30/03/2013

Haja bom tempo, haja canal e coisas afins...

 
 
(Comunicação despretensiosa feita na Ribeira Grande, a propósito da apresentação do livro de Almeida Maia, Bom Tempo no Canal, a conspiração da energia)
 
Ribeira Grande, 26 de março de 2013
Caríssimos membros da Mesa
Caríssimas Senhoras,
Caríssimos Senhores,
Estou aqui hoje a convite do Pedro Maia, e muito honrado me sinto por estar entre ilustríssimos convidados, mas sobretudo por estar entre vós, que pacientemente nos têm ouvido.
Como não venho aqui apresentar nenhum livro em especial, gostaria de falar-vos sobre livros de uma perspetiva diferente. E nem me atrevo a tocar no aspeto comercial, por razões óbvias a dimensão que me é mais apetecida. Pelo contrário, convido-vos a mergulharem comigo profundamente durante uns breves minutos no maravilhoso universo do Livro.
Se repararmos bem, não há em toda a história da humanidade progresso sem livros, isto é, não há país, não há região, não há cidade, que não tivesse progredido com livros nas suas casas, nas suas instituições, nas suas escolas, nas suas bibliotecas, e livros esses que sejam procurados e lidos pelas suas populações, e que também sejam discutidos, debatidos, polemizados, nos cafés, nos transportes públicos, em tertúlias de amigos, depois de um jantar, entre o gelado e o café. E isto porque os livros não nos fazem homens fracos, nem derrotados, falhados, mal-educados, homens sem projetos, sem ideias, homens cabisbaixos e tristes, mas precisamente o contrário.
Precisamente o contrário, minhas senhoras e meus senhores.
Quero pois apresentar-vos o livro numa ótica de fonte de conhecimento e de informação que visa o desenvolvimento pessoal, social e cultural, o livro como uma ideia progressista que visa o desenvolvimento justo e harmónico de uma comunidade de homens e mulheres num determinado tempo e num determinado espaço, não no sentido maoísta que lhe poderíamos dar.
Viajemos um pouco no tempo. Já imaginaram se Karl Marx tivesse lido com atenção Adam Smith, ou se Adolf Hitler tivesse entendido os ensinamentos de Cristo ou Buda, se Estaline tivesse dado mais atenção às ideias de Mahatma Ghandi, ou se todos nós tivéssemos lido Winston Churchill, não como um fardo obrigatório do nosso plano curricular, mas por espontânea curiosidade, fazendo de nós seres mais preparados para enfrentar toda a consorte de desafios e problemas pelos quais agora passamos, para além de praticarmos um mundo mais equilibrado e moralmente mais sólido. Mas não, as escolas ensinaram-nos muita coisa, mas não nos deram essa grande preciosa ferramenta para compreender os outros e o mundo à volta. E felizmente que nem Hitler, nem Estaline, ou Mao Tsé Tung, são os referenciais do nosso sistema educativo. Até porque maus líderes, como o são estes últimos, não devem ser grandes autores.
Os livros, dizem alguns, são caros e chatos de se ler… Pois, os cigarros também, assim como o álcool, e são chatos para a saúde.
Os livros, se não o sabem, dão bom karma, porque nos contam experiências passadas, ou mesmo imaginadas, com as quais podemos aprender novas abordagens e experiências, e ficamos mais resistentes às intempéries intelectuais, cruzadas por muitos ventos vadios que sopram sem destino, em que cada rabanada pode gerar energia suficiente para aquecer uma letra, uma frase, uma página… No meio estamos nós, prontos para receber os seus probos e profícuos ensinamentos.
Um dos nossos males, baixos seres humanos, é preocuparmo-nos muito com as vidas dos nossos semelhantes, despendendo muito tempo e energia à roda do outro, mesmo quando não o conhecemos e só ouvimos falar dele por circunstância. Por vezes até sabemos, por excesso, os amores, os desencontros, os boatos, os defeitos e as virtudes, conhecemos o bom e o mau de quem anda à nossa volta, e no fim do dia o que ganhamos nós com isso? E os visados, ganharam o quê com isso?
Tomemos como exemplo quando estamos numa roda de amigos em torno de uma simples mesa, num sábado à noite. Normalmente não será um bom sítio para se falar de livros, como é óbvio. De súbito, a conversa torna-se num chorrilho de verosimilhanças, ou seja, de coisas que não se tendo passado exatamente como contam, poderiam ter-se passado exatamente como contam. E vai um e diz: sabiam que a Marta dorme agora com o Hugo, e que a mãe do Hugo tem uma dívida que não pode pagar, e que o amante da mãe do Hugo assinou o cheque com que ela vai pagar a dívida, e que o cheque era careca, assim como o bancário que informou a mãe do Hugo da calvície do mesmo, e que por isso deram uma entrevista a um jornal nacional, que o credor colocou um processo na senhora, e que sicrano e fulano e beltrano, assim, cozido, frito, assado… Pausa… Pensem nas horas que desperdiçamos a falar da vida dos outros, ou das vidas que nós imaginamos para os outros, gastamos muitas vezes as energias que não temos, violando um direito sagrado que é a privacidade alheia… E imaginem que ao falarmos na vida dos outros podemos estar a manchar injustamente os bons nomes das Martas e dos Hugos e das mães dos Hugos, dos amantes das mães dos Hugos, dos bancários, e ainda acrescentamos no fim que ninguém presta neste país, são todos parte de uma cambada de qualquer coisa, menos nós, e os nossos amigos, somos santos, seres impolutos e superiores a qualquer outro. E, minhas senhoras e meus senhores, quanto tempo gastamos com estas inutilidades, enquanto podíamos perder o mesmo tempo a ler ou a falar de livros, a desenvolver-nos enquanto seres intelectuais, emocionais e culturais. Ou a fazer qualquer outra atividade intelectual mais frutífera?
Meus senhores, não brinco quando digo que um livro é de extrema importância para a nossa cosmovisão e sentido de futuro, objeto distinto e requintado de um prazer ao mesmo tempo subtil e elevado. E falar de livros leva-nos muito para além deles. E ao falarmos, imaginamo-los estáticos numa biblioteca, ou nas estantes lá de casa, quietos e recatados nas estantes de uma velha livraria, e de súbito, ao folheá-los mentalmente é como se todo o nosso pensamento, o mundo, começasse a girar num corrupio diabólico, pois os livros, desde sempre, sobressaltam o homem, a mulher, e a criança. Ainda bem, acrescento eu.
E, numa só frase, quase para terminar, pergunto porque não lemos mais livros escritos por açorianos, livros de autores nascidos nestas ilhas e que busca para além dos limites da sua virtualidade, procurando expressar o seu traço no mundo. Foi por isso que acreditei desde a primeira hora no livro do Pedro Maia, nome de guerra Almeida Maia, e percebi que Bom Tempo no Canal fora criado para vencer. E criado para vencer cá hoje, e mais tarde vencer lá. Foi por isso que vim aqui. É por isso que continuarei ao lado do Pedro Maia sempre que ele precisar de apoio. E ao lado de todos os açorianos e açorianas que, com humildade, com perseverança, com lealdade para com a sociedade e o povo que representam, e não com os olhos postos no estatuto académico, ou posição social, ou saldo bancário, prossigam com as suas carreiras literárias com profissionalismo e prosperidade.
Bem haja a todos vocês, leitores incansáveis!


2 comentários:

Paula disse...

Luís, como sabes fui assistir a esta apresentação da 2ª edição do livro "Bom Tempo no Canal". Gostei muito das tuas palavras, muito certas!!

Sandra Fernandes disse...

Maravilhoso.
Verdadeiro.
Sentido.

Beijinho Luís