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27/06/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS
 
MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE IX

Pois é, senhores e senhoras, ficaram a saber parte da minha vida. Foi bom ter-vos aqui comigo, para desabafar depois de ter ido para a rua. Mas agora tenho de partir, porque conquistarei outra rua, outra praça, outra cidade.
Durante este fim de semana que passou vi tumultos e mais tumultos na televisão. Tenho-me apercebido de que têm havido muitos recentemente, um pouco por todo o mundo, como os que ocorrera no Iémen, na América Central, ou na Tunísia, em pleno Sudeste Asiático - será que me voltei a enganar?, raios para a Geografia.
Porém, nestes últimos dias o povo aglomerava-se no Brasil e na Turquia. Então, a revolta interior que sempre esteve dentro de mim apelou: 'Não sejas S-A-C-I-R-D-E-M, luta com o teu povo', embora, na verdade, o povo não fosse o meu. Por isso fiz uma mochila, agarrei no dinheiro que conservava debaixo da almofada cheia de saliva seca e fiz-me à estrada.
Ia parar a história por aqui, mas como sei que não conseguiríeis aguentar, vou contá-la até ao fim - ou quase até ao fim.
Assim que parti, fiquei com fome. Parei na segunda esquina a contar do meu apartamento e sentei-me numa cadeia de fast-food cujo nome não pronunciarei, por causa da publicidade gratuita e dos direitos que uma empresa concorrente poderá eventualmente vir a pagar-me, depois de ficar famoso com a minha jornada. Mas pronto, posso adiantar-vos - só os inteligente compreenderão - que o seu símbolo é um palhaço um quanto assustador e que começa por 'Mc' - deve ter sido fundada por um DJ qualquer.
De estômago refastelado, deu-me a saudade. Liguei à Maria e ao Bruno para me acompanharem. E, logicamente, eles deixaram tudo para trás para me seguirem. Perguntaram-me onde ia e eu disse que para o Brasil ou para a Turquia. A Maria explicou-me que eu tinha de decidir para onde seguir, pelo simples facto de os países se localizarem em sítios antagónicos - não sei o que esta palavra quer dizer, mas foi a que ela usou. Perguntei-lhe se queria levar uma cabeçada por me desrespeitar, o que ela recusou gentilmente com a cabeça. Pensei durante uns minutos - poucos, claro - e supus que teria de marchar em direcção ao país em que não fosse preciso apanhar qualquer avião, devido à fobia do Bruno. Prontamente ele disse que a fobia era minha e não dele, ao que argumentei com uma cotovelada na caixa torácica e um soquito debaixo do queixo. Eu sabia que o medo era meu, mas eu ia iniciar uma revolução, logo não podia dar a conhecer ao inimigo, fosse ele quem fosse, qualquer fraqueza.
Enquanto ele cuspia sangue tive a brilhante ideia de viajar de barco.
Dirigimo-nos para as docas, à procura de um navio. Como não encontrei as bilheteiras, perguntei a uns gajos que barcos podíamos apanhar para alcançar o Brasil ou a Turquia. Eles riram-se na minha cara. Nada fiz porque eram musculosos.
Dormitámos por ali por um par de noites. Entretanto eu tinha decidido viajar para a Turquia porque no Brasil se falava brasileiro e na Turquia turco; achei que o segundo idioma fosse mais fácil pois só precisava de duas sílabas para pronunciar a palavra 'turco', enquanto que para pronunciar 'brasileiro' precisava do dobro.
Uma semana mais tarde a Maria apareceu sorridente. Disse que partiríamos para a Turquia nessa manhã. Eu beijei-a. Inquiri como tinha ela conseguido. Ela piscou o olho e explicou que tinha acordado com um manda-chuva qualquer que seguiríamos para a Turquia, via-marítima, devido a um contrato simples que conseguira. A bordo, ela satisfaria os homens que gostavam de mulheres, Bruno os homens que gostavam de homens e que eu trabalharia gratuitamente na cozinha, lavando a louça e limpando o esterco dos outros. Eu acedi, mas obriguei o Bruno a trocar de posto comigo, porque macho que é macho não trabalha de borla, muito menos em cozinhas.
Então lá fomos nós, navegando pelas águas escuras e revoltas - bonita frase, ah?. Logo na primeira noite arrependi-me ao descobri que andar de barco era pior do que de avião. Aquilo abanava por todos os lados. Mas a Maria e o Bruno foram bons para mim. Quando estávamos os três, eles pegavam em mim, um de cada lado, e sempre que a embarcação ia para a direita eles inclinavam-me para a esquerda e vice-versa. Quando não estava com eles eu ocupava-me da tripulação e, aí, eu inclinava-me para todos os lados e perdia a noção se era o barco que estava torto se eu.
Chegámos à Turquia e a Maria levou-nos para a cidade onde os manifestantes lutavam pelos seus direitos. Contudo, a serenidade reinava. Dormimos naquela praça famosa durante uma série de noites. Primeiro pensei que o pessoal apenas se manifestava durante o fim de semana porque durante a semana tinham de se levantar cedo para trabalhar e deixar os filhos na escola. Depois percebi que também durante o período de descanso ninguém aparecia para queimar caixotes do lixo e atirar pedras à autoridade.
Fiquei desiludido pois parecia que o povo tinha deixado de acreditar.
Por isso, roubei um lenço numa loja e tapei a cara com ele - percebi pois a razão pela qual o destino resolvera tratar-me por Moustafa. Rasguei a t-shirt do corpo e gritei para dois polícias que a vida era uma merda. Eles olharam para mim e riram. Disseram qualquer coisa que não entendi e voltarem as costas.
Eu fiquei chateado e pensei que devia ter ido para o Brasil porque não percebia nada do que eles diziam.
Revoltado por viver num mundo que não compreendia, ateei fogo a um carro e comecei a lutar pelos meus direitos. Foi muito fixe, dado que numa questão de minutos vi-me envolvido por uma multidão que se juntara a mim.
Aquilo estava ao rubro. Lutámos durante semanas. Apanhei bastonadas e mandei garrafas de álcool a arder aos bófias e aos edifícios estatais. Senti-me bem por fazer parte da resistência - ao quê não me perguntem, mas isso era secundário.
Mas tudo o que é bom acaba. Fiquei lixado mas era mesmo assim. Andámos os três pelas ruas a ver o que o futuro nos reservava. A Maria acabou por casar com um vendedor de gelados com o dobro de sua idade e cego de uma vista. O Bruno decidira seguir um líder religioso que tinha o dom da palavra, não obstante o que ele dizia me fosse imperceptível, e provavelmente a Bruno também.
Vi-me sozinho lá. Depois descobri que a Graça tinha entrado para o governo, para ministra da educação. Decidi, portanto, regressar para ver se me arranjava um emprego, talvez para professor de Geografia, disciplina que eu sempre dominara.



http://www.facebook.com/pages/Vasco-Ricardo/439622106051031?ref=hl

20/06/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE VIII


Já muito vos contei acerca da minha infância e de como consegui tornar-me neste ícone de gajo por quem as mulheres suspiram.
Mas nunca vos contei como pus a vereadora municipal, na altura ainda no início da sua carreira profissional enquanto política, completamente louca por mim. Talvez já tenham ouvido falar dela, até porque era amiga da Rosalina e eu descobri há pouco que também desabafava convosco.
Ai, a Rosalina, tramou-me bem, mas hoje em dia é das mulheres mais famosas do país. Até porque criou um site e tudo. Parece que faz strip on-line. Depois de ter metido o marido em tribunal por ameaças verbais e agressões físicas - parece que passou a ter a webcam sempre ligada, primeiro por vício, depois por prazer, e , assim, provas irrefutáveis - enriqueceu, deixou o direito e dedicou-se àquilo que lhe dava prazer. De vez em quando faz sessões de sexo em directo, com um gajo qualquer que já esteve preso, se bem que isso possam ser só boatos. Quem diria que aquele totó lhe tivesse partido dois dentes com um soco bem dado?
Adiante que já estou a divagar. Ora, por ironia do destino foi a Rosalina que me tirou o emprego que a amiga vereadora, a Graça, me tinha arranjado.
E é essa parte da minha história que quero contar.
Sabem como conheci a Graça? É claro que não, não sabeis nada. Bem, a Graça é irmã da Maria, a minha Maria que anda sempre colada a mim, e ex-namorada do Bruno que também anda constantemente pregado ao meu corpo. Aliás, foi muito giro quando começaram a namorar. Estávamos todos no cinema - éramos adolescentes - a ver um filme com o Al Pacino, que interpretou o papel de diabo, sentados pela seguinte ordem: Graça, eu, Maria e Bruno. Foi divertido quando Graça subiu para o meu colo e o Bruno para o da Maria para se beijarem, foi quase um beijo a quatro. Até fiquei ligeiramente entusiasmado na altura mas penso que a Graça não terá dado por isso. O namoro foi curto, durando apenas meio ano. Ela disse que eu e a Maria não lhes dávamos espaço. Na altura fiquei ofendido porque eu tinha de dar indicações ao meu amigo acerca de como reagir com ela. Todavia a Graça não partilhava da mesma opinião - já devia ter tiques de estrela política não o sendo ainda.
Portanto, como eu a conhecia, fui ter com ela assim que terminei o serviço militar. Disse-lhe que queria um emprego. Ela explicou que tinha 736 pedidos para 3 vagas, mas depois piscou o olho e espreitou o meu baixo-ventre. Eu percebi o recado e passado 3 minutos ela comentou que a Câmara ia meter um jardineiro, um lixeiro e um estafeta. Eu sorri e expliquei que precisava de um emprego, não de um trabalho. A Graça suspirou e voltou a fixar o meu baixo-ventre. Passado 3 minutos e meio ligou para um colega.
Felizmente ela era amiga do chefe dos correios. Por isso arranjou-me um emprego num par de semanas. Num ápice subi a chefe, porque esse chefe tinha morrido de ataque cardíaco depois de ter snifado cocaína a mais numa festa e o seu substituto reformou-se antecipadamente invocando falta de condições psicológicas para exercer a sua profissão.
Claro que sou um gajo grato. Pelo que, quando recebi o meu primeiro ordenado enquanto chefe, ofereci uma bimby à vereadora. Ela disse que não podia aceitar, que os políticos jamais recebiam o que quer que fosse dos cidadãos. No entanto explicou que se algo aparecesse junto à porta de sua casa não podia rejeitar, dizendo que, afinal, perdido e achado não é roubado nem subornado. Eu acedi e após 1 minutinho - estava aflito - mandei que a Maria e o Bruno deixassem a maquineta na entrada da sua mansão.
Também pedi que partissem a caixa do correio. Não foi por nada em particular. No entanto odeio que me façam sentir menos homem. Homem que é homem não dá rapidinhas.



13/06/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE VII


Até agora falei-vos de episódios da minha vida antes de atingir a maioridade.
Pois bem, algo do qual me posso orgulhar enquanto adulto aconteceu quando tinha uns 20 anos. Nesse dia eu enfrentei os meus medos.
Sempre receei pássaros. Calma que não sou S-A-C-I-R-D-E-M! Isto tem uma justificação! Primeiro o periquito do meu avô mordeu-me um dedo com aquele bico que é mais pontiagudo, quase letal, do que se possa imaginar antes de se ser vitima da ira do pequeno animal - animal ele, o pássaro, não eu obviamente. Depois fui picado por uma abelha, que não é um pássaro mas voa, logo têm as suas parecenças. Mais tarde um milhafre caçou o meu hamster de estimação, a Tonisha, quando estava acampado nos Açores com os meus pais. Passados dois dias penso que o mesmo milhafre terá roubado as minhas cuecas favoritas do Batman quando estavam a secar em cima da tenda após um desarranjo intestinal inesperado.
Por isso cresci com medo de andar de avião. Que foi? Pensais que uma coisa nada tem a ver com a outra? Mas tem. Tanto os aviões como as aves têm asas, caudas, voam, aterram, descolam e, por vezes, estatelam-se no chão. Andei pela primeira vez de avião nessa altura em que fui acampar nos Açores, mas a minha mãe deu-me calmantes e dormi tanto para lá como para cá.
Assim, esta história remonta à data em que, corajosamente, voltei a andar de avião. Nessa manhã encharquei-me de comprimidos, peguei num livro do Paulo Coelho, enfiei um boné na cabeça e saí de casa em direcção ao aeroporto. Tinha decidido ir até Madrid, capital da Andaluzia - penso... Catalunha? Bem, não importa. A Maria e o Bruno estavam à minha espera, claro. Atravessei 1 metro de passeio, o qual a Maria e o Bruno colaram com fita-cola depois de a pintarem de vermelho. Gastaram 7 canetas de feltro para o efeito, mas aquele bocadinho do passeio parecia a passadeira do festival de Cannes.
Depois de termos feito o check-in comecei a suar. Tive de ir ao WC de urgência - felizmente a Maria, à socapa, e o Bruno acompanharam-me - e, nesse campo, ficou tudo resolvido. Quando fui revistado o alarme não parava de tocar. Tive de explicar por três ocasiões que possuía um pedaço de metal na cabeça, devido a uma queda quando era miúdo - foi um acidente, mas nunca me influenciou a parte psíquica. Em seguida fui relaxando, quase com sucesso, até enfrentar as portas de embarque ainda encerradas. Aí, entrei em pânico e corri para outra casa de banho e engoli o resto dos comprimidos - deduzi que tinha de encontrar uma farmácia em Madrid para o regresso. Na verdade foi muito divertido porque quando volvi à área de circulação livre o chão era cor-de-rosa, as pessoas transparentes, o tecto passara a ser arredondado, as vozes indecifráveis. Para além disso, havia polvos gigantes a seguirem-me e latas de atum a correr ao pé-coxinho. Até cheguei a ter uma conversa com um treinador de futebol de cabelo branco e boca aberta fracção de segundo sim, fracção de segundo não, acerca da relação entre os postes identificativos na autoestrada de Aveiro e as cegonhas que teimavam em fixar-se neles. Ele, o treinador, fez-me ver que por vezes as coisas não fazem tanto sentido e eu acabei por aceitar o facto de haver postes identificativos no raio da autoestrada.
O treinador estava a ficar um bocado chato. E quando eu pensei que o ia afastar com os punhos, a Maria e o Bruno salvaram-me, libertando-me daquele que dizia ser um catedrático da vida.
Fomos para as portas de embarque e as meninas perguntaram o que eu tinha. Eu respondi num tom seguro e claro: Are you talkin' to me? Elas mostraram respeito e deixaram-me passar.
Eu, a Maria e o Bruno entrámos e eu recordo-me de rir imenso e de eles me mandarem calar. Logicamente que lhes bati. Nessa altura as meninas começaram a fazer gestos e a meter máscaras nas caras e coletes nos troncos. Lembro-me de ter pensado que eram descendentes do alien, aquele feiusco. Como a Sigourney Weaver não estava presente, tive de ser eu a resolver o assunto. Por isso gritei e atirei-me ao alien mais próximo de mim - claro que eu precisava de salvar a humanidade.
Recordo-me de ter escutado gritos e de ter sentido puxões.
Eu fui tirado do avião por uns seguranças quaisquer. Mas resisti! Eles pareciam membros de uma tropa de elite subornado pelos extraterrestres, daí que ainda tenha enfiado o pé na cara de um e o dedo mindinho no olho de outro.
Dois dias mais tarde levaram-me a tribunal por causa disso mas acabei ilibado, senão não teria trabalhado nos correios. No entanto lembro-me ainda hoje de ter sido nesse dia que impedi a grande ave de sobrevoar os céus. Fui e, na realidade, sempre serei um grande herói.



06/06/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE VI


Quando era miúdo adorava ver filmes de guerra.
Lembro-me de ver o “Platoon” e de delirar com aquela morte heróica ao som da música clássica, quando os vietcongues perseguiam o Willem Defoe. Eles disparavam, disparavam, disparavam e o gajo tardava em morrer. Na verdade até demorou tempo demais, aquele traidor, o bufo, que não se calou nem defendeu os colegas. Uma pessoa deve proteger os irmãos de armas acima de tudo, nem que para isso tenha de engolir sapos - raios, como odeio sapos.
Recordo-me também quando o Marlon Brando assumiu que adorava o cheiro do Napalm em “Apocalipse Now”. Durante anos snifei latas de cola de sapateiro a pensar que era Napalm, imaginando-me na pele do coronel que dava cabo daquela corja toda. Não matei ninguém, mas dava uma moca do caraças. Era agradável nomeadamente quando me sentia deprimido.
Eu amava aquele ambiente de atirar a matar, servir sem perguntar porquê, mostrar o poder a quem tinha de ser subjugado. Por isso, quando atingi a maioridade, uns dias antes de ter perdido a virgindade, fui para a tropa.
Foi um dia feliz, do qual me senti incrivelmente orgulhoso.
Daí em diante podia tatuar os braços com naifas e caveiras, usar botas iguais às dos skinheads, colocar uma fita na testa semelhante à do Rambo quando fosse para o mato cortar as urtigas e vestir t-shirts caveadas e pretas - embora para tal precisasse de ganhar músculo.
Por isso quando fui destacado para o quartel de Estremoz fiquei imensamente grato à nação. Primeiro agradeci ao Rei de Espanha, mas depois percebi que a cidade não era Badajoz, daí que, em seguida, me tenha sentido grato para com o presidente português da altura, e só por esse facto lhe perdoei que o seu partido fosse representado por uma rosa - rosas, mas quem gosta de rosas?
A rosa é sinal de fraqueza, de amor. Coisas para S-A-C-I-R-D-E-M e S-O-D-A-H-L-A-F. E isso são coisas que não sou! Digam o contrário e eu chamo a Maria e o Bruno para, que nem uma matilha esfomeada, vos devorar. Tendes é de estar em inferioridade numérica, de preferência 1 para 3, para minimizar os riscos.
Por falar em Maria e Bruno, foi doloroso perceber que me iria separar deles. Dos meus amigos, meus seguidores. Mas um mundo novo se dispunha diante de mim. Eu tinha de partir, conquistar as forças armadas, reunir um exército como fez, um dia, o Roberto Carlos... ai não, esse foi o que cantou a música do Calhambeque... referia-me ao Carlos Magno!
Bem, a Maria não podia vir porque era gaja. O Bruno também não porque era asmático. Mas, génio que é génio encontra sempre solução. Então, enfiei-os na mochila, daquelas da tropa, das que são do meu tamanho, e levei-os junto a mim. Carreguei-os em prol do grupo, o nosso grupo. E lá fomos para Badajoz, perdão, Estremoz.
Cheguei lá e era só pessoal porreiro. Eram tão afáveis que me davam com toalhas molhadas e enroladas no rabo. Eu ria-me para eles e eles faziam o mesmo. Esfreguei as sanitas com a minha escova dos dentes e lavei-os a seguir, o que foi óptimo para ganhar defesas. Insultavam-me e eu resistia às ofensas, porque sabia que não eram sinceras, que só serviam para me tornar mais forte. Enfim, enquadrei-me na perfeição.
Depois de uns dias assim, lá está, abraçaram-me e levaram-me às meninas. Na verdade era só uma. Uma mulatinha franzina de buço enegrecido e queixo proeminente, que mais parecia um quarentão raquítico acostumado às tabernas, devido à penugem grossa e ao cheiro a álcool. Chamava-se Renatinha, ela. Por algum motivo os meus compinchas tinham-se apercebido da minha inocência e fomos uns vinte amigos, e a Maria e o Bruno escondidos, divididos por quatro carros, em direcção a uma cidade próxima. Ela acenou-me de um segundo andar de uma pensão rasca e eu subi a tremelicar das pernas. Ela despiu-se e eu demorei a reagir. Os meus companheiros gritavam palavras de incentivo na rua e no passeio. E lá me desenrasquei numa questão de segundos. Ela endossou-me um sorriso desdentado e eu retribui. Afinal tinha sido meiga e durante noites a fio acabei por sonhar com ela.
Quando desci a escadaria, todos me abraçaram. A Maria e o Bruno choravam de emoção. Depois os meus colegas de quartel ficaram brancos ao perguntarem-me se tinha usado um preservativo. Como eu inquiri o que raio era isso que nem sabia pronunciar, eles espancaram-me, até a minha amada descer a confirmar que sim.
Sanada a pequena discussão fomos para os copos. Foi lindo. Fui abraçado por eles, já bêbedos, e senti-me um verdadeiro soldado, pronto para enfrentar qualquer adversidade.
Mais tarde, encontrei a Renatinha a assar frangos. Tinha um ar triste, uma touca vermelha na cabeça e um crachá no peito. Tinha mudado de nome para Renatão. Mas a sua essência não tinha mudado, continuava com o mesmo olhar dócil e sorriso afável. Afinal tinha sido o meu primeiro amor carnal.



30/05/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE V

No dia em que fiz 15 anos só a Maria e o Bruno apareceram na minha festa. Não foi preciso falarmos uns com os outros para percebermos a razão. Cada um de nós os três sabia qual era. Éramos fiéis às nossas convicções e fazíamos o que tínhamos a fazer. Quanto às convicções dos outros é caso para dizer: quais convicções?
Por isso, ignorámos os refrigerantes e os pãezinhos cortados em triângulo e fomos para o quintal.
Armámos uma tenda com capacidade para duas pessoas, calçámos as galochas que havia disponíveis, roubámos lanternas e vestimos aventais de cozinha - queríamos casacos militares, mas como não havia, cada um de nós enfiou um desses adereços de cor verde, pintados com melancias, galinhas e abóboras. Ah! E, para nos camuflarmos impecavelmente, quisemos pintar as maçãs do rosto com tinta escura, como vimos fazer no filme da moda 'O Predador'. Como não encontrámos, tivemos de roubar um pouco de estrume do agricultor que era meu vizinho. Até calhou bem para disfarçar o meu descontrolo intestinal que me azucrinava nesse final de tarde.
Por isso lá nos pusemos os três, aconchegadinhos - eu era a salsicha, a Maria e o Bruno eram o pão de cachorro -, de barriga para baixo e língua afiada pronta para debater ideias. Ou melhor, eu debatia, eles concordavam.
Tínhamos um propósito: combater os infiéis.
Decidimos portanto criar o manual de sobrevivência para as gerações futuras.
Discutimos durante horas e já os grilos tinham ficado roucos quando criámos os mandamentos da nossa mega-equipa. Mega em termos de qualidade, não em quantidade se bem que... não importa!
      1. Amar-nos, a nós, acima de todas as outras coisas (isto, na prática, faz com que todo e qualquer ser caminhante nos seja inferior);
      2. Não usar o nosso nome em vão (este também é válido para expressões como 'ó pá', 'meu', 'my friend', 'pst', 'moço' ou 'moça' e por aí fora);
      3. Lembrar o domingo para me santificar (esta frase não fez muito sentido, mas mistifica os nossos mandamentos);
      4. Honrar o pai Horácio e a mãe Guilhermina (os meus pais, ela por me ter parido, ele por ter permitido que eu seja como sou);
      5. Não matar (a não ser que seja a nosso mando, principalmente quando falamos de assassinato psicológico);
      6. Guardar a castidade das nossas palavras e das nossas obras (sim, pois nós falamos e praticamos a verdade);
      7. Não roubar (a não ser que seja justificado por algo de nosso interesse);
      8. Não levantar falsos testemunhos (como se fossemos capazes!);
      9. Guardar a castidade nos pensamentos e nos desejos (na realidade nunca soube o que isto quer dizer mas achei que ficasse pomposo e, de qualquer forma, foi a Maria que teve a ideia quando tive de ir à casa de banho);
      10. Não cobiçar as coisas do próximo (excepto aquilo que queremos).
E durante anos e anos regemo-nos por estes mandamentos. Qualquer semelhança que possais detectar relativamente aos mandamentos da igreja católica é pura coincidência, até porque eu não falo hebraico, e toda a gente sabe que a placa foi gravada nessa língua.
Seguindo estes princípios tornámo-nos num homem, num homenzinho - o Bruno - e numa mulherzinha - a Maria - espantosos.
Ainda não somos mas um dia tornar-nos-emos bem-sucedidos, melhores que todos, piores que ninguém.
E falo disto porquê?
Porque faz hoje duas décadas que concretizámos estes mandamentos. Por isso saímos à rua para festejar: beijámo-nos uns aos outros (1), escrevemos os nossos nomes por toda a parte (2), curiosamente era um domingo (3), fomos visitar os meus pais ao lar clandestino (4), não nos matámos uns aos outros (5), pensámos em nós e praticámos o que sentimos (6), roubámos só para mostrar que apenas um de nós podia quebrar a regra (7), não fomos capazes de deixar de levantar boatos porque nunca o fomos (8), tivemos pensamentos puros (9) e andámos de olhos vendados porque era impossível não cobiçar o que quer que fosse (10).
Assim, terminámos o dia felizes e com alguns galos nas cabeças.


23/05/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

 
MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE IV


Eu tinha 13 anos quando assumi a minha genialidade, primeiro perante a Maria e o Bruno, depois perante o mundo. Ou melhor, perante as raparigas da minha turma, mas que não deixava de ser o meu mundo.
Tinha acabado de saber que um tio meu classificava as namoradas num bloco, dando-lhes estrelas, consoante aquilo que ele chamava de 'performance'. No início não soube ao que ele se referia. Deduzi que fosse a arte de cozinhar que estivesse em avaliação ou, quando muito, a capacidade de responder 'sim' a qualquer questão que ele fizesse.
Durante semanas meditei sobre isso. Até que, num dia de Páscoa em que se afogou em álcool, eu tive oportunidade de lhe roubar o bloco para poder tirar as minhas ilações. Bem, na realidade, sim, ele afogou-se em álcool. Não que fosse um alcoólico porque nem bebe. Mas estava a assar chouriços e o Bruno esguichou um pouco de álcool para a mão, depois para o braço e por fim para o ombro. Ele queimou-se um bocadito, mas hoje em dia já não se nota - pelo menos quando está vestido. Por acaso fiz isso de propósito. Peguei numas bisnagas e enchi a minha de água e a do Bruno com álcool. E pronto, quando as labaredas estavam no auge - as chouriças tinham muita gordura e tinha sido a Maria que as fora comprar a meu mando, oferta minha à família com a meia mesada dela - eu gritei 'embora lá molhar o tio Nel'. 
E foi assim. Alguns choraram outros riram. Na verdade só eu é que comecei por rir, e depois a Maria e o Bruno. Houve quem tivesse levado o tio Nel ao hospital, se bem que outros repreenderam o Bruno, lavaram a cozinha ou correram à vez para o telefone a contar o que tinha acontecido. Esse foi auge da tarde, pois na sala de jantar eu estava só, no meio das iguarias. Estávamos ali... eu e o casaco do tio Nel. E adivinhem o que continha o bolso de dentro do lado do coração? O bloco.
Roubei-o e enfiei-me no quarto a lê-lo. Fiquei muito chocado na altura porque aquilo não tinha apenas estrelas. Continha também observações. Uma nojeira autêntica.
Depois de ter colocado de parte a hipótese dos cozinhados, conclui que a vida sexual do meu tio estava exposta ali, de forma crua e rude. E apesar de eu ser inexperiente nessa área, gostei da parte de expor e descrever as vidas alheias.
Resolvi, por isso, classificar as miúdas da minha turma, embora nunca tivesse dormido com elas. Diziam que não eram rãs para gostarem de sapos, algo muito idiota de se dizer, pois as rãs possuem um ovário vestigial e os sapos não. Ora, como eu me considero um macho-macho, para ser conhecido como um anfíbio ao menos que me chamem sapo - sou um sapo e com muito orgulho. Odeio sapos, mas descobri que odeio ainda mais as rãs.
Não tardou até que a Vanessa, a Teresa, a Rute, a Ana, a Margarida, a Rita I e a Rita II passassem a estar na minha mira. Avaliei-as com todo o meu poder. Tirei-lhes as medidas que nem um alfaiate, penetrei dentro delas que nem o fumo de um cigarro - cigarro, fumo, cancro... OK, esqueçam esta analogia que não sou um O-R-C-N-A-C.
Não dormi, portanto, com elas mas assim imaginei. Quando terminou o ano lectivo já eu tinha uma escala bem definida acerca das suas potencialidades. A Vanessa era a mais atrevida, a Teresa a que mais gritava. A Rute gostava de chamar pelo meu nome e a Ana gostava de variar. A Margarida atirava-se a mim sempre que estava de barriga cheia, a Rita I adorava lingerie vermelha e a Rita II queria sempre mais.
Eu era o maior, o mais vivido, uma espécie de rei da escola, como o meu tio Nel continuava a sê-lo, excepto quando se deslocava ao hospital para as consultas de oftalmologia... não, de reumatologia... hum, pediatria? Pronto! Quando se deslocava para a unidade dos queimados.
Mas onde estava a genialidade? Pois bem. A minha classificação não se baseava em estrelas. Isso seria uma coisa muito básica para mim. Eu inventei uma nova forma de classificar as mulheres. Vocês conhecessem a triagem de prioridades de Manchester? Claro que não. Mas é para isso que cá estou, para vos guiar. Esta coisa de Manchester define o grau de urgência aplicada nos hospitais: vermelho quando se está para morrer, laranja quando estamos um bocadinho mal, amarelo para entendermos que somos uns nabos porque tudo se resolveria com um Ben-U-Ron, verde para sermos gozados pelas auxiliares e seguranças e azul para passarmos a fazer parte da paisagem dos serviços.
Pois bem, esse senhor, o senhor Manchester - ou estará esta designação relacionada com aquela cidade irlandesa? Hm, irlandesa ou sueca? -, nada inventou!
Quem inventou essa escala fui eu! Sim senhor! Fui eu!
Eu classifiquei as miúdas dando-lhes uma cor em função do quão boas elas se revelavam nos meus sonhos! Por isso, todos os dias, à socapa, fazia cruzes com as minhas canetas que usava na escola nos casacos ou nas T-shirts delas, como que marcando-as para todo o sempre. As melhores, a Vanessa, a Rute e a Rita II levavam com o azul. À Margarida, à Teresa e à Ana oferecia-lhes a cor verde. Apenas a Rita I merecia o vermelho.
Mais tarde esta forma de classificar a performance foi espalhada. Tristemente nunca ninguém me tinha marcado, até que a Maria e o Bruno me levaram um dia ao paintball e dispararam sobre mim milhões de balas azuis. Esse foi o dia mais feliz da minha vida.


16/05/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE III


Eu tenho um grave problema com sapos. Nunca o assumi frontalmente até agora, como nunca o fiz com outras coisas, como por exemplo... Ah, não posso dizer, não é? Ao dizer que não assumirei bruno e a Maria não posso dar exemplos, não é? Raios! Lá ia eu cair na esparrela outra vez. Pensa, Moustafa, pensa! Inspira, expira, inspira, expira.
Pronto, já está. Frontal, confere. Sapos, confere. Ainda hoje gosto de brincar com Nenucos, conf... Raios. Esqueçam a última afirmação.
Sapos. Sapos. Sapos. Sapos.
Dizia eu que odeio sapos. É uma história antiga, mas ainda hoje me arrepio quando os vejo ou penso neles. Por isso não me aproximo dos rios, nem das arcas congeladoras dos supermercados e nunca, mas nunca, vejo canais de bonecada nem sobre a vida selvagem. E, obviamente, sou muito cuidadoso a visualizar as páginas da internet.
Isto sucede não por causa de um episódio, mas devido a vários. A questão é terem ocorrido na mesma altura, em simultâneo. Aliás, aconteceu tudo no mesmo dia.
Eu tinha 12 anos. Era o meu primeiro dia na escola preparatória - sei que agora tem outro nome, mas naquela altura era assim que se chamava - e eu ia todo contente no carro do meu pai. OK. Antes de prosseguir, eu respondo. Sim, já tinha 12 anos quando mudei de escola. Chumbei duas vezes na primária - que também já não se chama assim - se bem que a culpa não foi minha! Não aconteceu porque fosse O-R-R-U-B. Só que o azar funcionou contra mim. Na primeira vez que reprovei, na primeira classe - já sei que já não é classe - pensei que as letras se liam como números e que se faziam contas com as letras. Foi uma confusão, digamos que eu estava mais avançado que os meus colegas e via as coisas numa dimensão distinta para que aquela professora me pudesse compreender - afinal, o que sabem eles? A segunda vez que chumbei foi na terceira classe. Não gostava da professora, logo tentei fazer-lhe ver que ela era uma porcaria de mulher. Não lhe fiz a vida negra porque não faço a vida negra a ninguém, mas queria mostrar-lhe o meu ponto de vista. Quando ela não o quis ver, aí sim, fiz-lhe a vida negra. Quer dizer, eu não, mas a Maria e o Bruno fizeram-na por mim. Pois, a Maria e o Bruno também chumbaram. A primeira ocasião por solidariedade, a segunda por retaliação da professora, como no meu caso.
Onde ia eu? Onde ia eu? Ah! Sapos!
Nesse dia de aulas, o meu pai levou-me no seu Citroen, boca de sapo. Logo meia dúzia de miúdos apontaram na minha direcção, rindo, dizendo que o carro é que devia ser o meu pai, não o meu verdadeiro pai. Naquele instante não entendi, mas antes de entrarmos para a sala o Bruno disse-me que talvez se devesse aos meus olhos esbugalhados e à minha boca grande. Logicamente bati-lhe e desculpou-se.
Depois, na aula de matemática, a professora pediu que me sentasse na fila da frente. Explicou que como eu era o mais velho seria um exemplo para a turma inteira e que depositava muita confiança em mim. Não sei a razão para o ter feito. Mas a verdade é que ela era loira, baixa e histérica. Os miúdos que tinham irmãos mais velhos no estabelecimento sabiam que era apelidada de Miss Piggy. Ora, por causa da atitude dela, de amor incondicional e muito compreensível pela minha pessoa, passaram a tratar-me como 'amante da Miss Piggy'. Na aula de português não havia quem não me associasse ao 'Cocas, o Sapo'.
Quando chegou a hora do almoço já toda a comunidade escolar sabia quem eu era, ou melhor, como me tratavam. E quando saía da cantina, uma série de miúdos mais velhos – outros que não os anteriores - despejaram-me várias taças de gelatina de tutti-frutti em cima. Todos riram. Queriam que ficasse verde, como o Cocas. Eu não chorei à frente deles e mandei que a Maria e o Bruno se atirassem a eles. Mas eles não o fizeram. Penso que ainda hoje se arrependem da sua cobardia.
O pior foi quando vinha para casa. Perto da escola havia um descampado com terra, vegetação baixa e águas estagnadas. Eu retinha as lágrimas dentro de mim e a Maria e o Bruno iam calados. Contudo, de repente, os mesmos miúdos da gelatina apareceram vindos de nenhures. Rodearam-nos e dois deles pegaram em mim. Levaram-me para junto da água e prenderam-me. A Maria e o Bruno tinham desaparecido e eles eram cinco vezes mais do que eu, uns dez portanto - Raios, se tivesse tido melhores professores na primária... E então um deles, o maior, acendeu um cigarro e deu umas passas. Depois enfiou-o na minha boca e os dois que me seguravam não deixaram que a abrisse. Tossi, fumei, chorei e quase não respirei. Eles gargalharam o tempo todo.
Mais tarde soube que era isso que faziam aos sapos. Punham-lhes cigarros até rebentarem, devido à incapacidade de o cuspirem ou de abrir a boca para respirarem outra coisa que não fumo tóxico - pelo menos era o que se dizia. Também soube que o líder do grupo era irmão da Julianinha.
Esse episódio passou, mas a minha raiva não. Nunca me vinguei, só em sonhos.
Mas resta-me uma consolação. Hoje sou tudo e eles são nada.






09/05/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE II


O primeiro episódio que tenho para vos contar remonta aos longínquos dias em que andava na creche. Eram tempos radiosos. Nunca era o último a acabar os trabalhos - a Maria e o Bruno terminavam sempre depois de mim -, a educadora estava controlada - era propícia a depressões -, já conseguia contar até 5 e reconhecia a primeira letra do meu nome, o P.
Pois, na altura não me chamava Moustafa, claro. Antes de mudar tratavam-me por Primo. Não, não eram os meus primos que me chamavam Primo. Primo era mesmo o meu nome. Que foi? Não me olhem assim! Fitem mas é o atrasado mental do primo do meu pai, que por sua vez também é um atrasado mental, que ao registar-me comunicou ao também atrasado mental do funcionário - por acaso um meio-irmão da minha mãe - 'Primo João', em resposta à questão: 'como se chama o menino?'
Portanto, agora é M-O-U-S-T-A-F-A, OK? E com todas essas letrinhas.
Dizia eu que tinha 3 anos quando o grande e primeiro acto da minha liderança ocorreu. Na verdade, tinha 3 anos e 10 meses, mas como ainda não fazia determinadas coisas que os meus colegas faziam, como juntar várias palavras na mesma frase, comer sozinho ou... largar a fralda, prefiro assumir que tinha simplesmente 3 anos. E foi neste último ponto que despertei para a liderança.
Já nessa altura me via que nem um autêntico Napoleão Bonaparte, mas sem cavalo branco como aquele que está representado num quadro famoso pintado por um senhor chamado João Luis David - não sei se ele era das Caldas da Rainha, se de Vila Real, não me recordo - que hoje em dia deve estar exposto no Louvre em Madrid - ou será em Londres? Bem, mas não pensem que eu sou tão baixo quanto ele era - dizem as más línguas que ele andava de tacões o falhado - porque mesmo com 3 anos eu já era maior do que as miúdas do berçário. Ah e o cabelo dele era mais oleoso do que o meu, se bem que eu também não uso chapéus e todos sabemos que os chapéus não deixam o cabelo respirar.
Não importa. O que interessa é que o Napoleão se lançou à conquista da Europa. Eu segui as suas pisadas na creche.
Assim, o ponto que fez despertar a minha vontade de liderar foi o facto de ainda usar fraldas naquela altura. Não era uma questão de querer até, era mais porque me borrava todo sempre que não devia. Atenção! O facto de haver, hoje em dia, quem me chame de merdas não tem a ver com isto, porque as pessoas que sabem desta particularidade, para além da Maria e do Bruno que estão aqui a espreitar ao meu lado, foram totalmente trucidadas por mim.
Houve, portanto, um dia em que eu estava na casa de banho sentado numa daquelas micro-sanitas. A auxiliar e a educadora faziam figas enquanto me seguravam pelas pernas, mantendo-me sentado em cima do tampo. Eu não queria estar ali desnudado da cintura para baixo, porque sempre tinha ouvido dizer que havia crocodilos e ratos nos esgotos, e não queria ser surpreendido por nenhuma dessas espécies. Enquanto isso, a Maria e o Bruno entoavam cânticos de incentivo e batiam palmas. Por momentos cedi e fiz força para ajudar a gravidade a agir. Eu sabia que tinha a cara vermelha e aquela era uma etapa importante para mim. De vida ou de morte.
E então a Julianinha - esse demónio um par de meses mais nova do que eu - entrou no WC. Sabem o que ela fez?
Riu-se! Riu-se de mim! Que descaramento! Depois de eu ter sido tão bom para ela! Riu-se pelo facto de eu não conseguir obrar - ou largar o tijolo para quem não for tão fino quanto eu e não entenda o seu significado. Isto depois de eu lhe ter emprestado o lápis de cera cor-de-rosa!
Bem, é certo que a reacção dela me deu a volta à barriga e eu descarreguei a tripa nesse instante. Não obstante, ela riu-se!
Foi uma grande naifada no meu coração.
Por isso não esqueci. Meditei durante dias, vi filmes de guerra, fingi que lia literatura de espionagem, preparei-me para a vingança.
Então, passado uma semana, enquanto ela dormia o sono da tarde, escapuli-me e roubei-lhe a Barbie preferida que estava pousada ao lado do colchão. E sorri. Eu tinha a mesma fralda desde a manhã. Não foi confortável, mas não me queixei à educadora e tinha nela acumulado os restos de várias refeições atrasadas. Ora, essa Barbie fez uma prolongada viagem pelas minhas partes mais íntimas até ganhar uma tonalidade típica de quem andou a bronzear-se.
Apreciei o resultado da minha acção e voltei a sorrir. Percebi que seria um líder, um vencedor. Depois devolvi-lhe a boneca ainda ela dormia e deitei a fralda fora. Fui ter com a educadora e expliquei que estava pronto para subir à sanita de livre e espontânea vontade.
Ela pegou na minha mão e levou-me. Estava tão satisfeita comigo que nem escutou o grito da Julianinha ao acordar.


02/05/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS



CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE I


O meu nome é Moustafa. Nem sempre me chamaram dessa forma, mas quando fiz dezoito anos resolvi mudar. Não que desgostasse do nome que os meus pais me atribuíram à nascença. Porém, este, novo, é diferente, pelo menos em Portugal, e só Deus sabe o quanto amo distinguir-me dos demais. Sinto que nasci para ter destaque, como qualquer líder religioso ou de uma potência governamental. Acredito que posso fazer-me ouvir por entre os homens, ou melhor, que eles possam seguir-me. Não sou alto nem bonito. Não sou aquele tipo de gajo que capta a atenção do mulherio, mas, como se diz, quando a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à montanha – ouvi a Rosalina dizer isto no outro dia e fiquei fascinado por esse princípio. Por isso, tento ser simpático, mas o azar persegue-me invariavelmente, desde os tempos do infantário até aos da escola, da faculdade, da tropa e do emprego – pois, fui recentemente despedido dos correios. Durante todo o meu percurso fui apanhando muitas pedras no sapato. Calhaus que foram atrapalhando o meu caminho até à glória, algo com que sempre sonhei e que ainda hei-de alcançar, um dia. Dir-vos-ia para lerem os meus lábios se me estivessem a ver, daí que vos aconselho apenas que registem estas palavras. Desde que me apercebi onde desejava chegar, comecei a abater quem não conseguia agradar. Sempre me esforcei por ser bom para todos e quem até hoje ousou rejeitar a minha generosidade passou a ser meu inimigo. E decidi adoptar as tácticas das guerras que nunca travei. Pelo que me escondi nas trincheiras da vida e lancei granadas a quem foi aquilo que nunca eu tive coragem de tentar ser. Sou agressivo, bem sei. Todavia, sou assim e não tenciono mudar, pois quem muda são os fracos. Apelido-me de frontal e sincero, capaz de argumentar o que quer que seja. No entanto sou - e anotem isto porque só vou dizê-lo uma vez - um autêntico S-A-C-I-R-D-E-M - têm de ler ao contrário, porque no seio da minha honestidade revelo-me incapaz de enfrentar o espelho e assumir quem verdadeiramente sou. Sou assim, um exemplo que não exemplo, um herói que não herói. Pavoneio-me e ergo as minhas penas coloridas, tentando enganar quem me vê. Sei que pelo menos os burros consigo iludir e aos outros vou tentando fazer o melhor que posso, que me sigam se forem realmente inteligentes, que me enfrentem se quiserem conhecer o sabor da minha fúria. Perante esta última afirmação, rir-me-ia como o Drácula naquele filme a preto e branco que vi em miúdo – recordo-me bem pelo cheiro fétido que proveio das minhas calças no instante seguinte -, mas a minha voz não é suficientemente grave para que não soasse afeminada.
Atenção que sou macho!
Não tirem conclusões precipitadas, embora nunca me tenha despido à frente dos meus colegas de balneário. E não! Não é por isso... É apenas porque sim. Afinal não sou obrigado a explicar-vos o que quer que seja.
Brevemente conhecer-me-ão melhor, assim como as minhas facetas e forma de agir. E se, no fim do meu desabafo, ficarem com má impressão acerca da minha pessoa e dos propósitos que me regem enquanto senhor da razão, nem tiverem a capacidade necessária para me interpretar, farei a vossa vida negra com todas as minhas forças, utilizando os meios que mais à frente descreverei. Terão, portanto, diante dos vossos olhos um episódio por cada etapa da minha vida que passei e de que tanto me orgulho.
Ah, ia-me esquecendo.
E se por acaso estranharem ao perceberem que estou permanentemente rodeado por dois monos não façam disso caso. É a Maria e o Bruno. Ela tem os olhos tortos e sorri como se não sorrisse. Ele usa gel e não consegue estar próximo de uma pessoa sem tocar nela. Ambos me acompanham desde o fraldário e são os meus fieis seguidores. Perguntei-lhes, agora, se efectivamente o eram e eles acenaram prontamente que sim – vêem?