Uma Outra Voz de Gabriela Ruivo Trindade
Sinopse:
José Mariano Serrão foi um republicano convicto que contribuiu decisivamente para a elevação de Estremoz a cidade e o seu posterior desenvolvimento. Solteiro, generoso e empreendedor como poucos, abriu lojas, cafés e uma oficina, trouxe a electricidade às ruas sombrias e criou um rancho de sobrinhos a quem deu um lar e um futuro. É em torno deste homem determinado, mas também secreto e contido, que giram as cinco vozes que nos guiam ao longo destas páginas, numa viagem que é a um tempo pessoal e colectiva, porque não raro as estórias dos narradores se cruzam com momentos-chave da história portuguesa. Assim conheceremos um adolescente que espreitava mulheres nuas e ria nos momentos menos oportunos; a noiva cujos olhos azuis guardavam um terrível segredo; um jovem apaixonado pela melhor amiga que vê a vida subitamente atravessada por uma tragédia; a mãe que experimentou o escândalo e chora a partida do filho para a guerra; e ainda a prostituta que escondia documentos comprometedores na sua alcova e recusou casar-se com o homem que a amava. Por fim, quando estas vozes se calam, é tempo de ouvirmos o protagonista através de um diário escrito noutras latitudes e ressuscitado das cinzas muitos anos mais tarde.
Baseado em factos reais, Uma Outra Voz é uma ficção que nos oferece uma multiplicidade de olhares sobre a mesma paisagem, urdindo a história de uma família ao longo de um século através das revelações de cada um dos seus membros, numa interessante teia de complementaridade.
in wook.pt
Manuel Cardoso
O simples facto de
a narrativa ser feita em cinco vozes dá ao livro um aspecto original que muito
terá contribuído para o prémio Leya com que foi agraciado. Na verdade, trata-se
de um estilo algo inovador que nos permite ter uma visão global de uma
personalidade, vista por cinco narradores bem distintos.
Por outro lado, o
livro associa com algum sucesso a ficção à biografia. Se acrescentarmos a isto
uma escrita fluída, clara e um autêntico passeio pelo século XX português, encontramos
talvez a explicação completa para a seleção do júri deste prestigiado prémio.
Mesmo assim, eu,
leitor comum e desinteressado, não deixo de ficar algo surpreendido. O livro
tem qualidade mas a verdade é que não consigo encontrar nele nada que verdadeiramente
traga inovação. Por outro lado, a narrativa acaba por se perder em bruscos
saltos temporais que dão ao livro um aspeto de "manta de retalhos"
sendo que alguns deles parecem claramente desenquadrados do tema central, a
vida do benemérito republicano João José Mariano Serrão.
Talvez a
expetativa fosse demasiado elevada quando parti para a leitura, no entanto fica
a sensação de que falta aqui algo que distinga realmente o livro das centenas
que todos os meses se publicam em Portugal.
Esperava mais e
melhor, é certo. No entanto, como referi, a obra tem qualidade.
O aspecto mais
positivo centra-se na forma como a vida do protagonista testemunha momentos
chave da nossa história, como o movimento republicano, com as suas
contradições, dificuldades e conflitos, bem como a ascensão do Estado Novo, que
terá precipitado a fuga para África do protagonista.
Passando pelos
últimos tempos da Monarquia, pela Primeira Republica, pelo Estado Novo e mesmo
pelos primeiros anos da democracia, fica bem patente a força do conservadorismo
luso, não só na evolução política como, acima de tudo, nos costumes e na
mentalidade, o que acaba por se plasmar num quadro social dominado pelo
preconceito, pela intriga interesseira e por uma certa perpetuação do
obscurantismo.
Em suma, estamos
perante um grande prémio para uma pequena desilusão.
Ana
Nunes:
Este é o segundo vencedor do Prémio Leya que li para o Clube de Leitura de Braga (o primeiro foi "O Teu Rosto Será o Último") e já começo a ver um padrão. Nada de surpresas aí. Mas, confesso que gostei mais deste da Gabriela Ruivo Trindade.
Este é o segundo vencedor do Prémio Leya que li para o Clube de Leitura de Braga (o primeiro foi "O Teu Rosto Será o Último") e já começo a ver um padrão. Nada de surpresas aí. Mas, confesso que gostei mais deste da Gabriela Ruivo Trindade.
Este livro está contado a
6 vozes, com cinco histórias distintas que acabam por estar interligadas numa
sexta. Não são cem anos de história, como o trailer quer fazer acreditar,
porque na verdade são só três gerações (embora sejam 6 vozes), mas anda lá
perto.
A primeira voz é de um
rapaz de 15 anos que os introduz à família mas que, infelizmente, está
retratado como um miúdo de 10 anos. Naquele tempo eu duvido que um rapaz de 15
anos fosse tão imaturo e falasse daquela maneira. Especialmente um que queria
tornar-se médico. Caramba, eu, que sou de uma geração recente, aos 15 anos não
falava assim, quanto mais antes do 25 de Abril. Com 15 anos já eram adultos.
Mas, tirando essa imaturidade, ele acaba por ser a persoangem perfeita para
introduzir o leitor na história.
A segunda voz foi, para
mim, a menos marcante. Não fosse a revelação do padre, e parece-me praticamente
inconsequente.
A terceira está lá para
falar do 25 de Abril e pouco mais. Não me liguei particularmente com o narrador
e achei que a narração dos eventos poderia ser mais emotiva, mais vibrante.
A quarta voz é uma das
mais esclarecedoras e uma das que mais gostei. Desvenda muitos dos mistérios
colocados nos relatos anteriores e a narradora é das mais ricas.
A quinta e última voz (na
verdade não é a última) é, sem dúvida, a mais marcante, mas também a mais
frustrante. Ana foi, ao mesmo tempo, a personagem mais forte e a mais irascível
de todo o livro. Ou não fosse a sua teimosia e falta de auto-estima factor de
irritação. Mas, claro, não podia ser de outra maneira, para a história terminar
como terminou.
Gostei da forma como a
autora usou esta narradora para desvendar mais perguntas levantadas pelos
anteriores e como, no fim de contas, tudo ficou mais ou menos esclarecido. No
entanto também achei que a Ana foi a mais estereotipada de todas as narradoras.
Isto porque a descrição da sua vida como prostituta é muito ... corriqueira.
Parece mesmo ficcional. Não há autenticidade.
Por fim, os excertos do
diário do Ti Mariano, que acabam por ser a sexta voz, são uma boa adição, mas a
voz é muito semelhante ao resto do livro. Teria sido imensamente mais
interessante se fosse um diário real, e não algo mais inventado.
Dito isto, eu detectei
algumas inconsistências na narrativa:
- Na quarta voz houuve uma
cena em que o filho de uma das mulheres 'da vida' morria e elas iam ao Padre
pedir uma missa, mas ele ficou relutante e só aceitou depois do Ti Mariano
intervir. Isto não faz sentido, tendo em conta que na quinta voz nos é dado a
saber que o padre, não só é simpatizante destas mulheres, como as respeita.
- No Anexo 2 é referido
que Constantino Barbosa regressou depois do exílio, antes de morrer e deixar a
sua herança ao Ti mariano, coisa que não aconteceu no relato da Ana.
Quanto à escrita, acho que
a autora conseguiu dar voz própria a cada uma das personagens e dotá-las de
independência. Contudo nota-se uma maior facilidade e genuinidade nas
narradoras femininas.
Eu teria, no entanto,
gostado mais deste livro se fosse possível saber o que é efectivamente real e o
que é fictício. Este livro tenta ser real mas, de alguma forma, não convence
totalmente.
Em suma, Uma Outra Voz
é um livro agradável, com personagens interessantes e que é contado de uma
forma dinâmica que dá mais valor à história, do que teria se fosse narrado numa
só voz. Não é um livro surpreendente e acaba por estar muito na linha dos
aclamados romances portugueses que se passam em tempos inglórios, no interior
de Portugal e que se fixam numa história familiar. Enfim, na sua essência acaba
por ser mais do mesmo mas a narração está bem conseguida e é um livro que se lê
muito bem.
Ângelo Marques
O livro conta-nos a
história de uma família Alentejana, centralizada na personagem de João José
Mariano Serrão e de como este, através da sua dedicação e paixão, ajudou
Estremoz a sair do anonimato. Esta história é contada segundo varias
personagens, neste caso designadas por vozes.
Assim do livro retenho as
diferentes “vozes” que contam a história de João José Mariano Serrão. Depois
disso pouco ficará pois o livro de inovador e cativante está muito reduzido e
só a espasmos esporádicos consigo encontrar algo que goste.
Um livro onde essas vozes
por vezes são inconsequentes para a história que se pretende contar e que no
final fiquei sem saber bem o porquê dessas vozes.
Existem contos nas vozes
muito semelhantes onde só um pormenor muda (e.i. policia bom vs. Policia mau)
aqui no livro seria mais o pároco que numa fase está mais virado para o amor
espiritual e noutra fase, mais recente na história, está mais devoto ao amor
carnal.
Com uma leitura muito
fácil e fluida este romance lê-se bastante bem, um bom livro para um dia
solarengo um dia clamo e sem complicações.
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