Viagem que se quer épica, aqui ficam umas estrofes do livro (muito escolhidas ao acaso):
Tal como aforismos, os objectos pessoais concentram
múltiplos dias num pequeno espaço. (cada objecto
envolvido em tirual ou em hábito é, em tempo: muito,
mesmo que tenha pouco centimetros.) Bloom prossegue,
pois, a mostrar a sua mala e nela os aforismos domésticos
e colocáveis em prateleiras que trouxe de Lisboa.
Shankra, sábio indiano, vê; e por vezes pergunta - em
[pergunta
breve de sobrancelha; as palavras são de Shankra raras.
O que é o passado? Isto: tempo que cada vez ocupa
menos espaço, e tal facto é visível na mala de Bloom.
O presente - agora, este momento -, pelo contrário,
ocupa todo o espaço que nos rodeia. Porém, deste latifúndio que é o tempo neste minuto, amanhã pouco
restará: talvez, quem sabe, asenhora da limpeza tenha as
[cinzas
para varrer. Séculos inteiros guardam-se agora em
gavetas medíocres.
Núpcias da História com a imaginação provocaram mais filhos e cópulas divertidas
do que núpcias de verdade com
a boa memória. Uiva como os lobos, eis
a História do mundo; tem apetite, sente-se
isolada; a História é um fluido que
passa ao lado dos homens, fluido espesso
Mas, apesar disso, o homem considera-se
Importante - a espécie com o ofício de jardineiro.
Contudo, o planeta não e o jardim do homem criativo,
Nem do cientista fundamental, nem do general corajoso;
A espécie humana, sim, e um dos jardins do planeta,
O canteiro mais civilizado, e certo. Mas pouco mais.
Inegável é não "colar" este livro aos Lusíadas de Luís de Camões mas "somente" na estrutura do livro que é composto por X cantos com e as suas estrofes no mesmo número dos Lusíadas (1102 salvo erro matemático), esta estrutura e a transformação (ou melhor; tentativa de transformação) desta viagem em algo épico são as semelhanças que encontramos neste livro tudo o resto será pura coincidência. Este livro "Uma Viagem à Índia" fica-se por um misto de poesia vs. prosa (muito mais prosa, mas isto é mera opinião pessoal), um livro que tem de ser lido com tempo com concentração redobrada muito devido aos inúmeros aforismos que o livro contém.
Tavares vai balanceando entre o fio condutor da sua estória aquela que leva Bloom à índia e devaneios "pessoais", somos arrastados para este devaneios que em muitas vezes embatem num murro de difícil transposição. Um exagero no número de tautologias torna o livro, em certas passagens, maçador.
Uma evidência é o confronto entre mundos e civilizações diferentes, mesmo dentro da Europa isso é explorado e atingi a apoteose entre os dois continentes. A desmistificação, na cabeça de Bloom, de uma civilização de sabedoria superior onde também esta é constituída por homens e por consequência homens com boas e más atitudes. Um livro para se ir reflectindo no decorrer da sua leitura.
Um bom livro de G. M. Tavares mas ainda não consigo compreender com é que este eclipsou toda a edição literária portuguesa de 2010 arrebatando quase todos os prémios literários em 2011, é sem dúvida um excelente livro, mas e para não retirar o mérito ao autor penso que os restantes autores nacionais não mereciam tamanha sombra. Mesmo assim um livro tão colado ao mestre Camões, e sair-se bem, não é para todos e de entre os eleitos muito poucos o podem fazer.
Serei o único a achar este livro bom, muito bom até mas não o extraordinário que é apelidado por quase todos?




