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13/03/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MADALENA – PARTE VI


Quando saí da igreja fui directamente para a minha casa e para bem junto do meu Teddy. Antes de adormecer, porém, ainda joguei uns níveis de Emily Grace. Já vos falei do Emily Grace? Trata-se de um jogo onde se matam pessoas e através do qual liberto a minha mente e faço aquilo que não posso fazer na realidade.
Sim, matei-os a todos na minha cabeça mas não na vida real.
Pensam que sou uma criança cruel?
Pensam que tenho pensamentos perversos?
Pensam que não possuo um coração capaz de amar e de sofrer como qualquer outra criança que brincava com as rodas das bicicletas ou com uma máquina de jogos arcaicos como o Tetris?
Ainda por cima como pensam que os encontraria nos tascos, nos cafés ou nos bares nocturnos assim sem mais nem menos? Eu não fazia ideia acerca do tipo de vida que cada um deles levava. Julgam que seria assim tão fácil? De caminho achavam que eu os mataria com o olhar ou com uma boneca de voodoo?
Acordem e não brinquem comigo!
Eu seria incapaz de cometer qualquer acto selvagem e violento.
Olhem bem para mim!
Vejam como sou riquinha e pisco os olhitos para que me achem uma queridinha. Eu sou a Madalena! A Madaleninha!
Tudo o que leram sobre mim não passou de um exercício de espírito, uma brincadeirinha. Até porque tenho andado com algum stress ultimamente. A professora tem exigido muito de mim e a minha mãe anda a reduzir-me o tempo de jogo na consola. Ando mesmo sob muita pressão.
Felizmente tenho o meu Teddy para me apoiar nestes momentos difíceis em que vacilo.
Acabei por adormecer enquanto o diabo esfregava o olho. O dele e o meu.
Acordei feliz no dia seguinte. Vesti-me a correr e apressei-me a sair de casa. Cheguei mesmo a tempo do início do funeral. Todos choravam a morte do padre Cardoso, incluindo aqueles que eu visitara na minha mente. Todos eles. O Jaime, bebendo uma cerveja e fumando um cigarro na primeira fila. A Rosalina em topless e apoiada no seu varão portátil. O Moustafa e a Maria e o Bruno com os seus cocktail molotov prestes a incendiar tudo e todos. A Graça e a sua bandeira do Brasil atada à cintura como se estivesse no campeonato do mundo de futebol. O Jeremias a focar todas as gajas para averiguar quais não eram gajas, ou melhor, quais as gajas que eram mesmo gajas.
E eu ansiava que todos se fossem embora, para bem longe dali. Eu e o meu Teddy precisávamos de estar a sós com o padre Cardoso. Afinal, eu não tinha encontrado a lista com as moradas de cada um deles em lado algum. De certeza que alguém a colocara no bolso da indumentária de enterro. Só podia estar ali. Os portugueses sempre foram muito apegados às suas coisinhas, mesmo diante da morte.
Quando houve fogo de artifício todos saíram para o átrio da igreja. E nesse instante senti que a minha oportunidade havia chegado.
Rebolei pelo chão frio da casa do Senhor e alcancei o caixão aberto. O padre Cardoso estava maquilhado. Onde já se viu? Um homem maquilhado! E ainda por cima morto! Por onde quereria ele esbanjar a sua beleza? Pelo menos não cheirava mal.
Vasculhei em todos os bolsos sem conseguir encontrar a lista.
Fiquei sem ter a certeza se havia guardado o maldito papel, se ficara caído no confessionário ou se alguém tinha pegado nele.
Praguejei e então encarei-o.
A quem?
Àquele que se dizia o meu melhor amigo.
Ele sorria descaradamente e eu fui invadida por um sentimento de raiva.
“Teddy! Foste tu, não foste? Onde está o maldito bilhete?”




FIM


02/01/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CARDOSO – PARTE VI


Ontem adormeci com uma ideia na cabeça. Hoje acordei e a ideia permaneceu. Mais! Até se desenvolveu.
Pergunto, qual a cerimónia católica onde vejo mais sorrisos? O casamento. Quer dizer, pelo menos em termos médios, porque já vi noivos chorarem e, acreditem, não podia ser alegria. Eu vi os véus serem levantados. Vi a cara delas. Definitivamente não era de alegria.
E agora questiono novamente, qual a cerimónia católica que envolve mais lágrimas? O funeral. Também é verdade que já vi confetes na altura em que o caixão descia em direcção ao buraco cavado ou uma orgia na casa de banho logo após o encerramento do ritual.
E do que me lembrei? Bem, achei que seria interessante trocar a envolvência de um casamento com a de um funeral. Portanto, o objectivo é tornar o matrimónio um acto de tristeza assim como transformar o enterro numa celebração alegre.
Porque me lembrei de fazer isto? Da mesma forma que jovens venderam a virgindade através do ebay ou que os comediantes portugueses insistem em vestir-se de mulher, faço-o porque posso. Isso mesmo, pelo simples facto de poder fazer o que me apetece.
Durante a manhã preparei o meu novo discurso para o casamento das 13H e o funeral das 16H.
A noiva, vestindo de negro, entrou ao som da música fúnebre do Chopin - vocês sabem, aquela muito famosa, que começa com um tchan-tchan-tchan-thcan tchan-tchan-thcan-thannnn, seguido de um tinoninoninoninonino alucinante. As flores que enfeitavam a igreja não eram ramos, mas sim coroas. O noivo que esperava a amada chorava desalmadamente, gritando ocasionalmente um longo e arrastado “porquê?” As pessoas que a viam passar comentavam “Meu Deus, são tão novos para partir, este mundo é tão ingrato” - claro que eles iam partir para África do Sul porque neste país existem poucas oportunidades para os recém-licenciados. Eles juntaram-se no altar e deram as mãos, sem sorrirem um para o outro. E então eu falei:
“Meus senhores e minhas senhoras, sejam bem-vindos ao funemónio da Raquel e do Marco, que desta forma decidem acabar com as suas vidas. Mas a vida é eterna, ao lado de Deus. Deus estará presente no leito deste casal que acaba de se reunir sempre que o Marco passar a noite fora em Joanesburgo, provavelmente num bar de strip em vez das reuniões de negócios que argumentará. Para eles uma vida termina hoje e outra começa. Não é caso para derramar lágrimas. Podia ser pior. Podiam ser cerrados a meio ou serem desmembrados por quatro cavalos puxando em direcção opostas como se fazia antigamente. Nunca ninguém disse que ia ser fácil. Mas o Senhor acompanha-vos nesta jornada terrível e dolorosa. Esta união será eterna, como se alguém acorrentasse estes jovens numa masmorra cheia de outros reclusos fedorentos e leprosos, isto numa metáfora alusiva às adversidades da vida. E mesmo quando a Raquel e o Marco morrerem e se juntarem a Deus permanecerão lado a lado, como gémeos siameses. A única coisa que espero é que morram novos, porque, segundo vi num filme, lá no céu, vemo-nos uns aos outros da mesma forma com que deixamos o mundo. Assim, desejo-vos sorte, para não terem de encarar na eternidade a flacidez da pele de um e a ausência de dentes do outro. Isto não contando com micoses, impotência, reumatismo, unhas enegrecidas, furúnculos diversos ou problemas na coluna. O que vos resta, caso morram velhos, é a deficiência visual e auditiva, capaz de atenuar a podridão dos vossos corpos. Mas como nem tudo é mau, vamos dar início à cerimónia.”
Mais tarde preparava o povo para enterrar a Gervásia da Ressureição, uma mulher de uns quarenta anos morta por um ataque cardíaco fulminante. O arranjo floral era primaveril, apesar de ser Inverno, e a fragrância a rosas pairava no ar. A defunta vestia um saia-casaco branco com nuances em tons de cor-de-laranja e quando o povo se reuniu no cemitério - não dei a missa porque não cabia toda a gente dentro da igreja - havia um camião ambulante que andava às voltas, entoando repetidamente a música do Eminem “Go to sleep Bitch... Die!!!” Havia também roulottes vendendo cachorros-quentes e Super Bock a metro. Antes de enterrar a morta, decidi dirigir umas palavras aos amigos e familiares da patroa.
“Meu povo, como é que é?! Daqui é o padre Cardoso Tenebroso! Woohoo, vai uma onda da esquerda para a direita?! 'Bora lá pessoal. Bem, já chega, comportem-se. Estamos aqui reunidos para celebrar o funeramento da nossa patroa Gervásia. É com alegria e muita satisfação que a vejo juntar-se à natureza, a Terra-Mãe, criada por Deus-Pai. Agora que penso nisso, pergunto-me como terão concebido estes filhos todos. Bem, isso não importa para nada. O que é relevante é que a Gervásia parte deste lugar para um mundo melhor. Sim, o mundo da terra, rico em minerais e vida selvagem. E ela até tem muita sorte porque este solo é muito fértil e aqui qualquer coisa floresce. Desconfio que se plantasse um tijolo, nasceria não uma casa mas sim um palacete pintado de paredes e abóbadas douradas. Portanto, a nossa Gervásia encontrará a felicidade. Nunca estará só, pois estará sempre acompanhada por pequenos animais e bactérias ao longo dos primeiros meses. Uma folia! Quem não gostaria de ser comido durante semanas a fio sem parar? Eu gostaria. E a Gervásia também, posso assegurar. Depois restarão os dentes e os ossos, e lá a desenterraremos. Se eu ainda estiver por cá daremos uma nova festarola. Por isso gargalhemos uma última vez pela Gervásia. Ela merece! E quem não encontrar alegria para fazê-lo que se recorde que foi ela quem lançou o boato na net de que o presidente da junta era na verdade o chupa-cabras e que antes de mudar de identidade era conhecida como Monica Lewinsky, que, felizmente, mudou de nome mas manteve intacto o seu talento natural.”
Acabei por chegar a casa estafado mas com o sentimento de dever cumprido. Liguei a televisão e vi um filme que nunca esquecerei.


24/10/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JEREMIAS – PARTE VI

 
Uns tempos antes de ter trabalhado na noite fui pirata informático. Essa acabou por ser uma das minhas profissões favoritas. Não tinha horários, pagavam bem e tinha tantos clientes que me sentia obrigado a recusar alguns trabalhos. O único contra era que não conhecia gajas novas.
Sempre fui bom com os computadores, quase tão bom como sou na arte de mexer os músculos.
E então aproveitei quando tive a primeira oportunidade de me transformar naquilo que acabei por ser nos meses seguintes.
Certo dia, um amigo de longa data apareceu diante de mim, lixado, dizendo que os filhos do patrão o haviam tramado e que ia ser despedido por causa deles. Eu aconselhei-o que fizesse o mesmo, que os lixasse como vingança. Ele concordou mas assumiu que não conhecia os seus podres, embora achasse que no computador deles haveria provas desses mesmos podres.
Num ápice surgiu a ideia.
Comprei kits de espionagem pela net, descobri passwords e encontrei uma forma de aceder ao pc de cada um deles.
Rapidamente descobri a careca dos filhos do seu patrão. Eram três, dois homens e uma mulher. No computador do mais velho encontrei fotografias dele posando nu junto de carros da polícia, do parlamento, de um turista dormindo na praia, de uma árvore centenária em pleno parque da cidade e até mesmo dentro de um táxi conduzido para um gajo parecido com uma gaja que faz comédia para a televisão. Abona em favor do filho o facto de não ter motivos para se envergonhar dos seus atributos. Em seguida, vasculhei à distância o computador da filha e achei filmes pornográficos caseiros em que ela aparecia com uma série de homens fardados com os fatos da entidade bancária para a qual o meu amigo trabalhara e usando bonés onde se podia ler 'who's the boss, bitch?'. Também consegui encontrar material que pudesse entalar o filho mais novo, pois tinha digitalizado no pc imagens da sua colecção de selos, algo que lhe arruinaria por certo a sua reputação.
O meu amigo abraçou-me com força. Disse-me que os filhos estavam tramados e que um futuro risinho se seguiria: ou seria promovido a chefe ou receberia uma excelente indemnização; caso contrário, eles estavam mesmo tramados. Depois comentou que eu era genial, que fotos e vídeos depravados toda a gente os tem, mas uma colecção daquelas era brilhante para chantagear a família. Até porque o mais novo, o gajo selos, era o mais implicativo deles todos.
E resultou na perfeição.
Não só se tornou vice-presidente da empresa, como se transformou numa espécie de filho adoptivo do patrão, passando inclusivamente a constar no seu testamento. Hoje penso que o velho teria uma série de segredos mais negros do que os filhos. Talvez preferisse jogar snooker em vez de golfe ou não abdicasse de conduzir o seu próprio veículo em vez de requerer os serviços de um motorista. Só escândalos dos grandes, portanto. Todavia nunca cheguei a vasculhar, pois daí em diante eu passaria a ser um profissional no ramo e um gajo, para ganhar nome no mercado, necessita de sigilo e de um rigoroso sentido ético.
Ética é tudo, que o digam as gajas que me passaram pelas mãos. Nunca mencionei o nome delas. Que o diga a Sónia Marmeladas.
Rapidamente a palavra se espalhou. Tornei-me num dos melhores piratas informáticos do mundo.
Armas químicas na Síria? Há décadas que sei disso. Até sei que se encontram no meio do deserto e tudo.
A informação obtida por Julian Assange? Passei metade do que ele expôs em troca de uma gaja sueca, que são difíceis de encontrar.
O espião Edward Snowden? Apenas ficou famoso depois de eu me ter saturado de descobrir os segredos dos outros e me ter reformado de vez.
A pedofilia no Vaticano? Teria imprimido e enviado para os jornais a lista de padres e cardeais implicados, só que não tinha tinteiro que chegasse na altura, e, para ser sincero, sou um homem religioso.
A roupa interior do José Castelo Branco? Bem, isso deixou de ser segredo quando os media decidiram dar-lhe tempo de antena.
A verdadeira identidade do Batman? O Batman não existe, seus tolos, mas já comi a Catwoman. Mia que se farta.
Como disse, fartei-me desta vida e mais ainda quando me sentia perseguido pelos serviços secretos de todo o mundo. Falhados, se ao menos tivessem vida própria não andariam atrás de mim.


06/09/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

GRAÇA – PARTE VI
 
(Nota: qualquer semelhança entre o conteúdo deste texto e a realidade continua sendo pura coincidência)
 
Hoje estou muito deprimida.
Resolveram fazer uma manifestação contra as medidas que adoptei. Há duas semanas fizeram outra alusiva à minha inoperância. Primeiro pensei que fosse uma festa e preparava-me para me juntar. Só depois me disseram que era um ajuntamento de indivíduos que contestavam as minhas linhas orientativas - é mais chique que manifestação. Hoje regressarão às ruas por causa daquilo que julgam ser o melhor para os nossos filhos, alunos e jovens.
Não percebo esta gente, este país e estes pais.
Pois bem, o governo tem recolhido dados que julgamos contribuir para que o ensino em Portugal esteja fraquinho. Por isso eu anunciei uma série de medidas para combater os nossos problemas, as quais o primeirinho ministrinho se mostrou totalmente de acordo - afinal somos um governo unidinho. Podeis ler e verificar como tenho razão.
1 – Elevada taxa de reprovação no ensino secundário.
O que defendia Darwin? Selecção natural, meus caros. Selecção natural. Restringir a entrada para o ensino secundário apenas a alunos com um QI superior a 120 e impedir o ingresso de adolescentes que vivam a mais do que 2 km das suas escolas, porque também há chumbos por faltas - que deverão ser devidas, na sua maioria, aos atrasos provocados pelo trânsito existente nas nossas cidades.
2 – Bullying no interior das instalações escolares.
Construir uma prisão nas próprias escolas e enjaular os alunos que apresentem um mau comportamento à vista de todos, para que, nos intervalos, os colegas possam atirar amendoins e oferecer copos de água. Assim, promovemos o sentido de responsabilidade aos que alimentam e humilhamos os detidos.
3 – Desigualdade entre o ensino público e o ensino privado.
Acabar com o ensino público. Dessa forma, tudo fica mais barato e ninguém se queixará dentro de um par de anos.
4 – Preço excessivo dos manuais.
Impedir a entrada no ensino público de alunos provenientes de famílias de baixos rendimentos para que todos possam pagar os livros e ter as mesmas condições de aprendizagem. Para que não haja desigualdade, permitir que os alunos impedidos de frequentar a escola possam voltar a ingressar passados dois anos de trabalho, podendo, portanto, pagar os respectivos manuais.
5 – Instalações de ensino deficientes.
Provocar um terramoto na região - ouvi dizer que os americanos possuem armas que produzem tremores de terra - para que os lares dos alunos tenham as mesmas condições das escolas, e, assim, não estranharem o ambiente escolar.
6 – Professores que não conseguem impor ordem nas salas de aulas.
Em cada ano lectivo, colocar o aluno mais popular da escola a dar aulas e despedir o professor menos respeitado.
7 – Roubo de material escolar.
Cortar a mão aos acusados e o braço aos condenados.
8 – Impreparação dos alunos quando da entrada para a faculdade.
Enviar os alunos para o grupo de escuteiros de cada região, ensinando-lhes como sobreviver um fim de semana sem água nem alimentos em Castro d'Aire, a caçar um veado com um fio de pesca com 27 cm - faço anos a 27 de Novembro - e arrotar o abecedário em 27 segundos sem recorrer a um refrigerante gaseificado.
9 – Perigo nas estradas que acedem às escolas.
Remover passadeiras, desactivar semáforos e eliminar passeios num raio de 500 m das escolas para que os alunos não caiam na tentação de atravessar as ruas em locais indevidos.
10 – Elevado número de queixas por parte dos alunos relativamente ao ensino em geral.
Cortar línguas que possam falar e dedos capazes de escrever. Caso seja insuficiente, cegar os alunos com um ácido não muito forte para que não possam ver defeitos e furar os tímpanos com brocas finas - iguais às dos dentistas - de modo a não escutam os disparates que ouvem diariamente.
Como vêem, não é assim nada de especial a minha lista de medidas. Podia ser pior. Ouvi dizer que no Irão se apedreja até à morte - é um caso a pensar no ponto 10, caso os alunos continuem a queixar-se - ou que em certos locais se aplicam choques eléctricos nos genitais - hm, tenho de pesquisar e averiguar se a voltagem dá para ser regulada.
Bem, mas de qualquer forma vou tirar uns dias de férias. Isto de ser contestada dá uma imensa dor de cabeça. Não que seja devida ao esforço de procurar soluções que acabam por não acudir o povo, mas porque eles gritam mesmo alto. Coitados.


06/06/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MOUSTAFA (e Maria e Bruno) – PARTE VI


Quando era miúdo adorava ver filmes de guerra.
Lembro-me de ver o “Platoon” e de delirar com aquela morte heróica ao som da música clássica, quando os vietcongues perseguiam o Willem Defoe. Eles disparavam, disparavam, disparavam e o gajo tardava em morrer. Na verdade até demorou tempo demais, aquele traidor, o bufo, que não se calou nem defendeu os colegas. Uma pessoa deve proteger os irmãos de armas acima de tudo, nem que para isso tenha de engolir sapos - raios, como odeio sapos.
Recordo-me também quando o Marlon Brando assumiu que adorava o cheiro do Napalm em “Apocalipse Now”. Durante anos snifei latas de cola de sapateiro a pensar que era Napalm, imaginando-me na pele do coronel que dava cabo daquela corja toda. Não matei ninguém, mas dava uma moca do caraças. Era agradável nomeadamente quando me sentia deprimido.
Eu amava aquele ambiente de atirar a matar, servir sem perguntar porquê, mostrar o poder a quem tinha de ser subjugado. Por isso, quando atingi a maioridade, uns dias antes de ter perdido a virgindade, fui para a tropa.
Foi um dia feliz, do qual me senti incrivelmente orgulhoso.
Daí em diante podia tatuar os braços com naifas e caveiras, usar botas iguais às dos skinheads, colocar uma fita na testa semelhante à do Rambo quando fosse para o mato cortar as urtigas e vestir t-shirts caveadas e pretas - embora para tal precisasse de ganhar músculo.
Por isso quando fui destacado para o quartel de Estremoz fiquei imensamente grato à nação. Primeiro agradeci ao Rei de Espanha, mas depois percebi que a cidade não era Badajoz, daí que, em seguida, me tenha sentido grato para com o presidente português da altura, e só por esse facto lhe perdoei que o seu partido fosse representado por uma rosa - rosas, mas quem gosta de rosas?
A rosa é sinal de fraqueza, de amor. Coisas para S-A-C-I-R-D-E-M e S-O-D-A-H-L-A-F. E isso são coisas que não sou! Digam o contrário e eu chamo a Maria e o Bruno para, que nem uma matilha esfomeada, vos devorar. Tendes é de estar em inferioridade numérica, de preferência 1 para 3, para minimizar os riscos.
Por falar em Maria e Bruno, foi doloroso perceber que me iria separar deles. Dos meus amigos, meus seguidores. Mas um mundo novo se dispunha diante de mim. Eu tinha de partir, conquistar as forças armadas, reunir um exército como fez, um dia, o Roberto Carlos... ai não, esse foi o que cantou a música do Calhambeque... referia-me ao Carlos Magno!
Bem, a Maria não podia vir porque era gaja. O Bruno também não porque era asmático. Mas, génio que é génio encontra sempre solução. Então, enfiei-os na mochila, daquelas da tropa, das que são do meu tamanho, e levei-os junto a mim. Carreguei-os em prol do grupo, o nosso grupo. E lá fomos para Badajoz, perdão, Estremoz.
Cheguei lá e era só pessoal porreiro. Eram tão afáveis que me davam com toalhas molhadas e enroladas no rabo. Eu ria-me para eles e eles faziam o mesmo. Esfreguei as sanitas com a minha escova dos dentes e lavei-os a seguir, o que foi óptimo para ganhar defesas. Insultavam-me e eu resistia às ofensas, porque sabia que não eram sinceras, que só serviam para me tornar mais forte. Enfim, enquadrei-me na perfeição.
Depois de uns dias assim, lá está, abraçaram-me e levaram-me às meninas. Na verdade era só uma. Uma mulatinha franzina de buço enegrecido e queixo proeminente, que mais parecia um quarentão raquítico acostumado às tabernas, devido à penugem grossa e ao cheiro a álcool. Chamava-se Renatinha, ela. Por algum motivo os meus compinchas tinham-se apercebido da minha inocência e fomos uns vinte amigos, e a Maria e o Bruno escondidos, divididos por quatro carros, em direcção a uma cidade próxima. Ela acenou-me de um segundo andar de uma pensão rasca e eu subi a tremelicar das pernas. Ela despiu-se e eu demorei a reagir. Os meus companheiros gritavam palavras de incentivo na rua e no passeio. E lá me desenrasquei numa questão de segundos. Ela endossou-me um sorriso desdentado e eu retribui. Afinal tinha sido meiga e durante noites a fio acabei por sonhar com ela.
Quando desci a escadaria, todos me abraçaram. A Maria e o Bruno choravam de emoção. Depois os meus colegas de quartel ficaram brancos ao perguntarem-me se tinha usado um preservativo. Como eu inquiri o que raio era isso que nem sabia pronunciar, eles espancaram-me, até a minha amada descer a confirmar que sim.
Sanada a pequena discussão fomos para os copos. Foi lindo. Fui abraçado por eles, já bêbedos, e senti-me um verdadeiro soldado, pronto para enfrentar qualquer adversidade.
Mais tarde, encontrei a Renatinha a assar frangos. Tinha um ar triste, uma touca vermelha na cabeça e um crachá no peito. Tinha mudado de nome para Renatão. Mas a sua essência não tinha mudado, continuava com o mesmo olhar dócil e sorriso afável. Afinal tinha sido o meu primeiro amor carnal.



28/03/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


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ROSALINA – PARTE VI


Hoje sinto-me inspirada.
Ontem à noite assisti a uma entrevista de um dos meus maiores ídolos. Tinha saudades dele, pois não lhe punha a vista em cima há dois anos. Admiro-o pela forma como me cativa. Foi primeiro-ministro de Portugal durante alguns anos, mas, quando o seu mandato foi quebrado, infelizmente partiu. Mas agora voltou. Viva ele!
Ora, o meu herói tem o cabelo grisalho, quase branco e parecido com o do George Clooney, o nariz esticado como o do Pinóquio, um sorriso que espelha confiança da mesma forma que o de um monárquico português cujo nome não me recordo e fala de um jeito quase hipnótico que nem o Luther King. Senti-me preenchida quando o escutei a disparar em todas as direcções e a refutar as acusações que sobre ele lançaram nos últimos tempos. E mesmo assim, deu a cara. Mal abriu a boca, todas as partículas do meu ser vibraram.
Que homem!
Para além disso, tem um nome impactante, de estrela. Até nisso ele caiu em graça, porque quando o pronuncio recordo-me do grande filósofo e do craque de futebol, mas também do pincher da minha vizinha, que é uma fofura de animal.
É isso que almejo, ser como ele, ter a sua atitude, iludir tanto os outros que eu mesma acabo por acreditar. E é dessa forma que encaro os meus adversários assim que entro numa sala de um tribunal: por mais culpado que pareça o meu cliente, faço dele uma espécie de santo.
Por isso hoje me sinto assim. Pois sei que o D. Sebastião voltou.
E assumo a postura dele. Perco o medo e incho o peito como se não me importasse de o oferecer às balas. Ergo o queixo ainda mais e puxo os ombros para trás. Fico segura, dentro do meu mundo, para vencer no mundo dos outros.
Eu sou Rosalina e sou invencível.
Não visto casaco que não há constipação que me afecte. Não me penteio porque o vento se ocupará disso – e uso o cabelo curto. Não me desvio dos transeuntes – eles que o façam. Falo alto pois não tenho o que temer. Como o que quero, pois não há caloria que me vença. Gasto o que desejo. Rio do que me apetece. Vivo para mim.
E não ponho o cinto de segurança porque não há nada que se coloque no meu caminho. Pois, não costumo conduzir, se bem hoje sinto-me de cabeça perdida.
Neste dia tudo estava a correr na perfeição até dar de caras com uma brigada de trânsito. Eram três polícias, dois de meia-idade e um mais novo. O último mandou-me parar, cheio de autoridade, quase se colocando no meio da estrada. Os pneus chiaram e por pouco não passei por cima dele. Imaginei que se quisesse exibir perante os oficiais mais velhos.
Falhados!
Parei alguns metros à frente e meti o cinto. Dois deles aproximaram-se e pediram-me a documentação. Eu dei-a, obedientemente. Fizeram uma série de questões e inspeccionaram o que tinham de inspeccionar. Eu permiti.
Depois, o homem que me mandara parar disse-me que eu vinha sem cinto de segurança. Perguntei se era doido, que podia olhar para mim e conferir. Ele encarou-me seriamente e questionou-me se eu me opunha à sua afirmação. Hesitei. Na verdade sempre me opus à opinião acusatória dos defensores da Lei. Afinal esse era o meu trabalho, logo não constituía qualquer novidade para mim.
Eles olhavam-me enquanto aguardavam a minha resposta. Eu fechei os olhos e inspirei fundo. Revivi o meu mestre e abri a boca:
O que o senhor agente possa ter visto talvez tenha uma interpretação. No entanto a realidade pode ser outra que não a que o senhor defende. A subjectividade daquilo que enfrentamos impede-nos de proferir verdades absolutas. Para além disso, sendo eu mulher, o senhor agente podia estar distraído com outros atributos que não estejam relacionados com a colocação do cinto de segurança. Não seria a primeira vez que uma ilusão interferiria na conclusão de determinada situação. Não obstante eu tenho o cinto posto. Posso afirmá-lo com todas as forças. O resto serão narrativas e embustes, que podem vir da esquerda ou da direita. Mas não passarão disso. E se o senhor agente não acreditar, eu farei com que acredite. Estou inocente da sua acusação porque eu cumpro a Lei. Sempre o fiz. Portanto não posso ser acusada do que quer que seja.
Calei-me, ofegante. Os homens fizeram caretas estranhas e olharam um para o outro antes de se dirigirem a mim. Por fim mandaram-me prosseguir. E assim que os perdi de vista, voltei a tirar o cinto e agradeci ao meu mecenas, antigo primeiro-ministro, por me ensinar a superar as adversidades.
Afinal ele é mesmo bom, e eu sou quase tanto quanto ele. Pergunto-me quantas laranjas terá esmagado para atingir tal estado de perfeição.




30/01/2013

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


JAIME – PARTE VI

Hoje acordei bem-disposto, de tal forma que decidi mudar de vida... Isso mesmo! Estou cansado de não fazer nada o dia todo. Os tectos e as paredes da casa estão a ficar demasiado escuros e bolorentos, fazendo com que me sinta deprimido. Na televisão só falam de desgraças, não que seja mau, pois dá para rir, mas já não é a mesma coisa. No café sinto falta de alguma malta. O Tó tem levado no corpo da mulher que já não o deixa lá ir, o Nel morreu, o Quim Caixinhas foi para a França porque lhe tiraram os subsídios – se isso se faz a um homem de família? – e o Quim Fininho foi morar com os sogros depois de ter levado uma carga de lenha por andar a dormir com a mulher do outro Quim, o Caixinhas.
Por isso decidi tornar-me num homem novo. Mas primeiro tinha de ir ao café.
Fumei meio maço durante duas horas e aceitei que me emprestassem umas minis. Sim, emprestar, depois mais tarde devolverei. Li os jornais desportivos, aqueles que falam dos milhões que se gastam nas transferências e dos ordenados como se fossem cêntimos. Eu que ganhasse 100.000 Euros num mês, nunca mais fazia nada na vida....
Depois, lá por volta das 11H decidi dar o primeiro passo. Pedi uma caneta ao Armando e os classificados ao gajo do café – sim, agora trato-o por gajo do café porque ontem teve a lata de me chamar caloteiro -, que logo me avisou para não rabiscar no jornal porque tinha outros clientes. Encolhi os ombros e ignorei, afinal ninguém procurava emprego na Biquinha... Falhados!
Comecei a ver as colunas de cima a baixo, da esquerda para a direita. Pediam trolhas, mas eu sofro da cervical. Se tivesse a carta de pesados poderia concorrer ao cargo de motorista internacional. Vi um anúncio para canalizador, porém nunca tive jeito para encaixar lego's, quanto mais tubos. Espreitei empregos para o estrangeiro, se bem que descartei-os logo, pois não sei falar francês nem inglês, e já não tenho idade para sair do país; isso é coisa para miúdos. Reparei que pediam gente para segurança privado; ainda pensei, mas para que funcionasse bem tinha de dormir as minhas 10 horinhas por noite, por isso nada de turnos.
Quando acabei dobrei o jornal em dois e atirei-o para a mesa do lado. Como queriam que uma pessoa trabalhasse não havendo emprego para nós?
Fumei outro cigarro e conclui que, afinal, mudar de vida não era assim tão fácil. Todavia sempre me considerei um gajo de raça, perseverante como tudo! Levantei-me e disse que ia ser o meu próprio patrão! Armando riu-se e eu dei-lhe duas sapatadas no cachaço bem dadas. Ele resmungou sem levantar a voz.
Depois pus-me a pensar. Talvez pudesse ser taxista. Sempre podia fazer o meu trabalho e roubar os turistas. O Armando fez-me ver que eu não tinha a carta de condução. Pensei que nunca havia sido caço no FIAT, mas de facto ele tinha uma certa razão. Encarei os cigarros pousados na mesa e ocorreu-me tornar-me vendedor de tabaco até o gajo do café - que estava sempre a ouvir o que os outros diziam.... cusco! - explicar-me que isso já não dava dinheiro. Pensei distribuir aquelas máquinas ilegais que os cafés têm, mas não podia, pelo menos enquanto não limpasse o cadastro nem resolvesse as situações pendentes com o tribunal.
E então fez-se luz. E tudo estava nos classificados, nas páginas seguintes às ofertas de trabalhos. Tornar-me-ia consultor sexual das meninas que ofereciam os seus serviços.
Entusiasmado, nem almocei e fui pesquisar pela rua. Durante a tarde fiz perguntas e andei de pouso em pouso à procura de respostas. Quando regressei ao café, senti-me triste porque as meninas ou trabalhavam sozinhas ou já tinham quem cuidasse dos seus assuntos. Talvez no dia seguinte fosse ao banco pedir um empréstimo para investir no meu próprio negócio. Afinal, se o mercado estava lotado, eu tinha de arranjar material novo e para isso seriam necessários recursos para um estudo aprofundado e angariação de matéria-prima de qualidade. Mas se o banco não emprestasse não era caso para entrar em desespero. Talvez me saísse o euromilhões um dia destes.


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