Mostrar mensagens com a etiqueta Parte II. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Parte II. Mostrar todas as mensagens

13/02/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MADALENA – PARTE II


Depois de ter saído da igreja, deu-me uma larica que não resisti em passar pela cadeia americana de hambúrgueres cujo dono é um palhaço. Comi um hambúrguer no pão, que noutra ocasião chamar-lhe-ia sandes de carne picada com molhos diversos, e batatas fritas com ketchup que mais parecia sangue coagulado. Ah, e para além disso ganhei um brinde, uma estrunfina em pose de modelo e carregando uma mala cor-de-rosa.
No final da refeição, arrotei e dei por mim a corar, receando que alguém tivesse escutado. Nunca fui uma miúda desinibida e, para ser sincera, para badalhoco já basta o meu pai. Juro que qualquer dia lhe isolo a saída do aparelho digestivo e me instalo no sofá até que ele rebente. É que não há minuto em que o homem não se manifeste, seja por cima, seja por baixo. Por falar nisso, parece ironia do destino ele chamar-se Varatojo. É que rima mesmo com nojo. Eu também me chamo Varatojo, mas no meu caso rima com estojo. Ainda ontem comprei um novo da Ovelha Choné.
Antes de deixar o restaurante, enfiei o punhal que conheceu o Jaime num caixote do lixo, sem que ninguém visse. Quando percorri o passeio, apercebi-me de um paralelo solto e enfiei-o na mala, certa de que me poderia ser útil dali a uns minutinhos.
Rapidamente me desloquei ao único ciber café das redondezas. Ao aproximar-me, escutei vivas, assobios e palmas. Ainda não tinha dobrado a última esquina e já se percebia que o espaço estava num alvoroço.
Assim que cheguei, entrei no café. Estavam uns cinquenta homens e cinco mulheres aos saltos e gritando para o ar. No centro, em cima da mesa, pude ver a Rosalina fazendo um strip tease para uma webcam, enquanto o resto da malta a incentivava.
Quis gritar para captar a atenção dela, mas a música do Barry White entoada nas alturas jamais permitiria que alguém me conseguisse escutar. Por isso dirigi-me ao quadro de electricidade que ficava na entrada. Na verdade não se tratava de um quadro convencional, pois não tinha tampa nem componentes plásticos e os fios encontravam-se à mostra, para além de estar todo enferrujado e de parecer ter resistido a uma guerra mundial. Nada de novo portanto. Com medo de apanhar um choque, fechei os olhos a atrevi-me a mandar a luz abaixo.
E resultou. Todos protestaram. Enquanto se acendiam isqueiros e se ligavam os telemóveis, agarrei na mão da Rosalina seminua e puxei-a para as traseiras.
Sentámo-nos em cima de dois bidons de cerveja de pressão e enfrentei-a.
“Não temos muito tempo, Rosalina. Rapidamente darão pela tua falta quando voltarem a ligar a electricidade.”
“Quem és tu?”
“A Madalena, prazer.”
“Prazer, Madalena. Mas quem és?”
“O teu carrasco.”
“Quem o disse?”
“O padre Cardoso.”
“Ele é padre, jamais faria isso.”
“Um padre marado da cabeça, queres dizer.”
“Ainda assim um padre, miudinha.”
“Madalena.”
“OK, Madalena. E porque queria ele que me matasses?”
“Não sei. Mas não interessa. Ele não é o único.”
“Quem mais deseja a minha morte?”
“Eu.”
“Porquê? O que te fiz eu?”
“Tornaste-me numa criança infeliz.”
“Sério?”
“Não. Mas podias ter transformado.”
“Por que motivo?”
“Porque fizeste com que os meus pais se separassem.”
“Sim? Como se chamava o teu pai?”
“Varatojo.”
“Não conheço.”
“Eu sei. Mas alguém lá em casa ficou viciado em ti. Rapidamente, em vez das telenovelas e dos jogos de futebol, começou a passar na televisão as tuas sessões de strip tease quando, nos teus tempos áureos, foste contratada para aquele canal porno por cabo.”
“Era um canal erótico. Eu não faço porno.”
“Seja. Isso levou a que os meus pais se separassem depois de vários ataques de ciúme.”
“Lamento, miudinha, que tenha esse efeito nos homens.”
“Quem se viciou em ti foi a minha mãe.”
“Sério? Nunca o fiz com uma mulher. Onde é que moras mesmo?”
“Nos teus pesadelos.”
Nesse instante tirei o paralelo do bolso da mala da Sininho, pois estava a incomodar-me de tal forma que já me estava a fazer doer o ombro. Aquele peso era terrível.


28/11/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CARDOSO – PARTE II


Hoje acordei com uma valente dor de cabeça. Tenho sentido algumas dores neste último ano. Também já sou sexagenário. E isto nem sempre anda da forma como queremos.
Era bom que houvesse uma espécie de um elixir da juventude, como naquele filme do Indiana Jones.
Assim que pensei nisso a dor passou por completo, mas quando me veio à memória a missa que dei no dia anterior e o choro fingido da velha Graciete, a enxaqueca regressou. Indiana Jones, sem dor. Graciete com dor. Indy, sem dor. Graciete, com dor.
Levantei-me da cama e percebi o que tinha de fazer. Lavei-me mas não aparei a barba. Vesti um casaco de couro castanho mas não a batina. Tomei tranquilamente o pequeno-almoço e fui para a igreja. Bastaram alguns passos para lá chegar, os mesmos passos de sempre excepto quando me apetece soltar o animal que há em mim e procriar em território inimigo.
Senti que as pessoas com quem me cruzei olhavam para mim, embora já me dessem um desconto.
Abri as portas da igreja com pujança e liguei as velas eléctricas - tinham-me proibido de acender velas convencionais depois do incêndio de há uma data de anos. Benzi-me de forma aldrabada 'em nome do Indy, do seu pai e da fonte da juventude, Ámen' e voltei a sair.
Dirigi-me à loja de roupa na rua ao lado e pedi ao Arménio um chapéu de couro castanho. Ele disse que não tinha. Ordenei que rezasse dez vezes a Avé-Maria. Ele ajoelhou-se e iniciou a tarefa de olhos fechados e queixo colado no peito. Enquanto isso, aproveitei para ir às traseiras que acabava por ser um armazém de reduzidas dimensões. Vasculhei e lá encontrei um chapéu igualzinho ao que queria. O Arménio era assim. Metia, por obra do Espírito Santo, na cabeça que eu não pagava as minhas compras e apenas dizia que possuía a meia dúzia de peças expostas na montra. Obviamente que eu não pagava, Deus fá-lo-ia por mim. Enfiei o chapéu na cabeça e, antes de sair, ainda o Arménio ia na sexta reza, perguntei-lhe se ele sabia onde se vendiam chicotes. Ele abanou negativamente a cabeça enquanto sussurrava e eu saí.
Depois fui à loja de produtos de pesca. Questionei o José se vendia chicotes. Ele explicou que só tinha fio de pesca. Mandei-o rezar mas antes que o fizesse disse-me que havia um circo na cidade. Rejubilei até porque a dor de cabeça não tinha voltado.
Quando cheguei à tenda do circo, um domador chicoteava o piso feito de terra, afrontando um leão que dormia. Parecia estar a treinar para o espectáculo dessa noite. Cumprimentei-o e ele sorriu, dizendo que eu parecia o Indiana Jones. Pisquei-lhe o olho e contrapus que só me faltava o chicote. O domador comentou que até era capaz de me dar o dele, mas que dessa forma possivelmente o leão o devorasse quando abrisse os olhos, que o animal tinha um péssimo acordar. Eu encolhi os ombros e expliquei que sendo essa a vontade de Deus não havia nada a fazer. Ele era um devoto e, depois de perceber que eu pregava a palavra do Senhor, atirou o chicote para os meus pés.
De casaco de couro, barba por fazer, chicote na mão e chapéu na cabeça, apressei-me a ir para a igreja, pois a missa das 11h estava quase a começar - o sacristão tinha por hábito dar início à sessão quando eu me atrasava.
Mas mesmo assim cheguei a tempo de dizer à moça do órgão que tocasse a música 'tantantantaaan-tan-tantaaan...tantantantaaan-tan-tan-tan-tan-taaan'. Ela perguntou-me que raio estava eu a balbuciar. Esbofeteei-a e disse àquela puteca, que recusava sexo ocasional com o pessoal, que o Senhor não permitia que se usasse a palavra 'raio'. Ordenei-lhe que tocasse e seguisse o seu coração. Assim, em vez de um Aleluia qualquer do século XIX, ela tocou a música do Indiana Jones. Vocês sabem qual é, certo?
O povo da minha paróquia olhava para todo o lado sem me ver. Foi lançado fumo em direcção ao altar, não através de incenso mas sim de uma máquina produtora de fumo branco que eu tinha fanado no Vaticano quando dei uma rave lá na igreja. E então, quando o suspense estava no auge, eu saltei para cima do altar de pedra, composto por um paninho de linho branco oferecido pelo arcebispo de Braga. Não tinha a batina branca, claro, caso contrário ninguém perceberia quem eu era.
Um grande 'uau' fez-se ouvir e eu deixei-me estar por uns segundos, para dar mais ênfase à coisa, de peito feito e sorriso ligeiramente mais acentuado de um lado.
A música terminou e nem um murmúrio escutei. Todos aguardavam que falasse.
E então falei, feliz por a dor de cabeça ter partido de vez.
“Gente fiel da minha paróquia. Levantem-se e digam: em nome do Indy, do seu pai e da fonte da juventude, Ámen. Podem sentar-se senão chicoteio a torto e a direito. Vamos dar início à missa de hoje. Todos nós sabemos que o Senhor vem à Terra sob as mais variadas formas. Hoje vem enquanto arqueólogo. Como sabem, o Harrison Ford é visto como um Messias por muita gente, pelo menos por mim é. E no último filme da saga Sean Connery foi seu pai. Portanto oremos a eles, Harrison - Jesus Cristo - e Sean - Deus. E se sentirem um calorzinho nas costas, consequência da fúria do meu chicote, rezem mais alto, pois é sinal de que não se estão a fazer escutar aos ouvidos do nosso Senhor. Comecemos então.”

26/09/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JEREMIAS – PARTE II

Sim, fui actor. E dos bons, bons para tornar as cenas más e assim destacar quem tinha algum talento.
Não o fui durante muito tempo. Mas foi uma experiência enriquecedora. O lugar ideal para conhecer gajas boas.
Fiz, durante a minha curta carreira, uma telenovela e dois anúncios.
Primeiro foram os anúncios.
Um sobre uma marca italiana de carteiras masculinas. Bem, não eram italianas, eram de Rio Tinto, mas o logótipo tinha as cores de Itália. Então, eu fui o protagonista - sempre me consideraram bonito e musculado e as pessoas davam valor a isso. As filmagens demoraram mais tempo do que o previsto, pois o guião não era fácil de memorizar. Mas esse atraso não se deveu a mim! Foi por causa minha colega de trabalho. Então era assim: eu saía de um café localizado na ria de Aveiro - se bem que parecia ser Veneza - todo cheio de estilo e com um andar determinado e a certa altura ela corria atrás de mim; metia-me a mão no ombro e sorria enquanto eu a olhava abismado; ela entregava-me uma carteira e dizia “esqueceste-te dela”; eu pegava no objecto que me pertencia e na sua mão e respondia “obrigado, não sabia o que fazer sem ela”; e ela “agora já sabe, pode pagar-me o almoço”. Depois a câmara focava os nossos dedos tocando-se e, claro, o logótipo da carteira. Cheguei a fazer-me a essa actriz, mas não era o meu tipo de gaja, se é que me entendem.
O segundo anúncio que fiz eu não falei. Limitava-me a exibir o meu porte atlético. Tratava-se de uma filmagem sobre uma clínica geral privada. Numa analogia a tempos idos, eu conduzia a carruagem que levava o médico a casa da donzela. Por isso limitava-me a gritar com os cavalos e a agitar as rédeas.
Só depois chegou o papel onde se tornou evidente a minha verdadeira classe, aquele acerca do qual me posso orgulhar.
Conhecem a série 'Morangos com Açúcar”? E o “Inspector Max”? Pois bem não era nenhuma delas. Tratou-se de uma telenovela da concorrência que não queria ser nem uma nem outra, mas antes uma mistura de ambas.
Em que consistia? Bem, era uma coisa extremamente inovadora!
Tudo era rodado num colégio privado, chamava-se 'Colégio da Cacharroada'. Vai daí, os personagens consistiam numa série de adolescentes, uns ricos e mimados, outros delinquentes de puro sangue. Isto foi algo que sempre admirei, um espaço onde os pobres tinham a capacidade para estudar no mesmo local que os ricos. Mas a parte gira era que os delinquentes praticavam o bem e eram amigos das amigas e os ricos roubavam os professores e faziam-se às empregadas do bar. E onde entra o “Inspector Max” nesta história? Pois. É que os estudantes do colégio eram cães, em vez de miúdos ou actores de 27 anos que, embora ninguém acreditasse, representavam papéis nos quais tinham 13.
Foi de facto uma excelente série de ficção. Era um luxo poder assistir ao desfile de cadelas de mini-saia e de cães com relógios da moda, carregando cadernos debaixo das patas e capacetes das scooters suspensos numa unha. Havia lutas cheias de uivos e rosnadelas, amassos envolto de pêlo e discussões aos latidos.
A sua exibição foi um êxito. Os três episódios gravados foram vistos por uma quantidade de gente superior ao número de habitantes de Santiago de Subirrafana.
Claro que após a passagem do primeiro episódio houve telespectadores a queixarem-se que não entendiam patavina do que os actores diziam. A produção contrapôs, argumentando que eram animais com Pedigree, de raça pura como bullmastiffs, pointers, setters ou chihuahuas. Até havia um campeão ibérico e que era o macho lá do sitio. Ainda assim o segundo e o terceiro episódios acabaram por ser transmitidos com legendas.
E o que fazia eu no enredo? Não, não fazia de cão. Fi-lo na festa de inauguração da telenovela, vestindo um fato cheio de pêlo que na altura foi alugado ao Canal Panda. Mas nas filmagens eu fazia de médico. Veterinário, aliás. Era o veterinário sexy e desejável e as cadelas adolescentes fingiam estar doentes para que pudessem ser socorridas por mim. Depois vinha aquela parte pedagógica em que eu não podia envolver-me com elas porque, para além de serem menores, eu pertencia a uma espécie diferente da delas, logo um futuro em conjunto seria inviável e até impossível.
Para além de mim, havia outra actriz humana. Era a avozinha adoptiva do tal cão premiado. Aprendi muito com ela nos bastidores, principalmente que ser actor não leva a lado nenhum. “Eu que o diga”, comentava ela com pesar “vê lá que tive de me sujeitar a fazer esta bosta de telenovela para poder pagar as contas”.
Nesse dia em que ela me contou isso chorámos em conjunto mesmo antes de nos termos comido.
Foi aí que decidi que ser actor não me levaria a lado nenhum.

02/09/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

GRAÇA – PARTE II

(Nota: qualquer semelhança entre o conteúdo deste texto e a realidade continua a ser, logicamente, pura coincidência)
Olá, meu povo, meus eleitores, minha gente! Como estão? Vai um livrinho de Matemática para o 4º ano? Ou talvez uma sebenta daquelas que já não se usam? Um lápis e uma caneta? Ah, esperam lá! A campanha eleitoral já acabou. Esqueçam. Deixem-me enfiar tudo na mala que pode fazer falta no futuro - agora entendo a verdadeira razão pela qual nós, mulheres modernas, usamos um tipo de mala onde cabe material agrícola suficiente para tratar 10 hectares de terreno fértil.
Sabem, hoje vou na terceira semana de mandato. Isto tem sido uma correria. Nem imaginam! Ainda dizem que os políticos não fazem nada!
Ora vejamos. Despedi pessoal porque os incompetentes do governo anterior tinham gente a mais. Contratei pessoal porque gente com cargos influentes como eu tem de possuir um staff que o deixe confortável em termos psíquicos e emocionais, pessoas de confiança, claro. Quebrei contratos leasing pois as viaturas eram alemãs e eu nunca gostei do Schumacher; sempre preferi o Senna e mais tarde o Montoya. Comprei uma frota de carros franceses pois sempre admirei o Alain Delon. Remodelei o gabinete, porque o anterior era muito pesado e eu fico com enxaquecas em ambientes adversos. Doei o material de escritório e os consumíveis visto que os homens encarregues de carregar e descarregar objectos pesados andavam todos a fumar em demasia quando deviam estar ocupados a trabalhar. Fiz uma encomenda para substituir o que havia sido doado. Enviei e-mails a mostrar quem é que mandava no show, como dizem os americanos - já sei que me referi a eles da outra vez, mas que querem?, eles são os maiores. Mudei de serviço de catering para outro mais caro, mas de qualidade superior e que a longo prazo nos trará rentabilidade dado que o filho do dono da empresa é namorado do sobrinho do presidente de Angola.
Depois deu-se o fim de semana. Fui a três festas, uma num submarino, outra numa faculdade privada e, por último e porventura a melhor, na sede de um banco recentemente privatizado. Foi tudo muito divertido. As primeiras festas foram quase banais. Mas a última rebentou com a minha escala pessoal designada de 'quão boa pode ser uma festa sem que haja sexo, banhos de leite, esculturas de gelo e água que saia de torneiras feitas em ouro maciço'. Nessa festa portanto, ocorrida no domingo ao final da tarde, houve bebida, comida e música. Tudo emanava classe, sofisticação e charme. Mais tarde chegou a cocaína e outros compostos químicos. E, só depois, apareceram os rinocerontes zebrados, as medusas flutuantes, as bandeiras esvoaçantes, as naves voadoras que se assemelhavam a queques de laranja - digo de laranja porque cheiravam a laranja -, os alienígenas em forma de parafuso, a neve cor-de-rosa, as cadeiras falantes que mais pareciam escadas, o fio de pesca preso nas colunas e paralelo ao chão que nos fazia tropeçar, o pavimento flutuante, as paredes cheias de espigões que encolhiam de cada vez que eu espirrava, as pantufas esponjosas, os pratos de sopa sem fundo.
Foi o máximo! Nem em Hollywood eu conseguiria encontrar tanta qualidade numa festa.
Curiosamente, nessa mesma celebração, eu fiz grandes negócios. Sim, porque um político não se cansa de trabalhar! Fá-lo a toda a hora! Até a dormir! Por isso fechei negócio com um chinês que me permitiu contratar dez dos seus melhores professores para as minhas universidades e enviar onze dos nossos melhores alunos para as suas faculdades privadas. Concordei com um empreiteiro a substituição dos telhados das nossas escolas que fossem planos, por outros inclinados, visto que me tinha chegado aos ouvidos - lá está, ministra com informação privilegiada - que ia chover muito. Combinei com o primeirinho ministrinho que o governo ofereceria livros gratuitos a agregados familiares com uma destas duas situações: a pais que tivessem mais de doze filhos, sendo que a mãe teria de possuir apenas uma perna e o pai ter removido o apêndice até 1983, e a pais que tivessem tirado a carta de condução na 'Sempre a abrir' - empresa criada pelo irmão do primeirinho ministrinho. Também acordei com o antigo chefe do sindicato fazer a vida negra ao novo chefe do sindicato, porque este último se tinha feito à secretária do primeiro; e eu gosto de respeito, além de que o antigo chefe me prometeu contar segredos obscuros acerca do novo chefe e, palavra puxa palavra, acabei por lhe prometer que me fazia a ele numa outra festa, quando o efeito da cocaína estivesse no auge.
Na semana seguinte continuei o meu percurso. Renovei a roupa e adereços porque a imagem é fundamental. Assinei uma série de despachos - o que não deu muito trabalho porque me tinha esquecido dos óculos de ver ao perto em casa. E visitei duas escolas. Na primeira os professores estavam em greve. Na segunda os alunos simulavam um enterro. Bem, eu nunca gostei de funerais, ao contrário da minha querida amiga Rosalina, por isso tudo decorreu num instante.
No fim de semana seguinte descansei.
E hoje inicio a minha terceira semana de trabalhos. São 9H e acaba de tocar a campainha do Parlamento.

http://www.facebook.com/pages/Vasco-Ricardo/439622106051031?ref=hl

09/05/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE II


O primeiro episódio que tenho para vos contar remonta aos longínquos dias em que andava na creche. Eram tempos radiosos. Nunca era o último a acabar os trabalhos - a Maria e o Bruno terminavam sempre depois de mim -, a educadora estava controlada - era propícia a depressões -, já conseguia contar até 5 e reconhecia a primeira letra do meu nome, o P.
Pois, na altura não me chamava Moustafa, claro. Antes de mudar tratavam-me por Primo. Não, não eram os meus primos que me chamavam Primo. Primo era mesmo o meu nome. Que foi? Não me olhem assim! Fitem mas é o atrasado mental do primo do meu pai, que por sua vez também é um atrasado mental, que ao registar-me comunicou ao também atrasado mental do funcionário - por acaso um meio-irmão da minha mãe - 'Primo João', em resposta à questão: 'como se chama o menino?'
Portanto, agora é M-O-U-S-T-A-F-A, OK? E com todas essas letrinhas.
Dizia eu que tinha 3 anos quando o grande e primeiro acto da minha liderança ocorreu. Na verdade, tinha 3 anos e 10 meses, mas como ainda não fazia determinadas coisas que os meus colegas faziam, como juntar várias palavras na mesma frase, comer sozinho ou... largar a fralda, prefiro assumir que tinha simplesmente 3 anos. E foi neste último ponto que despertei para a liderança.
Já nessa altura me via que nem um autêntico Napoleão Bonaparte, mas sem cavalo branco como aquele que está representado num quadro famoso pintado por um senhor chamado João Luis David - não sei se ele era das Caldas da Rainha, se de Vila Real, não me recordo - que hoje em dia deve estar exposto no Louvre em Madrid - ou será em Londres? Bem, mas não pensem que eu sou tão baixo quanto ele era - dizem as más línguas que ele andava de tacões o falhado - porque mesmo com 3 anos eu já era maior do que as miúdas do berçário. Ah e o cabelo dele era mais oleoso do que o meu, se bem que eu também não uso chapéus e todos sabemos que os chapéus não deixam o cabelo respirar.
Não importa. O que interessa é que o Napoleão se lançou à conquista da Europa. Eu segui as suas pisadas na creche.
Assim, o ponto que fez despertar a minha vontade de liderar foi o facto de ainda usar fraldas naquela altura. Não era uma questão de querer até, era mais porque me borrava todo sempre que não devia. Atenção! O facto de haver, hoje em dia, quem me chame de merdas não tem a ver com isto, porque as pessoas que sabem desta particularidade, para além da Maria e do Bruno que estão aqui a espreitar ao meu lado, foram totalmente trucidadas por mim.
Houve, portanto, um dia em que eu estava na casa de banho sentado numa daquelas micro-sanitas. A auxiliar e a educadora faziam figas enquanto me seguravam pelas pernas, mantendo-me sentado em cima do tampo. Eu não queria estar ali desnudado da cintura para baixo, porque sempre tinha ouvido dizer que havia crocodilos e ratos nos esgotos, e não queria ser surpreendido por nenhuma dessas espécies. Enquanto isso, a Maria e o Bruno entoavam cânticos de incentivo e batiam palmas. Por momentos cedi e fiz força para ajudar a gravidade a agir. Eu sabia que tinha a cara vermelha e aquela era uma etapa importante para mim. De vida ou de morte.
E então a Julianinha - esse demónio um par de meses mais nova do que eu - entrou no WC. Sabem o que ela fez?
Riu-se! Riu-se de mim! Que descaramento! Depois de eu ter sido tão bom para ela! Riu-se pelo facto de eu não conseguir obrar - ou largar o tijolo para quem não for tão fino quanto eu e não entenda o seu significado. Isto depois de eu lhe ter emprestado o lápis de cera cor-de-rosa!
Bem, é certo que a reacção dela me deu a volta à barriga e eu descarreguei a tripa nesse instante. Não obstante, ela riu-se!
Foi uma grande naifada no meu coração.
Por isso não esqueci. Meditei durante dias, vi filmes de guerra, fingi que lia literatura de espionagem, preparei-me para a vingança.
Então, passado uma semana, enquanto ela dormia o sono da tarde, escapuli-me e roubei-lhe a Barbie preferida que estava pousada ao lado do colchão. E sorri. Eu tinha a mesma fralda desde a manhã. Não foi confortável, mas não me queixei à educadora e tinha nela acumulado os restos de várias refeições atrasadas. Ora, essa Barbie fez uma prolongada viagem pelas minhas partes mais íntimas até ganhar uma tonalidade típica de quem andou a bronzear-se.
Apreciei o resultado da minha acção e voltei a sorrir. Percebi que seria um líder, um vencedor. Depois devolvi-lhe a boneca ainda ela dormia e deitei a fralda fora. Fui ter com a educadora e expliquei que estava pronto para subir à sanita de livre e espontânea vontade.
Ela pegou na minha mão e levou-me. Estava tão satisfeita comigo que nem escutou o grito da Julianinha ao acordar.


07/03/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


ROSALINA – PARTE II

Hoje é um dia diferente. Adoro estas ocasiões especiais. É em domingos como este que mostro ao mundo, seja ele de quem for, quem é a verdadeira Rosalina.
Pois bem, hoje é dia de casamento da filha de uma prima minha que viveu em França durante uns vinte anos, mas que há um par deles regressou às origens. Mal conheço a Tatiana, a noiva, e quanto ao Jeremias, o felizardo, vi-o apenas uma vez, por altura da entrega do convite e respectiva lista de casamento, da qual constava uma playstation e um fim de semana num hotel-spa em Trás-os-Montes. Modernices!
Portanto, em dia de festarola, acordei às 6h30. Vesti-me com um fato de treino justo ao corpo e fui ao cabeleireiro para ser a primeira a ser atendida. Durante duas horas, a dona, pois recuso-me ser atendida por novatas, tratou-me do cabelo na perfeição, não obstante ele apresentar um corte curto e simples. Mas fica bem quando pintado de loiro, como a Julie Andrews – sabem? Aquela do “Música no Coração!”; sempre adorei esse filme, mais pela música do que pelo coração -; Assenta que nem uma luva na minha cara esguia e bonita. A dona perguntou-me de que cor era o meu vestido e eu expliquei-lhe que era a cor da moda. Ela ficou na mesma e eu também ficaria, não fosse a rapariga que trabalhava na loja na qual o havia comprado, duas semanas antes, mo ter confidenciado.
Quando cheguei a casa, de cabelo tratado, perguntei ao marido se estava bonita. Ele disse que sim com a cabeça. Afirmava sempre que sim. Qualquer dia vou com ele ao parque e atiro-lhe uma bola de ténis para ver quanto tempo demora a ir buscá-la e a trazê-la na boca.
Depois vesti-me no meu quarto enquanto os miúdos e o meu marido faziam o mesmo na sala. Íamos todos combinados, mas eu sobressaía. O meu traje tinha sido adquirido no estabelecimento onde a noiva o havia encomendado. Eu pedi que fosse similar ao dela, mas sem cauda e mais sofisticado.
Saímos de casa e fiz questão que fossemos os primeiros a chegar à igreja. Fiquei logo feliz, porque o padre, um moço novo mas demasiado bonitinho para o meu gosto, perguntou-me se eu era a noiva. Eu dei uma gargalhada muito alta, para ver se alguém se questionava do mesmo. Em vão.
Antes de a cerimónia iniciar, sentei-me na primeira fila, que costumava ser destinada aos familiares mais directos. Quando a minha prima chegou, olhou-me de soslaio e eu dei-lhe um grande beijo, como se sempre tivéssemos sido as melhores amigas. Ela não gostou da minha presença ali, bem sei. Porém, quem se importaria? Com o meu teatro parecíamos unha e carne, e, dessa forma, eu estaria ao alcance de todos os olhares, até porque sou alta e os tacões de doze centímetros também ajudavam.
Os noivos lá enfiaram as anilhas nos dedos e trocaram uns beijos, coisas que aborreciam qualquer um, e, antes de saírem da igreja, quando toda a gente os esperava, eu agarrei o braço do emplastro e antecipei-me. Nos segundos que antecederam a partida da casa de Deus, eu e o marido saímos quando toda a gente aguardava pelos noivos e gritei que eles vinham aí! Metade dos convidados caiu na esparrela e quilos de arroz nos foram endossados. Eu ri e expliquei que, apesar de estar tão elegante quanto a noiva e aparentar a sua idade, eles se haviam equivocado.
Esse acabou por ser um dos momentos do dia. Mas houve outros. Também gostei quando apanhei o ramo da noiva – gesto que teve de ser repetido por perceberem que eu não era solteira-; quando fiz questão de mostrar a toda a gente que o meu presente havia sido um dos mais caros; quando substitui a noiva e fiz um mini strip-tease para angariar dinheiro para o início de uma vida nova por parte dos pombinhos; quando dancei para toda a gente ver; quando pedi para fazer três brindes; ou quando arranquei um beijo na boca ao noivo depois de ter bebido em demasia. Até quando escorreguei na pista de dança, fi-lo com estilo.
Em suma, foi um casamento muito bonito e cheio de vida.
Cheguei a casa às tantas da manhã e um pouco ressacada. Nada, porém, que um bom sumo de laranja logo pela manhã não pudesse resolver.

20/12/2012

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JAIME – PARTE II

Malditas frinchas das persianas. Um dia tenho de arranjá-las. Odeio-as sempre que o sol ilumina este quarto bolorento, mas ao longo do dia vou esquecendo que elas existem, até à alvorada seguinte, quando volto a insultá-las. É que se torna complicado ouvir a mulher a levantar-se e a berrar com os miúdos para irem para escola, assim como todo o alvoroço quando mais do que uma criança se encontra no mesmo espaço. Seria mais fácil acordar quando todos já tivessem partido. Mas não, tenho de chupar com eles.
Mas quando a porta bate fico muito mais satisfeito. A mulher leva os putos à escola e depois vai fazer umas horas na casa de um doutor qualquer. Dá para ligar a televisão nas alturas, vestir-me sem ter ninguém que me mande tomar banho, coçar todas as partes do meu corpo sem ter de justificar que não aguento mais a comichão, arrotar e rir alto das piadas daquele senhor de óculos coloridos que dá na televisão.
É assim que se passa metade da minha manhã. A outra é no café. Hoje é segunda-feira e ontem houve jogo grande da liga nacional. Mal posso esperar para enfrentar o Armando, dizendo-lhe que a equipa dele não vale um chavo. Desculpar-se-á com os árbitros, mas quem se importa? O que interessa é ver o gajo vermelho de raiva.
Desço as escadas e reparado que as calças de fato de treino têm uma nódoa. Que se lixe, também não vou a nenhum baile. Quando abro a porta da entrada dou de caras com a carteira. Sorrio-lhe mas ignora-me. Mete as cartas à pressa nas caixas dos meus vizinhos e empurra-me uma contra o peito. Agradeço e ela vira-me as costas. Olho-a até desaparecer de vista e fantasio. Acaba o sonho e espreito a carta. Merda! É da Segurança Social.
Cerro os dentes e rasgo o envelope como se tivesse a esventrar o meu pior inimigo. Merda! Tenho de lá ir urgentemente.
Em vinte minutos chego às instalações do órgão público que vos suga. Olho a fila. Merda!, só gente. Encontro o meu primo Isaac e a minha sobrinha Sofia. Ainda me cruzo com o Zé, a Flora, o Adolfo e o Filipe. Tudo gente boa. Tenho de esperar quase duas horas por entre insultos e pensamentos de raiva. E finalmente sou atendido. É uma mulher de óculos de meia-idade que está do outro lado do guiché. Já a apanhei por outras ocasiões e a experiência não correu lá muito bem. Ela faz-me umas perguntas e eu respondo, evitando dar detalhes. Explico que ninguém me dá emprego, juro pela saúde dos meus filhos que a minha mulher tem dores crónicas, mas que o raio dos médicos não lhe passam um atestado, e que vivemos na miséria. Merda! Ela diz-me que vou perder mais de 50 Euros por mês.
Depois de protestar, enfio as mãos nos bolsos e regresso ao bairro. Como fumei os dois últimos cigarros pelo caminho, paro no café. Reparo que ainda não são 14H00. Maravilha! Ainda dá tempo para beber umas cervejolas antes de a mulher chegar para me azucrinar o cérebro. Pode ser que o Armando ainda lá esteja.