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13/06/2014

Uma Outra Voz de Gabriela Ruivo Trindade (Leitura Conjunta)




Uma Outra Voz de Gabriela Ruivo Trindade

Sinopse:
José Mariano Serrão foi um republicano convicto que contribuiu decisivamente para a elevação de Estremoz a cidade e o seu posterior desenvolvimento. Solteiro, generoso e empreendedor como poucos, abriu lojas, cafés e uma oficina, trouxe a electricidade às ruas sombrias e criou um rancho de sobrinhos a quem deu um lar e um futuro. É em torno deste homem determinado, mas também secreto e contido, que giram as cinco vozes que nos guiam ao longo destas páginas, numa viagem que é a um tempo pessoal e colectiva, porque não raro as estórias dos narradores se cruzam com momentos-chave da história portuguesa. Assim conheceremos um adolescente que espreitava mulheres nuas e ria nos momentos menos oportunos; a noiva cujos olhos azuis guardavam um terrível segredo; um jovem apaixonado pela melhor amiga que vê a vida subitamente atravessada por uma tragédia; a mãe que experimentou o escândalo e chora a partida do filho para a guerra; e ainda a prostituta que escondia documentos comprometedores na sua alcova e recusou casar-se com o homem que a amava. Por fim, quando estas vozes se calam, é tempo de ouvirmos o protagonista através de um diário escrito noutras latitudes e ressuscitado das cinzas muitos anos mais tarde.

Baseado em factos reais, Uma Outra Voz é uma ficção que nos oferece uma multiplicidade de olhares sobre a mesma paisagem, urdindo a história de uma família ao longo de um século através das revelações de cada um dos seus membros, numa interessante teia de complementaridade.
in wook.pt



Manuel Cardoso
O simples facto de a narrativa ser feita em cinco vozes dá ao livro um aspecto original que muito terá contribuído para o prémio Leya com que foi agraciado. Na verdade, trata-se de um estilo algo inovador que nos permite ter uma visão global de uma personalidade, vista por cinco narradores bem distintos.
Por outro lado, o livro associa com algum sucesso a ficção à biografia. Se acrescentarmos a isto uma escrita fluída, clara e um autêntico passeio pelo século XX português, encontramos talvez a explicação completa para a seleção do júri deste prestigiado prémio.
Mesmo assim, eu, leitor comum e desinteressado, não deixo de ficar algo surpreendido. O livro tem qualidade mas a verdade é que não consigo encontrar nele nada que verdadeiramente traga inovação. Por outro lado, a narrativa acaba por se perder em bruscos saltos temporais que dão ao livro um aspeto de "manta de retalhos" sendo que alguns deles parecem claramente desenquadrados do tema central, a vida do benemérito republicano João José Mariano Serrão. 
Talvez a expetativa fosse demasiado elevada quando parti para a leitura, no entanto fica a sensação de que falta aqui algo que distinga realmente o livro das centenas que todos os meses se publicam em Portugal.
Esperava mais e melhor, é certo. No entanto, como referi, a obra tem qualidade. 
O aspecto mais positivo centra-se na forma como a vida do protagonista testemunha momentos chave da nossa história, como o movimento republicano, com as suas contradições, dificuldades e conflitos, bem como a ascensão do Estado Novo, que terá precipitado a fuga para África do protagonista. 
Passando pelos últimos tempos da Monarquia, pela Primeira Republica, pelo Estado Novo e mesmo pelos primeiros anos da democracia, fica bem patente a força do conservadorismo luso, não só na evolução política como, acima de tudo, nos costumes e na mentalidade, o que acaba por se plasmar num quadro social dominado pelo preconceito, pela intriga interesseira e por uma certa perpetuação do obscurantismo.
Em suma, estamos perante um grande prémio para uma pequena desilusão.

Ana Nunes:
Este é o segundo vencedor do Prémio Leya que li para o
Clube de Leitura de Braga (o primeiro foi "O Teu Rosto Será o Último") e já começo a ver um padrão. Nada de surpresas aí. Mas, confesso que gostei mais deste da Gabriela Ruivo Trindade.
Este livro está contado a 6 vozes, com cinco histórias distintas que acabam por estar interligadas numa sexta. Não são cem anos de história, como o trailer quer fazer acreditar, porque na verdade são só três gerações (embora sejam 6 vozes), mas anda lá perto.
A primeira voz é de um rapaz de 15 anos que os introduz à família mas que, infelizmente, está retratado como um miúdo de 10 anos. Naquele tempo eu duvido que um rapaz de 15 anos fosse tão imaturo e falasse daquela maneira. Especialmente um que queria tornar-se médico. Caramba, eu, que sou de uma geração recente, aos 15 anos não falava assim, quanto mais antes do 25 de Abril. Com 15 anos já eram adultos. Mas, tirando essa imaturidade, ele acaba por ser a persoangem perfeita para introduzir o leitor na história.
A segunda voz foi, para mim, a menos marcante. Não fosse a revelação do padre, e parece-me praticamente inconsequente.
A terceira está lá para falar do 25 de Abril e pouco mais. Não me liguei particularmente com o narrador e achei que a narração dos eventos poderia ser mais emotiva, mais vibrante.
A quarta voz é uma das mais esclarecedoras e uma das que mais gostei. Desvenda muitos dos mistérios colocados nos relatos anteriores e a narradora é das mais ricas.
A quinta e última voz (na verdade não é a última) é, sem dúvida, a mais marcante, mas também a mais frustrante. Ana foi, ao mesmo tempo, a personagem mais forte e a mais irascível de todo o livro. Ou não fosse a sua teimosia e falta de auto-estima factor de irritação. Mas, claro, não podia ser de outra maneira, para a história terminar como terminou.
Gostei da forma como a autora usou esta narradora para desvendar mais perguntas levantadas pelos anteriores e como, no fim de contas, tudo ficou mais ou menos esclarecido. No entanto também achei que a Ana foi a mais estereotipada de todas as narradoras. Isto porque a descrição da sua vida como prostituta é muito ... corriqueira. Parece mesmo ficcional. Não há autenticidade.
Por fim, os excertos do diário do Ti Mariano, que acabam por ser a sexta voz, são uma boa adição, mas a voz é muito semelhante ao resto do livro. Teria sido imensamente mais interessante se fosse um diário real, e não algo mais inventado.
Dito isto, eu detectei algumas inconsistências na narrativa:
- Na quarta voz houuve uma cena em que o filho de uma das mulheres 'da vida' morria e elas iam ao Padre pedir uma missa, mas ele ficou relutante e só aceitou depois do Ti Mariano intervir. Isto não faz sentido, tendo em conta que na quinta voz nos é dado a saber que o padre, não só é simpatizante destas mulheres, como as respeita.
- No Anexo 2 é referido que Constantino Barbosa regressou depois do exílio, antes de morrer e deixar a sua herança ao Ti mariano, coisa que não aconteceu no relato da Ana.
Quanto à escrita, acho que a autora conseguiu dar voz própria a cada uma das personagens e dotá-las de independência. Contudo nota-se uma maior facilidade e genuinidade nas narradoras femininas.
Eu teria, no entanto, gostado mais deste livro se fosse possível saber o que é efectivamente real e o que é fictício. Este livro tenta ser real mas, de alguma forma, não convence totalmente.

Em suma, Uma Outra Voz é um livro agradável, com personagens interessantes e que é contado de uma forma dinâmica que dá mais valor à história, do que teria se fosse narrado numa só voz. Não é um livro surpreendente e acaba por estar muito na linha dos aclamados romances portugueses que se passam em tempos inglórios, no interior de Portugal e que se fixam numa história familiar. Enfim, na sua essência acaba por ser mais do mesmo mas a narração está bem conseguida e é um livro que se lê muito bem.


Ângelo Marques
O livro conta-nos a história de uma família Alentejana, centralizada na personagem de João José Mariano Serrão e de como este, através da sua dedicação e paixão, ajudou Estremoz a sair do anonimato. Esta história é contada segundo varias personagens, neste caso designadas por vozes.

Assim do livro retenho as diferentes “vozes” que contam a história de João José Mariano Serrão. Depois disso pouco ficará pois o livro de inovador e cativante está muito reduzido e só a espasmos esporádicos consigo encontrar algo que goste.
Um livro onde essas vozes por vezes são inconsequentes para a história que se pretende contar e que no final fiquei sem saber bem o porquê dessas vozes.
Existem contos nas vozes muito semelhantes onde só um pormenor muda (e.i. policia bom vs. Policia mau) aqui no livro seria mais o pároco que numa fase está mais virado para o amor espiritual e noutra fase, mais recente na história, está mais devoto ao amor carnal.

Com uma leitura muito fácil e fluida este romance lê-se bastante bem, um bom livro para um dia solarengo um dia clamo e sem complicações.

12/06/2013

Leitura conjunta do livro Crónica dos Bons Malandros de Mário Zambujal

Crónica dos Bons Malandros de Mário Zambujal

Manuel 
A Crónica dos Bons Malandros é a mais divertida comédia que li nos últimos tempos.
Jornalista de profissão e boémio por natureza, Mário Zambujal demonstra neste clássico da malandragem um conhecimento profundo do meio em que evoluem os personagens. 

Este livro, na verdade, é um clássico da malandragem; no entanto, há um pressuposto que deve estar bem presente na mente de todos os que decidirem ler o livro: malandros não são criminosos. Malandros têm sentido de humor e agem sempre em função de um certo código de honra que coloca a camaradagem entre os membros do grupo acima de todos os outros interesses. Aliás, quando as coisas correram mal nesta deliciosa história foi na sequência de um ato de traição em que um dos personagens tentou ser criminoso em vez de malandro.

Mas, mais do que defensor de qualquer catálogo de ética, este livro é uma divina comédia. Grande parte do sentido de humor do livro advém dos contrastes delineados logo no início do livro: um malandro que até conhece o museu Gulbenkian e os artistas lá representados; um outro malandro que até detesta armas. E um conjunto de malandros que até se comovem com as desgraças dos camaradas.

Ao longo do livro, Mário Zambujal vai fazendo também uma espécie de psicanálise do malandro nos seus diversos tipos: o malandro de raiz, cleptomaníaco, que hoje seria cliente de qualquer psiquiatra; o malandro tiranizado por uma infância desgraçada; o malandro que foi levado para a “má vida” por causa dos males de amores, enfim, um verdadeiro catálogo da malandragem…

Um dos aspetos que mais cativa o leitor é a linguagem super-objetiva de Zambujal; ali não há nada em excesso nem repetições; se o leitor se distrai um pouco, só tem um remédio: recuar até ao ponto onde começou a distração, porque aqui tudo é sintético e objetivo. Isto dá ao livro um ritmo narrativo muito interessante, que agarra o leitor até à última página. O final do livro é o culminar de uma grande odisseia; é um final dramático e épico onde não falta o sentimento de levar à lágrima as almas mais sensíveis.

Enfim, um livro genial que devia ser de leitura obrigatória para todos aqueles que amam a literatura portuguesa.

Ana
Há cerca de um ano atrás, li um excerto deste livro e achei imensa graça. Na altura decidi que, assim que pudesse, o iria ler.
Infelizmente, com o tempo, passou também algum do fascínio que o excerto tinha criado em mim.
Ao ler este livro, apesar das ocasionais risadas, achei que não foi tão engraçado como me lembrava. 

O ponto forte deste livro são as personagens e a comédia de situação. O autor tem um humor muito próprio. Sarcástico, mas não ao ponto de ser exagerado. Além disso a escrita do autor está perfeitamente adaptada ao estilo da história.
No entanto, também é verdade que a história central, a intriga, é praticamente inexistente. Do assalto lemos cerca de 30/40 páginas, se tanto. O resto são relatos mais ou menos bem conseguidos das vida passadas dos elementos da quadrilha. E aqui o autor consegue trabalhar bem as histórias, excepto do caso do Renato e da Marlene.
Durante todo o livro o autor fala-nos como o Renato e a Marlene são unha com carne, como ela é uma parte indissociável dele, e como ele é pacífico mas tem ocasionais ataques de fúria incontroláveis. Até aqui tudo bem. Mas quando fui ler o capítulo dedicado ao passado dos dois, eu esperava descobrir porque Renato tinha esses ataques de fúria (pois da sua aversão a armas já sabíamos o que havia para saber) e porque ele a Marlene eram 'unha com carne' e ela nada mais era que uma perna extra dele. Ora, nenhuma destas duas coisas foi explicada. Não de maneira satisfatória, pelo menos.
Em quase todas as restantes personagens isto não aconteceu, excepto com o Flávio, cuja motivação para as falcatruas, permanece um mistério.

Ainda assim, tenho de confessar que este foi um livro divertido, que me fez boa companhia nos poucos minutos que conseguia roubar para ler. Ri-me várias vezes, especialmente na parte final. E por falar no final, achei-o muito bom e algo inesperado, ou pelo menos foi uma boa jogada do autor.
Mas, no geral, não fiquei encantada com este livro. Não foi uma leitura que me marcasse, nem sequer foi tão satisfatória como esperava.
Percebo porque é tão conhecido, mas podia ter algo mais. 

Ângelo
Um líder mais meia dúzia de infortunadas vidas que se irão entrelaçar cumprem o desígnio deste livro.

Renato (o pacifico) é o líder desta quadrilha de malandros composta por:

Pedro (o justiceiro), um fugitivo por ter um desentendimento com a sua professora, encaixilhou-lhe um quadro na cabeça, os colegas apelidaram-no de justiceiro e assim ficou. Pedro após este incidente foge para a capital onde passado algum tempo está a trabalhar para um “repara tudo” especializando-se assim em fechaduras...

Flávio (o doutor), no último ano do seu curso de advocacia e já estando a trabalhar para sustentar a sua família Flávio é preso por desfalque, a mulher, Zinita, não lhe perdoa e divorcia-se levando-lhe a filha, na prisão Lúcio é a sua tormenta e Renato a sua salvação.

Arnaldo (o figurante) incapaz de manter um emprego Arnaldo vê no boxe uma fuga para um resto de vida, após um combate perdido ele desiste de ser boxeador, tenta o cinema mas não passa de um mero figurante.

Adelaide (a magrinha) casada com carlos que a quando da sua prisão a deixou sem nada, Adelaide vê-se amparada por Lina a puta ou melhor a meretriz. Procura nos amigos de carlos algum conforto ou amizade que só consegue ter com Renato e Marlene.

Silvino () gémeo o seu irmão sofreu o seu sadismo, com tanta traquinice é obrigado a frequentar um colégio interno em Lisboa, aqui forma um gang com o objectivo de assaltar automóveis, um assalto correu mal e foge segundo rezam as histórias para os Palma de Maiorca e Estados Unidos da América do Norte, volta passados alguns anos e encontra Renato no bar do Japonês.

Marlene e Renato, saltimbancos; Marlene trapezista voadora, encontra Renato num dia triste para este, no dia em que seu pai morre, Marlene ajuda-o. Oito anos passados o reencontro e os dois ficam a trabalhar no circo, até que os pais de Marlene adoecem, está fica com a promessa do director do circo que irá ter um novo companheiro, assim Renato e Marlene decidem fugir, para ganhar a vida passam a assaltar casas, são presos.

Apresentadas as personagens desta quadrilha muito peculiar, muito portuguesa, estes decidem fazer o assalto das suas vidas, o assalto final a pedido de um Italiano, como se processará o assalto algo irá correr mal, porquê?

Numa linguagem acessível e muito divertida, Mário Zambujal, faz uma crítica pitoresca da sociedade dos anos 70, onde a predominaria de afectos é encontrada naqueles que a sociedade mais despreza. Não se pense que nesta aventura fácil é tudo seco, Zambujal com o seu olhar jornalístico explorou muito bem esta divertida aventura, onde preciosidades destas também podem ser encontradas:

“e exarou, ao ouvido de Renato, o seu voto de desconfiança”

“...gente era briga, medo, sangue, gente podia chamar a morte ou a polícia”

Um livro que recomendo.

14/05/2013

O filho de mil homens de valter hugo mãe - Leitura Conjunta

Leitura Conjunta O filho de mil homens de Valter Hugo Mãe



Ângelo
Crisóstomo, vive só e pretende ter um filho para colocar alguma razão na sua existência, Camilo (um jovem a quem o avô faleceu) “cair-lhe-á” aos seus braços, para completar a sua felicidade Isaura (mulher de vida dura mas com o nome mais bonito do mundo) juntar-se-á a este dueto, para assim criarem um triângulo amoroso muito genuíno.

Com um preconceito homossexual muito forte, exagerado em certos aspectos, impressionante por vezes, esse é o poder que valter hugo mãe tem ao imprimir conceitos tão marcantes de uma forma quase poética. A narrativa envolve-nos numa espécie de nevoeiro matinal que nos protege das agressividades solares.
Uma crítica à sociedade onde a salvação se poderá encontrar através do amor e compreensão.

Está em linha com os últimos livros editados pelo autor, sem o vigor e a força do Remorso de Baltazar Serapião... mas não deixa de ser um bom livro.

Ana
Sem nunca ter lido nada do autor e apenas lhe conhecendo a fama, foi sem expectativas que comecei este livro e fui agradavelmente surpreendida.

A história parece, à primeira vista, corriqueira, mas chega a ser bastante complexa, na sua humanidade. Passada numa qualquer vila portuguesa, num qualquer tempo (e, sim, isto faz-me impressão, porque certas coisas apontam para um tempo moderno, enquanto muitas outras fazem parecer que estamos nos anos 60/70), julgo que qualquer leitor poderá identificar várias caricatas personalidades como muito realistas, muito próximas do português da aldeia de outros tempos, ou será de hoje? (e com isto não pretendo ofender)
Algumas situações representadas neste livro, testaram a minha credulidade, especialmente pela sua crueldade e malícia. Mas não chegou a cruzar os limites e também na bondade este livro se excedeu, mais lá para o fim.

A nível de personagens, há-as para todos os gostos. Personagens que nos parecem familiares, que nos tocam, que nos movem, que nos enojam e nos fazem pensar que as pessoas ainda têm muito que aprender sobre a diferença, e que infelizmente isso é tão verdade agora, como antes.
Escusado será dizer que o meu favorito foi o Crisóstomo, com o seu singelo desejo de ser pai e o seu amor incondicional por todos. Também as outras personagens principais foram marcantes, mas não da mesma forma. Camilo, Isaura, Antonino, Matilde a Mininha, foram personagens cheias de defeitos e cheias de virtudes, que me mantiveram agarrada às páginas.

Já no que toca à prosa do autor, gostei bastante desta, em quase todo o livro, e foi ver que neste livro o autor não usou certos artifícios literários que me teriam deturpado a leitura (ex: não usar maiúsculas). Contudo, há que dizer que certas partes do romance me soaram falsas, especialmente quando personagens que sempre foram 'labregas', se saíam com pensamentos ou discursos mais elucidados e eruditos, que nada mais pareciam que pregações. 
A já mencionada falta de localização temporal, levou-me a questionar várias vezes os acontecimentos e as vivências das personagens, e isso não foi bom. Fiquei com a sensação que o autor não quis dizer a data, para não correr o risco de ser chamado à atenção por alguma inconsistência.

Em suma, este foi um livro que me agradou bastante e que, apesar de começar num tom muito triste (por vezes até macabro), no fim terminou de uma forma inesperadamente optimista. E sabe bem ler algo assim para variar.
Irei com certeza revisitar o autor!

Manuel
Depois de magníficos livros como A Máquina de Fazer Espanhóis e, principalmente, O Remorso de Baltazar Serapião, as expectativas eram altas para este livro de Valter Hugo Mãe. Anunciava-se o regresso às maiúsculas e o assumir de uma perspectiva mais positiva e uma escrita mais suave. Desde logo, anunciava-se o abandono de uma linha pessoal que VHM ia seguindo nas suas obras anteriores.

Esse abandono de um estilo bem pessoal não me agradou mas devo dizer antes de mais nada que estamos perante um bom livro. A leitura é agradável, a escrita poética dá uma certa musicalidade ao livro e a sensibilidade do autor está sempre “à tona da água”.
Conta-se a história de um homem que, como o autor, cruza os quarenta anos de idade e questiona o sentido da sua existência, decidindo-se pela procura de algo que o complete: uma mulher e um filho.
Crisóstomo, pescador, era metade. Fez 40 aqnos e sentiu-se só. Procurou um filho e encontrou-o: Camilo, catorze anos. Encontrou uma mulher e sorriu: Isaura (o nome mais belo que existe). Sorriu.
Uma anã sem nome era infeliz. Só. Mas 15 homens, quase todos os que havia na aldeia a visitavam. E da doença e da solidão nasceu um filho. A mãe, anã, completou-se e morreu.
Isaura com 16 anos cedeu ao amor carnal e começou a morrer. Conheceu um maricas e casou. Mais tarde o maricas será chamado pelo seu nome (Antonino); antes disso foi sempre renegado porque maricas não é ser gente. Um dia o maricas foge e Isaura descobre que o amor é esperar. Chora.
Camilo, o filho da anã, é adoptado pelo velho Alfredo. Alfredo morrerá e Camilo herda a solidão. Para Isaura “ser o que se pode é a felicidade”. Assim foi até conhecer Crisóstomo e Camilo, entretanto adoptado pelo homem que fez 40 anos. Todas as metades se completaram e o maricas voltou. Antonino é acolhido pela nova família: Isaura, Crisóstomo e Camilo. A união entre os pobres, solitários deserdados da vida. Ainda havia tempo para que todos sorrissem.
Como se vê a mensagem é bonita, o enredo é interessante mas falta aqui (na minha opinião, é claro) Valter Hugo Mãe. Falta o cunho pessoal, o estilo “tsunami” a que VHM nos vinha habituando.
A solidão foi derrotada, assim como o preconceito, esse monstro devorador da vida, do qual nasce a solidão.
Independentemente da qualidade inegável da obra, a palavra chave que me assoma à mente é esta: cedência.

23/04/2013

Dia Mundial do Livro - Livros que mudaram vidas



Tentei seguir o exemplo da Paula do Viajar pela Leitura e decidi elaborar, neste dia mundial do livro, um top ten dos livros que mudaram a história.
Afinal, resultou daqui um top 10 com onze livros, o que o torna ainda mais original.
Na infinidade de tudo quanto se escreveu até hoje, restringi a escolha a dois critérios: livros de ficção (porque só a ficção é fiável) e já lidos por mim (porque sim).
Aqui fica, portanto, a minha lista, por ordem cronológica.

1605 - D. Quixote - Miguel de Cervantes – o livro que é o pai da sátira social é também o progenitor de toda a literatura de ficção neste mundo ocidental da triste figura.
1857 - Madame Bovary - Gustave Flaubert – saudável ofensa à moral, a pedrada no charco da hipocrisia beata. Volta, Flaubert, estás perdoado!
1869 - Guerra e Paz – Lev Tolstoi – Ricos e pobres, todos miseráveis na luta pela vida perante a estupidez da guerra, esse monstro que nem Salvador Dali interpretaria num infinito surreal.
1879 - Os Irmãos Karamazov – Fiodor Dostoievski – Fiodor, o homem que mais fundo penetrou na alma humana! Uma viagem alucinante às profundezas dos mistérios interiores do ser humano. Épico!
1912 - A Metamorfose - Franz Kafka – O inseto homem, alienado, amordaçado, morto em vida pelos outros. Os outros, sempre os outros, esse Inferno de Sartre e de todos nós.
1921 - Ulisses – James Joyce – Obrigatório para qualquer leitor que, das duas uma, ou quer morrer de tédio ou sonha ser culto. Melhor será talvez fingir ser culto…
1924 - A Montanha Mágica – Thomas Mann – Mann, o filho de Goethe, irmanado com a melancolia germânica, espelho de uma Alemanha no caminho penoso de um desastre para uma hecatombe.
1942 - O Estrangeiro - Albert Camus – Mersault, meu caro Mersault, quão semelhante acho teu fado ao meu… quantos mundos por compreender… que todos, como Mersault, façamos o nosso mundo.
1959 - O Som e a Fúria - Wiliam Faulkner – Um livro que é força bruta, emanação da terra, grito de génio e uma grande barafunda para todas as mentes desprevenidas. O maior desafio de sempre na literatura mundial
1982 - Cem anos de Solidão - Gabriel Garcia-Marquez – Hino imortal a todos os milhões de Buendia do mundo, deserdados, atraiçoados, esfolados vivos pelo progresso.

De entre todos, o meu preferido é, sem sombra de dúvidas este:
imagem daqui: http://fernandajimenez.com/tag/quijote/


22/03/2013

A Vida é Bela - O Filme - #3





A vida é Bela é um filme de 1997, realizado em Itália por Roberto Benigni que também assume o papel principal (venceu o Óscar de melhor ator). Trata-se da história de um homem simples e modesto, Guido, que, por ser judeu, é enviado com um filho menor para um campo de concentração. Aí, ele tentará iludir o filho convencendo-o que tudo aquilo não passa de um jogo…
 . A Vida é Bela é, na minha opinião, um dos melhores filmes de sempre. Quase diria que é o filme da minha vida. Porquê? Porque consegue aquele milagre que mais nenhum filme consegue: rir de coisas muito sérias; rir com o holocausto.
É um filme sobre os limites do ser humano na sua capacidade de resistência à opressão e à injustiça. À estupidez, diria mesmo. O fascismo e o nazismo foram as manchas mais negras que o século XX nos deixou e este filme testemunha a maiores atrocidades que boa parte da população europeia sofreu sobre as garras desses regimes tão absurdos.
Mas na sua imensa arte, na sua capacidade incrível de nos fazer rir pensando, Roberto Benigni presenteia-nos com uma maravilhosa obra de arte absolutamente IMPERDÍVEL.