgos
de Alexandre Rocha

Edição/reimpressão: 2012
Páginas: 320
Editor: Ésquilo
ISBN: 9789899739697




Um livro notoriamente dividido em duas partes bem distintas, na primeira parte o autor, Alexandre Rocha explora a vivência de Miguel Herculano (personagem principal) num engenho de açúcar, os engenhos poderíamos associa-los a pequenas vilas de vida autómato. Assistimos ao crescimento do menino Miguel, filho do dono de um engenho que vai desfrutando daquilo que a vida lhe oferece, a sua curiosidade levam-no a descobrir e explorar os costumes dos habitantes da senzala mantendo contactos com a cultura dos escravos do engenho da Nossa Senhora da Conceição, esta atitude terá consequências que se manifestaram ao longo de todo o romance.

Uma segunda parte passada maioritariamente no reino, Lisboa, onde Miguel o herói da história, se envolverá na conspiração dos fidalgos de uma forma muito “inocente”, que dá o nome ao livro. Aqui a trama atinge picos assinaláveis, bem estruturada, bem delineada e com um toque de policial pelas entrelinhas, uma parte que adorei ler. Acompanhar Miguel nas suas aventuras é muito interessante, a sua amizade com Bocage e outras personagens estão bem conseguidas.

Um livro bem escrito de uma leitura fluída e agradável, A primeira parte foi a que menos me cativou, talvez pela sensação de repetição de ideias que em mim gerou.
A segunda parte muito mais elabora, a nível contextual, com um grau mais complexo na componente histórica.

No início, Alexandre Rocha, explora o moral uma constante luta entre o científico e a crença no espírito de Miguel que se pretende transpor para o leitor, deixando este decidir qual a melhor opção para si.
Uma componente crítica muito forte está presente, na segunda parte do livro, ao sistema judicial implementado na época e que pouco se modificou através dos tempos decorridos, uma crítica à nossa posição cultural? quiçá...
A multiplicidade de histórias que se passam no reino e a sua ligação com o passado de Miguel, são muito bem conseguidas.
Personagem bem elaboradas e contextualizadas.

É um livro onde a vida do Miguel dava isso mesmo... um livro, repleto de desgostos e tragédias mas sempre com aquele sabor que essa sorte um dia mudaria e Miguel teria o que todos nós desejamos: a sorte, o amor, a felicidade... é um constante agridoce este romance. Uma estreia muito boa deste jovem autor.
Um final muito interessante que vale a pena reler.

--------------------------------------------------------------------------------
Uma saudação especial ao autor Alexandre Rocha que se disponibilizou para debater o livro em conjunto como o “Clube Leitura Bertrand de Braga”, foi um debate enriquecedor para ambas as partes, e nós os leitores ficamos a saber pormenores do livro que poucos sabem. O Alexandre é que teve que suportar todos os nossos comentários (alguns menos bons) ao seu “bebé”, ser “pai” é assim.

14/02/2013

A Herança de Eszter de Sándor Márai (opinião)

Herança de Eszter 
de Sándor Márai 
Edição/reimpressão: 2006 
Páginas: 152 
Editor: Dom Quixote 
ISBN: 9789722029995


Sinopse 
Durante vinte anos Eszter viveu uma existência cinzenta e monótona, fechada sobre si própria, esperando a morte e sonhando com o retorno de um amor impossível. Até ao dia em que, inesperadamente, recebe um telegrama de Lajos, o único homem que amou e graças ao qual encontrou, por um breve período, sentido para a sua vida. Grande sedutor e canalha sem escrúpulos, Lajos não só traiu Eszter como destruiu a sua família, tirando-lhe tudo o que possuía. Agora, depois de uma ausência prolongada regressa, e Eszter prepara-se para o receber comovida e perturbada por sentimentos contraditórios. 


Eszter sobreviveu os últimos vinte anos, sempre com a ajuda de Nunu, Tibor e Endre, a um vendaval que a deixou devastada. Lajos o seu eterno amor, regressa, passados estes anos, um telegrama anuncia o regresso dessa tormenta, como será esse momento? que pretende Lajos após 20 anos. 

Existe uma dualidade constante entre aquilo que se pensa e aquilo que se faz, confrontámo-nos com esta realidade que todos já vivemos pelo menos uma vez, mas que Sándor Márai eleva ao exagero. 

Uma escrita com uma capacidade teletransportativa, uma capacidade de colocar o leitor na história, bem ao lado das personagens. Um livro cheio de amargura vivida por Eszter em relação a Lajos. Um livro com um final antecipado mas pelo tipo de escrita vale a pena ler o livro, pequeno em número de páginas e com letras enormes facilitam a sua leitura.

11/02/2013

Leitura conjunta, Jesus Cristo bebia cerveja de Afonso Cruz

Jesus Cristo bebia cerveja de Afonso Cruz

Sinopse 
Uma pequena aldeia alentejana transforma-se em Jerusalém graças ao amor de uma rapariga pela sua avó, cujo maior desejo é visitar a Terra Santa. Um professor paralelo a si mesmo, uma inglesa que dorme dentro de uma baleia, uma rapariga que lê westerns e crê que a sua mãe foi substituída pela própria Virgem Maria, são algumas das personagens que compõem uma história comovente e irónica sobre a capacidade de transformação do ser humano e sobre as coisas fundamentais da vida: o amor, o sacrifício, e a cerveja. 

Ângelo Marques 
Este livro conta a história de Rosa, uma jovem, e do seu ensejo em concretizar o desejo da sua avó Antónia, sempre com a ajuda do malogrado professor Borja. Uma aldeia alentejana, comprada e recheada por uma tal de Sra. Whittemore, serve como pano de fundo para este enredo. 

Uma história de uma Alentejo rocambolesco de contornos suspeitos. 

Com uma prosa engenhosa Afonso Cruz consegue dar ânimo a um livro com pouco enredo, ou melhor o enredo é suplantado pelo fantástico poder textual, sintético, filosófico e irónico do autor. 

Uma crónica como contornos neorrealistas, a fuga da aridez alentejana para a dureza da capital. Uma obra de linhas bem construídas. 

Um final de "boca" sem emoção. 

Algumas passagens do livro:
“e esse povo por vezes tem razão, exceto nas urnas, ai nunca acerta” pág. 98 
“..., uma flecha em direção ao alvo que os mortos que ainda são vivos chama de morte.” pág. 162 
“é uma santa que se esqueceu do céu” pág. 247 


Manuel Cardoso 
A leitura deste livro, no âmbito do clube de leitura da Bertrand de Braga, deixou alguma perplexidade. Por um lado, é um livro de leitura muito agradável. Por outro, deixa um certo desencanto. Talvez o encanto esteja no estilo e o desencanto no encaminhamento que o autor deu ao enredo. Talvez se esperasse algo mais credível. 

Um dos aspetos em que o livro é muito bem conseguido é na caraterização dos personagens: 

Rosa, a força bruta da terra; a candura de uma criatura simples, ingénua, vítima de um destino nefasto. O Professor, um incompreendido; uma vítima do mundo materialista e pragmático em que vivemos; a personificação do fracasso do mundo das ideias. O Sargento Oliveira é o que resta do velho Portugal: brutamontes, ignorante, cultiva um poder que julga superior e que justifica a sua prepotência. Antónia é a mulher do povo, que nunca perde a capacidade de sonhar, embora vivendo mergulhada na ignorância; ir a Jerusalém foi um objetivo de vida. O sonho comanda a vida e a vida alimenta o sonho até que ele se concretize. Miss Whittemore, a inglesa que “colonizou” um monte alentejano, é a mecenas; a mulher estrangeira que traz a civilização a este Portugal rural. 

Este livro vem complementar uma tríade de obras completamente diferentes umas das outras. Depois de um algo obscuro “A Boneca de Kokosha”, este livro é uma lufada de ar fresco, uma obra divertida sem perder a grandeza de um enredo muito bem elaborado. É um retrato profundo e muito sério do Alentejo, mas também de toda uma ruralidade, nas suas virtudes ingénuas mas também na ignorância e num certo obscurantismo. 

O estilo de Afonso Cruz, fundado sobre frases curtas e diretas, permite uma leitura agradável de onde sobressaem ideias claras, plasmadas em frases de uma beleza literária indiscutível, onde o humor de uma espécie de filosofia do trivial se mistura com a arte de transformar a vida num conjunto de aforismos: 

“Tal como é possível não pisar a merda, é possível dar a volta ao impossível” 
“Se o trabalho desse dinheiro, os pobres eram ricos” 
“A loucura, quando dá a um grande número de pessoas, chama-se sociedade contemporânea” 
“Deus está na barriga dos esfomeados” 

O final do livro, na minha opinião pessoal, perde um pouco pelo exagero da situação criada. No entanto é desfecho surpreendente, cheio de criatividade literária. 


Ana Nunes
Apesar de já ter lido alguns contos e um livro do autor, não sabia muito bem o que esperar deste "Jesus Cristo Bebia Cerveja", já que era o primeiro trabalho de Afonso Cruz que leio sem ter fantasia pelo meio. É ficção na mesma, mas num registo um pouco diferente. 

No início adorei este livro; a forma como estava escrito, as suas personagens e as suas mentalidades de habitantes de aldeia (fora os que se armavam em filósofos); mas depois, aos poucos, o livro foi descendo de nível até se tornar num estudo de sexismo e mentalidade retrógrada. Isto teria sido bem mais interessante se não fosse levado a extremos. 

A cerne da história é boa, o seu início é fabuloso e o seu fim é mais que digno (excepto aquele último capítulo que foi um pouco demais). Por outro lado, do meio para a frente, a história tornou-se banal e revoltante. Uma revolta que não é das boas. 

Lembro-me que foi mais ou menos este o sentimento com que fiquei em relação a Os Livros que Devoraram o Meu Pai, do mesmo autor, o que poderá indicar um padrão, para mim enquanto leitora. 

Em relação à personagens, as pequenas coisas que as distinguiam no início do livro, foram-se perdendo lá pelo meio, até que, já muito perto do final, elas se foram misturando e transformando numa massa indistinta de homens tarados e mulheres badalhocas (perdoem-me os termos). Mas, tal como em relação à trama, também no fim muitas das personagens se redimiram e voltaram a separar-se da personalidade una. 

Uma coisa que me incomodou um pouco ao longo do livro, foi a falta de definição temporal. Por um lado temos coisas bastante modernas e, por outro, as personagens comportam-se como se fossem dos anos 60 ou antes. Não parece verossímil que seja moderno mas também não parece ser de há umas décadas atrás e essa indecisão não joga a favor do livro. 

A escrita do autor agradou-me, pois é crua, por vezes até desconfortável, mas também muito própria. No entanto acho que divagou demasiado em filosofias e os diálogos transformavam-se quase sempre em monólogos existencialistas, fosse qual fosse a personagem em cena, o que era no mínimo estranho. 

Este livro lê-se muito bem e tem momentos absolutamente excepcionais, mas também tem alguns que me fizeram bradar aos céus. É um livro interessante, mas não é tão bom como o início prometia, nem tão bom como o final merecia. 

29/01/2013

20/01/2013

D. Dinis - A quem chamaram o Lavrador de Cristina Torrão


D. Dinis - a quem chamaram o Lavrador
de Cristina Torrão
ISBN: 972-978-8092-92-2
Nº de Páginas: 416
Ésquilo







D. Dinis é um rei entre Afonsos, precedido e sucedido por Afonso III e Afonso IV respetivamente e com forte influência de Afonso X de Castela. D. Dinis é desde muito jovem influenciado pelo seu avô Afonso X, um rei de um forte pendor cultural e assim sob esta influência e admiração D. Dinis irá governar o seu reino praticamente até aos dias finais da sua vida Dinis implementará no reino uma cultura de estudo e investigação. 

Na parte final da sua vida, na sua curva descendente, e com um legítimo herdeiro, na procura de mais intervenção nos destinos de Portugal, uma guerra civil é declarada entre pai e filho. As intrigas, divisões entre frações da sociedade alastram, até serem serenadas e se conseguir uma paz relativa. 

Mais do que falar deste rei e da sua consorte a rainha Isabel, e de todos os anexos que os rodeavam, gostaria de falar da escrita e da escritora, podem sempre consultar as críticas a este livro já realizadas por membros deste bolog. 

Paula: 

Manuel: 

Cristina Torrão tem o condão de nos levitar e de nos colocar presencialmente nesta aventura de uma governação monárquica do reinado de D. Dinis. 

A forma inteligente como escreve leva-nos a não querer parar de ler, uma escrita simples (e “simples” que aqui quero falar é do “simples” a que só alguns escritores (por norma os grandes escritores) estão ao alcance, a beleza da simplicidade) uma envolvência com as personagens extraordinária, Cristina tem uma escrita fluida onde todos os acontecimentos parecem estar lá com um propósito. 

Honestamente este tipo de romance, romance histórico, nunca me chamou muita a atenção, coisa da vida olhava para eles e lá continuavam nas prateleiras agarrando o pó, mas a forma como a Cristina apresentou este livro surpreendeu-me. Cristina pecou na minuciosidade dos pormenores mas que os entendo no contexto histórico. 

A forma humana com que a autora expõe as suas personagens, o rigor histórico, é de uma beleza admirável. Fiquei maravilhado como a Cristina conduz as intrigas, as descrições, os afetos, enfim uma leitura maravilhosa. 

Simplesmente fascinante. Uma leitura recomendada.

14/01/2013

Comentários leitura conjunta "O Mistério da Estrada de Sintra" de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

Leitura Conjunta
O Mistério da Estrada de Sintra
de Ramalho Ortigão, Eça de Queirós
Edição/reimpressão: 2011
Páginas: 288
Editor: 11 X 17
ISBN: 9789722523097





Odete Silva
Já leio Eça de Queirós desde os meus dezasseis anos, e li praticamente todos os seus livros, mas este que consideram o primeiro romance de cariz policial em português, que por sinal é “um” dos meus géneros favoritos ainda não tinha lido, uma falha da minha parte.

Espectacular na minha opinião, é um livro que está muito bem escrito, Eça e Ramalho souberam descrever muito bem os pormenores da época, do ambiente, os amores e desamores dos personagens, o adultério que aqui é retratado, nada é deixado ao acaso.

A história começa por cartas de diferentes pessoas que relatam os acontecimentos que observaram e em que estiveram envolvidas neste misterioso crime, que são enviadas ao redactor do Diário de Notícias.

E isto tudo começa quando um médico e o seu amigo são raptados por homens mascarados na estrada de Sintra, vendados e levados para uma casa desconhecida para verificar se um homem que se encontra na mesma está mesmo morto, eles querem ter a confirmação do médico. Estão todos juntos nessa casa quando são surpreendidos com a chegada de um jovem, que acaba por vir a esclarecer toda a história. Mas até lá vamos ao longo desta narrativa tentar juntar todos os pormenores com todas as voltas e reviravoltas, sem nunca se desvendar o nome ou os lugares onde se encontram, achei muito bem feito todo este mistério em volta dos mesmos.

Nós somos envolvidos neste enredo, senti empatia pelos personagens porque se tornam verdadeiros, profundos e reais.

Portanto um livro com todos os ingredientes para manter-nos agarrados - sequestro, morte e bastante mistério. Uma leitura muito agradável.

A escrita de Eça é simplesmente sublime, em parceria com Ramalho Ortigão, deu origem a uma história estupenda. Um livro com uma narrativa intemporal. Gostei muito.

Ângelo Marques
“Não, isto não deve ser: o amor não é uma creação literária, é um facto da natureza; como tal produz direitos, origina deveres. E os direitos do amor não os abdico.” pág. 163

Um médico e seu amigo F. (o livro está repleto de inicias sob o desígnio de esconder a personalidade a que se referem, ou não teríamos no titulo do livro mistério) são raptados numa estrada de Sintra, e levados, encapuçados, a uma casa para verificarem (neste caso o doutor dar a sua opinião) sobre um suposto homicídio.
O início do romance é todo ele um mistério, um início que nos remete para um bom policial (o rapto, o mistério), mas depois somos confrontados com uma viagem que a condessa W. (Luísa) e seu marido e primo H. fazem a Malta, onde conhece Rytmel um capitão Inglês por quem W. se apaixona tragicamente, aqui o romance tem uma evolução poética e descritiva. No desfecho somos confrontados com o desvendar da trama, as respostas aos porquês, enfim uma parte mais de introspectiva emocional, uma parte mais sentimental. E assim temos um grande romance.

Este é um romance de Eça de Queirós em conjunto com Ramalho de Ortigão os dois foram enviando cartas ao redactor do Diário de Notícias de forma sempre anónima criando assim uma curiosidade nos leitores e na sociedade lisboeta da altura, este enredo decorreu durante dois meses (24 de Julho e 27 de Setembro de 1870), só de imaginar a socialite a cogitar quem seriam aqueles "actores" deve ter dado um gozo enorme aos autores.

Li este livro numa versão se não original muito próxima o que me deu um gosto enorme, a leitura saiu valorizada pois palavras como Theatro, Aquella, Cahindo, Supponha-a, Architectonicos dão um valor muito poético a esta leitura.

Com muito gozo meu que vi Carlos Fradique Mendes nesta aventura, personagem que já acompanhei noutras leituras.


Miguel Rodrigues
Escrito por Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, “O mistério da estrada de Sintra” é um romance que vai muito para além do crime à volta do qual gira a intriga. A descrição deste misterioso assassinato é feita de uma forma bastante original pois os pormenores são publicados, de forma anónima, no Diário de Notícias, como se de um folhetim se tratasse. Os testemunhos das pessoas que se viram envolvidas no caso vão sendo publicadas no referido jornal e os factos vão-se sucedendo gradualmente, o enredo vai-se desanuviando até que o misterioso caso seja enfim esclarecido. Tratando-se de um assassinato deveras intrigante, toda a história começa com o rapto de dois amigos que passeavam pela estrada de Sintra. Os dois homens, o doutor e o F. (como assim são chamados), são levados numa charrete por uns indivíduos mascarados até uma casa onde se encontra um homem morto. O doutor é raptado com o propósito de verificar se o homem que jaz na casa está realmente morto. Esse facto é facilmente confirmado pelo doutor que observa, para além disso, uma série de incongruências naquele quarto que lhe levantam uma série de suspeitas. Terá o homem se suicidado ou terá, pelo contrário, sido cometido um assassinato? Enquanto estão todos na casa, são surpreendidos por um intruso que entra naquela casa a altas horas da noite. É mais um dos intervenientes neste caso onde as dúvidas imperam. O intruso é um homem que será identificado como A.M.C.

O caso, como já referi, apesar de misterioso, vai-se tornando transparente e será esclarecido à medida que os relatos são publicados. Como é habitual em Eça de Queirós, através da sua escrita, vemos que ele nos faz uma descrição e uma crítica à sociedade daquela época. Uma das críticas que retive foi que, muitas vezes, o mérito pessoal, apesar de muito esforço, não é recompensado e as pessoas com mérito são preteridas por aquilo a que se pode designar de “sucessão pela linhagem”. Os autores fazem uma comparação entre A.M.C., estudante de medicina, que, apesar do seu mérito e esforço, se sente injustiçado por ter que passar por um sem número de dificuldades enquanto estudante. Por outro lado, pessoas como a condessa, com quem ele se vai envolver, vivem uma vida de luxo, de opulência e cheia de futilidades, mas vazia e sem significado. A sua linhagem e os seus bens permitem-lhe ter uma vida despreocupada, muito para além do sonho de qualquer estudante ou pessoa de “classe” inferior.

Outra menção que achei curiosa foi quando os autores referem que o romance será um género literário com crescente importância e perspetivam-lhe um futuro auspicioso.

A condessa, personagem central de toda a história, é uma pessoa que vive em função das suas paixões romanescas e representa essa sociedade fútil. Essa sociedade em continuam a valer palavras como honra e a palavra dada. O sentido crítico é sempre de realçar, e quando somos transportados com mestria a percorrer as ruas e ambiente descrito pelos autores, vale sempre a pena termos estes romances como prova futura.


Manuel Cardoso
Uma paixão desmedida, uma mulher adultera, uma viagem num navio a vapor e, cereja em cima do bolo, um crime com requintes de absurdo e de mistério. Aqui estão os ingredientes para este Mistério da Estrada de Sintra, que será o primeiro livro de vulto publicado por Eça de Queirós, em parceria com Ramalho Ortigão com quem escreveria, a partir do ano seguinte (1871) essa obra genial que é As Farpas. O grande mestre da literatura portuguesa publicou este livro com apenas vinte e cinco anos. Talvez isto explique algum carater ingénuo que se “lê” nesta obra. Mesmo assim, é uma publicação histórica: trata-se da primeira narrativa policial da história da literatura portuguesa, talvez influenciado pelos contos de Edgar Allan Poe que Eça certamente leu. Por outro lado é nítida a influência da escrita realista francesa, nomeadamente de Flaubert, que Eça lia e admirava.

No entanto, parece óbvia uma certa vontade de ridicularizar a escrita romântica então em voga em Portugal, nomeadamente os grandes dramas do coração que redundam em tragédias “de faca e alguidar”. Ou seja: Eça e Ortigão conseguem criar uma obra histórica ao nível do romance policial e, ao mesmo tempo caricatura a realidade literária portuguesa daquele tempo.

Trata-se de um livro em que Eça revela já uma propensão nítida para a ironia e a sátira, caricaturando os costumes burgueses e da classe média lisboeta: o marido ausente e a mulher que, sem ocupações úteis, se expõe às tentações da carne. Assim, a protagonista, a condessa W. é uma espécie de mistura entre a Madame Bovary de Flaubert e o jovem Werther de Goethe: comete adultério mas acaba por cair na depressão do remorso, da culpa e vítima de si própria.

Em termos de estilo, estamos longe das páginas mais brilhantes de Eça de Queirós: as descrições são por vezes demasiado exaustivas e o ritmo narrativo é por vezes demasiado lento. No entanto, o livro vale pelo seu caráter pioneiro e pela crítica social que esta dupla de grandes escritores trariam à cena com as brilhantes “Farpas”.

09/01/2013

Prémios de Edição LER/BOOKTAILORS – Período de votação


--------------------------------------------------------------------------------


Informamos que teve início o período de votação do público nos finalistas da 5.ª edição dos Prémios de Edição LER/BOOKTAILORS.

Os interessados poderão votar até dia 31 de janeiro. A votação do público contará 20% na eleição final dos vencedores.

A cerimónia de entrega decorrerá na 14.ª edição das Correntes D’Escritas, no dia 23 de fevereiro.



Agora é só votar.

07/01/2013

A Conspiração dos Fidalgos de Alexandre Rocha (Divulgação)


A Conspiração dos Fidalgos
de Alexandre Rocha

Edição/reimpressão: 2012
Páginas: 320
Editor: Ésquilo
ISBN: 9789899739697





Sinopse
No final do Século XVIII, a aristocracia canavieira do nordeste brasileiro vivia os seus últimos dias de esplendor, manchados por uma horrível cicatriz social: a escravidão negra.

As enormes quintas do sertão, conhecidas por engenhos de açúcar, como autênticas vilas, são muitas vezes povoadas por dezenas ou mesmo centenas de escravos envolvidos no cultivo da cana-de-açúcar. Comandados por um escasso número de colonos brancos, estes pouco ou nada sabem dos costumes religiosos dos negros.
No vilarejo de Nossa Senhora da Conceição, a vida de Miguel Herculano, ainda menino, será para sempre alterada assim que a fúria de um dos deuses africanos é supostamente despertada contra a família desta última geração de senhores da cana.

Relatando a sua vida desde a sua infância, passando pela sua educação e as primeiras paixões adolescência adentro, este protagonista fala-nos dos ocorridos funestos que enfrentou e que lhe reforçaram a convicção de que fora indelevelmente marcado algures no passado.

Fugindo de um destino ingrato e também por amor, Miguel Herculano será forçado a trocar o pequeno lugar onde cresceu pela luxuriante Lisboa do início do Século XIX. Que efeitos terá a vida agitada da corte, centro da metrópole, quando antes a única capital em que estivera fora São Salvador da Bahia? Ainda mais grave, o facto de chegar num dos piores momentos já enfrentados pela monarquia portuguesa, ameaçada então pelo poderio bélico napoleónico.

Aos poucos, vê-se envolvido numa das mais obscuras conjuras documentadas na história joanina, a "Conspiração dos Fidalgos", levada a cabo por ninguém mais que a esposa do Príncipe Regente D. João VI, a Princesa Carlota Joaquina. Enquanto isso, terá a oportunidade de fazer novos amigos, cruzando-se com nomes como Bocage, um dos maiores poetas da nacionalidade, ou Alberto, uma metáfora da valentia e simplicidade do povo português. Procurando encontrar-se no meio de tantos acontecimentos, Miguel poderá acabar por perder-se nesta teia de intrigas e egos, definitivamente, para sempre, em especial quando o destino o coloca frente a frente, mais uma vez, com aquela que poderá ser a sua grande e verdadeira paixão...

Será possível que o encadear dos acontecimentos seja ditado por um mero capricho de um deus? E que saída terá Miguel, ao mesmo tempo com que se debate com as suas dúvidas amorosas, com os inimigos que a sua missão lhe impõe e com a iminência das invasões francesas napoleónicas à capital?

mais informação:
www.miguelherculano.blogspot.com

31/12/2012

24/12/2012

17/12/2012

Prémio LeYa para Nuno Camarneiro


Foi anunciado há pouco, pelo presidente do júri, Manuel Alegre, que Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camarneiro, é o vencedor da edição deste ano do prémio LeYa.

informação via blogtaylors

Será que depois do factor marketing (que deu o seu resultado) os juristas da LeYa apostam em boa literatura? aparentemente sim esperemos estar por cá para o confirmar.

12/12/2012

Leitura Conjunta 1984 de George Orwell

1984
Edição/reimpressão: 2007
Páginas: 314
Editor: Antígona
ISBN: 9789726081890



Ana Nunes 

Quando me preparo para ler um clássico, há um certo nível de expectativa sempre presente. No caso de "1984", por ser bastante falado e por quase toda a gente que conheço ter gostado muito dele, ainda mais isso aconteceu. Felizmente foi um daqueles casos em que a opinião da maioria se confirmou. 

O enredo é envolvente, muito detalhado mas sem chegar a ser aborrecido, com cenas maravilhosas que fazem o leitor parar e pensar. As peculariedades do mundo de "1984" são apresentadas de modo gradual, de forma a que o leitor chegue ao final com uma compreensão profunda do que se passa e de como esse mundo funciona, E é impossível não ser 'tocado' por ele, pensar nele, reflectir sobre ele.
A história tem várias reviravoltas e mantém o leitor sempre na expecativa. E aquele final ... sem palavras.
A única coisa que não gostei foi da parte em que o protagonista está a ler um livro e o livro é todo apresentado ao leitor, em texto corrido, num despejo de informação que quase foi demais. 

A nível de personagens, posso dizer que não temos 'pessoas' mas 'tipos de pessoas'. Cada personagem representa um tipo de pessoa diferente, uma forma distinta de enfrentrar o mundo, e dessa forma o leitor pode ver e compreender melhor o mundo em si. O autor permite-nos entrar na mente das personagens e pensar como elas, perceber as suas motivações, talvez até mesmo, deixar que elas nos influenciem de alguma forma, como fazem umas às outras. 

A escrita está belíssima. Há clássicos que são maçudos, mas "1984" não é um deles. Fora a situação que mencionei anteriormente (do livro que despeja informação) todo o restante está muito bem escrito, na dose certa de informação e desenvolvimento, com uma escrita que merece a atenção do leitor. Até mesmo as deixas mais filosóficas chegam a ser brilhantes. 

Em suma, este é um livro que merece sem dúvida o cunho de clássico. Um livro que faz o leitor pensar, reflectir e talvez até mesmo questionar certas coisas que acontecem hoje em dia. Uma história que não só não perdeu impacto com o passar do tempo, como ganhou. Vale a pena! 


Manuel Cardoso 
Eis um livro que marcou indelevelmente a literatura do século XX. É um livro que se lê por vezes de forma dolorosa tal a frieza com que é imaginada uma ditadura impiedosa, que absorve por completo toda a liberdade individual. 

O maior mérito de Orwell foi ter construído todo um sistema político de forma que o leitor o reconhece como possível: essa é a maior força do livro, a tenebrosa sensação de viabilidade de um tal sistema. 

A manipulação da história sempre foi um poderoso meio de fabricar justificações para a ditadura; aqui, na imaginária (ou nem tanto) Oceânia todo o passado é reescrito, para que o presente seja justificado na “verdade oficial” sempre construída à medida dos interessas do regime. Tudo é transformado, adaptado, de forma a eliminar todo e qualquer vestígio de pensamento autónomo. O ideal seria mesmo o “patofalar” (como se diz na língua oficial da Oceânia – a novilíngua). Trata-se de falar sem sair do trivial; sem qualquer raciocínio ou opinião. Só assim se respeitaria a ortodoxia, porque “ortodoxia é ausência de pensamento”. Neste como noutros pormenores o leitor pensa no paralelismo com as “democracias” atuais… o ideal é que os “proles” (85% da população) se limite a trabalhar e reproduzir-se. Mesmo assim sem qualquer prazer, porque o prazer retira as energias necessárias ao culto do regime. 

Como acontece em qualquer outra ditadura, a propaganda e a repressão são os pilares do sistema. No entanto, o aspeto radical da obra reside nisto: propaganda e repressão atingem limites inacreditáveis: a propaganda deve refazer por completo toda a personalidade do súbdito: a Winston é retirado tudo o que o carateriza como ser humano: pensamentos mas também sentimentos. Tudo é reescrito na alma até que o súbdito ame profundamente o Grande Irmão. Para esse fim a repressão reforça o poder da propaganda: uma repressão capaz de destruir corpo mas também alma. 

A Oceânia vive em guerra permanente e pouco importa contra quem; apenas importa que haja guerra porque ela fornece uma razão de ser ao sacrifício individual e à perpetuação do poder. Júlia, a resistente apaixonada por Winston, suspeita que os bombardeamentos da cidade sejam perpetrados pelo próprio governo, para intimidar o povo e manter o ódio ao inimigo. Aliás, toda a sociedade funciona com base no ódio; as próprias crianças são educadas no sentido de cultivarem a delação e a vigilância constante sobre os adultos. 

Em suma, trata-se de uma leitura dolorosa, onde a ficção alimenta no leitor o choque do possível e mesmo de certos aspetos da realidade atual; uma perspetiva pessimista, quase escatológica da humanidade. Um livro que marcou a história da literatura, não tanto pela qualidade literária – que não é excecional – mas pelo significado político e mesmo filosófico do enredo. 


Ângelo Marques 
Winston Smith vive num mundo dividido em três nações (Oceânia, Eurásia & Lestásia) que se equilibram mutuamente mantendo assim uma sustentabilidade com um suporte, muito básico, o suporte bélico. 

A acção decorre em Londres capital da Oceânia que alterna o estado de agressão vs. pacificação entre as outras nações, ora vive em guerra com a Eurásia e confraternar pacificamente com Lestásia como de um momento para o outro a situação se inverte. 

Oceânia é controlada pelo Grande Irmão que tu vê e ouve através dos telecras bidireccionais. O grande Irmão está a implementar uma nova língua a novilíngua, como objectivo fundear uma nova linguagem, linguagem onde se retirará tudo o é passível de ser pensado uma linguagem simples e básica, removendo do cidadão a aptidão do pensamento, pois nem isso constará como parte da novilíngua, este, o grande irmão, alimenta o ódio para com os seus inimigos, num sistema de propaganda imenso.. 

Winston trabalha no ministério da verdade ou MiniVer o ministério que se ocupa das notícias, entretenimento, educação e as artes plásticas. Compete-lhe basicamente reescrever as notícias enviando as notícias antigas para o lixo. Winston, e não só, faz com as noticias o que o partido faz com ele, elimina vestígios do passado reescrevendo o futuro na medida que lhes convêm. 

Nesta sinecura, Winston, que está no centro da pirâmide socialmente estruturada, começa a ter pensamentos e acções de revolta para com o sistema funcional da Oceânia, começa a escrever para O’Brien um “conhecido” de Winston, onde um só olhar fez acreditar no íntimo de Wisnton que O’Brien o compreendia, o medo contrasta com a esperança nos proles, classe social que na imaginação de Winston se revoltará contra o poder totalitarista do Grande Irmão. Mas num determinado momento, Júlia mulher que Winston repudia por pertencer e apoiar fervorosamente o Grande Irmão irá alterar a vida de Winston de forma irreparável ao entregar-lhe um pedaço de papel contendo a palavra... “Amo-te”. 

Oceânia tem como objectivo fundear uma nova linguagem, linguagem onde se retirará tudo o é passível de ser pensado uma linguagem simples e básica, removendo do cidadão a aptidão do pensamento, pois nem isso constará como parte da novilíngua. 

"No seu conjunto, o mundo está hoje num ponto mais primitivo do que à cinquenta anos." 

"A longo prazo, a organização hierárquica da sociedade só seria viável assentando de novo na pobreza e na ignorância." 

"Sem padrões de comparação as massas não se revoltam, pois não sabem se são oprimidas." 

"A mutabilidade do passado é o dogma central da Socing." 

Este tipo de pensamentos recheiam o livro que coloca o leitor num constante rodopio sensorial e emocional, Orwell conseguiu arquitectar uma obra magistral intemporal. 

Este é um livro que nos faz pensar na estrutura social, um livro que nos leva ao essencial que nos leva ao nosso “quarto 101” (quem leu compreenderá quem não leu aqui tem um bom motivo para ler este livro), este livro é uma porta para o mais básico de cada um de nós, mas escrito sempre numa relação de entendimento de afecto, uma espécie de síndrome de Estocolmo, quase poética mas de uma crueldade infinitamente avassaladora. 

Um livro com uma linguagem extremamente simples, desde que inicialmente se interiorize os conceitos da novilíngua, mas com uma aspereza de sentimentos, aqueles sentimentos nus que fazem tremer os nossos alicerces, no final fechei o livro e... apeteceu-me reler o livro. 
Recomendado.


Andreia Silva
Estou rendida ao George Orwell! O homem foi um génio ao escrever este livro (tendo em conta que o livro foi escrito em 1949). Estamos em 1984 e a sociedade é totalmente diferente daquilo que é dito normal. Lembrei-me tanto dos Jogos da Fome, mas não por achar que os Jogos da Fome são uma cópia, até porque o intuito da história é diferente, mas porque este livro é uma distopia brilhante. Nesta sociedade há o Partido e o Grande Irmão (aí está a inspiração para o Big Brother) que comanda tudo e quando digo tudo é mesmo tudo, incluindo os sentimentos, as emoções e as memórias dos cidadãos. Há em todo o lado ecrãs que estão sempre a vigiar, há microfones e pior, há as pessoas que denunciam! E o que mais me enervou foi o facto de se treinarem as crianças para no futuro denunciarem os traidores, mesmo que fossem os pais. Até uma língua nova, o autor inventou! É um livro que mexe, é um livro que revolta e que dá muita raiva, mas é um livro muito bom. Quem leu os Jogos da Fome leia este também!

11/12/2012

Feira do livro de Braga 2012



Mais um ano, mais uma feira, uma nova data. A organização colocou ao dispor da feira uma estandardização das estantes e espaços dos expositores o que de uma forma geral é benéfico para todos, aqui fica um aspecto positivo e devo acrescentar para aqueles que aqui quiserem desistir desta leitura que este aspecto mais o factor de existir estacionamento gratuito (salvo os ditos arrumadores do parqueamento automóvel) e com fartura serão os raros aspectos positivos deste certame.
O local é o do costume o velhinho P.E.B. onde se tenta revitalizar não sei bem o que, no dia que visitei a feira e contrariamente ao que os organizadores esperam estava mais quente no exterior que no interior, nem com os aquecedores aquilo lá vai...
A informação a dita propaganda do evento não circula, estática em alguns cartazes, tem de ser o utente a procurar a informação, pelos vistos estiveram nomes interessantes da escrita actual portuguesa, mas o destaque mesmo no programa oficial é feito em letras minúsculas e sem o mínimo intuito de convidar os leitores. 
Os expositores, parte viva da feira, rareiam é com muita pena que percorri e vi estampado no rosto a desilusão de quem, com muito esforço, tenta dar ânimo a um evento moribundo, mereciam mais, muito mais.

Só me resta dizer que a nova data até tem algumas vantagens tentar que nesta época o livro esteja mais presente na noite de consoada ou no dia de natal, mas para tal acontecer a feira tem que ir ter com os cidadãos a feira tem que ir para a RUA.