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20/02/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MADALENA – PARTE III


Depois de ter deixado o ciber café, já ele estava iluminado, desci a rua em direcção à praça central.
Já começava a escurecer, mas ainda assim detectei uma nuvem fofinha em forma de ursinho de peluche, igualzinha ao meu Teddy que dorme comigo todas as noites. É um querido, o Teddy, é cor-de-rosa e tem uns olhos pedinchões, nada condizentes com o gancho que ele roubou ao capitão que passa a vida a azucrinar a cabeça ao Peter Pan, nem com a perna de pau que tive de lhe colocar quando perdeu a perna esquerda numa queda da cama. É um bocadinho esquizofrénico, ele. Quando estou acordada é meiguinho comigo, mas assim que adormeço farta-se de fazer asneiras. Com jeitinho ainda vai espancar a minha mãe outra vez, agora que saí de casa.
Ao alcançar a praça, avaliei o espaço. Havia duas esplanadas vazias de gente. Os lampiões iluminavam o centro que possuía uma estátua do benfeitor da região, agora na prisão por fraude fiscal, abuso de poder, ocultação de provas, tentativa de fuga, tentativa de homicídio e falta de pagamento do condomínio e de dois refrigerantes no bar da câmara municipal da capital. Não se via vivalma, à excepção de um homem e de duas sombras.
Ele tinha um lenço envolvido na cabeça e gritava palavras de ordem contra um poder invisível. Havia também, num canto, três polícias que riam dele e gesticulavam na sua direcção. Por vezes até lhe atiravam umas pedritas para gargalharem em seguida. Contudo ele não reagia à provocação. Nisso admirei-o. Ele parecia mesmo revoltado. Depois ia e vinha, provocando alguém e fugindo no momento seguinte, como se esse alguém tencionasse responder aos seus impropérios.
Depois acabei por me chegar a ele e foquei-o, sem conseguir todavia captar as duas sombras que o rodeavam.
“És o Moustafa, não és?”
“Sou. Quem pergunta? És da CIA, não? Eu sabia que iam mandar um anão para me capturar!”
“Não sou anã, sou apenas uma miúda.”
“Isso trata-se de uma inovação! Muito bem, CIA. Um modo de operar inesperado.”
“Olha lá, contra quem te revoltas?”
“Contra o mundo.”
“Mas não está ali ninguém.”
“Na vida aprendi que é a mesma merda revoltarmo-nos contra ninguém ou contra toda a gente. Sou do contra e ponto final. Para além disso, descobri que não percebo um caralho de Geografia. E por isso fui despedido.”
“Estou a ver.”
“E agir contra ninguém é mais seguro, ao menos não apanho bastonadas.”
“Claro. E essas sombras?”
“Não trates mal a Maria e o Bruno, sua fedelha. Eles têm vida própria.”
“Pois.”
“Mas afinal quem és tu?”
“A morte.”
“Não és muito nova para isso?”
“Nada disso. A morte não tem idade.”
“Andas a ver muitos filmes.”
“Nos filmes não ensinam as crianças a usar uma mala da Sininho como arma de estrangulamento como vou fazer com esse teu pescoço fino e curto.”
“Estou dentro da média, sua fedelha.”
“Sabes qual a média da dimensão dos pescoços?”
“Ah, era do pescoço que estavas a falar...”
“De qualquer forma estavas dentro da média, porque em breve deixarás de existir.”
“Mas porque é que me queres matar? Não me digas que foi o padre Cardoso que te enviou? Ele também é da CIA, não é?”
“Enviou, de facto. Mas a minha tia também.”
“A tua tia?”
“Sim, a Julianinha, aquela a quem tu fazias a vida negra quando eram garotos.”
“A Julianinha? Como está ela?”
“Morreu engasgada ao comer umas coxas de rã na rua Rivoli em Paris.”
“Rãs? Odeio rãs e sapos.”
“Eu sei.”
“Vais, portanto, matar-me por ter feito a vida negra à tua tia?”
“Não propriamente. Antes de morrer, ela disse-me para te procurar e para te transmitir que te perdoava por todo o mal que lhe causaste.”
“Então porque me queres matar?”
“Porque o meu psiquiatra diz que eu faço tudo ao contrário. Quando me dizem um sim, eu ouço um não.”
“E o que tem isso a ver com o assunto?”
“Bem, eu odeio-o, por isso amo-o. Logo não o quero desiludir. Assim, tendo assumido a minha tia que te perdoa, o que ela quer é que te mate.”
“Não faz sentido.”
Encolhi os ombros, certa de que nem tudo na vida fazia sentido e agarrei a alça da mala da Sininho com ambas as mãos.


05/12/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CARDOSO – PARTE III


Já viram um filme sobre um editor que decide lançar um autor em Nova Iorque, prometendo-lhe alcançar o topo da tabela do New York Times em escassos meses? Nunca viram? Nem eu. Mas decerto deve haver algum que conte uma história dessas, não acham? Daqueles com um orçamento inferior ao que eu ganho num ano e protagonizado por actores em fase descendente na carreira e actores novos que julgam possuir um talento que lhes permite fazer algo mais do que um simples videoclip musical sem diálogos de um cantor ainda menos famoso do que o próprio actor?
Tenho a certeza que deve haver um filme desses por aí. Se houver digam-me. Liguem para a linha de apoio dos padres aflitos e peçam para falar com a Doroteia que ela dar-me-á o recado pessoalmente. Mas telefonem apenas entre as 15H e as 17H, às terças e sextas, que é o único tempo que ela dispõe para fazer trabalho de caridade.
Ora bem. Nunca vi esse filme, mas sonhei com ele.
E, adivinhem, quem desempenhava o papel de escritor nesse meu sonho-filme? Não, não era eu. O escritor era o Bocas. Sabem quem é? Aquele d' As Aventuras do Bocas, o boi marado que não pára quieto na sua quinta. Na verdade o Bocas era um excelente autor. Falava sobre campos e acerca do contraste entre a cidade e o meio rural, um tema muito invulgar e cada vez mais raro por aí...
Bom, sendo o Bocas o escritor, quem acham que era o editor? Não, o editor não era o Tartaruga Genial do Dragon Ball. O editor era eu, pois claro.
E, no meu sonho-filme, eu não aparecia vestido de negro, à padre, nem de branco, à padre em horário de missa. Eu vestia-me à hippie e falava de um modo muito populista e teen para a minha idade.
Então tinha conhecido o Bocas porque ele andava pelas tertúlias assumindo que tinha um manuscrito genial. Pelo menos ia às tertúlias que eram realizadas em espaços abertos porque ele não conseguia passar pelas ombreiras das portas - o Bocas é bovino para pesar mais de meia tonelada.
Mal o vi acreditei logo nele. Tinha qualquer coisa, ou talvez me tivesse captado a atenção por o ter reconhecido da televisão. Mas logo no dia em que o conheci disse-lhe que o texto que me dera para ler era demasiado bom para ser dactilografado por um amador. Ele, orgulhoso, jurara pelos seus cornos que tinha sido ele mesmo a fazê-lo. Pedi-lhe que me provasse o que dizia. Fomos para a minha casa, sentei-o diante da minha secretária apetrechada com a máquina de escrever e disse-lhe 'senta-te e escreve, meu bom filho'. Ele sentou-se e a coisa que escreveu foi o seguinte: 'maohds jkljda ljkldajn'.
Demorei algum tempo a avaliar. Perguntei-lhe se aquilo era sueco - parecia sueco. Eu tinha lido Stieg Larsson na língua original e, embora não percebesse patavina de sueco, pareceu-me ver ali alguma semelhança. Ele respondeu que não. Explicou então que, em casa, escrevia num computador gigante e adaptado, com teclas do tamanho de chávenas de chá, pois possuindo cascos daquele tamanho não conseguia escrever com a precisão idealizada.
Dei uma pancada no dorso do Bocas e disse-lhe que não se preocupasse, que faria dele número 1 do top do New York Times. Ele mugiu tão alto de alegria que eu despertei desse sonho-filme espectacular que vivia.
Levantei-me e disse para mim mesmo: 'daqui em diante serei editor. Vou realizar os sonhos dos jovens desta cidade!'
Eram quase 11H e fui de pijama para a missa. Vesti a batina por cima do pijama cheio de baba seca e dei início à sessão.
Estavam lá duas dezenas de pessoas. Mirei-os e disse:
“Antes de orarmos ao Senhor, vou fazer uma perguntinha. Quem daqui tem o sonho de ser um escritor?”
Ninguém respondeu. Então, liguei as colunas da igreja e carreguei no play da aparelhagem que estava pousada por baixo do altar. Uma voz sombria e impactante - a voz de Deus, caso ninguém tenha percebido - deixou no ar a mesma pergunta que eu havia feito.
Todos puseram os dedos no ar, até eu, que me deixei levar pela emoção. Analisei os paroquianos e mandei que os analfabetos, os tesos, os bebés e aqueles que morreriam dali de três meses baixassem as mãos.
Sobravam três. Três aspirantes a escritores diante de mim, que possivelmente levaria à glória e a qualquer livraria do país.
Perguntei ao primeiro, um velho de setenta anos mas com uma boa reforma, sobre o que queria escrever ele. Respondeu que tinha uma ideia havia uns anos, onde um extraterrestre que afinal não era um extraterrestre mas sim um humano vindo do futuro, regressaria ao passado para engravidar a avó, quando era nova, e, assim, torná-lo a ele um ser todo-poderoso, capaz de combater com sucesso uma terrível força alienígena - esses sim mesmo extraterrestres obviamente - que atacaria o planeta Terra no seu tempo. Disse-lhe que aquilo parecia demasiado real para uma ficção, pelo que o expulsei da igreja, dizendo-lhe que para voltar teria de ser novamente baptizado, pagando, claro, a gratificação pela cerimónia.
O segundo tratava-se de um homem de meia-idade que inventou no momento uma história romântica entre um casal. Ela seria sado-masoquista e ele um leitor compulsivo dos escritos de Sade. Contudo, nenhum deles estava inteirado acerca dos gostos do outro. Até que um dia as suas mentes se fundiriam numa relação tórrida e viveriam felizes para sempre caso a empresa produtora de roupa de cabedal não tivesse falido. Perguntei-lhe se tinha dinheiro para pagar a edição assim como os meus honorários, que era uma coisa normal no meio que eu tão bem conhecera durante o meu sonho-filme. Ele disse que tinha acabado de pagar a boda de casamento da filha e que de momento não tinha grande disponibilidade. Ordenei-lhe que voltasse quando a sua conta bancária crescesse.
A terceira aspirante era uma mulher de uns cinquenta anos. Perguntei-lhe a história que queria contar. Ela disse que podia ser a dela. Casara com o dono da mercearia e perdera a virgindade com ele. Desde então copulavam todos os domingos depois de ver o programa da tarde do canal que transmitia a festa mais atractiva. E era isso. Questionei-lhe se a mercearia tinha dívidas. Ela disse que não. Contratei-a nesse mesmo momento, ou melhor, contratou-me ela a mim.
Daí em diante teria de mandar tudo para a gráfica e roubar uma capa nas imagens do windows. Não ficou muito caro à senhora, a Josefina. Aliás, seria uma ninharia comparando com o que ganharia quando eu fizesse dela uma escritora famosa.


03/10/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JEREMIAS – PARTE III


Como antes evidenciei, já fui super-herói em part-time. Foi até uma das profissões que antecedeu a minha carreira de actor. Nessa altura eu estava aflito de dinheiro, porque tinha de pagar ao Estado os IRS's em falta.
Era também, para além de super-herói, repositor da Matutano e futebolista da terceira divisão. Não me apetece falar da parte de ser repositor porque durante os meses em que trabalhei para essa empresa engordei outros tantos quilos, nem da minha também curta carreira de futebolista uma vez que tive uma lesão na cara que me impediu de ser um jogador de alto gabarito mundial. Bem, para ser sincero a lesão na cara não ocorreu no relvado, mas fora dele, e nem foi a lesão em si que me impediu de prosseguir. Lesionei-me porque o guarda-redes da equipa me apanhou a fazer-me à gaja dele e desfez-me um lado da cara, pelo que não voltei a treinar para não me desfazer o outro que se mantinha intacto. Felizmente recuperei num par de semanas.
Mas quando mantinha os três trabalhos em simultâneo era muito complicado. Tanto que nem dava para comer gajas, excepto a minha vizinha que era responsável pelo condomínio, a dona pantufas, como era conhecida - não que andasse sempre de pantufas mas pelo facto de todos os homens do prédio conhecerem as suas pantufas.
Ora vejamos, repunha durante a semana das 8h00 às 17h00. Tinha treinos às segundas, quintas e sextas das 21h00 às 22h30 e jogos aos domingos às 15h00. Precisava sempre do sono em dia para poder ser super-herói. Sendo que aos sábados folgava e aos domingos de manhã não falhava uma missa, eu era super-herói das 18h30 às 22h00, com pausa de uma hora para o jantar, às terças e quartas e aos domingos das 19h00 até às 20h00 quando jogávamos em casa, pois quando íamos jogar fora não dava para efectuar salvamentos.
Assim, não tinha muito tempo disponível para ser super-herói. No entanto fazia os possíveis. Cobrava ao minuto, como os camionistas cobram ao quilómetro. Tinha um site na net e tudo, assim como um número nas listas telefónicas. Era uma espécie de empresa unipessoal. Chamava-se “Pau para toda a obra”. Ainda tive uns contactos de gajos e gajas a perguntar quanto levava por uma massagem, mas logo lhes fazia ver que tipo de negócio era o meu. Mesmo assim, quando o assunto se tratava de calor a mais ainda apaguei alguns fogos.
Enquanto me dediquei de corpo e alma a essa profissão - mais de corpo porque ser super-herói não exige grandes miolos - fui imensamente feliz. Senti-me bem enquanto membro da sociedade e as pessoas tratavam-me com respeito. Ainda hoje me recordo dos títulos dos jornais, “super-herói distorce lençóis encharcados de velhinha com problemas respiratórios”, ou “homem mistério ajuda anão a carregar no botão do sétimo andar do elevador para que pudesse chegar ao consultório médico”, ou “super-herói ata os cordões das sapatilhas de bebé”. Houve muitas mais manchetes. Nisto estou grato aos media, que com tanta notícia para destacar deram ênfase aos meus feitos. Sonho até ser jornalista um dia e quem sabe não conseguirei?
No entanto, a minha salvação favorita foi quando impedi que uma árvore tivesse caído em cima de um mar de gente. Aconteceu num dia de tempestade e os relâmpagos eram às dezenas. Toda a gente dizia que se houvessem árvores naquela praça da cidade que cairiam em cima do povo. Eu tinha-as cortado com uma moto-serra na semana anterior para não ter de salvar os gatos que nelas trepavam, pois já havia sido chamado para três serviços e ainda não mos tinham pago. Salvei assim as pessoas das quedas das árvores, ainda que por antecipação. Isto porque havia um concerto da Ana Malhoa e, apesar da chuva imensa e dos trovões furiosos, ninguém arredava pé do local.
Depois também houve uma semana em que fui chamado para a Rússia para fazer um rescue - era assim que eu chamava ao serviço, pois fazia-me sentir como o Kevin Costner. Ocorreu em Moscovo. Pairava uma dúvida no ar nos membros do parlamento moscovita. Havia uma gaja que era muito boa. Não era uma gaja qualquer, mas sim uma gaja-gaja. Era assessora de imprensa. Mas o pessoal de lá achava que ela tinha uma voz muito grossa. Diziam eles que se encontrava possuída pelo Demo. Queriam por isso que eu a salvasse das trevas. Perguntei-lhes por que se ralavam, ao que me responderam que a gaja era boa demais para ser devorada por um gajo com cornos na cabeça e pés de bode, que no mínimo um deles se deveria encarregar da tarefa pessoalmente. Vi uma foto e não pude deixar de concordar. Em seguida questionei porque me tinham contactado. Eles riram e explicaram que tinha sido o único a aceitar o desafio.
O resto foi rápido. Conheci-a no bar de um hotel. Obviamente ela não resistiu aos meus encantos, afinal um português é sempre um português esteja onde estiver. Bebemos vodka e logo entendi que à medida que emborcava cada vez falava mais grosso. Cheguei à conclusão que era devido à bebida que falava assim, que afinal o diabo não a havia possuído. Mas, falando em possuir, eu tinha de fazer algo mais, apesar de já ter encontrado o motivo. Se estivesse no meu estado normal teria saído dali e dado o meu relatório aos russos do parlamento. Todavia a vodka havia-me dominado.
Subimos para o quarto e despimo-nos. Depois apercebi-me do meu terrível erro. Tentei fugir mas levei com o gargalo de uma garrafa nos dentes. Perdi as forças e também o canino direito. Enquanto fui dominado jurei que aquele seria o último rescue da minha vida.
No dia seguinte, antes de regressar, disse aos russos que o tom grave da sua voz não se devia a Satanás, mas sim, em parte, à quantidade de vodka que ingeria e, fundamentalmente, ao facto de a gaja não ser, afinal, uma gaja.


03/09/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS



CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


GRAÇA – PARTE III

(Nota: qualquer semelhança entre o conteúdo deste texto e a realidade continua a ser, indiscutivelmente, pura coincidência)
 
Olá, meus queridos eleitores! Como estão hoje?
Hm, sabem? Daqui em diante não me apetece bajular quem quer que seja. E mais! Passarei a cumprimentar toda a gente como o faço na minha cabeça, deixando de recorrer ao politiquez.
Ou seja, nós, políticos, temos um código especial, uma espécie de encriptação para comunicarmos com o povo embora nada daquilo que dizemos seja aquilo que pensamos. Vai daí que desde tempos remotos que os políticos falam politiquez quando as pessoas pensam que são apenas aldrabices. Mas na verdade não se trata disso. Todo o cidadão que nos ouve deduz que somos estúpidos. Mas não! Somos tudo menos isso, ou pensam que qualquer um pode ser político? Nem por sombras! É necessário muito estofo.
Então, foi criado uma espécie de código, que faz com que simples frases dirigidas ao público ou que possam ser escutadas por este tenham um duplo sentido. Assim, o segundo sentido, o obscuro e verdadeiro, é unicamente interpretado por outros políticos.
Isto é, comunicamos entre nós, quando vocês, eleitores, pensam que a mensagem é dirigida ao país.
Genial, não é? Pois, nós políticos somos geniais.
E até posso dar exemplos, embora não vá decifrar todo o enigma, caso contrário seríamos transparentes. E isso é coisa que um político nunca pode ser.
Ora, é comum nós utilizarmos a palavra 'Caro'. Como caro cidadão ou assim. Pois na realidade caro em politiquez significa 'badocha'. 'Cidadão' significa 'esquerda' e 'eleitor' 'direita'. Logo, dependendo da utilização do termo, quando proferimos esses 'caro cidadão' ou 'caro eleitor', queremos antes dizer 'badocha de direita' ou 'badocha de esquerda', consoante, logicamente, a orientação política do gajo a quem nos queremos dirigir. E assim por diante. Quando dizemos 'caro eleitor, tudo faremos para salvar o governo', a conversão leva à seguinte interpretação entre nós: 'badocha de esquerda, quero comer uma sandes de presunto'. Portanto, quando alguém diz isto, em vez de prometer ao povo uma saída para uma eventual crise, estamos a combinar um lanchinho no tasco do Rocha - que não é o da assembleia porque aí pagamos IVA, logo sai mais caro.
Quando gritamos 'viva Portugal', decifrando dá: 'tenho fome'. E 'vocês sabem que isso não passam de calúnias', quer dizer: 'cala-te já porque me estás a entalar'.
Se analisarmos bem, 'presunto' corresponde a 'governo', digamos a parte nobre da peça de um porco. 'Portugal' significa 'fome'. Não sei quem foi o badocha que inventou esta última ligação, mas terá de ser mudada porque é demasiado óbvia.
Adiante que estudei muito para saber falar politiquez e isto não se ensina de um dia para o outro.
Sabem onde estive esta manhã? Pois bem. Eram 8H59 e aguardava ansiosamente o toque da campainha ridícula para entrar no parlamento.
Quando soou dirigi-me à entrada da sala. Era a primeira vez que invadia o espaço por isso fiquei muito emocionada. Depois ocupei o meu lugar assim como os meus colegas ministros. A oposição ria nos corredores, mas quando se sentaram todos esboçaram rostos fechados e expressões furiosas. Alguns ministros falaram, assim como o primeirinho ministrinho. E depois, o meu coração parou. Um deputado dirigiu-se a mim, num tom grave e recorrendo a gestos teatrais que indicavam uma certa indignação. Quando o ouvi pronunciar a palavra Graça fiquei nervosa. Sabia que ia ter de discursar em seguida.
E no meio da sua intervenção captei a mensagem. No meio porque nem tudo se trata de uma mensagem subliminar, claro. Antes e depois de a transmitirmos utilizamos a palavra-secreta que não vou aqui dizer, obviamente.
Bla bla bla...
'Ministra Graça, precisamos de inovar e levar o ensino em Portugal a bom porto. Os nossos alunos merecem o melhor que este país tem para lhes oferecer.'
Bla bla bla...
Aquilo apanhou-me desprevenida e tive de recorrer ao dicionário de politiquez - uma edição de bolso que ia na 17º edição - para converter uma ou outra palavra. Por fim, traduzi: 'Querida Graça, adoro a forma como expões o teu belo presunto principalmente quando caminhas. Como a esposa tem tuberculose ando com uma fome do caraças, quero comer-te.'
Sorri ainda mais, mas fiz também ar de chateada para disfarçar. Levantei-me e falei, segura de mim.
Bla bla bla...
'Caro deputado, são esses problemas que tencionamos resolver.'
Bla bla bla...
Escutei-o engolir em seco do outro lado do Parlamento. A minha resposta estava dada: 'Badocha impotente, perde uns quilinhos que depois falamos.'
Depois a sessão terminou e encontramo-nos todos no tasco do Rocha.


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16/05/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE III


Eu tenho um grave problema com sapos. Nunca o assumi frontalmente até agora, como nunca o fiz com outras coisas, como por exemplo... Ah, não posso dizer, não é? Ao dizer que não assumirei bruno e a Maria não posso dar exemplos, não é? Raios! Lá ia eu cair na esparrela outra vez. Pensa, Moustafa, pensa! Inspira, expira, inspira, expira.
Pronto, já está. Frontal, confere. Sapos, confere. Ainda hoje gosto de brincar com Nenucos, conf... Raios. Esqueçam a última afirmação.
Sapos. Sapos. Sapos. Sapos.
Dizia eu que odeio sapos. É uma história antiga, mas ainda hoje me arrepio quando os vejo ou penso neles. Por isso não me aproximo dos rios, nem das arcas congeladoras dos supermercados e nunca, mas nunca, vejo canais de bonecada nem sobre a vida selvagem. E, obviamente, sou muito cuidadoso a visualizar as páginas da internet.
Isto sucede não por causa de um episódio, mas devido a vários. A questão é terem ocorrido na mesma altura, em simultâneo. Aliás, aconteceu tudo no mesmo dia.
Eu tinha 12 anos. Era o meu primeiro dia na escola preparatória - sei que agora tem outro nome, mas naquela altura era assim que se chamava - e eu ia todo contente no carro do meu pai. OK. Antes de prosseguir, eu respondo. Sim, já tinha 12 anos quando mudei de escola. Chumbei duas vezes na primária - que também já não se chama assim - se bem que a culpa não foi minha! Não aconteceu porque fosse O-R-R-U-B. Só que o azar funcionou contra mim. Na primeira vez que reprovei, na primeira classe - já sei que já não é classe - pensei que as letras se liam como números e que se faziam contas com as letras. Foi uma confusão, digamos que eu estava mais avançado que os meus colegas e via as coisas numa dimensão distinta para que aquela professora me pudesse compreender - afinal, o que sabem eles? A segunda vez que chumbei foi na terceira classe. Não gostava da professora, logo tentei fazer-lhe ver que ela era uma porcaria de mulher. Não lhe fiz a vida negra porque não faço a vida negra a ninguém, mas queria mostrar-lhe o meu ponto de vista. Quando ela não o quis ver, aí sim, fiz-lhe a vida negra. Quer dizer, eu não, mas a Maria e o Bruno fizeram-na por mim. Pois, a Maria e o Bruno também chumbaram. A primeira ocasião por solidariedade, a segunda por retaliação da professora, como no meu caso.
Onde ia eu? Onde ia eu? Ah! Sapos!
Nesse dia de aulas, o meu pai levou-me no seu Citroen, boca de sapo. Logo meia dúzia de miúdos apontaram na minha direcção, rindo, dizendo que o carro é que devia ser o meu pai, não o meu verdadeiro pai. Naquele instante não entendi, mas antes de entrarmos para a sala o Bruno disse-me que talvez se devesse aos meus olhos esbugalhados e à minha boca grande. Logicamente bati-lhe e desculpou-se.
Depois, na aula de matemática, a professora pediu que me sentasse na fila da frente. Explicou que como eu era o mais velho seria um exemplo para a turma inteira e que depositava muita confiança em mim. Não sei a razão para o ter feito. Mas a verdade é que ela era loira, baixa e histérica. Os miúdos que tinham irmãos mais velhos no estabelecimento sabiam que era apelidada de Miss Piggy. Ora, por causa da atitude dela, de amor incondicional e muito compreensível pela minha pessoa, passaram a tratar-me como 'amante da Miss Piggy'. Na aula de português não havia quem não me associasse ao 'Cocas, o Sapo'.
Quando chegou a hora do almoço já toda a comunidade escolar sabia quem eu era, ou melhor, como me tratavam. E quando saía da cantina, uma série de miúdos mais velhos – outros que não os anteriores - despejaram-me várias taças de gelatina de tutti-frutti em cima. Todos riram. Queriam que ficasse verde, como o Cocas. Eu não chorei à frente deles e mandei que a Maria e o Bruno se atirassem a eles. Mas eles não o fizeram. Penso que ainda hoje se arrependem da sua cobardia.
O pior foi quando vinha para casa. Perto da escola havia um descampado com terra, vegetação baixa e águas estagnadas. Eu retinha as lágrimas dentro de mim e a Maria e o Bruno iam calados. Contudo, de repente, os mesmos miúdos da gelatina apareceram vindos de nenhures. Rodearam-nos e dois deles pegaram em mim. Levaram-me para junto da água e prenderam-me. A Maria e o Bruno tinham desaparecido e eles eram cinco vezes mais do que eu, uns dez portanto - Raios, se tivesse tido melhores professores na primária... E então um deles, o maior, acendeu um cigarro e deu umas passas. Depois enfiou-o na minha boca e os dois que me seguravam não deixaram que a abrisse. Tossi, fumei, chorei e quase não respirei. Eles gargalharam o tempo todo.
Mais tarde soube que era isso que faziam aos sapos. Punham-lhes cigarros até rebentarem, devido à incapacidade de o cuspirem ou de abrir a boca para respirarem outra coisa que não fumo tóxico - pelo menos era o que se dizia. Também soube que o líder do grupo era irmão da Julianinha.
Esse episódio passou, mas a minha raiva não. Nunca me vinguei, só em sonhos.
Mas resta-me uma consolação. Hoje sou tudo e eles são nada.






12/03/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


ROSALINA – PARTE III

Sabem o que é melhor do que um fim de semana de borla longe de casa, com tratamento spa incluído, quarto com vista para o Douro, strip masculino à noite, uma imensidão de shots até cair para o lado e acordarmos no dia a seguir sem ter a certeza do quão rebeldes fomos? E tudo isto sem filhos, marido e conhecidos por perto? Não sabem? Eu digo-vos. Uma reunião da Bimby na casa da vereadora do pelouro da cultura, casada com o director geral do hospital central, estando presentes a maioria das mulheres importantes da cidade. E, pela primeira vez, eu fui convidada. Sabem quanto batalhei para obter este estatuto? Não fazem ideia.
Portanto, sinto-me o máximo.
A reunião iniciava à tarde e, pelo que me constou, alguém cozinharia e acabaríamos todas por nos consolarmos com o repasto testado na miraculosa máquina de fazer comida. Passei a manhã toda entre a casa de banho – estava uma pilha de nervos, e nem tinha abusado do sumo de laranja -, os cremes de beleza e os telefonemas para a esteticista. Acabei por descobrir que esta, infelizmente tinha regressado sem me avisar para o país de origem, deixando-me com as calças na mão. Tinha recorrido a ela nos últimos anos por não me cobrar um cêntimo, depois de eu a ter ajudado num processo que a impedira de ir parar à prisão por falta de documentos. Na verdade, qualquer advogada a safaria, mas eu fiz questão de lhe demonstrar que o meu trabalho havia sido de uma dificuldade ímpar, sentindo-se ela, assim, em dívida para comigo para a eternidade. Resultado? Tratamento semanal de borla. No futuro teria de me virar para outro lado, já que a gaja havia desaparecido. Daí que nesta manhã teria de ser eu a fazer o buço e pintar as unhas das mãos.
Depois de tratar de mim e da minha natureza – tive de enfiar imodium pelas goelas abaixo -, comi duas bolachas de água e sal e mandei o meu marido comprar frango no churrasco para ele e para os miúdos.
Eu tinha coisas mais importantes para fazer.
Primeiro fui a uma pastelaria cuja dona eu tinha safo de uma multa pesada da ASAE. Trouxe uma série de bolos em miniatura – deviam pesar uma meia dúzia de quilos – de borla, claro! De seguida passei numa garrafeira localizada no centro que, outrora, eu tinha impedido que fechasse, depois de me ter mexido pelos organismos competentes. Arrependi-me assim que sai da loja, munida com garrafas de vinho do Porto e Moscatel, pois não estava habituada a carregar pesos.
Por isso, chamei um táxi que me transportou por meio quilómetro. Quando cheguei percebi que não havia movimento no local onde o evento se realizaria, daí que tenha solicitado uma volta pela cidade, que nem uma turista, apesar de o motorista ser o marido da empregada que me passa a roupa a ferro. Como tinha à vontade com ele, e certamente não me cobraria a viagem, mandei dar mais um par de voltas.
Afinal, as estrelas são sempre as últimas a chegar...
Então, quando o taxista me deixou na mansão da vereadora, já toda a gente tinha chegado. Quando entrei na sala gritei um 'cheguei' bem alto e toda a gente reparou em mim e nas iguarias que trazia – se bem que o taxista podia ter uma apresentação mais aceitável -, olhando-nos de alto a baixo, de expressão enraivecida por não terem sido tão atenciosas quanto eu. Mas a anfitriã quase correu na minha direcção, beijando-me e abraçando-me assim que me alcançou.
Aquilo que começou bem e terminou melhor. Falámos das nossas vidas felizes e bem-sucedidas, dos nossos sonhos que estavam praticamente alcançados e das poucas metas que nos restavam cumprir.
Tudo tretas.
Mas cada uma de nós ria com uma naturalidade que até a nós mesmas seriamos capazes de enganar.
Claro que quem começou por cozinhar fui eu. Nunca fui boa cozinheira, mas toda a gente dizia que a bimby fazia tudo sozinha. Contudo, quando me encontrei atrapalhada, desculpei-me que tinha de ir à casa de banho – não era desculpa nenhuma, mas sim o efeito dos comprimidos que tinha passado – e quando voltei à sala já estava tudo a comer. Acotovelei toda a gente para chegar à mesa e principalmente junto da vereadora..
A comida estava uma porcaria e aproveitei para criticar quem a havia confeccionado – devia estar nervosa por se encontrar na presença de gente tão importante -, acabando eu, a vereadora e as suas amigas mais próximas por gozarmos com a situação. Nesse momento senti-me a mulher mais feliz do mundo, pelo simples facto de me ter apercebido que, afinal, elas não eram assim tão diferentes de mim.

07/01/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JAIME – PARTE III


Ah, sábado, como adoro este dia da semana. Não é que faça mais ou menos do que nos restantes. Mas a verdade é que o povo está todo disponível neste belíssimo dia. Durante a semana há quem trabalhe e há quem estude, da mesma forma que nos domingos há quem se lembre de almoçar com a família. Por isso resta-me o sábado.
Neste sábado acordei à hora do costume. Quando cheguei à sala a mulher estava a ler uma revista daquelas cujas únicas páginas interessantes são as que exibem as dúvidas sexuais de quem não tem o calo que eu tenho na área. Os miúdos estavam sentados no sofá, como se fossem sardinhas em lata, a ver bonecada esquisita e um ou outro com uma bola de ranho no nariz. Passei por eles e, ao mesmo tempo que os cumprimentei, despedi-me. Não disse os nomes dos putos um por um porque me engano na maior parte das vezes, se bem que eles nunca pareceram importar-se com isso.
Desci as escadas e fui para o café. Tinha vestido as minhas melhores calças e o casaco de cabedal amarelo igual aos que usavam os gajos de um bando de Nova Iorque de um filme antigo. Eram italianos, eles, mas apanhavam sempre no corpo. De qualquer forma, senti necessidade de estar elegante. Afinal, era dia de futsal e os miúdos do bairro iam jogar fora.
Cheguei ao café e pedi uma mini. Fumei dois cigarros seguidos e avisei o dono que fizesse o almoço dali a meia hora: um bife com batatas fritas. Entretanto o Armando entrou e demos duas de treta. Ficou combinado que cada um nós levaria o carro para dar boleia à malta. Ah, o meu carro, um FIAT UNO do século passado que só dá problemas. Talvez para o ano compre outro, se o Estado não me ficar com parte do abono dos chavalos.
O tempo passou e eu comecei a ficar nervoso. Os juvenis do bairro estavam em segundo lugar da classificação. Faltavam três jornadas para acabar o campeonato e íamos jogar em casa do líder. Ia dar molho de certeza. O resto da claque foi chegando, o Márcio, o Rúben, e os outros todos. Nenhum tinha mais do que quinze anos, mas eram duros como tudo. Era malta porreira. Mas atenção, ao contrário do que se diz por aí, eu não sou pedófilo, ou coisa do género. Adoro é ser um herói para eles, sinto-me importante. Até porque o Armando é um cromo, e o facto de eu o enxovalhar o dia todo faz-me crescer ainda mais aos olhos deles.
Chegámos ao pavilhão dos primeiros classificados e insultámos logo os adversários. Andámos à porrada com os pais de alguns dos jogadores deles. Para mim correu muito bem, para dois dos nossos é que não. Mas eles são rijos. Depois roubámos a carrinha que transporta os adversários e mandámos a gaja contra um poste. Foi um espectáculo divertido, rimos bastante. Quando regressámos, a pé, ao pavilhão, partimos algumas coisas pelo caminho. Nada de grave, porém, umas janelas, uns retrovisores, uns vasos. Assim que voltámos às bancadas já lá estava a bófia. Continuamos lá como se nada fosse, afinal somos consequência de uma sociedade que nos descrimina, logo as vitimas somos nós.
Quando avistámos a Biquinha novamente já era noite. Vínhamos bem-dispostos como tudo e eu nem sabia como tinha ficado o resultado final.

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