02/05/2011

Ser Como Tu - Miguel Almeida

Eu, aprendiz, me confesso: não sou perito em poesia, nem sequer fui alguma vez apreciador do género. Sobrevoei os clássicos, movido pela obrigação escolar, mais nada. Tive sempre um pequeno encanto pela Mensagem de Fernando Pessoa mas, fora disso, mantive uma distância consciente mas algo cobarde em relação aos poetas.
Um dia caiu-me do céu em pára-quedas um livro de Miguel Almeida. Li-o com esforço, dada a minha ausente (ou asfixiada) sensibilidade poética. Deixei-me levar pelo esforço e valeu a pena.
Este é o segundo livro de Miguel Almeida que leio e desta vez o esforço foi menor, talvez porque começo a ressuscitar para a musicalidade das rimas e para a sensibilidade dos versos.
Dez conjuntos de onze poemas fazem este livro em que há alegria e solidão, tristeza e intimidade, suavidade e rispidez.
Há até um auto-retrato, talvez brincadeira, servida com humor; o auto-retrato de um poeta que diz não saber se nos mente:
“Deidades! Não devoto para um só Deus o voto
Não sou esquisito. Prefiro mil, se forem mulheres
Pois ser ateu, não vem pró caso de nisto ser expedito.”
Simples, sensível, directo, positivo (sem lamechices).
Pessoal, íntimo, musical.
Suave como quem reza.
Por vezes, a solidão:
“O Caos das proximidades,
Tão próximas,
Afastam-me para longe,
Tão longe de mim.
Mas, agora, entregue a mim próprio
Tenho a sensação de estar só,
Acompanhado, na verdade fiquei tão só.”

Outras vezes, o sorriso da vida:
“E há uma flor no jardim, que me (a) guarda
Esperando paciente por mim, outra vez vigoroso”.
As palavras sobrevoam a alma, as viagens sucedem-se nas nuvens dos sentimentos que percorrem os dias. E o leitor, de início hesitante, vai inspirando os sons que descem ao fundo da alma. E começa a fazer sentido: ler poesia é sentir. Sentir a poesia não é como quem lê. É como quem respira sensações e sentimentos: inspira-os, absorve-os e expira uma espécie de paz.

Ler Miguel Almeida é também uma viagem no mundo reservado da alma:
“Por que é à volta de si mesmo,
Que é mais necessário e urgente viajar.”

E para o fim da viagem há a morte, ou melhor, a vida:
“Na angústia da minha prisão,
Não como ser que nasce para a morte,
Mas como ser que existe,
Resistindo e persistindo, sobre a morte”

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