16/12/2012

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JAIME – PARTE I

O meu nome é Jaime. Tenho quarenta e três anos, uma mulher desmazelada e desdentada – na verdade, a minha boca não está muito melhor – e quatros filhos que foram nascendo nos primeiros anos de matrimónio. O que vale é que lhe tiraram, à minha mulher, uma coisa qualquer – o útero, mas convém-me não saber o nome, é um hábito que venho adquirindo –, senão teria uma catrefada de ranhosos a vaguear pela casa. A bem-dizer, quatro não são assim tantos. Até são úteis, os garotos, para fazer recados e dar-me algumas regalias, mas isso é outra conversa.
Fora a mulher, os filhos e algumas coisas que tenho dentro de casa que caberiam dentro de três sacos pretos do lixo, com capacidade para mais de cem litros, iguais aos do café do Manel, nada mais possuo.
Deduzo que nunca tenham ouvido falar de mim. No entanto eu estou em todo o lado e sob diversas formas. Não, não sou Deus, mas quase acabo por ser tão omnipresente quanto ele. E sim, falo caro para o meu estatuto social; não sendo um doutor, leio diariamente o JN, o Público, A Bola e O Jogo. Na realidade, não sou assim tão burro. Mas, neste país, interessa-me sê-lo, pois afinal os burros passam a ser eles, vós, os outros: aqueles que me sustentam.
Todavia, se me quiserem encontrar fiquem sabendo que moro no bairro da Biquinha, em Matosinhos. Não sei se conhecem. Fica junto à circunvalação, a mesma que vai dar à praia e àquele monumento dedicado aos pescadores que, consta-se, custou uma pipa de massa.
O bairro... Vivo lá desde a minha adolescência. Se entrassem na Biquinha há vinte ou quinze anos certamente sairiam mais pobres do que quando haviam entrado. Mas, provavelmente, não se atreveriam a passar a fronteira da cidade. Nesse tempo havia buracos nos passeios e nas estradas, lixo amontoado nas ruas, carros amolgados à frente das casas degradadas, olhares agressivos, gritos a disputar um resto de refrigerante, risos sádicos a torturar animais indefesos.
Nesses tempos, nós, os moradores, parecíamos miseráveis. Andávamos esfarrapados e sujos. Queixava-mo-nos nos cafés por entre cigarros fumados até ao filtro e garrafas de cerveja bebidas, as quais guardávamos para descontar ao final do mês no Continente – o vasilhame sempre dava para garantir mais uns dois ou três litros de borla –.
Hoje, não. Somos pobres chiques. As ruas foram alcatroadas e as linhas de trânsito pintadas com um branco tão puro que até ofusca os olhos. Se não fosse a mesma roupa gasta e remendada pendurada nas janelas, os prédios e as casas pareceriam novos, ou quase. Os caixotes e contentores do lixo são agora iguais aos que estão instalados nos locais onde moram os ricos. Tudo parece novo na Biquinha, até o ar se tornou mais respirável. Tudo menos o interior das casas. Os berros persistem, assim como a violência. As discussões, os impropérios, o ódio, a indiferença, o vício continuam escondidos no seio das nossas habitações.
É o que eu digo. Somos pobres camuflados. Pobres de posses mas também de espírito. Mas ao menos parecemos menos pobres do que aquilo que realmente somos.
E este é o início da minha história...

5 comentários:

Guiomar Ricardo disse...

Muito bom!
Aguardamos o episódio k se segue...

Ângelo Marques disse...

Concordo com o Guiomar Ricardo, agora só resta esperar pela continuação da história de Jaime na sua Biquinha.
Continua Vasco ;)

Odete Silva disse...

Muito bom Vasco, curiosa com a continuação... :)))

Paula disse...

Muito bom!

Unknown disse...

Excelente, como era de esperar;)