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06/03/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MADALENA – PARTE V


Assim que saí do bar fui direitinha de volta à igreja. Não que tivesse de rezar ou que o Senhor estivesse a chamar por mim. Ele nunca chamava. O único senhor que chamava por mim era o senhor meu pai, se bem que esse engolia a própria saliva à força quando se esquecia que quem chamava era eu - ou eu ou o Teddy.
Passei por floreiras lindas de morrer. Tão lindas que as pisei para não dar cabo dos olhos do resto da população.
Pelo caminho também parti o retrovisor do carro do Cerqueira. Soube que tinha sido despedido e que a mulher o deixara. Fi-lo pelo seu próprio bem. O homem precisava de seguir em frente, por isso não devia olhar para trás, fosse em que circunstância fosse.
Também parti o vidro da casa da dona Lurdinhas. Queixava-se que andava sempre com calor, logo brindei-a com ventilação natural.
Roubei a bicicleta do Toninho porque, em cima dela, ele já havia partido um braço e a bacia e eu não queria que ele se voltasse a magoar. Para além disso, deduzi que a dona Lurdinhas precisaria de passar pelo centro de saúde e não o queria entupido. Afinal, apesar de calorenta ela já tinha passado por duas pneumonias no último Inverno.
Depois deixei a bicicleta em casa do Tomané. Ele era surdo-mudo e dificilmente conseguiria explicar que não tinha sido ele a roubar o meio de transporte. Levaria uma coça, mas ao menos isso faria com que reflectisse e aprendesse de vez a escrever, pois com uma caneta e um bloco seria capaz de explicar que não tinha sido ele a roubar a maldita bicicleta.
Em seguida peguei fogo à loja de bicicletas, pois não queria que o Toninho gastasse dinheiro inutilmente. Afinal, mais tarde ou mais cedo a sua haveria de aparecer.
Por fim desloquei-me à agência de seguros e dispus os fios da campainha de forma a que quem tocasse nela apanhasse um valente choque eléctrico. Até porque o agente era meu primo e eu não queria que o gajo das bicicletas desse prejuízo à empresa que o sustentava. Mais a mais, eu estava em dívida para com ele desde que lhe colocara um anúncio com a sua morada dizendo que se recebiam casais para a prática de swing. Fi-lo apenas por diversão e sim, sei o que é swing. Sou madura para a idade e sou da geração da internet.
Eram quase 22H00 quando cheguei à igreja. Entrei e dei de caras com o Jeremias vestindo a túnica que o padre Cardoso costumava usar. Ele sorriu ao ver-me e eu sorri ao ver o castiçal que ele tinha mão. Parecia robusto e pesado.
“Olá, Jeremias.”
“Boa noite, Madalena. A esta hora na casa do Senhor?”
“Sim. Vim a mando do padre Cardoso.”
“Ó, pobre padre Cardoso. Estou a preparar o seu funeral de amanhã.”
“Mas tu és padre, agora?”
“Sou sacristão.”
“Mas ser sacristão é diferente de ser padre.”
“É só um passinho pequenino.”
“Todavia não é a mesma coisa.”
“A Lua também era inacessível até o Homem lá chegar.”
“Há quem diga que isso foi uma farsa.”
“Da mesma forma que acontecerá comigo, nunca ninguém o saberá verdadeiramente. O que te traz aqui, minha filha?”
“Vim matar-te.”
“Aqui? Na casa do Senhor?”
“Nem mais.”
“Mas porquê?”
“Podia invocar que o padre Cardoso me tinha ordenado; que arruinaste a empresa de guarda-chuvas do enteado da irmã da minha avó; que foste responsável pela venda de armas russas que resultaram na morte de milhares de inocentes no médio oriente ao fazeres com que aquela deputada com voz grossa não pudesse votar contra uma lei no parlamento que mais tarde permitiu essa mesma venda; que o último vampiro do planeta se suicidou num dia de sol ao perceber que, como tu, poderia perder um canino. Tenho muitos motivos para roubar a tua vida, Jeremias. Acredita em mim.”
“Mas, Madalena, então por que preferes prosseguir com o plano cruel de me quereres matar?”
“Queres mesmo saber?”
“Quero.”
“O meu Teddy não gosta de ti.”
“O teu Teddy?”
“Sim, o meu ursinho Teddy.”
“E porquê?”
“Não sei. Nunca lhe perguntei. Não tenho por hábito questionar os ursos de peluche quando se sentem abatidos. No entanto desconfio que ele acha que foste tu que o empurraste da cama, quando ele perdeu a sua perna.”
“Mas eu nunca fui à tua casa! Como poderia tê-lo feito?”
“Não interessa. Há quem diga que o Homem nunca foi à Lua. Nunca saberemos.”
E então peguei no seu belo e reluzente castiçal sem que o Jeremias fizesse o que quer que fosse para me impedir.


19/12/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS





CARDOSO – PARTE V


Sou padre. Nem sempre o quis ser, mas a verdade é que chegou uma altura em que escutei o chamamento de Deus. Antes desse chamamento, preparava-me para fazer parte de um painel de provadores de vinhos.
A verdade é que na época não era capaz de distinguir um vinho alentejano de outro da região do Ribatejo. Agora sou, mas é certo que possuo outra bagagem.
E foi no dia em percebi que não ia ficar nesse dito painel que senti o tal chamamento.
Chovia imenso e o meu coração estava destroçado. Pressenti que a minha relação com o vinho, com o mosto, com o teor de álcool, com o sabor frutado e com o cheiro a carvalho envelhecido terminara mesmo antes de começar. Vagueava pelas ruas, sem tentar escapar das espessas gotas de chuva com que os céus me brindavam, quando Deus falou directamente ao meu coração enfraquecido pelo desgosto. “Arranja aí uma moedinha, ó maior”. Olhei para todos os lados e não vi ninguém. Nessa altura o meu coração já palpitava com força. “Aqui em baixo, ó visgolho”. Encarei os meus pés e o passeio mas nada vi. “Não assim tão baixo, ó pastelão”.
E foi então que o vi. Estava sentado em cima de um pedaço de cartão seco. Tinha barba branca e enorme e estava todo esfarrapado. Cheirava a vinho e possuía um chapéuzinho diante dele, voltado ao contrário, contendo um par de moedas pretas. Fixei-o, admirado. O velho não estava encharcado como devia estar, como eu estava. “Estás a olhar, ó aborto?” A sua voz era límpida, como que vinda dos céus, parecendo puro cristal. “Isto aqui não é uma estátua. Queres olhar, pagas, ó aberração”. Peguei na carteira, esvaziei-a e dei-lhe todo o meu dinheiro. Ele sorriu e disse-me: “assim é que é, reservar-te-ei um lugar ao meu lado”.
Ele levantou-se e entrou no centro comercial que se encontrava atrás de si.
Eu fiquei ali durante uns minutos, especado, a tentar perceber o que raio se tinha passado. Sentia o meu peito preenchido por uma força que desconhecia existir até então e de vez em quando beliscava-me para me certificar de que não vivia um sonho.
Passado outros tantos minutos percebi. Aquele homem estava seco no meio daquela chuva toda e, mais, ele prometera guardar-me um lugar a seu lado. Só podia estar a referir-se ao céu. Não havia outra explicação. Jurei nesse instante dedicar a minha vida a Deus, pois aquele homem simplório, disfarçado de pedinte, só podia ser Deus.
Depois o velho - perdão, Deus - voltou com um saco de uma cadeia de supermercados que nada cobra por eles. Trazia garrafas de vinho que tilintavam. Pensei que fosse falar comigo, mas ignorou-me, como se nunca me tivesse visto. Dei graças a Deus - ou a Ele - por não falar mais comigo. Deus era como os lobos, que deixavam as crias seguirem os seus caminhos.
Decidi, com custo, partir. Mas antes disse-lhe “Adeus, Deus”. Ele respondeu “Adeus, adeus? Foda-se, só precisas de o dizer uma vez, não sou mouco”. Eu sorri novamente. Deus era como toda a gente dizia, humilde na sua magnificência e apologista de trocadilhos - como aquela cena em que Jesus caminha em cima da água, só para dizer que os bons surfistas teriam cabelo comprido. Pisquei-lhe o olho e dei-lhe uma palmada no ombro. “Estou a entender-te, Deus”. “Estás a insultar-me, seu boi de cornos serrados?”, respondeu prontamente. “Ah, isto é um teste, entendido, Deus”, disse-lhe eu antes de virar costas e enfrentar a minha nova vida. Jurei a mim mesmo seguir a palavra do Senhor e semeá-la por toda a parte, como os actores pornográficos fazem com as suas sementes.
Todavia, uns metros à frente, senti uma mão pesada puxar-me pelo casaco. Voltei-me cheio de alegria. Era Deus e estava molhado. A chuva passara a cair em cima de si também. Confesso que fiquei confuso, mas deduzi que era mais uma metáfora acerca da vida.
Ele olhou-me e falou: “porque me chamaste Deus, ó amostra de gente?” Expliquei-lhe que ele estava sentado no chão, seco, enquanto tudo em seu redor se encontrava molhado. Ele fez um ar confuso e abanou a cabeça, como que querendo acordar de um pesadelo. “Foda-se, não viste que eu estava abrigado na entrada do centro comercial?” Espreitei por detrás dele e verifiquei que de facto o cartão estava numa área abrigada em que a chuva não caía.
Mas não me dei por vencido.
“Então e o lugar ao lado de Deus?”, disse-lhe, confiante. “Que lugar, seu esquizo?”, inquiriu. “Aquele que me reservavas ao teu lado”. Ele bateu com a mão na testa e argumentou: “Foda-se, estava a dizer que guardava um lugar ao meu lado na tasca do Chino, ó tripa enfarinhada”.
O Deus que afinal não era Deus voltou-se e foi-se embora. Não posso dizer que tenha ficado desapontado pelo que sucedeu. Afinal sempre havia sido um homem de convicções fortes e seria incapaz de voltar atrás com a minha palavra. Deus uma vez, Deus para sempre.
E é aqui que reside a minha enorme vontade de ser fiel ao Senhor. Nessa tarde fui ao cinema e o único filme disponível era religioso. Percebi, então, que a sua mensagem me chegaria através dos filmes a que viria a assistir.



17/10/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS



JEREMIAS – PARTE V

 
Segurança nocturno foi outro dos empregos que tive. Era segurança numa discoteca famosa embora nunca tivesse possuído a certidão profissional para o efeito. Também quem é que nos ia fiscalizar? Ninguém se metia com um ex-campeão nacional de boxe nem com os instrutores de ginásios que por acaso eram igualmente praticantes de halterofilismo. Eu não era nenhuma dessas coisas mas eu não estava ali para segurar ninguém em particular, a não ser a minhas calças que teimavam em descer com tanta gaja boa que por ali passava. Havia gajas de todo o género: boas, muito boas, menos boas, assanhadas, caladas, espevitadas, desinibidas, coradas, descascadas, intrometidas, mancas, zarolhas, esquizofrénicas. Afinal toda a gaja tinha o direito de se divertir e eu tinha o direito de me contentar com a presença de toda a gaja.
Para ser sincero trabalhava ali para fazer número. Isto porque quando havia pancada, dois ou três colegas chegavam sempre em primeiro lugar ao local da ocorrência para desancar nos homens que lutavam que nem galos por um pedaço de estrogénio. Eu era sempre o último a chegar, para separar as amigas e as namoradas dos gajos encharcados em suor e sangue. Fazia sempre a mesma coisa. Levava-as a tomar ar, punha-lhes o meu blazer tamanho M - embora eu vestisse o XL - pelos ombros, fazia uma festa no cabelo e sussurrava que ia correr tudo bem. Por vezes tinha de chamar os meus colegas seguranças para impedir que elas me batessem. Mas de vez quando eu pescava uma faneca, ó se pescava.
Mas houve uma noite que deu à costa uma sereia. Cantava e tudo. Era filha de um magnata iraniano. Primeiro pensei que ela fosse de etnia cigana mas depois percebi que os seus gestos tinham muita classe e que não tinha sete putos ranhosos - com aquela bola de ranho verde que cresce com a expiração e diminui com a inspiração - a destruir o bar atrás de si. Ela até parecia a Christina Aguilera, se bem que mais morena e sem ter o cabelo pintado. Bem, na realidade não tinha nada a ver com a Christina mas eu sempre gostei dela, sinto-me lindamente ao pensar que as gajas eram parecidas.
Continuando, ela mexia-se como se estivesse sempre a fazer a dança do ventre, de tal forma que nessa noite fiquei estrábico e sem capacidade para distinguir a direita da esquerda. Então, numa clareira instantânea que se formou em seu redor, percebi que um gajo lhe havia apalpado o rabo. Eu galguei a multidão, agarrei o gajo, pus-me de joelhos e espetei-lhe uma cabeçada - era anão, ele. Sangue negro como petróleo jorrou do seu nariz. Ela por sua vez gritou que deixasse o seu amante. Chorei nesse instante como quando descascava cebolas ou assistia às reconciliações de famílias destroçadas na SIC. Fiquei chateado, porque não me tinha apercebido que o gajo existia até ao momento em que lhe enfiara a mão no traseiro, pois a discoteca estava à pinha e o gajo dava pela cintura dos clientes de estatura média. Depois ela deu-me um estalo. Eu passei a mão pela minha face e lambi a ponta dos dedos. Tinha visto o Bruce Lee fazê-lo uma vez e achei que tinha pinta. Ela deu-me outro estalo do lado oposto. E eu não repeti o gesto porque achei que seria maçador. Estivemos uns tempos olhando nos olhos um do outro até que vi estrelas ao sentir a cabeça do anão a enfaixar-se nas minhas partes íntimas.
Desmaiei.
Acordei numa cama no dia seguinte e tinham-me dito que havia perdido um testículo, que me tinham operado de urgência no hospital do iate privado do pai da minha sereia das Arábias, onde ainda permanecia.
No minuto que se seguiu ela veio visitar-me. Pediu desculpa pelo atrevimento do anão e explicou que ele seria atirado ao mar para dar alimento aos peixes no regresso a casa. Eu perguntei-lhe se isso não era uma medida extrema, que o gajo só estava a defender a sua fêmea.
Vi-lhe uma lágrima quando respondi dessa forma. Ela pôs a mão no meu peito e disse que eu era o homem da vida dela. Perguntei-lhe se esse sentimento se devia à forma como a tinha tratado. Ela assentiu e disse “possui-me”. Eu respondi “não posso”. Ela perguntou “porquê?”. Eu disse “porque perdi um testículo”. E ela “és homem ou não és?”. E eu “sou”. E ela “homem que é homem não perde uma oportunidade, afinal resta-te o outro testículo”. E eu “que gaja!”
Fizemo-lo.
Ainda hoje me pergunto como fui capaz. Provavelmente nunca conseguirei responder.
Mas não voltei a ser segurança nocturno.
Estivemos semanas a viajar no seu iate até atracarmos em El Salvador e o pai dela entrar a bordo. Apanhou-nos na cama e arrancou-me o outro testículo.
Hoje tenho berlindes no seu lugar, mas juro que nada mudou, que o digam as gajas que vou comendo.


05/09/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS
 
GRAÇA – PARTE V
 
(Nota: qualquer semelhança entre o conteúdo deste texto e a realidade é, obviamente, pura coincidência, à excepção dos artistas e  dos ditadores mencionados)
 
Ontem à noite foi um estrondo, ou falando em politiquez: 'Somos uma nação em claro crescimento'.
Fui com umas amigas assistir a um concerto protagonizado por um pedaço de mau caminho ao Parque das Nações. E, por falar nisso, percebi que também existem mais linguagens secretas que não o politiquez. Como é o caso do empresarialez. Isto porque me dirigi ao Meo Arena e como o espaço parecia um tanto ou quanto abandonado, decifrei parte deste enigma. Pavilhão Atlântico significa 'temos eventos', enquanto Meo Arena 'espectáculos esporádicos'. O que uma pessoa aprende se mantiver os olhos bem abertos!
Vai daí, fomos ao concerto do mês no Meo Arena assistir a um espanholito que canta como o caraças e que tem o dom de me transformar num forno capaz de atingir 250ºC internos. Aliás, se eu fosse um instrumento musical nas mãos dele certamente seria uma castanhola.
Nesse concerto acabei também por entender que existia o musicalez e tornou-se deveras evidente quando entrou aquela fadista portuguesa que canta dez vezes melhor do que o espanhol, mas que receberá cerca de dez vezes menos do que ele por cada actuação - afinal ela canta fado, logo não pode ter um destino feliz. E então, quando eles cantaram num magnífico dueto aquela música que entope as rádios deste país, eu decifrei parte do musicalez ao avaliar a reacção das pessoas à mensagem entoada.
E fiquei aterrada!
Percebi que o musicalez é atroz. É pior do que as políticas praticadas por Hilter e Estaline juntos! Eles cantavam e o pessoal reagia estranhamente. Contudo, as pessoas presentes na plateia não eram músicos, logo não podiam conhecer os códigos encriptados.
O que é que isto significa?!
Pois! Quer dizer que estes músicos enviam mensagens subliminares para os nossos cérebros, sendo que nós as recebemos sem ter percepção disso mesmo. Pois é, caros eleitores, meu povo! Eles entram na nossa cabeça sem darmos por isso! Como os peritos americanos de marketing das maiores multi-nacionais, os comunicados militares norte-coreanos ou a intervenção das inúmeras seitas religiosas brasileiras capazes de melhorar substancialmente a vida dos fiéis em troca de 10% dos rendimentos - bem, aqui não existe mensagem subliminar, apenas idiotice receptora, mas os gajos pagam impostos, por isso, tudo corre às mil maravilhas.
Passemos ao que descobri.
Quando o Pablo - Pablito para mim porque o conheci no camarim - e a Carminho cantaram aquela música famosa eu reconheci aquilo que transmitiam pela forma como as mulheres, e alguns homens, reagiam às suas palavras. Percebi, então que 'perdonome' quer dizer 'histerismo'; si alguna vez 'grito muito agudo'; sinto volverte loca 'fazer cara sexy'; e laralalalaralalarala não corresponde a uma palavra mas sim a um movimento, obrigando as pessoas a mexerem-se como se da cintura para baixo fossem, na verdade, constituídas por gelatina.
Depois de o concerto ter acabado eu e as minhas amigas fomos passear pelas docas. Bebemos um copito e divertimo-nos um pouco. Uma ou outra pessoa reconheceu-me como sendo a ministra da educação. Distribuí beijinhos e sorrisos por toda a gente, mesmo antes de ter snifado coca numa casa de banho.
Era já tarde quando decidi que para exercer decentemente a minha profissão eu tinha de fazer algo que nunca antes um ministro fizera. Se eu trabalhava com e para os jovens, eu tinha primeiro de conhecê-los!
Genial, ah?!
Nem sei como é que ninguém se lembrara disto antes! Um ministro da educação tem de conhecer os alunos! Senti-me tão bem que liguei ao ministro da saúde explicando-lhe que ele tinha de conhecer os doentes - que contrapôs assumindo que eu nada sabia e que ele é que era um homem experiente. Depois telefonei ao ministro da defesa a dizer que ele precisava de conhecer o exército, ao que ele me disse 'exército? O que é isso? Uma ilha desabitada no Pacífico ou uma marca israelita de pás e enxadas?'. Por fim, pensando que se revelasse numa pessoa mais sensível, contactei o primeirinho ministrinho, questionando-o se não achava que era melhor conhecer os cidadãos; ele respondeu com uma gargalhada antes de desligar sem nada dizer.
Frustrada, mas querendo mostrar a diferença, desatei a falar com os jovens, enquanto cambaleava pelos bares. Concluí pois que também usavam uma linguagem envolta de mistério e ainda mais complicada do que as restantes. Diziam coisas estranhas como 'tá-se ou quê?' (mas quem é se está e qual quê?), 'lol' (diminutivo de lolita?), 'bué de cenas' (tocar oboé numa cena musical?), 'tipo ya' (que ya será esse que existe mais do que um tipo?), 'top' (mas isso não é uma peça de roupa feminina?), 'como é que é?' (mas o que é que é que não é?) ou 'hei mano' (mas mano não é irmão?). Percebi que eles eram muito mais avançados do que nós, governantes, e que talvez as minhas políticas se devessem orientar no sentido de lhes lixar as vidas, caso contrário ainda nos superariam a todos.
Mas, poça, estes miúdos são mesmo bons em não se fazerem entender! Como poderei eu liderá-los?


http://www.facebook.com/pages/Vasco-Ricardo/439622106051031?ref=hl


30/05/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

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MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE V

No dia em que fiz 15 anos só a Maria e o Bruno apareceram na minha festa. Não foi preciso falarmos uns com os outros para percebermos a razão. Cada um de nós os três sabia qual era. Éramos fiéis às nossas convicções e fazíamos o que tínhamos a fazer. Quanto às convicções dos outros é caso para dizer: quais convicções?
Por isso, ignorámos os refrigerantes e os pãezinhos cortados em triângulo e fomos para o quintal.
Armámos uma tenda com capacidade para duas pessoas, calçámos as galochas que havia disponíveis, roubámos lanternas e vestimos aventais de cozinha - queríamos casacos militares, mas como não havia, cada um de nós enfiou um desses adereços de cor verde, pintados com melancias, galinhas e abóboras. Ah! E, para nos camuflarmos impecavelmente, quisemos pintar as maçãs do rosto com tinta escura, como vimos fazer no filme da moda 'O Predador'. Como não encontrámos, tivemos de roubar um pouco de estrume do agricultor que era meu vizinho. Até calhou bem para disfarçar o meu descontrolo intestinal que me azucrinava nesse final de tarde.
Por isso lá nos pusemos os três, aconchegadinhos - eu era a salsicha, a Maria e o Bruno eram o pão de cachorro -, de barriga para baixo e língua afiada pronta para debater ideias. Ou melhor, eu debatia, eles concordavam.
Tínhamos um propósito: combater os infiéis.
Decidimos portanto criar o manual de sobrevivência para as gerações futuras.
Discutimos durante horas e já os grilos tinham ficado roucos quando criámos os mandamentos da nossa mega-equipa. Mega em termos de qualidade, não em quantidade se bem que... não importa!
      1. Amar-nos, a nós, acima de todas as outras coisas (isto, na prática, faz com que todo e qualquer ser caminhante nos seja inferior);
      2. Não usar o nosso nome em vão (este também é válido para expressões como 'ó pá', 'meu', 'my friend', 'pst', 'moço' ou 'moça' e por aí fora);
      3. Lembrar o domingo para me santificar (esta frase não fez muito sentido, mas mistifica os nossos mandamentos);
      4. Honrar o pai Horácio e a mãe Guilhermina (os meus pais, ela por me ter parido, ele por ter permitido que eu seja como sou);
      5. Não matar (a não ser que seja a nosso mando, principalmente quando falamos de assassinato psicológico);
      6. Guardar a castidade das nossas palavras e das nossas obras (sim, pois nós falamos e praticamos a verdade);
      7. Não roubar (a não ser que seja justificado por algo de nosso interesse);
      8. Não levantar falsos testemunhos (como se fossemos capazes!);
      9. Guardar a castidade nos pensamentos e nos desejos (na realidade nunca soube o que isto quer dizer mas achei que ficasse pomposo e, de qualquer forma, foi a Maria que teve a ideia quando tive de ir à casa de banho);
      10. Não cobiçar as coisas do próximo (excepto aquilo que queremos).
E durante anos e anos regemo-nos por estes mandamentos. Qualquer semelhança que possais detectar relativamente aos mandamentos da igreja católica é pura coincidência, até porque eu não falo hebraico, e toda a gente sabe que a placa foi gravada nessa língua.
Seguindo estes princípios tornámo-nos num homem, num homenzinho - o Bruno - e numa mulherzinha - a Maria - espantosos.
Ainda não somos mas um dia tornar-nos-emos bem-sucedidos, melhores que todos, piores que ninguém.
E falo disto porquê?
Porque faz hoje duas décadas que concretizámos estes mandamentos. Por isso saímos à rua para festejar: beijámo-nos uns aos outros (1), escrevemos os nossos nomes por toda a parte (2), curiosamente era um domingo (3), fomos visitar os meus pais ao lar clandestino (4), não nos matámos uns aos outros (5), pensámos em nós e praticámos o que sentimos (6), roubámos só para mostrar que apenas um de nós podia quebrar a regra (7), não fomos capazes de deixar de levantar boatos porque nunca o fomos (8), tivemos pensamentos puros (9) e andámos de olhos vendados porque era impossível não cobiçar o que quer que fosse (10).
Assim, terminámos o dia felizes e com alguns galos nas cabeças.


21/03/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


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ROSALINA – PARTE V

Grande porcaria!
Apetecia-me gritar ao mundo que era boa, enquanto espremia o sumo da laranja até não restar uma única gota dentro dela.
Saber-me-ia tão bem!
Queria isso para relaxar. Tenho andado um pouco enervada e fora de mim ultimamente. Primeiro, ando com falta de sexo. Não que o meu marido seja muito eficiente, mas à falta de melhor não tenho alternativa. Segundo, a minha empregada doméstica pediu-me um subsídio extra. Ora, se eu recebo menos por que hei-de pagar mais? Terceiro, ontem irritei-me no facebook e, para não ser uma vaca de todo o tamanho, preciso de me dominar, caso contrário, mais tarde ou mais cedo, as tensões acabarão por subir e o médico passar-me-á um valente raspanete. Ainda se fosse jeitoso não me importava que ralhasse comigo, mas sendo como é, betinho e bonitinho, ainda morreria de tédio.
Adiante, o que acontece é que não tenho uma única laranja na cozinha. Nem sei como não dei pelo lapso. Mas é um facto. Terei por isso de me levantar este sábado nublado e fazer-me à estrada.
E assim foi.
Parei no supermercado mais próximo e entrei. Umas belas de umas laranjinhas estavam dispostas mesmo à entrada. Eram grandes, cheias e apresentavam uma óptima cor. Enchi dois sacos e dirigi-me à caixa. Tinha de pagar quatro euros e qualquer coisa. Porém, não tinha dinheiro que chegasse. Saquei o cartão multibanco e a menina, uma moça com idade para ser minha filha, disse-me que só era permitido efectuar pagamentos com cartão para valores acima dos vinte euros. Fiquei louca! Perguntei se sabiam quem eu era, expliquei que essa imposição não podia ser aplicada dessa forma e levantei o tom de voz para que toda a gente me escutasse – além disso, o homem que estava atrás de mim parecia ter jeito para trabalhos manuais, até pelo serrim que envolvia parte da sua roupa -. Com o barulho, veio o gerente. Voltei a fundamentar a queixa. O homem olhou-me com indiferença e perguntou se desejava levantar dinheiro ou partir.
Eu fui, mas prometi que ia fechar o estabelecimento quando me dessa na cabeça. Com tanta entidade neste país, alguém pegaria com alguma coisa...
Depois, irritada, fui a outro supermercado. Só que as laranjas estavam esgotadas. Onde é que já se viu? Chamei incompetente ao chefe da secção de frutas e legumes que dava ordens a duas cachopas enquanto elas embelezavam um expositor cheio de melões e arranquei para outro supermercado da cidade.
Assim que entrei nesse espaço, senti um odor que me agoniou. Dois bebés choravam compulsivamente junto à caixa e nem precisei de espreitar a fralda para perceber a razão do desconforto deles. Saí imediatamente por onde tinha entrado.
Arreliada, pensei onde poderia comprar o raio das laranjas. Pus de lado as frutarias e mercearias pelo facto de o chão estar invariavelmente sujo ou molhado. E não gosto de sujar os sapatos nem correr o risco de partir uma perna.
Uma ideia surgiu então naquele momento. Era dia de feira!
Dirigi-me para lá tão rapidamente quanto pude e estacionei. Enfiei um lenço que tinha na mala do carro e cobri a cabeça. Afinal não queria ser reconhecida nem associada a alguém que compra falsificações e assume que só usa roupa de marca. Na verdade, isso já aconteceu, mas foi há muito tempo e eu estava aflita por encontrar determinadas peças e.... Bem, não importa!
Enquanto me dirigia à banca, depois de ter levantado dinheiro, o povo berrava como se estivesse num circo. Acabei por comprar duas camisolas, um par de calças e um perfume, mas só porque me impingiram! E só Deus sabe o quanto me custa recusar algo de gente necessitada – aqueles vendedores bem pareciam precisar de uma mãozinha, assim como os seus filhos cheios de ranho e vestindo roupinhas finas.
Assim que alcancei a banca da Lurdinhas, comprei dois quilos de laranjas depois de me ter chateado com uma velhota que queria ser servida antes de mim, apesar de ter chegado depois. Discuti com ela e quase a insultei. Mas ainda bem que não o fiz, pois um minuto depois chegou a vereadora e percebi que elas eram mãe e filha. Fiquei um pouco constrangida pela situação, mas duas coisas deixaram-me feliz, sobrepondo-se ao resto: já tinha a minhas laranjas, que espremia ainda que mentalmente, e o facto de a vereadora ter um lenço igualzinho ao meu.




23/01/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JAIME – PARTE V

O tempo estava mau como o caraças. Chuva, vento, frio, um ou outro trovão. Nas notícias diziam que as ondas chegariam a não-sei-quantos metros de altura. Nem saí de casa depois do almoço. Na realidade foi a primeira vez que tal aconteceu desde que tenho memória. Lençóis, sacos do lixo, toldos, cadeiras plásticas e outras coisas voavam. Quando não dava nada de jeito na televisão (os gajos da transmissão por cabo tinham cortado o sinal ao pessoal que se aproveitava do único vizinho assinante... ladrões...) eu divertia-me mirando através da janela, rindo dos tolinhos que achavam que um guarda-chuva resistiria à intempérie ou daqueles pais e avós que traziam um rebanho de putos debaixo das asas e dos casacos, como se a ventosidade pudesse levantá-los do chão e levá-los por aí. Parvos. Podiam relaxar, o máximo que podia acontecer era tropeçarem e caírem numa poça de água. Mas e daí? Já estavam todos encharcados.
Eu ia e vinha, ora sofá ora janela, sempre que davam reclames que eu já tinha visto. Até que o meu mundo se desmoronou. Um segundo antes de escutar um relâmpago, pimba: a luz foi abaixo. Fiquei chateado. Desde que haviam remodelado o bairro que tal não sucedia. Lembrei-me que tinha de ir fazer barulho à Câmara Municipal, não se tratam assim as pessoas! Depois não querem que um gajo passe os dias nos cafés a jogar matrecos e a falar da bola.
Assim, enfiei-me definitivamente na janela. Um cão molhado a correr... Um carro a passar e a molhar o Tone da Maria no passeio, grande aselha, é bem feito, deve-me cinco euros da lerpa há três meses... Uma velha que não conheço a correr com dois sacos numa mão e o peito no outro braço... Uma bola a rolar perdida, algum ficou sem entretenimento... Uma mulher a correr com os putos atrás. Caiu! Que riso! Ainda por cima, os miúdos saltaram por cima dela e teve de se levantar sozinha. Os catraios abrigaram-se no meu prédio e a mulher demorou mais um minuto a lá chegar. Fiquei a pensar porque reconheci um casaco vermelho no meio daquela embrulhada toda.
Passou outro minuto e a porta de casa abriu-se. Os meus putos entraram a correr divertidos e a seguir a mulher a chorar. Perguntei-lhe o que se tinha passado, mas ela apenas se lamentou. Afinal tinha caído e ninguém a tinha ajudado. Questionou-me por que não tinha ido buscá-los com o carro. Parva, está farta de saber que o FIAT só pega metade das vezes em dias de chuva. Antes cinco molhados do que seis, não?
Terminado o choro, veio outra vez fazer queixinhas. Disse-me que um dos miúdos tinha trazido um recado do professor. Não liguei, mas ela enfiou a caderneta, ou lá como se chama, em frente dos meus olhos e eu acabei por ceder, afinal a luz ainda não tinha regressado. Dei uma espreitadela e detectei que os recados duravam há uns tempos, dois meses para ser mais preciso. Mau comportamento, desatenção, ausência dos trabalhos de casa efectuados, má influência sobre os colegas... essas tretas que os psicólogos inventaram para salvar a pele dos incompetentes.
Fui ao quarto e a mulher estava a ralhar com o chavalo. Berrei ainda mais alto. Parou logo com aquela treta e ficou a olhar para mim como se eu fosse filho do diabo. Disse-lhe logo que o puto não tinha culpa que a professora, ou o professor, não conhecia nem me dei ao trabalho de ver a assinatura, não tivesse mão neles. Não gostei. De caminho a culpa era minha, não? Os putos vão para a escola para aprender.
Nem dormi nessa noite.
No dia seguinte fui lá tirar satisfações, afinal era uma professora, e por pouco não lhe enfiei dois socos. Ainda arrebitou cabelo! Mais tarde soube que não teve tanta sorte com os pais da Quininha, também aqui da Biquinha. Levou com uma cadeira nas costas e meteu baixa.
Mas ficou tudo bem porque o professor substituto era um gajo porreiro. Não chateava nem nada, nem trabalhos de casa mandava. E assim é que é! Conseguia coordenar o seu tempo de forma a dar a matéria toda quando devia. A ver se lhe ofereço uma mini no Natal.