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14/11/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JEREMIAS – PARTE IX


E chegamos assim à última profissão acerca da qual vos quero falar. Galguei algumas que me deixaram más recordações, como quando fui peixeiro - cujo cheiro esteve impregnado durante meses por baixo das minhas unhas - ou toureiro - maldito animal que me invadiu a retaguarda.
Nunca vos contei, mas fui criado num meio bastante religioso. O meu pai acreditava que via Deus sempre que o fundo de uma garrafa qualquer se erguia diante do seu nariz. A minha mãe também acreditava que via Deus sempre que não via o meu pai. Durante anos ele disse “água-benta para o Chico, maravilha” sempre que emborcava um gole de álcool. Ainda hoje julgo que o conteúdo de cada recipiente de vidro era o seu espírito-santo. Enquanto decorria o mesmo período ela dizia “obrigada, meu Deus, por apareceres para o Chico sob a forma de vinho, assim enfia-lo num beco em vez de o enfiares na minha cama”.
Podem pensar que tive uma infância infeliz. A verdade é que não tive. Também é certo que não se deveu a eles, mas sim ao padre Cardoso, que foi um pai, um amigo, um irmão, um colega, um parceiro.
Foi ele, o padre Cardoso, que me iluminou o caminho.
Ainda era adolescente quando fui seu sacristão, a minha primeira profissão, aquela que desenvolvi durante mais tempo e que mais gostei de exercer.
As pequenas partes que compunham o todo eram divinais.
O incenso das missas, que mais fazia lembrar aqueles pauzinhos comprados na loja chinesa junto à igreja que a minha primeira amante acendia para disfarçar o cheiro a sexo selvagem praticado na cama em que também dormia o marido quando eu não estava lá. Chamava-se Jaciara.
O sabor das hóstias, feitas pelo padeiro que por acaso era marido da Jaciara. Quer dizer, segundo marido porque o primeiro estava a passar férias em Carandiru. Mais tarde até veio atrás dela para Portugal e tornou-se no melhor amigo do padeiro. Dizia que ela estava mais feliz do que no passado, tendo ficado grato ao homem. Ficaram amigos e o brasileiro acabou por instalar-se na casa do padeiro. Passados uns meses meteu o padeiro fora da sua própria casa quando descobriu que afinal não era ele quem fazia a mulher feliz mas sim um gajo vestido de branco. Era eu, claro, mas ele pensou que fosse o farmacêutico, que, por sua vez, nunca entendeu a razão pela qual o primeiro marido da Jaciara se revelava sempre tão simpático com ele - “talvez seja homossexual”, comentou ele certa vez comigo.
O vinho delicioso, que depois de eu e o padre Cardoso ficarmos até às tantas a mamar do gargalo fazia com que desvendássemos os segredos um do outro. Ele sabia os meus porque eu confessava-me semanalmente ou quando o pecado me tentava. Os desabafos dele é que me deixavam divertido. Quem diria que um homem com aquela santidade - chamemos-lhe assim - foi capaz de dar um valente coçório num vendedor de caixões por ter enganado uma família quanto à madeira usada no caixão do defunto ou de provocar um pequeno incêndio na própria igreja para que a seguradora metesse um chão novo - o resto era feito de pedra...?
As filas de gajas sequiosas por um consolo. Foi nesse tempo que deixei de ser esquisito se é que alguma vez o fui. Gaja é gaja quando não é não gaja da mesma forma que a água é água quando não é vinho. Bem, também pode ser sumo, cerveja e muitas outras coisas. Mas não interessa. Fica a ideia. Nessa altura eu era o consolo das gajas que não se sentiam gajas apesar de serem gajas. A verdade é que as comia por elas. Porque um mundo onde uma gaja não se sinta gaja é como uma videira sem uvas, uma cama sem lençóis ou uma praia sem areia. Existem, mas não é a mesma coisa. Portanto, eu era uma espécie de salvador da pátria, sendo eu o D. Sebastião e o gajedo paroquiano.
A bíblia, que tanto me ensinou, foi o meu suporte. A palavra do senhor sempre me acompanhou e é óptima para nos safarmos em qualquer situação. Se repararem há algo na bíblia que nos ajuda a sair de qualquer encrenca que seja.
Os conselhos do padre Cardoso. Ele é um gajo prático. Não fazem ideia.
Há tanta coisa que sinto falta dos tempos de sacristão que nem imaginam. O ordenado era irrisório mas havia sempre a caixa das esmolas para compor a coisa quando queria ir passar um fim de semana no Gerês ou arranjar a minha Casal Boss.
Foi também nessa altura que aprendi que podia ser tudo o que quisesse até que certo dia o padre Cardoso me disse “ergue as asas e voa, meu filho, que já estás a meter nojo”. Eu bati as asas com força e parti para longe, para bem longe da mira da caçadeira que o padre apontava na minha direcção.
Aquele Padre Cardoso... agora que penso melhor, acho que nunca gostei dele.






07/11/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

JEREMIAS – PARTE VIII

Uma das minhas primeiras profissões foi a de operário numa fábrica de guarda-chuvas. Não me perguntem como é que se faz um guarda-chuva porque não sei. Trabalhava no armazém e nunca me apeteceu ir à produção para descobri-lo. Era novo e tudo o que não era gaja, ou envolvia as gajas, não me suscitava a mínima curiosidade. Na verdade agora já não sou novo e não iria da mesma forma.
Então o que fazia eu?
Eu tinha um dos melhores trabalhos do mundo. Consistia em enfiar delicadamente o invólucro de plástico no guarda-chuva fechado, depois de concluído o seu fabrico. Tratava-se do último acabamento, a canela em cima do pastel de nata, o creme na pele de uma gaja boa como tudo, o gorro vermelho no topo da cabeça do Pai Natal.  Mais tarde percebi que a minha facilidade em enfiar carapuços e preservativos advinha dessa mesma experiência. Atenção que era gajo para envolver o meu material com látex em 1,2 segundos. Confiem em mim. Eu sei do que falo. Sou o Usain Bolt de colocação peniana de preservativos. E tal como o Bolt eu sou gajo de perna comprida, se é que me entendem.
Onde ia eu?
Ah! Operário ou, mais propriamente, fiel de armazém de guarda-chuvas.
Fazíamos encomendas para todo o mundo lá na fábrica.
Chegámos a fazer material para a China com caracteres muito giros. Gostei tanto que mandei tatuar uns iguais no meu corpo! Mesmo no antebraço. Depois aconteceu o mesmo com umas letras árabes impressas noutra remessa que seguiu para o Médio Oriente. Por essa ocasião tatuei-as nas costas. Mais tarde descobri o que queriam dizer.
E deduzem que tive azar, não foi? Nem pensem! Queriam que tivesse tatuado sem querer algo do género 'sou um falhado' ou 'impotente deste lado', ah?
Pois! A verdade é que o destino é meu amigo. Sempre foi. Em chinês dizia: “a essência do conhecimento consiste em aplicá-lo, uma vez possuído”. Obviamente, os chineses tinham a percepção que eu, essencialmente, sabia o que fazia enquanto possuía. Em árabe fazia a seguinte menção: “a brasa amanhece cinza”. É mesmo isso que penso quando as gajas vêm ter comigo, chegam a arder e partem arrefecidas depois do amor que lhes dou.
Assim, antes de vir embora de vez daquela fábrica, roubei um guarda-chuva que ainda hoje é especial. Tem desenhado uma espécie de arco-íris e quando roda sobre si faz um efeito muito engraçado. Foi com esse que salvei a ministra Graça. Mas não foi por me agradar à vista que o fanei. Fi-lo por outro motivo perfeitamente compreensível. Nesses tempos eu andava a fazer-me a uma gaja mesmo boa. Quer dizer, não era assim tão boa, até porque o marido era cego, mas constava-se que era fogo. E como eu havia recebido uma mensagem cósmica transmitindo-me que eu teria de transformar em cinza toda a brasa, não descansei enquanto não a levei para a cama, que, naquele caso, até nem chegou a ser uma cama mas sim uma esquina num canto morto do armazém onde se colocavam os materiais recicláveis, como plásticos e cartões.
A nossa relação durou algumas semanas.
Ela era fogo ao final da tarde e cinza, não ao amanhecer, mas sim passado uns minutinhos - que eu sempre fui um gajo eficiente.
Mas tudo acabou quando o cego descobriu.
Primeiro disse-me que me arrancava os tomates. Ao que respondi que eles eram tão grandes que mesmo que fosse míope nunca os perderia.
Depois avisou-me que ia fazer com que eu fosse despedido. E, quanto a isso, eu nem me importei pois já estava farto daquele trabalho e que tencionava alistar-me no exército para ser recrutado para as Árabias, onde se dizia que as gajas eram brasas - pudera, com aquele calor todo.
Por fim, certo dia, pegou num guarda-chuva e disse que mo ia enfiar num sítio que ele lá sabia. Ora esse sítio ao qual ele se referia era a minha segunda religião, a seguir à católica, da qual sou um fiel seguidor. Tive tanto medo de o ver nesse sítio, ainda para mais sendo aberto depois de lá enfiado, que lhe roubei o guarda-chuva e nunca mais o larguei - não vá alguém ter a mesma ideia absurda.
Ainda hoje o guardo onde ninguém o possa ver.


24/10/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JEREMIAS – PARTE VI

 
Uns tempos antes de ter trabalhado na noite fui pirata informático. Essa acabou por ser uma das minhas profissões favoritas. Não tinha horários, pagavam bem e tinha tantos clientes que me sentia obrigado a recusar alguns trabalhos. O único contra era que não conhecia gajas novas.
Sempre fui bom com os computadores, quase tão bom como sou na arte de mexer os músculos.
E então aproveitei quando tive a primeira oportunidade de me transformar naquilo que acabei por ser nos meses seguintes.
Certo dia, um amigo de longa data apareceu diante de mim, lixado, dizendo que os filhos do patrão o haviam tramado e que ia ser despedido por causa deles. Eu aconselhei-o que fizesse o mesmo, que os lixasse como vingança. Ele concordou mas assumiu que não conhecia os seus podres, embora achasse que no computador deles haveria provas desses mesmos podres.
Num ápice surgiu a ideia.
Comprei kits de espionagem pela net, descobri passwords e encontrei uma forma de aceder ao pc de cada um deles.
Rapidamente descobri a careca dos filhos do seu patrão. Eram três, dois homens e uma mulher. No computador do mais velho encontrei fotografias dele posando nu junto de carros da polícia, do parlamento, de um turista dormindo na praia, de uma árvore centenária em pleno parque da cidade e até mesmo dentro de um táxi conduzido para um gajo parecido com uma gaja que faz comédia para a televisão. Abona em favor do filho o facto de não ter motivos para se envergonhar dos seus atributos. Em seguida, vasculhei à distância o computador da filha e achei filmes pornográficos caseiros em que ela aparecia com uma série de homens fardados com os fatos da entidade bancária para a qual o meu amigo trabalhara e usando bonés onde se podia ler 'who's the boss, bitch?'. Também consegui encontrar material que pudesse entalar o filho mais novo, pois tinha digitalizado no pc imagens da sua colecção de selos, algo que lhe arruinaria por certo a sua reputação.
O meu amigo abraçou-me com força. Disse-me que os filhos estavam tramados e que um futuro risinho se seguiria: ou seria promovido a chefe ou receberia uma excelente indemnização; caso contrário, eles estavam mesmo tramados. Depois comentou que eu era genial, que fotos e vídeos depravados toda a gente os tem, mas uma colecção daquelas era brilhante para chantagear a família. Até porque o mais novo, o gajo selos, era o mais implicativo deles todos.
E resultou na perfeição.
Não só se tornou vice-presidente da empresa, como se transformou numa espécie de filho adoptivo do patrão, passando inclusivamente a constar no seu testamento. Hoje penso que o velho teria uma série de segredos mais negros do que os filhos. Talvez preferisse jogar snooker em vez de golfe ou não abdicasse de conduzir o seu próprio veículo em vez de requerer os serviços de um motorista. Só escândalos dos grandes, portanto. Todavia nunca cheguei a vasculhar, pois daí em diante eu passaria a ser um profissional no ramo e um gajo, para ganhar nome no mercado, necessita de sigilo e de um rigoroso sentido ético.
Ética é tudo, que o digam as gajas que me passaram pelas mãos. Nunca mencionei o nome delas. Que o diga a Sónia Marmeladas.
Rapidamente a palavra se espalhou. Tornei-me num dos melhores piratas informáticos do mundo.
Armas químicas na Síria? Há décadas que sei disso. Até sei que se encontram no meio do deserto e tudo.
A informação obtida por Julian Assange? Passei metade do que ele expôs em troca de uma gaja sueca, que são difíceis de encontrar.
O espião Edward Snowden? Apenas ficou famoso depois de eu me ter saturado de descobrir os segredos dos outros e me ter reformado de vez.
A pedofilia no Vaticano? Teria imprimido e enviado para os jornais a lista de padres e cardeais implicados, só que não tinha tinteiro que chegasse na altura, e, para ser sincero, sou um homem religioso.
A roupa interior do José Castelo Branco? Bem, isso deixou de ser segredo quando os media decidiram dar-lhe tempo de antena.
A verdadeira identidade do Batman? O Batman não existe, seus tolos, mas já comi a Catwoman. Mia que se farta.
Como disse, fartei-me desta vida e mais ainda quando me sentia perseguido pelos serviços secretos de todo o mundo. Falhados, se ao menos tivessem vida própria não andariam atrás de mim.


17/10/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS



JEREMIAS – PARTE V

 
Segurança nocturno foi outro dos empregos que tive. Era segurança numa discoteca famosa embora nunca tivesse possuído a certidão profissional para o efeito. Também quem é que nos ia fiscalizar? Ninguém se metia com um ex-campeão nacional de boxe nem com os instrutores de ginásios que por acaso eram igualmente praticantes de halterofilismo. Eu não era nenhuma dessas coisas mas eu não estava ali para segurar ninguém em particular, a não ser a minhas calças que teimavam em descer com tanta gaja boa que por ali passava. Havia gajas de todo o género: boas, muito boas, menos boas, assanhadas, caladas, espevitadas, desinibidas, coradas, descascadas, intrometidas, mancas, zarolhas, esquizofrénicas. Afinal toda a gaja tinha o direito de se divertir e eu tinha o direito de me contentar com a presença de toda a gaja.
Para ser sincero trabalhava ali para fazer número. Isto porque quando havia pancada, dois ou três colegas chegavam sempre em primeiro lugar ao local da ocorrência para desancar nos homens que lutavam que nem galos por um pedaço de estrogénio. Eu era sempre o último a chegar, para separar as amigas e as namoradas dos gajos encharcados em suor e sangue. Fazia sempre a mesma coisa. Levava-as a tomar ar, punha-lhes o meu blazer tamanho M - embora eu vestisse o XL - pelos ombros, fazia uma festa no cabelo e sussurrava que ia correr tudo bem. Por vezes tinha de chamar os meus colegas seguranças para impedir que elas me batessem. Mas de vez quando eu pescava uma faneca, ó se pescava.
Mas houve uma noite que deu à costa uma sereia. Cantava e tudo. Era filha de um magnata iraniano. Primeiro pensei que ela fosse de etnia cigana mas depois percebi que os seus gestos tinham muita classe e que não tinha sete putos ranhosos - com aquela bola de ranho verde que cresce com a expiração e diminui com a inspiração - a destruir o bar atrás de si. Ela até parecia a Christina Aguilera, se bem que mais morena e sem ter o cabelo pintado. Bem, na realidade não tinha nada a ver com a Christina mas eu sempre gostei dela, sinto-me lindamente ao pensar que as gajas eram parecidas.
Continuando, ela mexia-se como se estivesse sempre a fazer a dança do ventre, de tal forma que nessa noite fiquei estrábico e sem capacidade para distinguir a direita da esquerda. Então, numa clareira instantânea que se formou em seu redor, percebi que um gajo lhe havia apalpado o rabo. Eu galguei a multidão, agarrei o gajo, pus-me de joelhos e espetei-lhe uma cabeçada - era anão, ele. Sangue negro como petróleo jorrou do seu nariz. Ela por sua vez gritou que deixasse o seu amante. Chorei nesse instante como quando descascava cebolas ou assistia às reconciliações de famílias destroçadas na SIC. Fiquei chateado, porque não me tinha apercebido que o gajo existia até ao momento em que lhe enfiara a mão no traseiro, pois a discoteca estava à pinha e o gajo dava pela cintura dos clientes de estatura média. Depois ela deu-me um estalo. Eu passei a mão pela minha face e lambi a ponta dos dedos. Tinha visto o Bruce Lee fazê-lo uma vez e achei que tinha pinta. Ela deu-me outro estalo do lado oposto. E eu não repeti o gesto porque achei que seria maçador. Estivemos uns tempos olhando nos olhos um do outro até que vi estrelas ao sentir a cabeça do anão a enfaixar-se nas minhas partes íntimas.
Desmaiei.
Acordei numa cama no dia seguinte e tinham-me dito que havia perdido um testículo, que me tinham operado de urgência no hospital do iate privado do pai da minha sereia das Arábias, onde ainda permanecia.
No minuto que se seguiu ela veio visitar-me. Pediu desculpa pelo atrevimento do anão e explicou que ele seria atirado ao mar para dar alimento aos peixes no regresso a casa. Eu perguntei-lhe se isso não era uma medida extrema, que o gajo só estava a defender a sua fêmea.
Vi-lhe uma lágrima quando respondi dessa forma. Ela pôs a mão no meu peito e disse que eu era o homem da vida dela. Perguntei-lhe se esse sentimento se devia à forma como a tinha tratado. Ela assentiu e disse “possui-me”. Eu respondi “não posso”. Ela perguntou “porquê?”. Eu disse “porque perdi um testículo”. E ela “és homem ou não és?”. E eu “sou”. E ela “homem que é homem não perde uma oportunidade, afinal resta-te o outro testículo”. E eu “que gaja!”
Fizemo-lo.
Ainda hoje me pergunto como fui capaz. Provavelmente nunca conseguirei responder.
Mas não voltei a ser segurança nocturno.
Estivemos semanas a viajar no seu iate até atracarmos em El Salvador e o pai dela entrar a bordo. Apanhou-nos na cama e arrancou-me o outro testículo.
Hoje tenho berlindes no seu lugar, mas juro que nada mudou, que o digam as gajas que vou comendo.


10/10/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JEREMIAS – PARTE IV

Como sabem, trabalhei como empregado de limpeza num tribunal. Foi porreiro até, mas se nunca tivesse saído de lá não teria sido futebolista, repositor, super-herói, actor e polícia de trânsito. 
Há males que vêm por bem. Da mesma forma que não teria visto as gajas que vi, porque emprego é sempre sinónimo de gajedo. Não me levem a mal, gajas que me estão a ler. É, aliás, um elogio que faço à fêmea da espécie humana. Gajas são para mim como o sol é para os girassóis: onde quer que elas estejam eu volto-me sempre na sua direcção. E se a gaja for muito boa somos muitos girassóis. Mas eu sou sempre um girassol, seja que gaja for que atravesse o meu caminho, excepto se for uma gaja não gaja - não me queria repetir relativamente a este assunto, mas tenho de deixar esta situação bem clara.
Agora que penso nisto, maldito óleo de girassol, sempre que o vejo à venda sinto os meus tomates a serem triturados numa máquina qualquer. Felizmente isso ocorre apenas na minha cabeça.
Girassol-gaja-gaja-girassol.
Já se fartaram do tema? Não? Pois bem. Posto isto, claro que Van Gogh é o meu ídolo. Tentei ser pintor em tempos, mas não deu. Não havia pincel que desse azo ao meu talento e acabei por desistir. Relembrando o Van, fico com a certeza de que mutilou a orelha não por falta de girassóis mas devido à escassez de sol, ou seja, metaforizando, por falta de gajas, pois toda a gente sabe que o céu da Holanda está sempre nublado - se calhar nem os pintou em solo holandês, mas ele também não batia muito bem dos miolos. Às vezes as pessoas, quando visitam Amesterdão, pensam que está sol, mas isso não é sol, são as drogas a fazer efeito. E fala-se tão bem sob o efeito das drogas. Eu que o diga que depois ter salvo a ministra Graça fiz um discurso de três horas na sua festa de salvamento.
Ai a Graça... aquele cocktail químico ambulante... que saudades...
Mas dissertava eu acerca do meu emprego no tribunal.
Consegui-o numa altura em que não andava muito atarefado. Tinha-me fartado de ver os carros a passar, de espreitar as vizinhas lésbicas que moravam em frente, de contar o número de vezes que cada nalga de cada gaja que se exercitava no parque subia e descia com o ritmo da corrida, de passar à porta dos cabeleireiros na esperança de chocar contra uma brasileira e de danificar as rodas dos carrinhos dos supermercados para depois ver as gajas estamparem-se contra as prateleiras. Sabem, era muito estimulante vê-las a tentar dominar o carrinho como elas me tentam dominar enquanto ponho os meus músculos a trabalhar. Para além disso, as saias sempre levantavam um bocadinho e os decotes ficavam mais à vista. Em casos extremos eu até ia dar uma mãozinha.
Adiante.
Como andava entediado resolvi assistir a julgamentos. Um show. Como dizem que o primeiro é sempre o melhor, ou pelo menos o mais marcante, nunca o esqueci. O caso era sobre um gajo da Biquinha, chamado Jaime, que era defendido por uma gaja muito boa, a Rosalina, que mais tarde acabou por deixar o direito para se dedicar ao sexo na internet. Comi-a treze vezes, virtualmente, claro.
Nessa sessão o gajo passou-se e queria bater em toda a gente. Eu impedi-o, ajudando os agentes de segurança - foi quando descobri que queria ser polícia. Daí em diante passei a ser visto como um herói, ainda longe de ser super.
Passado uma semana fui contratado para empregado de limpeza. Isto porque não havia mais nenhuma vaga, porque senão dava-se um jeito e talvez pudesse chegar a ser secretário, guarda ou até mesmo juiz.
No entanto não tinha muito jeito para limpar, a não ser as gotículas de suor das gajas. Mas não podia usar a língua para remover o pó das cadeiras, dos computadores, dos arquivos e das mesas. Por isso fui-me desleixando.
Joguei à paciência na mesa do juiz, vesti as batinas enquanto assistia aos programas da manhã sem roupa por baixo, acedi aos e-mails dos doutores e namorei com a Rosalina à distância.
Ah e vasculhei pastas de casos encerrados ou por encerrar.
E isso foi divertido, deveras divertido.
As coisas que fiquei a saber... Qualquer dia abro o jogo, assim que arranjar emprego nos serviços secretos para que não me persigam. Mas posso levantar um pouco o véu. Descobri, por exemplo, que há suspeitas que a maçonaria foi criada em Mação e que o próprio George Washinghton - famoso mação - ia lá anualmente como outros vão a Fátima; que Fátima é considerada o centro do universo pelos alienígenas mais avançados; que a descendência da monarquia portuguesa é alienígena; que a monarquia não era liderada por um rei mas sim pelo seu animal de estimação; que os Estados Unidos da América são uma espécie de monarquia camuflada em democracia e que o tom de pele do actual líder é fruto de um acaso genético; que o cão de água português que vive na Casa Branca manda nesse país, logo manda no mundo.
Não digam a ninguém, mas acho que Portugal é mais do que aquilo que querem fazer crer.


03/10/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JEREMIAS – PARTE III


Como antes evidenciei, já fui super-herói em part-time. Foi até uma das profissões que antecedeu a minha carreira de actor. Nessa altura eu estava aflito de dinheiro, porque tinha de pagar ao Estado os IRS's em falta.
Era também, para além de super-herói, repositor da Matutano e futebolista da terceira divisão. Não me apetece falar da parte de ser repositor porque durante os meses em que trabalhei para essa empresa engordei outros tantos quilos, nem da minha também curta carreira de futebolista uma vez que tive uma lesão na cara que me impediu de ser um jogador de alto gabarito mundial. Bem, para ser sincero a lesão na cara não ocorreu no relvado, mas fora dele, e nem foi a lesão em si que me impediu de prosseguir. Lesionei-me porque o guarda-redes da equipa me apanhou a fazer-me à gaja dele e desfez-me um lado da cara, pelo que não voltei a treinar para não me desfazer o outro que se mantinha intacto. Felizmente recuperei num par de semanas.
Mas quando mantinha os três trabalhos em simultâneo era muito complicado. Tanto que nem dava para comer gajas, excepto a minha vizinha que era responsável pelo condomínio, a dona pantufas, como era conhecida - não que andasse sempre de pantufas mas pelo facto de todos os homens do prédio conhecerem as suas pantufas.
Ora vejamos, repunha durante a semana das 8h00 às 17h00. Tinha treinos às segundas, quintas e sextas das 21h00 às 22h30 e jogos aos domingos às 15h00. Precisava sempre do sono em dia para poder ser super-herói. Sendo que aos sábados folgava e aos domingos de manhã não falhava uma missa, eu era super-herói das 18h30 às 22h00, com pausa de uma hora para o jantar, às terças e quartas e aos domingos das 19h00 até às 20h00 quando jogávamos em casa, pois quando íamos jogar fora não dava para efectuar salvamentos.
Assim, não tinha muito tempo disponível para ser super-herói. No entanto fazia os possíveis. Cobrava ao minuto, como os camionistas cobram ao quilómetro. Tinha um site na net e tudo, assim como um número nas listas telefónicas. Era uma espécie de empresa unipessoal. Chamava-se “Pau para toda a obra”. Ainda tive uns contactos de gajos e gajas a perguntar quanto levava por uma massagem, mas logo lhes fazia ver que tipo de negócio era o meu. Mesmo assim, quando o assunto se tratava de calor a mais ainda apaguei alguns fogos.
Enquanto me dediquei de corpo e alma a essa profissão - mais de corpo porque ser super-herói não exige grandes miolos - fui imensamente feliz. Senti-me bem enquanto membro da sociedade e as pessoas tratavam-me com respeito. Ainda hoje me recordo dos títulos dos jornais, “super-herói distorce lençóis encharcados de velhinha com problemas respiratórios”, ou “homem mistério ajuda anão a carregar no botão do sétimo andar do elevador para que pudesse chegar ao consultório médico”, ou “super-herói ata os cordões das sapatilhas de bebé”. Houve muitas mais manchetes. Nisto estou grato aos media, que com tanta notícia para destacar deram ênfase aos meus feitos. Sonho até ser jornalista um dia e quem sabe não conseguirei?
No entanto, a minha salvação favorita foi quando impedi que uma árvore tivesse caído em cima de um mar de gente. Aconteceu num dia de tempestade e os relâmpagos eram às dezenas. Toda a gente dizia que se houvessem árvores naquela praça da cidade que cairiam em cima do povo. Eu tinha-as cortado com uma moto-serra na semana anterior para não ter de salvar os gatos que nelas trepavam, pois já havia sido chamado para três serviços e ainda não mos tinham pago. Salvei assim as pessoas das quedas das árvores, ainda que por antecipação. Isto porque havia um concerto da Ana Malhoa e, apesar da chuva imensa e dos trovões furiosos, ninguém arredava pé do local.
Depois também houve uma semana em que fui chamado para a Rússia para fazer um rescue - era assim que eu chamava ao serviço, pois fazia-me sentir como o Kevin Costner. Ocorreu em Moscovo. Pairava uma dúvida no ar nos membros do parlamento moscovita. Havia uma gaja que era muito boa. Não era uma gaja qualquer, mas sim uma gaja-gaja. Era assessora de imprensa. Mas o pessoal de lá achava que ela tinha uma voz muito grossa. Diziam eles que se encontrava possuída pelo Demo. Queriam por isso que eu a salvasse das trevas. Perguntei-lhes por que se ralavam, ao que me responderam que a gaja era boa demais para ser devorada por um gajo com cornos na cabeça e pés de bode, que no mínimo um deles se deveria encarregar da tarefa pessoalmente. Vi uma foto e não pude deixar de concordar. Em seguida questionei porque me tinham contactado. Eles riram e explicaram que tinha sido o único a aceitar o desafio.
O resto foi rápido. Conheci-a no bar de um hotel. Obviamente ela não resistiu aos meus encantos, afinal um português é sempre um português esteja onde estiver. Bebemos vodka e logo entendi que à medida que emborcava cada vez falava mais grosso. Cheguei à conclusão que era devido à bebida que falava assim, que afinal o diabo não a havia possuído. Mas, falando em possuir, eu tinha de fazer algo mais, apesar de já ter encontrado o motivo. Se estivesse no meu estado normal teria saído dali e dado o meu relatório aos russos do parlamento. Todavia a vodka havia-me dominado.
Subimos para o quarto e despimo-nos. Depois apercebi-me do meu terrível erro. Tentei fugir mas levei com o gargalo de uma garrafa nos dentes. Perdi as forças e também o canino direito. Enquanto fui dominado jurei que aquele seria o último rescue da minha vida.
No dia seguinte, antes de regressar, disse aos russos que o tom grave da sua voz não se devia a Satanás, mas sim, em parte, à quantidade de vodka que ingeria e, fundamentalmente, ao facto de a gaja não ser, afinal, uma gaja.


26/09/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JEREMIAS – PARTE II

Sim, fui actor. E dos bons, bons para tornar as cenas más e assim destacar quem tinha algum talento.
Não o fui durante muito tempo. Mas foi uma experiência enriquecedora. O lugar ideal para conhecer gajas boas.
Fiz, durante a minha curta carreira, uma telenovela e dois anúncios.
Primeiro foram os anúncios.
Um sobre uma marca italiana de carteiras masculinas. Bem, não eram italianas, eram de Rio Tinto, mas o logótipo tinha as cores de Itália. Então, eu fui o protagonista - sempre me consideraram bonito e musculado e as pessoas davam valor a isso. As filmagens demoraram mais tempo do que o previsto, pois o guião não era fácil de memorizar. Mas esse atraso não se deveu a mim! Foi por causa minha colega de trabalho. Então era assim: eu saía de um café localizado na ria de Aveiro - se bem que parecia ser Veneza - todo cheio de estilo e com um andar determinado e a certa altura ela corria atrás de mim; metia-me a mão no ombro e sorria enquanto eu a olhava abismado; ela entregava-me uma carteira e dizia “esqueceste-te dela”; eu pegava no objecto que me pertencia e na sua mão e respondia “obrigado, não sabia o que fazer sem ela”; e ela “agora já sabe, pode pagar-me o almoço”. Depois a câmara focava os nossos dedos tocando-se e, claro, o logótipo da carteira. Cheguei a fazer-me a essa actriz, mas não era o meu tipo de gaja, se é que me entendem.
O segundo anúncio que fiz eu não falei. Limitava-me a exibir o meu porte atlético. Tratava-se de uma filmagem sobre uma clínica geral privada. Numa analogia a tempos idos, eu conduzia a carruagem que levava o médico a casa da donzela. Por isso limitava-me a gritar com os cavalos e a agitar as rédeas.
Só depois chegou o papel onde se tornou evidente a minha verdadeira classe, aquele acerca do qual me posso orgulhar.
Conhecem a série 'Morangos com Açúcar”? E o “Inspector Max”? Pois bem não era nenhuma delas. Tratou-se de uma telenovela da concorrência que não queria ser nem uma nem outra, mas antes uma mistura de ambas.
Em que consistia? Bem, era uma coisa extremamente inovadora!
Tudo era rodado num colégio privado, chamava-se 'Colégio da Cacharroada'. Vai daí, os personagens consistiam numa série de adolescentes, uns ricos e mimados, outros delinquentes de puro sangue. Isto foi algo que sempre admirei, um espaço onde os pobres tinham a capacidade para estudar no mesmo local que os ricos. Mas a parte gira era que os delinquentes praticavam o bem e eram amigos das amigas e os ricos roubavam os professores e faziam-se às empregadas do bar. E onde entra o “Inspector Max” nesta história? Pois. É que os estudantes do colégio eram cães, em vez de miúdos ou actores de 27 anos que, embora ninguém acreditasse, representavam papéis nos quais tinham 13.
Foi de facto uma excelente série de ficção. Era um luxo poder assistir ao desfile de cadelas de mini-saia e de cães com relógios da moda, carregando cadernos debaixo das patas e capacetes das scooters suspensos numa unha. Havia lutas cheias de uivos e rosnadelas, amassos envolto de pêlo e discussões aos latidos.
A sua exibição foi um êxito. Os três episódios gravados foram vistos por uma quantidade de gente superior ao número de habitantes de Santiago de Subirrafana.
Claro que após a passagem do primeiro episódio houve telespectadores a queixarem-se que não entendiam patavina do que os actores diziam. A produção contrapôs, argumentando que eram animais com Pedigree, de raça pura como bullmastiffs, pointers, setters ou chihuahuas. Até havia um campeão ibérico e que era o macho lá do sitio. Ainda assim o segundo e o terceiro episódios acabaram por ser transmitidos com legendas.
E o que fazia eu no enredo? Não, não fazia de cão. Fi-lo na festa de inauguração da telenovela, vestindo um fato cheio de pêlo que na altura foi alugado ao Canal Panda. Mas nas filmagens eu fazia de médico. Veterinário, aliás. Era o veterinário sexy e desejável e as cadelas adolescentes fingiam estar doentes para que pudessem ser socorridas por mim. Depois vinha aquela parte pedagógica em que eu não podia envolver-me com elas porque, para além de serem menores, eu pertencia a uma espécie diferente da delas, logo um futuro em conjunto seria inviável e até impossível.
Para além de mim, havia outra actriz humana. Era a avozinha adoptiva do tal cão premiado. Aprendi muito com ela nos bastidores, principalmente que ser actor não leva a lado nenhum. “Eu que o diga”, comentava ela com pesar “vê lá que tive de me sujeitar a fazer esta bosta de telenovela para poder pagar as contas”.
Nesse dia em que ela me contou isso chorámos em conjunto mesmo antes de nos termos comido.
Foi aí que decidi que ser actor não me levaria a lado nenhum.

19/09/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS



CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

JEREMIAS – PARTE I

Olá. Sou o Jeremias. Falta-me um dente canino e tenho lábios grossos. Fora isso sou parecido com o Johnny Bravo. Sabem quem é, não sabem? Aquele que se penteia muitas vezes, que encontra posições supostamente naturais para salientar os músculos e que diz que come as gajas todas quando apenas o faz no interior do seu cérebro de galinha. Bem, existem três diferenças entre mim e o Johnny: sou real, como as gajas que digo que como e não tenho um cérebro de galinha.
Como se recordam, eu salvei a ministra Graça das garras do povo. Não que isso fosse a minha tarefa, mas não gosto de ver injustiças. Onde é que já se viu as pessoas quererem fazer justiça com as próprias mãos? Isto não se faz! E eu sei do que estou a falar porque já fui juiz. Bem, na verdade fui o gajo que limpava a mesa do juiz antes do início da primeira sessão, mas fiz muitas vezes de conta que era juiz.
Adiante. Salvei a Graça e com muito orgulho.
Mas não estou aqui para falar dela. Estou aqui para falar de mim. E o que me caracteriza? Pois. Eu sou o gajo dos mil-ofícios.
E como houve por aí um moço de nome muçulmano que falou da sua vida de trás para a frente, eu vou fazê-lo de forma inversa relativamente à minha carreira profissional.
Pois bem.
Hoje em dia sou polícia de trânsito.
E o que faz um polícia de trânsito? Faz muita coisa ao contrário do que possam imaginar.
Para começar, faço aquilo que costumava fazer nos outros ofícios: avalio gajas. Gajas de todo o tipo de gaja. Claro que sou mais simpático para as gajas que são o meu tipo de gaja do que para aquelas que não o são. E qual o meu tipo de gaja? Bem, a verdade é que me satisfaço com todo o tipo de gajas, excepto as gajas que se fazem passar por gajas mas que na verdade são gajos. Já apanhei uma dessas em Moscovo, numa viagem quando trabalhava noutro ramo e, acreditem, não é uma boa sensação. É como pensar que vamos comer - comer alimentos, não gajas - um bolo fresco e de repente damos uma dentada e verificamos que ele se encontra congelado no meio. Do pior, meus amigos, não experimentem. E eu sei do que estou a falar. Foi assim que parti o meu canino.
Bom, para além disso, mando parar os carros que são suspeitos, para além dos que têm gajas boas, e também gajas que não sejam boas, já agora. Também substituo semáforos avariados de vez em quando, algo que odeio porque me faz sentir um objecto.
Também faria parte das minhas tarefas perseguir carros em excesso de velocidade ou cujos donos estejam em incumprimento com a lei. Só não o faço porque sou sensível do estômago. Assim, sempre que o meu colega - sim, tenho um parceiro de vez em quando e que conduz a viatura quando não ando na rua a fazer de poste tri-colorido - percebe que terá de acelerar para perseguir alguém, pára o carro, deixa-me na berma, vai à sua vida e depois regressa para me apanhar quando o serviço foi feito. E o que faço enquanto ele anda a brincar à “Velocidade Furiosa”? Quatro coisas: fotografo com o telemóvel as primeiras dez gajas que se atravessam no meu caminho, bebo uma cerveja fresca esteja sol ou esteja frio - ou vou ao café ou saco a arca hermética que anda sempre na mala do carro que quando ele demora muito até serve de banco-, faço o sudoku do dia e rezo dez Pais-Nossos - dantes rezava ao acordar, mas com este trabalho levanto-me muito cedo.
E é esta a minha vida de polícia de trânsito. Não passo multas, não detenho ninguém, não faço relatórios e não mantenho a ordem. Não faz parte do meu perfil sociológico esse tipo de coisas.
Na verdade nem sei como vim parar à polícia de trânsito. Quer dizer, até sei. Foi por causa de Beatriz, aquela boazona! Ela era uma gaja-polícia e eu necessitava de estar perto dela. Foi bom o nosso amor enquanto durou. Foram três dias fabulosos.
Ela amava-me profundamente, até por ter mexido uns belos cordelinhos para me arranjar este emprego como agente da autoridade. Terminámos a nossa relação quando descobri que ela tinha dormido com o chefe. Vadia. Um gajo está sempre a aprender com a vida e principalmente com as gajas. Hoje nem sei onde ela anda. Deve ter sido colocada noutra esquadra.
Mas ainda hoje conservo os Ray-Ban que ela me deu, iguaizinhos aos que o Steve McQueen usava num filme em que era o gajo mais duro do planeta.
E porque falo do Steve McQueen? Porque ele era o meu ídolo, uma inspiração, que me levou a procurar o meu lugar no mundo da representação mesmo antes de ser polícia de trânsito.