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06/02/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MADALENA – PARTE I


Assim que enfiei o vestido de alças que a minha madrinha me tinha oferecido na Páscoa e prendi o cabelo com dois totós perfeitamente simétricos, sentei-me a ver os “Morangos com Açúcar”. A nova série, a vigésima sétima - férias de Verão em época natalícia - estava a ser uma seca. Já não havia amassos nem maluqueiras como antigamente.
Depois apareceram em cena três actores famosos. E aí passei-me. Eu estava habituada a ver desconhecidos a representarem tão mal que parecia que eu estava a falar com os meus próprios amigos. Era lindo, dessa forma. Fazia-nos sonhar que qualquer uma de nós poderia aparecer na TV. Por isso, quando detectei os famosos atirei-me à televisão. Esbofeteei-a, mordi-a, pontapeei-a e atirei-a ao chão.
Ah, e injuriei o maldito aparelho só porque contrariava a minha vontade.
Devo ter feito muito barulho porque a minha mãe apareceu de imediato na sala. Perguntou-me o que tinha acontecido para estar a agir daquele modo. Eu sorri e dei-lhe o mesmo tratamento a ela. A Lucrécia - assim se chamava a minha mãe - ficou no chão, a sangrar do nariz, e ainda lhe dei com uma joelhada na cabeça quando se tentou levantar.
Peguei no meu casaquinho de ganga e saí. Antes de fechar a porta disse-lhe que não contasse comigo para o jantar, pois tinha planos para aquele final de tarde. Ainda soltou um “hã?” mas fiz de conta que não ouvi, imaginando que talvez tivesse acabado de lhe rebentar com o outro tímpano. E só lhe restava aquele, porque no Verão passado tinha-lhe dado cabo do outro, depois de me ter dito que não podia ir ao cinema por se tratar da última sessão.
Enquanto percorria a rua, não evitei as velhas que se cruzavam comigo e fui-lhes dando pequenos encontrões com o ombro. Todavia, desviei-me daqueles que pareciam mais fortes do que eu.
E fui pensando no padre Cardoso, aquele que me havia confiado uma missão.
Só o deixei em pensamentos quando entrei no tasco mais frequentado da terra. Entrei e olhei em meu redor. Falava-se de futebol, de carros e de subsídios, mas todos se calaram à minha passagem. Parei no meio do espaço e inquiri bem alto: “Quem, daqui, é o Jaime?”
O gajo lá acabou por se levantar. E disse-lhe que me seguisse. Eu já sabia quem ele era, mas sempre quis invadir dessa forma um espaço cheio de gajos e ordenar que um deles me acompanhasse. E assim foi.
A meio do caminho ele perguntou-me se íamos para a casa dele ou para a minha. Sorri sem responder. Acabei por levá-lo para igreja que continuava desocupada desde que o padre Cardoso tinha batido a bota.
Entrámos e sentámo-nos na primeira fila, mesmo em frente ao altar, perante a curiosidade de Jesus Cristo, que nos olharia de frente se eu não lhe tivesse arrancado os olhos na noite anterior com o punhal que guardava na minha bolsinha da Sininho.
“Afinal, o que queres miúda?”
“Matar-te.”
“Porquê?”
“Foi um pedido expresso do padre Cardoso.”
“Como? O gajo foi desta para melhor.”
“Pediu-me para o fazer antes de morrer.”
“E só por causa disso vais matar-me? Se ele te pedisse para comeres fígado cru de um porco espinho alcoólico, tu farias?”
“Não. Claro que não.”
“Então porque obedeces se não queres fazê-lo?”
“Não disse que não queria matar-te, disse que não era por causa dele que o fazia. O padre Cardoso é apenas uma forma de justificar as minhas acções.”
“Como assim?”
“Na verdade, vou matar-te por outro motivo.”
“Qual?”
“Lembras-te quando cravaste a garrafa no teu melhor amigo?”
“Sim. És filha dele, é isso? És a Clarinha?”
“Claro que não, idiota. Sou sobrinha-neta da mulher que liga as máquinas da linha de enchimento da marca de cerveja que tu usaste para ferir o teu amigo.”
“E?”
“E até hoje ela não se perdoa por isso. Está num asilo. Ela acredita que se não tivesse ligado a máquina tu não possuirias a garrafa que usaste para desferir o golpe.”
“O quê? É louca, essa mulher.”
“Dizem que é de família.”
Nesse instante calei-me e vi no seu olhar que o medo se apoderara dele.


21/11/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CARDOSO – PARTE I


Já devem ter ouvido falar de mim. Toda a gente já ouviu, sou o padre Cardoso, mais conhecido por Cardoso Tenebroso.
Deram-me esse nome quando expulsei uma série de sacristães da casa de Deus. Essa cambada de atrasados mentais que diziam servir a casa do Senhor quando na verdade só queriam o bem deles mesmos.
Estão a olhar para mim de lado, não é? A pensar “ah, olha o padreco, que se mete com as velhas assanhadas e pede presentes nas missas, que apalpa criancinhas e tem rios de dinheiro proveniente de oferendas, que apregoa uma coisa e faz o oposto; ah, o típico padre que fala para cegos e faz ouvidos moucos...”.
É isso que pensam de mim, não é?
Pois bem. Eu vou dizer-vos o que sou. Sou o padre mais fodido que alguma vez puseram a vista em cima - metaforicamente, claro.
Se acredito na palavra do Senhor? Claro que não, mas alguém acredita?
Se pratico o bem? Não necessariamente. Pratico o mal para fazer o bem.
Se sou devoto a Deus? Sou devoto às pessoas boas e um inimigo das pessoas más, o que faz de mim um demónio para os pecadores - um pecador portanto. Mas como o paraíso não existe quem se importa?
E como dou as missas quando não acredito no Senhor? Aí é que está. Eu acredito na mensagem que foi escrita pelo Homem. Logo Deus é Homem.
Raio parta a filosofia que já estou a ficar confuso.
Resumindo, eu sou padre porque dessa forma ouço as confissões das pessoas e, assim, posso agir de acordo com o que elas me dizem.
E perguntam-se, porque é que ainda ninguém me expulsou da Ordem? Porque eu sou a Ordem.
Como começou tudo isto?
Bem, quando eu era novo acreditei em Deus.
Fiz aquelas coisas todas, rezar muito, viver num mosteiro, seminário e por aí fora. Isto aconteceu até que descobri que é tudo uma cambada de mentirosos. Então, comecei a perseguir os padres pecadores. Sou uma espécie de justiceiro. Mas eles são tantos que nem com mil vidas conseguiria fazer justiça com as minhas próprias mãos. Deixei-os, aos padres, para mais tarde e passei a liderá-los com muito suor, paciência e mentira.
Mas esperem lá.
Acreditam mesmo no que estou a dizer?
Acham mesmo que eu sou um padre-justiceiro? O que pensavam a seguir? Que eu andava de Harley-Davidson e cabelo comprido, assim como um colete de cabedal sem mangas e um colar com as cores da Jamaica?
Mas é claro que sou como todos os outros.
E, para ser sincero, expulsei aqueles sacristães porque me andavam a comer as patroas. Tive um discípulo que chamava gajas às patroas. Mas eu prefiro chamá-las patroas, tem mais classe. E um homem da minha idade tem de apresentar uma certa classe.
Mas é verdade que não acredito em Deus e também é verdade que a certa altura da minha vida me quis tornar num padre-justiceiro, mas isso não é para aqui chamado.
Não me apetece falar do passado, mas apenas do presente. Não vou contar o que fiz durante os anos em que fui adolescente ou aprendiz.
Vou apenas referir-me ao que faço nos dias que correm.
Hoje dei uma missa, dormi, fiz sexo oral que a idade não perdoa, dei outra missa, estive na internet a pesquisar sobre uma casta de vinho, comprei charutos, dei outra missa e adormeci no sofá a ver a selecção nacional a jogar contra outra equipa europeia.
Honestamente sou um padre-maluco, que às vezes quer ser justiceiro, outras que se quer aproveitar das regalias que o facto de ser padre me permite. Isso muda consoante o vento e, mais concretamente, em função do último filme a que assisti.
Sou um cidadão esquizofrénico, como todos o são, bom ou mau consoante o lado para onde estou virado. Mas eu sou um pouco mais do que a maioria, confesso.
Sou um perdido neste mundo esquisito que não sabe o que é nem o que quer ser. Mas, caraças, sempre quis ser actor.
Por isso, a cada dia que passa sou uma pessoa diferente. Hoje sou narrador de histórias, daí o meu desabafo.
Amanhã serei outra coisa qualquer. Afinal, sempre quis ser actor.

19/09/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS



CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

JEREMIAS – PARTE I

Olá. Sou o Jeremias. Falta-me um dente canino e tenho lábios grossos. Fora isso sou parecido com o Johnny Bravo. Sabem quem é, não sabem? Aquele que se penteia muitas vezes, que encontra posições supostamente naturais para salientar os músculos e que diz que come as gajas todas quando apenas o faz no interior do seu cérebro de galinha. Bem, existem três diferenças entre mim e o Johnny: sou real, como as gajas que digo que como e não tenho um cérebro de galinha.
Como se recordam, eu salvei a ministra Graça das garras do povo. Não que isso fosse a minha tarefa, mas não gosto de ver injustiças. Onde é que já se viu as pessoas quererem fazer justiça com as próprias mãos? Isto não se faz! E eu sei do que estou a falar porque já fui juiz. Bem, na verdade fui o gajo que limpava a mesa do juiz antes do início da primeira sessão, mas fiz muitas vezes de conta que era juiz.
Adiante. Salvei a Graça e com muito orgulho.
Mas não estou aqui para falar dela. Estou aqui para falar de mim. E o que me caracteriza? Pois. Eu sou o gajo dos mil-ofícios.
E como houve por aí um moço de nome muçulmano que falou da sua vida de trás para a frente, eu vou fazê-lo de forma inversa relativamente à minha carreira profissional.
Pois bem.
Hoje em dia sou polícia de trânsito.
E o que faz um polícia de trânsito? Faz muita coisa ao contrário do que possam imaginar.
Para começar, faço aquilo que costumava fazer nos outros ofícios: avalio gajas. Gajas de todo o tipo de gaja. Claro que sou mais simpático para as gajas que são o meu tipo de gaja do que para aquelas que não o são. E qual o meu tipo de gaja? Bem, a verdade é que me satisfaço com todo o tipo de gajas, excepto as gajas que se fazem passar por gajas mas que na verdade são gajos. Já apanhei uma dessas em Moscovo, numa viagem quando trabalhava noutro ramo e, acreditem, não é uma boa sensação. É como pensar que vamos comer - comer alimentos, não gajas - um bolo fresco e de repente damos uma dentada e verificamos que ele se encontra congelado no meio. Do pior, meus amigos, não experimentem. E eu sei do que estou a falar. Foi assim que parti o meu canino.
Bom, para além disso, mando parar os carros que são suspeitos, para além dos que têm gajas boas, e também gajas que não sejam boas, já agora. Também substituo semáforos avariados de vez em quando, algo que odeio porque me faz sentir um objecto.
Também faria parte das minhas tarefas perseguir carros em excesso de velocidade ou cujos donos estejam em incumprimento com a lei. Só não o faço porque sou sensível do estômago. Assim, sempre que o meu colega - sim, tenho um parceiro de vez em quando e que conduz a viatura quando não ando na rua a fazer de poste tri-colorido - percebe que terá de acelerar para perseguir alguém, pára o carro, deixa-me na berma, vai à sua vida e depois regressa para me apanhar quando o serviço foi feito. E o que faço enquanto ele anda a brincar à “Velocidade Furiosa”? Quatro coisas: fotografo com o telemóvel as primeiras dez gajas que se atravessam no meu caminho, bebo uma cerveja fresca esteja sol ou esteja frio - ou vou ao café ou saco a arca hermética que anda sempre na mala do carro que quando ele demora muito até serve de banco-, faço o sudoku do dia e rezo dez Pais-Nossos - dantes rezava ao acordar, mas com este trabalho levanto-me muito cedo.
E é esta a minha vida de polícia de trânsito. Não passo multas, não detenho ninguém, não faço relatórios e não mantenho a ordem. Não faz parte do meu perfil sociológico esse tipo de coisas.
Na verdade nem sei como vim parar à polícia de trânsito. Quer dizer, até sei. Foi por causa de Beatriz, aquela boazona! Ela era uma gaja-polícia e eu necessitava de estar perto dela. Foi bom o nosso amor enquanto durou. Foram três dias fabulosos.
Ela amava-me profundamente, até por ter mexido uns belos cordelinhos para me arranjar este emprego como agente da autoridade. Terminámos a nossa relação quando descobri que ela tinha dormido com o chefe. Vadia. Um gajo está sempre a aprender com a vida e principalmente com as gajas. Hoje nem sei onde ela anda. Deve ter sido colocada noutra esquadra.
Mas ainda hoje conservo os Ray-Ban que ela me deu, iguaizinhos aos que o Steve McQueen usava num filme em que era o gajo mais duro do planeta.
E porque falo do Steve McQueen? Porque ele era o meu ídolo, uma inspiração, que me levou a procurar o meu lugar no mundo da representação mesmo antes de ser polícia de trânsito.


30/08/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


GRAÇA – PARTE I

(Nota: qualquer semelhança entre o conteúdo deste texto e a realidade é, obviamente, pura coincidência)

Olá, como estão, senhores eleitores? Em que posso ser útil? Vai uma cunhazinha para um cargo vulgar mas que passado seis meses se tornará num emprego sólido, seguro e bem remunerado, numa subida vertiginosa que nem o crescimento exponencial de uma colónia de bactérias que provoca uma doença mortal e fulminante? Ou então a ocultação de um processo capaz de desmoronar uma sociedade e toda uma classe política, mas que por obra de um acaso pode ir parar atrás de um móvel que jamais será arrastado? E, acreditem, não há ministérios no mundo com móveis mais difíceis de arrastar do que os portugueses. Também se pode arranjar forma de se ganhar dinheiro sem investir dinheiro! É só virem ter connosco, nobres políticos, descendentes de gente humilde que tudo o que conquistou na vida foi através do suor - e jantares partidários quando ainda usávamos fraldas. Em troca, não pedimos nada. Ou melhor, quase nada quando comparando com os vossos proveitos.
Pois é, caros eleitores, votem em nós e um futuro ser-vos-à garantido!
Esta foi a mensagem que passou quando fui eleita para o ministério da educação - isto dantes era Ministério da Educação, mas fomos despromovidos pela humanidade assim como deus, que já foi Deus mas que já não o é. Eu trabalhava na câmara municipal e fui convidada por um antigo professor da faculdade para dar um espantoso futuro aos nossos queridos e adorados e esbeltos alunos - esses vermes! Este professor sempre acreditou no meu potencial. Afinal, não era qualquer uma que fazia a posição 74 do Kama Sutra ilustrado de uma edição indiana do mesmo ano da posição em questão. Por isso, quando o meu antigo professor me convidou - acabado de ser eleito primeirinho ministrinho - também já se chamou primeiro ministro, mas, lá está, a pequenez tem destas coisas - eu aceitei logo. Sempre fui aluna de 20 em economia e matemáticas aplicadas. Na verdade, cursei arquitectura no ensino superior privado, se bem que fiz essas duas cadeiras mais tarde, quando precisei delas, e, adivinhem, não tendo bases nem estudado tirei 20 nos dois exames! Fui considerada genial, logo capaz de governar o que quer que seja. Por acaso até foi o próprio reitor que me classificou e me aprovou em ambas as matérias, que ironicamente era amigo do meu professor, perdão, primeirinho ministrinho, e que também por um mero acaso era doutorado em orgias às escuras com exercício simultâneo de mãos, pés, membros extensíveis e tronco. Rapidamente me tornei mestre nessa área, só que às claras.
Dizia, portanto, que o meu discurso, para vocês, eleitores, seria o que está citado acima, logo no primeiro parágrafo. Contudo, nós, políticos, não podemos dizer as coisas como elas são. Nunca o fazemos. Senão não éramos políticos mas sim uma espécie de pregadores com poderes sociais. E a política é uma arte. Só deus, o tal que já foi Deus, pode saber como não proceder a um diálogo verdadeiro. Por isso, aquilo que digo aos meus antigos e futuros eleitores - porque agora fui eleita mas tenciono sê-lo de novo que isto da política é como uma pescada de rabo na boca - é o seguinte - dito com um timbre de voz poderoso: 'caros eleitores, sabemos que os tempos são difíceis pelo que vamos acabar com a política de agressão ao povo que o anterior governo teve para com os seus concidadãos! Chega de agressão! Chega de negativismo! O caminho é para a frente, por isso vamos mudar o país, vamos mudar Portugal! - e aqui esganiço propositadamente a voz para parecer que estou a sentir o que digo, deixando escapar uma farpa, não ao adversário da oposição mas daquelas que me saem das entranhas - Nós vamos dar dignidade a este povo! Porque ele precisa de nós, hoje mais do que nunca! É essa a nossa tarefa! Corresponder à esperança que detectamos no olhar de cada um de vós! Porque sois Portugal! - esganiço novamente - Porque nós vamos dar-vos um novo rumo! - pisco muito os olhos para ver se sai uma lágrima que ficaria espantosa numa câmara de filmar que me foca.'
Foi assim o meu discurso na Charneca da Caparica depois de tomar posse, num comício em que demos pouca comida e muito vinho às pessoas para que ficassem mais sensíveis, entusiasmadas e susceptíveis. Até acho que os americanos faziam o mesmo com os seus soldados, se bem que utilizando outras substâncias. E toda a gente sabe que os americanos são os maiores.
Quando o discurso terminou, beijei os meus filhos e o meu marido. Depois fui levada em ombros. Trataram de me apalpar o rabo e as mamas enquanto isso - o álcool tem estes efeitos secundários -, e depois fui directa para a cama.
Na semana seguinte arregacei as mangas e fiz-me ao trabalho. Umas das primeiras chamadas que recebi foi da Turquia. O Moustafa pedia um favor. Claro que acedi, tinha de cumprir para com os meus eleitores e, afinal de contas, ele sempre havia sido bom a Geografia, dissera-me ele. Pelo menos fora ágil a percorrer as montanhas do meu corpo, embora fosse demasiado rápido na aproximação às cordilheiras. Bem, na verdade era uma merda. Mas a merda faz parte do mundo. E, diga-se, também a ela tem de ser dar uma oportunidade, senão nunca deixará de o ser. Da mesma forma que as flores precisam de adubo para se fortalecerem, também os alunos precisam de merda para se tornarem mais rijos. Não faz sentido, pois não? Mas, adivinhem, sou ministra, logo eu é que sei e, além do mais, sou eu que mando. Por isso, caluda que tenho quatro anos para fazer o que me apetecer: Por falar nisso, preciso de mandar remodelar o interior do meu gabinete que aquilo está uma merda.


02/05/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS



CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE I


O meu nome é Moustafa. Nem sempre me chamaram dessa forma, mas quando fiz dezoito anos resolvi mudar. Não que desgostasse do nome que os meus pais me atribuíram à nascença. Porém, este, novo, é diferente, pelo menos em Portugal, e só Deus sabe o quanto amo distinguir-me dos demais. Sinto que nasci para ter destaque, como qualquer líder religioso ou de uma potência governamental. Acredito que posso fazer-me ouvir por entre os homens, ou melhor, que eles possam seguir-me. Não sou alto nem bonito. Não sou aquele tipo de gajo que capta a atenção do mulherio, mas, como se diz, quando a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à montanha – ouvi a Rosalina dizer isto no outro dia e fiquei fascinado por esse princípio. Por isso, tento ser simpático, mas o azar persegue-me invariavelmente, desde os tempos do infantário até aos da escola, da faculdade, da tropa e do emprego – pois, fui recentemente despedido dos correios. Durante todo o meu percurso fui apanhando muitas pedras no sapato. Calhaus que foram atrapalhando o meu caminho até à glória, algo com que sempre sonhei e que ainda hei-de alcançar, um dia. Dir-vos-ia para lerem os meus lábios se me estivessem a ver, daí que vos aconselho apenas que registem estas palavras. Desde que me apercebi onde desejava chegar, comecei a abater quem não conseguia agradar. Sempre me esforcei por ser bom para todos e quem até hoje ousou rejeitar a minha generosidade passou a ser meu inimigo. E decidi adoptar as tácticas das guerras que nunca travei. Pelo que me escondi nas trincheiras da vida e lancei granadas a quem foi aquilo que nunca eu tive coragem de tentar ser. Sou agressivo, bem sei. Todavia, sou assim e não tenciono mudar, pois quem muda são os fracos. Apelido-me de frontal e sincero, capaz de argumentar o que quer que seja. No entanto sou - e anotem isto porque só vou dizê-lo uma vez - um autêntico S-A-C-I-R-D-E-M - têm de ler ao contrário, porque no seio da minha honestidade revelo-me incapaz de enfrentar o espelho e assumir quem verdadeiramente sou. Sou assim, um exemplo que não exemplo, um herói que não herói. Pavoneio-me e ergo as minhas penas coloridas, tentando enganar quem me vê. Sei que pelo menos os burros consigo iludir e aos outros vou tentando fazer o melhor que posso, que me sigam se forem realmente inteligentes, que me enfrentem se quiserem conhecer o sabor da minha fúria. Perante esta última afirmação, rir-me-ia como o Drácula naquele filme a preto e branco que vi em miúdo – recordo-me bem pelo cheiro fétido que proveio das minhas calças no instante seguinte -, mas a minha voz não é suficientemente grave para que não soasse afeminada.
Atenção que sou macho!
Não tirem conclusões precipitadas, embora nunca me tenha despido à frente dos meus colegas de balneário. E não! Não é por isso... É apenas porque sim. Afinal não sou obrigado a explicar-vos o que quer que seja.
Brevemente conhecer-me-ão melhor, assim como as minhas facetas e forma de agir. E se, no fim do meu desabafo, ficarem com má impressão acerca da minha pessoa e dos propósitos que me regem enquanto senhor da razão, nem tiverem a capacidade necessária para me interpretar, farei a vossa vida negra com todas as minhas forças, utilizando os meios que mais à frente descreverei. Terão, portanto, diante dos vossos olhos um episódio por cada etapa da minha vida que passei e de que tanto me orgulho.
Ah, ia-me esquecendo.
E se por acaso estranharem ao perceberem que estou permanentemente rodeado por dois monos não façam disso caso. É a Maria e o Bruno. Ela tem os olhos tortos e sorri como se não sorrisse. Ele usa gel e não consegue estar próximo de uma pessoa sem tocar nela. Ambos me acompanham desde o fraldário e são os meus fieis seguidores. Perguntei-lhes, agora, se efectivamente o eram e eles acenaram prontamente que sim – vêem?


28/02/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


ROSALINA – PARTE I

Sou boa! Sou boa! Sou boa! Sou boa! Sou boa! S-O-U B-O-A! Repito diariamente estas palavras para mim mesma, mas só na minha cabeça. Faço-o sempre que esmago laranjas para os meus filhos ao preparar o pequeno-almoço. Eles insistem em beber sumo natural de laranja sete dias por semana e não me resta outra alternativa que não agradar-lhes. Não sei quando ganhei este vício, o de automotivar-me, mas a verdade é que há anos que o faço. Associo a minha vontade de ser óptima em tudo à força que exerço sobre os frutos ao espremê-los. Faço-o porque, no fundo, tenho consciência da minha vulnerabilidade. Por esse mesmo motivo, casei com um homem baixo e barrigudo, de aspecto inferior ao meu; não tirei a carta de condução para que alguém me dê boleia; não cozinho para que o façam por mim; não assumo determinadas tarefas para que outros respondam por elas. Ou seja, estou sempre presente sem, na verdade, nunca estar. Colho méritos, desmarco-me de embaraços. Sou assim porque sou boa e se não for tanto quanto desejo baixo a fasquia dos que me rodeiam para, assim, sobressair.
E, claro, sou uma advogada de sucesso. Vivo para a minha profissão. Aliás, só perdi dois casos na minha vida, o primeiro e o último que assumi. Quanto ao primeiro, ainda era verde na altura e não sabia as artimanhas que usavam nos tribunais. A ambição cegou-me e fiz asneira. Contudo, sou uma gaja esperta e rapidamente captei os truques, pelo que só voltei a aceitar um caso quando já estava preparada. O último, porém, perdi-o porque defendi uma besta, um tal Jaime, um retardado, mas que até acabou por mexer comigo quando exibiu toda aquela pujança e virilidade ao espancar o meu colega que o atacava com palavras. Logicamente não podia pedir ao meu marido que agisse com tamanha violência, afinal escolhi-o pelo facto de ser submisso e algo fraco. Não obstante, tem um bom emprego e ganha bem – é economista, daqueles que aperta o último botão da camisa, o do pescoço -, por isso serve os meus interesses. Para além disso, não me pede muitas vezes para satisfazê-lo e, quando o faz, eu penso nos meus clientes e amigos charmosos, acabando por passar tudo num instante.
Agora passemos um pouco à minha rotina. Nos dias em que trabalho, costumo ir para o meu gabinete, no qual tenho sempre dois ou três estagiários que marram todas as leis actualizadas. Depois, por volta do meio-dia visito um cliente qualquer que tenha uma cantina ou um restaurante por perto para que me ofereça o almoço. Ao princípio da tarde, faço os recados de rua, como visitar os correios e alguns serviços administrativos, pois quando me cruzo com conhecidos, parte deles já beberam um ou outro copo, acabando por se revelarem mais soltos de língua quando me elogiam, aos quais eu respondo com risinhos falsamente envergonhados, para mais tarde coçar o peito distraidamente e deixar a minha blusa mostrar um pouco mais de mim. A meio da tarde costumo receber visitas e clientes. Obviamente é o meu marido quem me vai levar aos escritório e buscar, depois de transportar os miúdos.
E sou feliz assim. Toda a gente me conhece e me reconhece mérito, que é para o que vivo. Nas instituições bancárias tenho prioridade de atendimento, assim como nos tribunais e noutros gabinetes estatais. Toda a gente me chama doutora e amo isso, doutora, a boa, a bem-sucedida.
Contudo, ninguém sabe quais os meus pontos fracos. Eu mesma, na maioria das vezes, esqueço-me deles. Mas eles estão sempre presentes. Ouço-os principalmente quando me deito no silêncio da noite e agudizam-se quando os sons desaparecem e as luzes se apagam. E aí cedo às minhas tentações, de ser agarrada, adorada e trincada por muitos Jaimes, os verdadeiros machos, aqueles que vivem porque têm de viver, não porque têm algo de bom para fazer. Desejo, afinal, que eles me tratem como um deles, como ninguém, como se eu fosse lixo e indiferente a toda a gente.
E no dia seguinte acordo e volto a insistir que sou boa, porque sou eu.

16/12/2012

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JAIME – PARTE I

O meu nome é Jaime. Tenho quarenta e três anos, uma mulher desmazelada e desdentada – na verdade, a minha boca não está muito melhor – e quatros filhos que foram nascendo nos primeiros anos de matrimónio. O que vale é que lhe tiraram, à minha mulher, uma coisa qualquer – o útero, mas convém-me não saber o nome, é um hábito que venho adquirindo –, senão teria uma catrefada de ranhosos a vaguear pela casa. A bem-dizer, quatro não são assim tantos. Até são úteis, os garotos, para fazer recados e dar-me algumas regalias, mas isso é outra conversa.
Fora a mulher, os filhos e algumas coisas que tenho dentro de casa que caberiam dentro de três sacos pretos do lixo, com capacidade para mais de cem litros, iguais aos do café do Manel, nada mais possuo.
Deduzo que nunca tenham ouvido falar de mim. No entanto eu estou em todo o lado e sob diversas formas. Não, não sou Deus, mas quase acabo por ser tão omnipresente quanto ele. E sim, falo caro para o meu estatuto social; não sendo um doutor, leio diariamente o JN, o Público, A Bola e O Jogo. Na realidade, não sou assim tão burro. Mas, neste país, interessa-me sê-lo, pois afinal os burros passam a ser eles, vós, os outros: aqueles que me sustentam.
Todavia, se me quiserem encontrar fiquem sabendo que moro no bairro da Biquinha, em Matosinhos. Não sei se conhecem. Fica junto à circunvalação, a mesma que vai dar à praia e àquele monumento dedicado aos pescadores que, consta-se, custou uma pipa de massa.
O bairro... Vivo lá desde a minha adolescência. Se entrassem na Biquinha há vinte ou quinze anos certamente sairiam mais pobres do que quando haviam entrado. Mas, provavelmente, não se atreveriam a passar a fronteira da cidade. Nesse tempo havia buracos nos passeios e nas estradas, lixo amontoado nas ruas, carros amolgados à frente das casas degradadas, olhares agressivos, gritos a disputar um resto de refrigerante, risos sádicos a torturar animais indefesos.
Nesses tempos, nós, os moradores, parecíamos miseráveis. Andávamos esfarrapados e sujos. Queixava-mo-nos nos cafés por entre cigarros fumados até ao filtro e garrafas de cerveja bebidas, as quais guardávamos para descontar ao final do mês no Continente – o vasilhame sempre dava para garantir mais uns dois ou três litros de borla –.
Hoje, não. Somos pobres chiques. As ruas foram alcatroadas e as linhas de trânsito pintadas com um branco tão puro que até ofusca os olhos. Se não fosse a mesma roupa gasta e remendada pendurada nas janelas, os prédios e as casas pareceriam novos, ou quase. Os caixotes e contentores do lixo são agora iguais aos que estão instalados nos locais onde moram os ricos. Tudo parece novo na Biquinha, até o ar se tornou mais respirável. Tudo menos o interior das casas. Os berros persistem, assim como a violência. As discussões, os impropérios, o ódio, a indiferença, o vício continuam escondidos no seio das nossas habitações.
É o que eu digo. Somos pobres camuflados. Pobres de posses mas também de espírito. Mas ao menos parecemos menos pobres do que aquilo que realmente somos.
E este é o início da minha história...