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09/11/2010

Um Livro Para Sua Excelência - nº 8

O nosso mais distinto funcionário público vai ganhar menos. Bem, é o destino de quem tem por patrão um “teso” como o nosso Estado. Bem, convenhamos que comparado com o mais comum dos malandros engravatados que neste país crescem como cogumelos, Cavaco Silva até nem ganha muito. Os malandros é que ganham demasiado. Além disso não acredito que ele tenha muito dinheiro nas Ilhas Caimão, cujos bancos devem estar atafulhados de euros portugueses.
Eu confesso desde já que não vou votar nele. Mas tenho uma certa simpatia pelo homem; para mim ele é uma mistura simpática entre o mítico Avô Cantigas e o D. José I que ficou na história por se limitar a ver o Marquês de Pombal reinar.
E a prova desta minha simpatia por ele é que lhe “ofereço” o segundo livro nesta rubrica; ele é o nosso primeiro repetente.
De facto, já em tempos lhe oferecemos “Cão como nós” do seu “amigo” Manuel Alegre.
Hoje ofereço-lhe um livro apenas porque o título lhe assenta bem. Já o li mas vou fazer como aquelas pessoas que não sabem o que oferecer pelo Natal, dão uma espreitadela apressada pela estante da livraria e decidem assim: “ora aqui está um título que assenta bem ao meu avô”. Foi assim que escolhi este livro para o meu caro Presidente: “Uma Cana de Pesca para o meu Avô”, de Gao Xingjian.
Porquê uma cana de pesca? Sei lá... talvez a imaginação de quem lê encontre explicação.

15/07/2010

uma cana de pesca para o meu avô - gao xingjian

O primeiro destes contos do prémio Nobel chinês dá o tom para toda a obra: a alegria simples de casal modesto, na visita a um tempo abandonado. Tudo simples, singelo, ingénuo. Ausência de sonhos e ilusões mas também de tristeza e lamentos.
O segundo conto narra a estória de um acidente em que um homem de bicicleta, com uma criança, é atropelado por um autocarro. O ajuntamento caótico de pessoas junto do acidente faz lembrar um formigueiro em torno de um bocado de açúcar. A curiosidade mórbida vai dando lugar a conversas especulativas, a interpretações disparatadas. Toda a catástrofe se transforma numa mera trivialidade e numa ocasião de convívio entre os transeuntes. E persiste a vida monótona de sempre…
Neste conto evidencia-se um certo determinismo: tudo acontece porque tem de acontecer, tudo é banal e inelutável. Tudo poderia ter sido diferente mas a todas as horas há crianças que morrem. Tudo é banal.
A normalidade da morte é também abordada no terceiro conto: o nadador não morre por causa de uma cãibra e de mordeduras de medusa mas bem podia ter morrido. Seria normal… talvez por isso ninguém quis ouvir a sua história.
Nada muda, nada pode ser alterado no conto seguinte: num banco de um parque, ele e ela reencontram-se mas nunca se encontraram; a vida separou-os porque sim. Agora, nada pode mudar porque ninguém muda e ninguém muda ninguém. Observam uma rapariga que chora, noutro banco. Não vale a pena consolá-la. Ninguém consola ninguém: nem elas a ela nem eles a eles próprios.
O quinto conto, que dá titulo ao livro, é uma obra de arte em termos de criação literária. A nostalgia das recordações de infância, num ambiente bucólico destruído pelo progresso.
A cana de pesca é o símbolo da tradição, do paraíso perdido; o lamento angustiado de um mundo moderno feito de horários e rotinas; recordações de infância destruídas pelo cimento, pela poluição, pelos homens…
A linguagem, belíssima, profundamente poética descreve uma infância triste, em torno de um avô que faz lembrar a pureza da água do rio e o encanto das tradições ancestrais. Este tom assume uma beleza extraordinária ao contrastar com a tristeza das palavras usadas para descrever, de forma pungente, o rio que secou, as árvores que mataram, a aldeia que o progresso destruiu.
O relato da destruição da aldeia é intercalado com um relato de futebol, simbolizando o contraste entre a memória milenar e o presente fugaz, superficial, banal.
O sexto e último conto assume uma forma peculiar. Não é propriamente um conto, uma vez que não há uma estrutura narrativa linear mas sim um conjunto de imagens descritas, de instantâneos. Perpassa neles a monotonia dos dias, na sua beleza calma mas também nas tristezas e amarguras. O mar está sempre presente, constante e calmo, testemunha fiel dos tempos. A poesia do quotidiano. A nudez de uma mulher paira sobre espíritos e corpos. A água é a vida que escorre sobre os corpos. O céu é a luz inextinguível.

14/07/2010

Uma Cana de Pesca Para o Meu Avô - Gao Xingjian

É o primeiro livro que nos chega em tradução portuguesa do Prémio Nobel da Literatura do ano 2000. "Uma Cana de Pesca para o meu Avô" é uma colectânea de seis contos do escritor Gao Xingiian, nascido na China Oriental em 1940, perseguido pelo regime, enviado para um "campo de reeducação" durante a revolução cultural e exilado em Paris desde 1987. Os contos variam entre o lirismo e o absurdo (foi com a publicação de peças de teatro inspiradas em Becket que Gao Xingiian se afirmou), e neles são visíveis os sinais de exílio e perseguição, as alusões aos tempos terríveis por que os chineses passaram. Mas há também um sinal de esperança e crença na "bondade do coração humano": "tudo isso pertence ao passado. Temos de aprender a esquecer".
. A minha opinião: Este é um livro composto por diversos contos, cuja simplicidade é característica primeira para a beleza que o compõe. Personagens distintas desfilam, cujos fragmentos de vida (em alguns dos contos) sendo tão comuns poderiam ser os meus, os seus ou os de outrem. A busca incessante de memórias passadas, bastante presente em alguns dos contos também nos assola e transporta para tempos idos. Este regresso ao passado, está muito bem conseguido precisamente no conto que dá o título a esta obra "Uma Cana de Pesca Para O Meu Avô" e que é de entre todos o meu preferido. Um livro em que a realidade dos acontecimentos narrados fazem dele um livro especial.