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27/02/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MADALENA – PARTE IV


Deixei o Moustafa que nem sempre se havia chamado Moustafa em plena praça. A noite caíra rapidamente, pelo que quando cheguei à porta do único clube nocturno da terra só conseguia distinguir a cara pálida do segurança, que se destacava do seu fato preto de cangalheiro assim como do beco escuro e mal iluminado do edifício ao qual queria chegar.
Se ele tivesse uma máscara negra até seria capaz de o confundir com o Batman. Mas não. Tratava-se apenas do Billy the kid, não o cowboy, mas sim o pugilista amador com zero vitórias e dezassete derrotas que adoptara o nome do tal cowboy. Tratavam-no por Billy porque se chamava Zacarias e kid porque era um adulto. Claro que fui eu quem lhe dei o apelido por causa da tal cena que eu possuía e que me fazia inverter as coisas, um desarranjo psiquiátrico, como dizia o doutor.
Mal me viu, o Billy deu-me um high five e eu brindei-o com uma pancada na careca depois de ter subido às suas cavalitas. Disse-lhe que queria entrar, algo que ele negou, argumentando que eu não tinha idade para isso. Face a essa resposta, peguei num pedação do meu próprio cabelo e enfiei-o por cima do lábio, simulando um bigodaço à Eça de Queiroz. Ele focou-me por um par de segundos e esboçou um ar convencido. Abriu a porta e convidou-me para entrar, tratando-me por senhora Madalena.
Quando invadi o espaço havia um cheiro intenso a fumo e a álcool. A música estava nas alturas mas só uma mesa se encontrava ocupada. Afinal, a noite tinha acabado de chegar. No entanto, essa mesa onde estavam os únicos clientes valia tanto como uma casa cheia. Tratava-se de meia dúzia de homens e mulheres que falavam com sotaque brasileiro. Snifavam coca utilizando um espelho de maquilhagem e aquilo que me pareceu ser uma nota de 100 reais.
Antes de me dirigir a eles, fui ao balcão e pedi um sumo de amora, com gelo. Fi-lo com o bigode posto, claro, não fosse o empregado perceber que eu era apenas uma miúda de 12 anos. Ele serviu-me e quando me voltou as costas roubei-lhe o picador de gelo sem que se apercebesse. Era lindo, o picador, bem pontiagudo como a ocasião o exigia. De copo na mão e palhinha na boca, sentei-me junto daquilo a que alguém chamaria de escola de samba.
“Olá, Graça.”
“Oi, meu bem.”
“Ou devo dizer, ex-ministra Graça?”
“Você me reconheceu, garota? Estou tão feliz! Aprendeu muito comigo quando eu era ministra, moça?”
“Ó Graça, deixa-te de tretas com esse sotaque.”
“Está bem. Mas agora até os brasileiros perceberam que não sou brasileira. Bem, com esta droga toda, talvez não se lembrem que acabaste de me desmascarar.”
“Não creio que seja relevante aquilo que eles possam pensar de ti doravante.”
“Porquê?”
“Porque eu sou a Madalena e vou acabar contigo.”
“Espera lá. És a Madalena? A Madaleninha?”
“Sim, sou.”
“És a filha que eu tive com aquele polvo gigante que trabalhava na câmara nos tempos em que eu era vereadora?”
“Não era um polvo gigante. O meu pai apenas andava constantemente inchado devido aos gases e à dificuldade em digerir os alimentos. O homem doente, portanto. Para além disso, não era a cabeça que inchava, mas sim o estômago.”
“És capaz de ter razão. Não me lembro bem. Só o via nu quando estava drogada. Nem podia ser de outra forma.”
“Pois, eu compreendo.”
“Como está ele, o teu paizinho?”
“Não importa.”
“Então queres fazer mal à tua mãezinha?”
“Não. O padre Cardoso é que queria.”
“E tu não?”
“Eu não. Preferiria que regressasses à política e me arranjasses uma cunha quando crescesse. E depois sim, matar-te-ia.”
“Ó! Tão fofa! Sempre a pensar no futuro. Sais mesmo à tua mãezinha, sua riqueza.”
“Sim. Só que não preciso de cocaína para ter alucinações.”
“Não? Isso deve ficar mais barato! Como consegues?”
“É segredo e não tenciono revelá-lo porque também quero participar no Secret Story 31 quando atingir a maioridade.”
“Que pena. E afinal porque segues os desígnios do padre Cardoso?”
“Porque no fundo sou boa pessoa e seria incapaz de rejeitar o último pedido de um homem às portas da morte.”
“Eu também sempre fui incapaz de rejeitar um pedido, uma oferenda, um favor. Céus, somos mesmo mãe e filha.”
De repente calei-me. Não que as palavras me fugissem, mas porque me havia picado na ponta do picador de gelo enquanto o acariciava docemente.


12/12/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS





CARDOSO – PARTE IV


Esta noite não dormi nada de jeito.
Acordei às 3h00 e nunca mais voltei a pregar o olho.
Vai daí pus-me a fazer um zapping na televisão por cabo, que já nem é por cabo mas sim por satélite, um verdadeiro roubo. Mas a mim não me roubam que o Ceninho - funcionário da empresa - vai à missa dia sim dia não.
Assisti a partes de documentários sobre a vida selvagem, ou, utilizando outros termos, sobre a vida urbana. Mas também vi programas sobre o fim do mundo, séries com vampiros e uma boa parte de um filme sobre a vida de um padre. A vida de um padre, imaginem! Estava tudo mal!
Penso até que talvez fosse uma película satírica. Senão vejamos. O gajo rezava, praticava o bem, preocupava-se com as pessoas, dizia sempre a verdade e - riam-se - era virgem. Virgem! Que loser como diria o meu quarto filho bastardo. Mas quem é que neste mundo é virgem?! Nem os canos da minha cozinha que foram arranjados no Verão passado o são. Bem, adiante. Há segredos e segredos.
O que na verdade me revoltou nesse filme foi o facto de o padre ser uma espécie de santo, algo que nos dias de hoje é extremamente perigoso. Ou seja, se toda a gente souber que existe um padre com essas características haverá um pensamento global no sentido de se achar que todos os membros do clero são uns medricas e uns pãezinhos sem sal. Receei logo que fossemos vistos como fracos e uns coitadainhos que tiram o pão da boca para dar aos pobres. Yeah, right!, como diria a minha neta mais velha, filha da minha sétima filha bastarda. Como se eu fosse deixar de me alimentar. Como teria forças para pregar a palavra do Senhor?
Eram 6h39 e estava eu a pensar que padres como o do “O Exorcista” ou o do “O Crime do Padre Amaro”, ou mesmo o da aquela série que representa o papa Alexandre VI, são bem mais porreiros. São padres-heróis, com os tomates no sítio, adaptados a uma sociedade viril. Quem sabe, um dia, não verei no cinema um padre a ascender à presidência de um dos países mais poderosos do mundo?
Depois revoltei-me e decidi levantar-me cedo, às 10h01.
Estava determinado a mudar a imagem dos padres.
Nós, padres, não somos uns coitadinhos com deficiência na fala nem temos uma pronúncia do interior. Não somos carecas nem balofos. Não somos impotentes nem usamos roupa remendada. Nós, padres, somos como toda a gente, ou melhor até. Temos dívidas no jogo, problemas de álcool, dificuldades em aceitar os nossos próprios problemas e sofremos de claustrofobia quando entramos no confessionário.
Não! Nós não somos coitadinhos.
Nós, padres, somos fodidos! Somos como aqueles jogadores de râguebi que fazem aquelas danças para intimidar os adversários e se for necessário defendemos a nossa família, por mais bastarda que seja, com unhas e dentes.
Nós, padres, temos problemas e resolvemo-los, seja de que forma for.
Nós, padres, assustamos o susto, cuspimos no cuspo, amedrontamos o medo e fazemos o choro chorar.
Por isso não vesti a batina quando fui dar a missa, ó se a vestia! A batina não mete medo, ela torna-nos macios perante os olhos do povo.
Vesti apenas um par de calças de ganga e dirigi-me ao altar descalço em tronco nu. Eu tinha de mostrar de que fibra era feito, apesar da gordura acumulada nas zonas mais susceptíveis, porque a idade não perdoa.
Olhei os paroquianos e disse:
“Paroquianos. Eu, o padre Cardoso, sou fodido. Sou o gajo mais fodido da região.”
Nesse instante o Zequinha - também conhecido por Zequinha da perna aberta - gritou com uma voz esganiçada “A seguir a mim!”
Apeteceu-me espancá-lo. Mas não o fiz. Talvez um dia ele me fosse útil e eu não queria que guardasse rancor. Ignorei-o depois de lançar um olhar à matador que acabou por não intimidá-lo. Bem pelo contrário.
“Como dizia, eu sou fodido! Não sou como o padre Rosa, que me antecedeu, que pedia esmolas para comprar um agrafador. Eu, padre Cardoso, quando peço é à patrão! Aproveito para avisar que, pelo Natal, vou querer uma máquina de lavar a roupa, topo de gama, daquelas que dão para regular a hora da lavagem para não ter de me levantar a meio da noite e estender o raio da roupa. Também não sou como o padre Bento que por pouco não foi para a prisão por atentado ao pudor. Eu matar-me-ia de forma nobre como os samurais, embora usando a faca do queijo. Eu sei que Deus diz que o suicídio é pecado. Mas Ele diz isso porque não é tão fodido quanto eu, porque se o fosse as coisas não seriam bem assim. Portanto, ai de vocês que ousem pensar que sou um medricas! O primeiro que o fizer deixo-o dez dias ao sol, pregado numa roda. Podia pregar numa cruz, mas isso é para medricas. É mesmo numa roda para que seja empurrado pelos miúdos como eu fazia com as rodas das bicicletas. Será rodificado numa merda de uma roda e estará em constante movimento durante dez dias, o mesmo período que Jesus Cristo demorou a regressar à Terra!”
Calei-me, sentido o sangue a fervilhar. E, lá atrás, trémula da sua mãozinha que agarrava a bengala, a dona Lurdes falou. Tinha quase noventa anos e não via de um olho. Era velha, mas falava alto que se fartava. Perguntou, invadindo aquele silêncio típico da casa de Deus, se Cristo não tinha ressuscitado ao terceiro dia.
Eu engoli em seco e gritei: “Blasfémia! Já para a roda”.


10/10/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JEREMIAS – PARTE IV

Como sabem, trabalhei como empregado de limpeza num tribunal. Foi porreiro até, mas se nunca tivesse saído de lá não teria sido futebolista, repositor, super-herói, actor e polícia de trânsito. 
Há males que vêm por bem. Da mesma forma que não teria visto as gajas que vi, porque emprego é sempre sinónimo de gajedo. Não me levem a mal, gajas que me estão a ler. É, aliás, um elogio que faço à fêmea da espécie humana. Gajas são para mim como o sol é para os girassóis: onde quer que elas estejam eu volto-me sempre na sua direcção. E se a gaja for muito boa somos muitos girassóis. Mas eu sou sempre um girassol, seja que gaja for que atravesse o meu caminho, excepto se for uma gaja não gaja - não me queria repetir relativamente a este assunto, mas tenho de deixar esta situação bem clara.
Agora que penso nisto, maldito óleo de girassol, sempre que o vejo à venda sinto os meus tomates a serem triturados numa máquina qualquer. Felizmente isso ocorre apenas na minha cabeça.
Girassol-gaja-gaja-girassol.
Já se fartaram do tema? Não? Pois bem. Posto isto, claro que Van Gogh é o meu ídolo. Tentei ser pintor em tempos, mas não deu. Não havia pincel que desse azo ao meu talento e acabei por desistir. Relembrando o Van, fico com a certeza de que mutilou a orelha não por falta de girassóis mas devido à escassez de sol, ou seja, metaforizando, por falta de gajas, pois toda a gente sabe que o céu da Holanda está sempre nublado - se calhar nem os pintou em solo holandês, mas ele também não batia muito bem dos miolos. Às vezes as pessoas, quando visitam Amesterdão, pensam que está sol, mas isso não é sol, são as drogas a fazer efeito. E fala-se tão bem sob o efeito das drogas. Eu que o diga que depois ter salvo a ministra Graça fiz um discurso de três horas na sua festa de salvamento.
Ai a Graça... aquele cocktail químico ambulante... que saudades...
Mas dissertava eu acerca do meu emprego no tribunal.
Consegui-o numa altura em que não andava muito atarefado. Tinha-me fartado de ver os carros a passar, de espreitar as vizinhas lésbicas que moravam em frente, de contar o número de vezes que cada nalga de cada gaja que se exercitava no parque subia e descia com o ritmo da corrida, de passar à porta dos cabeleireiros na esperança de chocar contra uma brasileira e de danificar as rodas dos carrinhos dos supermercados para depois ver as gajas estamparem-se contra as prateleiras. Sabem, era muito estimulante vê-las a tentar dominar o carrinho como elas me tentam dominar enquanto ponho os meus músculos a trabalhar. Para além disso, as saias sempre levantavam um bocadinho e os decotes ficavam mais à vista. Em casos extremos eu até ia dar uma mãozinha.
Adiante.
Como andava entediado resolvi assistir a julgamentos. Um show. Como dizem que o primeiro é sempre o melhor, ou pelo menos o mais marcante, nunca o esqueci. O caso era sobre um gajo da Biquinha, chamado Jaime, que era defendido por uma gaja muito boa, a Rosalina, que mais tarde acabou por deixar o direito para se dedicar ao sexo na internet. Comi-a treze vezes, virtualmente, claro.
Nessa sessão o gajo passou-se e queria bater em toda a gente. Eu impedi-o, ajudando os agentes de segurança - foi quando descobri que queria ser polícia. Daí em diante passei a ser visto como um herói, ainda longe de ser super.
Passado uma semana fui contratado para empregado de limpeza. Isto porque não havia mais nenhuma vaga, porque senão dava-se um jeito e talvez pudesse chegar a ser secretário, guarda ou até mesmo juiz.
No entanto não tinha muito jeito para limpar, a não ser as gotículas de suor das gajas. Mas não podia usar a língua para remover o pó das cadeiras, dos computadores, dos arquivos e das mesas. Por isso fui-me desleixando.
Joguei à paciência na mesa do juiz, vesti as batinas enquanto assistia aos programas da manhã sem roupa por baixo, acedi aos e-mails dos doutores e namorei com a Rosalina à distância.
Ah e vasculhei pastas de casos encerrados ou por encerrar.
E isso foi divertido, deveras divertido.
As coisas que fiquei a saber... Qualquer dia abro o jogo, assim que arranjar emprego nos serviços secretos para que não me persigam. Mas posso levantar um pouco o véu. Descobri, por exemplo, que há suspeitas que a maçonaria foi criada em Mação e que o próprio George Washinghton - famoso mação - ia lá anualmente como outros vão a Fátima; que Fátima é considerada o centro do universo pelos alienígenas mais avançados; que a descendência da monarquia portuguesa é alienígena; que a monarquia não era liderada por um rei mas sim pelo seu animal de estimação; que os Estados Unidos da América são uma espécie de monarquia camuflada em democracia e que o tom de pele do actual líder é fruto de um acaso genético; que o cão de água português que vive na Casa Branca manda nesse país, logo manda no mundo.
Não digam a ninguém, mas acho que Portugal é mais do que aquilo que querem fazer crer.


04/09/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

GRAÇA – PARTE IV

(Nota: qualquer semelhança entre o conteúdo deste texto e a realidade é, e sempre será, pura coincidência)
 
E que tal? O meu povo acompanhou-me no Parlamento? Portei-me bem, certo? Ninguém topou quando combinei ir comprar cortinados com uma deputada do meu partido, pois não? Ah, pois é!
No dia seguinte à minha estreia tive uma reunião com os representantes de uma associação de pais do ensino secundário. Não é normal que alguém com o meu estatuto receba gente tão insignificante, mas eu sou sensível a estas coisas de se preocuparem com os putos. Sempre me emocionou ver miúdos indefesos nas escolas. Até chorei quando vi o Karate Kid levar um coçório no início do filme. Felizmente aprendeu a defender-se esfregando carros.
Portanto, uma das minhas prioridades é a segurança nas escolas e o bom aproveitamento dos seus alunos.
A reunião começava às 9H30. Na verdade, a minha prioridade pessoal sobrepõe-se à prioridade enquanto ministra, pois se eu não tiver saúde não posso exercer o meu cargo eficientemente. Por isso tive de ir tomar o pequeno-almoço antes da hora combinada e só cheguei às 10H15.
Os pais reclamavam, dizendo que ninguém os respeitava. Isto antes de eu lhes abrir as caixas contendo pastéis de Belém que lhes levara com carinho. Aí calaram-se a mamaram um a seguir ao outro.
Começámos então a ordem de trabalhos.
Primeiro queixaram-se que não podia haver apenas um segurança para milhares de alunos por escola. Eu contestei. Expliquei que essa não era a minha área, mas que supunha que houvesse cinquenta mil polícias para a população portuguesa. Logo estava dentro da média. Mas havia lá uma espertinha - devia ser professora de matemática - que disse que em termos relativos a minha associação lhes dava razão, pois por essa lógica a segurança era insuficiente quando comparando com o policiamento nas ruas. Aí eu sorri. Perguntei-lhe se achava que esses polícias estavam todos operacionais, nas ruas e a fazer o trabalho que lhes competia. Ela calou-se mas depois outro falou - provavelmente um advogado, o marmanjo. Questionou-me se eu estava a criticar o próprio governo e o ministro da defesa. Meditei. Por acaso não gostava muito do ministro da defesa, porque era nortenho e eu nunca gostei desse sotaque. No entanto defendi-o e disse que a culpa era toda do governo anterior e que nós mudaríamos a situação. Para além disso, comentei que estava em estudo o desenvolvimento de um programa inovador que promovia o incentivo à defesa pessoal de cada aluno. Cada um deles esfregaria os carros dos funcionários da escola e toda a frota de veículos das câmaras municipais e do governo. Eles adoraram a ideia, pois todos eram fãs do discípulo do Sr Miyagi. Pisquei o olho, arrastei a cortina e eles espreitaram. Lá fora o projecto estava em estudo e uma dezena de miúdos esfregava o carro que trouxera até ali.
Depois vieram com a conversa de que havia docentes que não eram competentes. Eu concordei e sugeri a utilização de câmaras de vigilância nas salas de aulas para controlar os professores, que assim até punha os polícias que não fazem nada a observar as gravações, algo que fazia parte da nossa reestruturação. Eles perguntaram se isso era permitido. Eu acenei que sim. Afinal tudo é permitido desde que não sejamos descobertos. Mas comentei num tom autoritário 'nós vamos mais longe'. Pedi que guardassem segredo e levantei a ponta do véu. Disse-lhes que íamos tentar legislar a possibilidade de passar em directo e em canal aberto tudo o que se passava dentro das escolas para que as pessoas lá em casa pudessem assistir livremente. Perguntaram se era possível. Eu respondi que naquele momento não, devido a essas coisas dos direitos dos cidadãos e dos profissionais. Mas também adiantei que íamos avançar com isso e que tínhamos o apoio dos americanos - aqueles Senhores - que afinal já o faziam à socapa e tencionavam fazê-lo às claras. Um dos pais até ficou contente porque estava quase surdo por escutar uma senhora da TVI a apresentar programas desse género. Assim, podia ter um Big Brother num novo formato e dessa forma proteger o seu canal auditivo.
A seguir perguntaram-me como ia eu erradicar as drogas das escolas. Disse que não ia fazer nada, que a selecção natural trataria de tudo. Os miúdos espertos safar-se-iam e os mais estúpidos agarrar-se-iam ao pó e ao fumo. Ninguém discordou, afinal tinha visto uma das mães a fumar um charro na esquina quando tinha chegado e nenhum deles parecia ter os filhos nas escolas mais problemáticas.
O quarto ponto levantado prendia-se com o aumento da tensão sexual entre os alunos. Eu encolhi os ombros e perguntei se queriam ganhar uma reforma decente dali a duas décadas. Eles concordaram com as cabeças e eu expliquei que para esse efeito a taxa de natalidade teria de aumentar a bom ritmo. Os representantes calaram-se e até vi a drogada a atirar uma caixa de pílulas - daquelas fraquinhas para as adolescentes - para trás das costas.
Em seguida foi tudo muito rápido. Queriam aquecimento, prometi-lhes bom tempo. Exigiram material de qualidade, mandei entrar dois dos meus colaboradores, um de cada sexo - antigos strippers. Solicitaram bons professores, garanti que a taxa de aprovações e a média das notas dispararia em flecha. Pediram melhores refeições nas cantinas, justifiquei que a contratação de ucranianos a recibos verdes e pagos pelo valor que receberiam nos seus países permitiria um melhor serviço. Quiseram uma alimentação mais equilibrada, chamei a minha nutricionista que explicou que a população só precisava apenas de 1,200 e 2,000 Calorias diárias e a minha médica que explicou que mais de metade dos portugueses tinha peso a mais.
Resumindo, saíram mais satisfeitos do que entraram, o que é bom. Mas torceram os narizes quanto mandei a minha assessora apresentar a conta relativa aos pastéis de nata. Encolhi os ombros e esbocei um ar de: 'Que foi? Estamos em crise!'




23/05/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

 
MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE IV


Eu tinha 13 anos quando assumi a minha genialidade, primeiro perante a Maria e o Bruno, depois perante o mundo. Ou melhor, perante as raparigas da minha turma, mas que não deixava de ser o meu mundo.
Tinha acabado de saber que um tio meu classificava as namoradas num bloco, dando-lhes estrelas, consoante aquilo que ele chamava de 'performance'. No início não soube ao que ele se referia. Deduzi que fosse a arte de cozinhar que estivesse em avaliação ou, quando muito, a capacidade de responder 'sim' a qualquer questão que ele fizesse.
Durante semanas meditei sobre isso. Até que, num dia de Páscoa em que se afogou em álcool, eu tive oportunidade de lhe roubar o bloco para poder tirar as minhas ilações. Bem, na realidade, sim, ele afogou-se em álcool. Não que fosse um alcoólico porque nem bebe. Mas estava a assar chouriços e o Bruno esguichou um pouco de álcool para a mão, depois para o braço e por fim para o ombro. Ele queimou-se um bocadito, mas hoje em dia já não se nota - pelo menos quando está vestido. Por acaso fiz isso de propósito. Peguei numas bisnagas e enchi a minha de água e a do Bruno com álcool. E pronto, quando as labaredas estavam no auge - as chouriças tinham muita gordura e tinha sido a Maria que as fora comprar a meu mando, oferta minha à família com a meia mesada dela - eu gritei 'embora lá molhar o tio Nel'. 
E foi assim. Alguns choraram outros riram. Na verdade só eu é que comecei por rir, e depois a Maria e o Bruno. Houve quem tivesse levado o tio Nel ao hospital, se bem que outros repreenderam o Bruno, lavaram a cozinha ou correram à vez para o telefone a contar o que tinha acontecido. Esse foi auge da tarde, pois na sala de jantar eu estava só, no meio das iguarias. Estávamos ali... eu e o casaco do tio Nel. E adivinhem o que continha o bolso de dentro do lado do coração? O bloco.
Roubei-o e enfiei-me no quarto a lê-lo. Fiquei muito chocado na altura porque aquilo não tinha apenas estrelas. Continha também observações. Uma nojeira autêntica.
Depois de ter colocado de parte a hipótese dos cozinhados, conclui que a vida sexual do meu tio estava exposta ali, de forma crua e rude. E apesar de eu ser inexperiente nessa área, gostei da parte de expor e descrever as vidas alheias.
Resolvi, por isso, classificar as miúdas da minha turma, embora nunca tivesse dormido com elas. Diziam que não eram rãs para gostarem de sapos, algo muito idiota de se dizer, pois as rãs possuem um ovário vestigial e os sapos não. Ora, como eu me considero um macho-macho, para ser conhecido como um anfíbio ao menos que me chamem sapo - sou um sapo e com muito orgulho. Odeio sapos, mas descobri que odeio ainda mais as rãs.
Não tardou até que a Vanessa, a Teresa, a Rute, a Ana, a Margarida, a Rita I e a Rita II passassem a estar na minha mira. Avaliei-as com todo o meu poder. Tirei-lhes as medidas que nem um alfaiate, penetrei dentro delas que nem o fumo de um cigarro - cigarro, fumo, cancro... OK, esqueçam esta analogia que não sou um O-R-C-N-A-C.
Não dormi, portanto, com elas mas assim imaginei. Quando terminou o ano lectivo já eu tinha uma escala bem definida acerca das suas potencialidades. A Vanessa era a mais atrevida, a Teresa a que mais gritava. A Rute gostava de chamar pelo meu nome e a Ana gostava de variar. A Margarida atirava-se a mim sempre que estava de barriga cheia, a Rita I adorava lingerie vermelha e a Rita II queria sempre mais.
Eu era o maior, o mais vivido, uma espécie de rei da escola, como o meu tio Nel continuava a sê-lo, excepto quando se deslocava ao hospital para as consultas de oftalmologia... não, de reumatologia... hum, pediatria? Pronto! Quando se deslocava para a unidade dos queimados.
Mas onde estava a genialidade? Pois bem. A minha classificação não se baseava em estrelas. Isso seria uma coisa muito básica para mim. Eu inventei uma nova forma de classificar as mulheres. Vocês conhecessem a triagem de prioridades de Manchester? Claro que não. Mas é para isso que cá estou, para vos guiar. Esta coisa de Manchester define o grau de urgência aplicada nos hospitais: vermelho quando se está para morrer, laranja quando estamos um bocadinho mal, amarelo para entendermos que somos uns nabos porque tudo se resolveria com um Ben-U-Ron, verde para sermos gozados pelas auxiliares e seguranças e azul para passarmos a fazer parte da paisagem dos serviços.
Pois bem, esse senhor, o senhor Manchester - ou estará esta designação relacionada com aquela cidade irlandesa? Hm, irlandesa ou sueca? -, nada inventou!
Quem inventou essa escala fui eu! Sim senhor! Fui eu!
Eu classifiquei as miúdas dando-lhes uma cor em função do quão boas elas se revelavam nos meus sonhos! Por isso, todos os dias, à socapa, fazia cruzes com as minhas canetas que usava na escola nos casacos ou nas T-shirts delas, como que marcando-as para todo o sempre. As melhores, a Vanessa, a Rute e a Rita II levavam com o azul. À Margarida, à Teresa e à Ana oferecia-lhes a cor verde. Apenas a Rita I merecia o vermelho.
Mais tarde esta forma de classificar a performance foi espalhada. Tristemente nunca ninguém me tinha marcado, até que a Maria e o Bruno me levaram um dia ao paintball e dispararam sobre mim milhões de balas azuis. Esse foi o dia mais feliz da minha vida.


14/03/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


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ROSALINA – PARTE IV

Na maior parte dos casos, ir às compras em época de saldos é humilhante, aproveitar promoções de coisas que ninguém se dá ao trabalho de adquirir acaba por ser inglório e vasculhar roupas em fins de stock ou aparelhos electrónicos desactualizados é impensável no meu modo de vida. Produtos em segunda-mão? Nem pensar! Brindes? Nunca! Ofertas de variada ordem na compra do que quer que seja? Isso não é para a Rosalina!
Contudo, existe uma excepção!
Black Friday em Londres! Isso sim, tem pinta. Imagino a vereadora a perguntar onde comprei o perfume que me dá um cheiro inigualável. Resposta? A capital mais influente do Reino Unido! Ou a minha vizinha a questionar de onde terá vindo o casaco de peles que me embelezará. Resposta? De uma loja de onde se vê o Big Ben. Ou assim que os juízes invejarem o meu relógio que não se vê à venda nas ruas portuguesas!
Pois bem, Black Friday será, e preparem-se londrinos, que eu vou atacar pelas terras de sua majestade.
Portanto, tive o cuidado de ir para o aeroporto na quinta-feira à noite de sapatilhas, para fazer render a viagem, trazendo apenas uma malinha de mão que o meu marido carregava. Caso tivesse de fazer muitas compras, adquiriria também uma mala maior, até porque está a fazer falta.
Claro que a companhia aérea que me levou até Londres era low cost e, assim, os lugares apertados, o cheiro algo pestilento e o ambiente impróprio para uma senhora como eu. Mas fez-se bem.
Quando chegámos a Londres dormimos numa camarata onde cabiam vinte pessoas, parte deles estudantes, outros aventureiros procurando um trabalho na cidade. Havia ainda poucos turistas e talvez um par de músicos que procuravam uma oportunidade para se afirmarem. A casa de banho era comum a dezenas de pessoas, mas eu nem a usei. Afinal, regressaria ao final da tarde de sexta-feira.
O passeio foi extraordinário. Visitámos – eu e o meu marido, que os miúdos ficaram com a minha cunhada – boutiques, lojas e centros comerciais. Tudo estava num alvoroço. Gente, só gente que andava às compras, em Novembro, antes que a época natalícia estivesse no auge. Tudo estava a correr lindamente, só que Black Friday nem vê-la. Não havia coisas baratas nem publicidade alusiva ao mega evento que vira na Internet um par de semanas antes.
Demos voltas e mais voltas no meio de rastafaris, africanos, punks, muçulmanos, asiáticos, hippies e até portugueses, malandros e trabalhadores, portanto. Caminhámos que nos fartámos e tudo estava ao preço normal. Claro que, apesar de ganharmos relativamente bem, não nos podíamos esticar. Afinal, tenho de sustentar o carrão com que o meu marido me transporta, o colégio dos miúdos e a casa que acaba por ser a melhor da rua.
Por isso, regressei ao aeroporto inglês com um íman para colocar no frigorífico, daqueles que têm soldados de roupa preta e vermelha iguais aos reais que fazem o render da guarda no palácio de Buckingham; uma camisola do Tottenham comprada nos sírios ou iranianos ou lá o que eram para oferecer ao filho mais novo da vereadora; e um pisa-papéis em forma de táxi preto da Austin para que os meus clientes pudessem ver no gabinete.
Quando regressámos ao aeroporto, estava eu desfeita, um temporal veio de repente. Tivemos de ficar dois dias lá, por entre bancos, guichês e lojas de restauração.
A viagem acabou por ficar tão cara quanto pensei, mas sem que tivesse trazido nada de valor.
Mais tarde, voltei à Internet, para pesquisar aquilo que me levara a pensar que o Black Friday inesquecível não passava, afinal, de um dia como os outros. E então percebi. O Black Friday tinha ocorrido numa loja americana chamada London, e não na cidade de Londres.
Era domingo de manhã quando me apercebi disso, estava eu em casa. Tinha olheiras e estava com um ar cansado. Apenas esperei que as laranjas não me fizessem muita azia.


14/01/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JAIME – PARTE IV

Odeio quando isto acontece. Porque é que os putos estão sempre doentes? No meu tempo, eu comia terra e era ferrado por cães da rua e nada me acontecia. Nos dias de hoje, pois bem, cambada de fracos... Abre-se uma janela de casa porque a mulher não sacode os cobertores e os tapetes quando devia e lá vem uma constipação; sai-se de casa, chega uma aragem e lá vêm os espirros e as tosses irritantes; vão para escola e ficam todos engripados; se há uma bactéria qualquer, ficam infectados que nem peças de dominó a tombar umas a seguir às outras. É demais! Fracos, fracos fracos!
E qual a razão das minhas queixas? Para já porque acordei uma dezena de vezes durante a noite. Não foi por causa dos berros dos miúdos, pois mesmo que os ouça, deixo-me ficar. A mulher que vá, que ela é que é mãe. O que me irrita é que, antes de se levantar para acudi-los, bufa para o ar como se estivesse a querer arrefecê-lo, afasta os cobertores freneticamente e, quando regressa, atira-se para a cama como se estivesse numa prova de salto em altura. Se fosse mais magra, mais nova e menos preguiçosa, aposto que seria recordista nacional da modalidade. Mas a culpa é dela, deu-lhes mimo a mais. Por mim, ficavam a chorar a noite toda. Dois ou três serões chegariam para perceberem que não lhes adiantava de nada. Mas não... A rainha-mãe vai lá sempre... E eles continuar a chorar e a reclamar.
Mas, pronto, ontem um dos catraios ganhou febre durante a noite... 39,5ºC, como se fosse muito... Fraco, repito! Mesmo assim foi para a escola. Podia ser que ficasse bom. Mas não, o frasquinho de cheiro continuou com febre e, às 18h00, agarrei nele e nos outros, fui buscar a mulher ao trabalho, que eu não tenho jeito para falar com médicos, e lá fomos todos para as urgências do hospital central. O FIAT PUNTO ia carregadinho. Quando acelerava, fazia ainda mais fumo preto do que habitualmente e batia com o pára-choques traseiro no chão a cada lomba que atravessasse. Tenho mesmo de mudar de carro.
Primeiro tive dificuldade em estacionar o carro. Depois estava uma fila imensa para fazer a pré-triagem ou lá como isso se chama. A seguir vi que o chavalo demoraria porque tinha a pulseira verde. Perguntei à mulher se ele não tinha febre. Ela disse que não, porque lhe tinha dado um comprimido assim que o fora buscar. Pouco inteligente, não? Não está habituada a jogar com o sistema, ela. Ingénua...
Fui para a sala de espera. Estava cheia. Havia gente de todo o tipo. Uns encontravam-se bem vestidos, mas a maioria estava de fato de treino, como eu, e cabelo colado à cabeça. Havia também ciganos - notava-se pela cor da pele -, peixeiras - notava-se devido ao cheiro - e alguns trabalhadores – notava-se pelo cheiro a suor. Irritei-me um pouco, lá.
Os putos dos outros não se calavam. Corriam e brincavam, como se não estivessem doentes. Guinchavam de satisfação como se aquele fosse o melhor local do mundo. Mexiam em tudo e tropeçavam nos pés de quem aguardava. Cambada de animais é o que digo! Só depois me apercebi que os meus filhos estavam no meio deles, incluindo o que era suposto estar doente. A culpa é da televisão e do senhor gordo que dá dinheiro aos outros, e também do hospital por colocar televisões onde não deveriam estar. Depois procurei a mulher, para tentar perceber por que razão não tinha os putos debaixo de olho. Andei pelos corredores até encontrá-la cá fora a fumar e a conversar alegremente com outras duas senhoras. Sim, senhoras! Espiei por segundo e resolvi juntar-me a elas. Cravei um cigarro e mandei a mulher ir ter com os miúdos num tom autoritário, para me fazer sentir. Fiquei mais um bocado com uma delas, que era bem boa. Saquei-lhe o número e fui levá-la a casa. Se entretanto eles fossem atendidos que esperassem, que eu também espero pela minha vez quando jogo bilhar a dinheiro lá no bairro.
Mas fiz o trajecto e regressei, e eles ainda não tinham sido atendidos. Os ciganos insultavam enfermeiros e médicos. Eu juntei-me ao barulho, afinal vivo num país civilizado e pago impostos para quê? Tenho de ser bem atendido.

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