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12/07/2012

"CRÍTICA das RAZÕES IMPURAS" de Luís Novais


Crítica das Razões Impuras
de Luís Novais

Crítica das Razões Impuras é uma peça teatral escrita pelo nosso conhecido Luís Novais, uma leitura rápida como muitos aspectos divertidos mas com muita substância e para quem nunca leu algo escrito como o propósito teatral aqui esta um bom começo, e mais uma vez de forma gratuita :)



Informação contida no blog do autor: 
Esta peça de teatro é o meu escrito mais recente.
É sobre gente com medo. É sobre o medo que tenho da forma como andamos a ultrapassá-lo.

30/04/2012

Comentários à 11ª Leitura conjunta do blogue "O Heróico Major Fangueira Fagundes" de Luís Novais




Comentário de Paula T 



A narrativa tem o seu início fazendo uma alusão ao Portugal de Camões "Ocidental Praia", mais tarde percebemos que está é uma alusão irónica. 

O português usado nesta obra é algumas vezes o português antigo e confesso que me custou a embrenhar na leitura, no entanto com o decorrer da história acostumei-me, assim como aos inúmeros personagens que vão entrando em cena em todolos os seus anexos. 

Toda esta obra transpira ironia e crítica social, política e cultural. No fundo, uma crítica do que fomos e do que somos. Porque o que fomos outrora não difere do que somos agora! 

É de facto uma obra muito bem escrita, nota-se a paixão e o empenho do autor na sua realização. 

O Luís Novais, é um dos casos que começam a ser raros na literatura – escreve porque gosta e não com o objectivo primeiro de vender. Sente-se isso! De outra forma não arriscaria um livro que penso não será para todo o público e com um título que até pode afastar alguns leitores! 


Gostei. 


Comentário de Ana Nunes

Tenho a sensação que grande parte das pessoas que começam a ler este livro ficam mais ou menos como eu fiquei: confusa. Não pela história em si, mas pela escrita que enche as primeiras páginas. Uma pista: o subtítulo do livro.
Parte do livro está escrito num português arcaico, que apesar de facilmente reconhecível e compreensível, não deixa de causar estranheza, especialmente nos primeiros capítulos. E o mais estranho é que quando começamos a habituar-nos ao estilo, ele muda para um português corrente, isto porque o livro está dividido em dois estilos: Crónicas e Testemunhos. As crónicas, como sendo relativas à vida do Major que dá título ao livro, são as que estão escritas no português mais arcaico, enquanto que os testemunhos, vindo da parte de diferentes personagens, acabam ainda assim por ser bastante mais corriqueiras. 

Mas como disse, é uma questão de hábito e até gostei desta 'dualidade'. 

Em termos de trama, temos a dita central, sobre o Major Fangueira Fagundes, que na verdade nada mais é que o despoletar de tudo o que se passa em volta. As restantes histórias são auto-suficientes. Relatos de pessoas comuns cuja vida foi de certa forma afectada pelo Major, no dia em que ele decidiu repor a justiça. 

Todos os testemunhos são interessantes e julgo que todos os leitores encontrarão algures nestas páginas uma personagem com quem se identifiquem, tal é a sua diversidade. Pessoalmente identifiquei-me mais com o Empresário e com o próprio Major, mas as restantes personagens também me deram que pensar. 

O que me aconteceu ao ler este livro foi que dei por mim a pensar: Esta gente é mesmo portuguesa.
Depreciativo? Não! Mas a verdade é que todo o livro faz pensar isso, seja pelos actos, pelo estado das coisas, ou simplesmente pelas pessoas. 

É um livro que me deixou a pensar, ou melhor, ponderar. Quem olha o mundo com visão crítica, certamente conseguirá ver neste livro muito assunto de conversa. 

A prosa do autor é fácil de ler, apesar de estar dividida nos dois estilos que mencionei, nenhum é particularmente difícil de compreender. Gostava no entanto de perceber o porquê de as crónicas estarem escritas da forma que estavam. Quem as escreveu? E porque usou tal linguagem quando claramente vive no 'presente'? Outra coisa que gostaria de ter visto na prosa, seria uma maior intimidade com certos testemunhos, como no caso do Jaquité. A linguagem estava demasiado ... lusitana para alguém que nasceu e viveu em Guiné-Bissau. Pelo menos até ao último capítulo, em que tudo mudou um pouco. 

A única coisa que não gostei particularmente foi a repetição de certas ideias. Várias vezes, ao longo das Crónicas e dos Testemunhos, o texto se tornava repetitivo. Eu compreendo que isto seja propositado, mas em determinados momentos tornava-se aborrecido. 

Para terminar, esta foi uma leitura muito agradável, que deu que pensar e que contém em si várias histórias interessantes. Gostei dos sub-textos intrínsecos à narrativa e das experiências do autor (aquele Auto estava muito bom). 

Um autor a revisitar futuramente. 


Comentário de Manuel Cardoso

Depois de Quando o Sol se põe em Machu Pichu e de Os Parricidas, Luís Novais parece ter alcançado a maturidade literária com este “O Heróico Major Fangueira Fagundes com todolos seus anexos”; um grande título para um excelente livro. 

A primeira coisa que me parece bem conseguida neste livro é a sua estrutura: há um narrador à maneira de cronista, que não dispensa uma belíssima linguagem em português antigo e múltiplos narradores/personagens que surgem como autores de anexos. 

Também os nomes dos personagens são escolhidos criteriosamente e com um sentido de humor notável: desde logo Epifânio Fangueira Fagundes: é óbvia a aliteração “Fangueira Fagundes” mas o realce vai para o nome, que aliás é omisso no título da obra: Epifânio. Ele, o nosso herói, é na verdade, pelos actos “heróicos” que realizou, a personificação de uma epifania. Ele nasceu redentor, abençoado pelo Anjo, procurador do Céu “em um auto” vicentino. Por isso ele é Epifânio. 

Um dos aspectos que mais impressiona neste livro é o contraste entre páginas de delicioso humor satírico e outras onde imperam o drama e a revolta interior, numa abordagem crítica e mesmo cáustica ao sistema político e socioeconómico em que vivemos. Um sistema que é um caldeirão de injustiças; um caldeirão que ferve em ebulição permanente, onde o político corrupto, empresário desonesto e o banqueiro ladrão sugam o suor e o sangue do povo. E a escrita de Novais, límpida e directa, surge como a voz de um trovão no silêncio das raivas contidas. Na minha opinião, é esta perspectiva crítica, por vezes descarada, sentida e brutal, que dá uma força extraordinária ao livro. 

Mas esta voz brutal é também a voz (ou o clamor) da Liberdade. Não a liberdade mas a Liberdade! Porque só pode ser Livre quem for Criador. Qualquer conceito de liberdade não passará de uma ilusão se não envolver o acto de criar. Numa perspectiva marcadamente nietzschiana, Novais faz aqui uma clara distinção entre os diversos sentidos que o termo pode envolver: em termos políticos, a liberdade pode ser uma arma, um discurso ou uma ilusão. Assim, na Ocidental Praia, metáfora de Portugal, um país desgraçado, vive um povo nas mãos de políticos pacóvios ou ladrões e revolucionários bêbados. Um país onde a crítica e a capacidade de rir de nós mesmo parece andar perdida desde Oliveira Martins e que Novais (tão heroicamente como Fagundes) parece querer fazer renascer, pela pena de um cronista que poderia chamar-se Luís Fernão Novais Lopes, ou de um Eça revisitado na cáustica dissecação das tropelias do Traques, o político de Cidade Grande. 

Mas para lá da sátira e das alegorias, do livro brotam também sinais de uma angústia latente. A angústia de um passado perdido, que não é pré-sebastianista, mas antes pré-capitalista. E essa angústia está plasmada num belíssimo texto que é o anexo quinto: um hino à natureza e ao homem do Minho profundo. E não é sebastianismo que aqui leio em Luís Novais; é a urgência da renovação; é o apelo à Revolução, não dos capitães nem de majores mas do Homem no seu todo. É de um novo Homem que precisamos; um Homem novo que restaure a Liberdade do ancião de Vilar dos Fornos. 

Este caminho da libertação é o caminho da Utopia, não o da ilusão da Cidade Grande, onde novas escravaturas se emaranham num todo que é o progresso, ou o capitalismo selvagem, ou a tirania do Estado dito democrático. 

E em cada anexo lemos um novo alienado, um tuga comum, homem sem presente que se multiplica por um passado pouco heróico e nada pátrio mas sempre escravizado: pobres anónimos e funcionários amestrados mas também empreiteiros, banqueiros e políticos escravizados às manhas e artifícios com que escravizam os outros: motoristas, bibliotecários, jornalistas, prostitutas, vendedores de seguros ou a licenciada que serve cafés… todos eles dentro da roda dentada onde se moem de tanto girar; nós de um emaranhado de fios de fantoche sem ponta visível. E todos eles cantados em forma de crónica, auto, cantiga de escárnio e maldizer. Todos aprisionados excepto talvez o super-homem, talvez apenas escravo da Liberdade. 

Para lá de tudo isto fica a revolução: a utopia. A esperança. A ilusão de que é feita a vida do comum dos mortais. Mas é essa ilusão, essa esperança, que não morrerá enquanto houver utopias. 

Enfim, estamos perante um livro que nos surpreende e encanta; uma obra que poderá marcar a epifania de um nome que um dia poderemos colocar ao lado dos maiores da actual literatura portuguesa, como José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe ou João Tordo. Assim os deuses da literatura portuguesa (críticos literários e mestres de marketing) o permitam. 


Cometário de Ângelo Marques

"Em um lugar de ocidental praia, decujo nome não consigo recordar-me, não há muito tempo, nasceu aquele que viria a ser um militar valente, ledo e que a plejas nunca se escusava afora as não fundadas em boa ordenação. havia nome de Epifânio fangueira fagundes e haveria honra de major confrome aqui contaremos."

Um heróico major Fangueira Fagundes, único e irreverente, irá levar a cabo uma majestosa revolução no seu pais, num lugar de ocidental praia. Fangueira Fagundes apodera-se dos paços do município da cidade grande, num estado menos sóbrio, o major lidera esta revolta com uma mão cheia de subalternos. A base para esta revolta consiste num repor de justiça muito própria, muito sua, esta revolta torna contornos "bíblicos" e com a ajuda daqueles que sempre vivem na sombra daqueles que se mexem transformam a revolta numa revolução de escala nacional, elevando o major de revoltoso a heróico agente desta pátria de um lugar de ocidental praia. 

Este será o mote inicial para um romance de características únicas lê-se muito fluidamente, isto depois de se implementar no nosso cérebro este estilo de escrita mais arcaica que contrasta com um estilo mais actual, é de um gosto enorme ler este arcaísmo que vai ressoando sempre a um Cervantes. 

Um livro muito pensado e com uma profundidade avassaladora, carregado de mensagens muitas vezes ficam "escondidas" e que o leitor só dará conta passados minutos/horas/dias, personagens com características únicas. Um alerta de Luís Novais para nossa sociedade um grito de alerta para a nossa portuguesidade, o Major Fangueira Fagundes colado ao salvador s. Sebastião que tanto agurados pela sua volta, mas sem o sabermos, todos nós temos um s. Sebastião dentro de nós. 

O livro está dividido entre os capítulos e os anexos, desconexos entre si inicialmente mas que no final um não poderia sobreviver sem o outro. Os capítulos contêm o estilo mais arcaico, mais como uma fonte histórica do pais e da família do nosso herói. Os anexos centram-se nas personagens que completam este enredo literário é um rol de personagens que se perfilam aos nossos olhos num desfile bastante bonito. 

Pode-se falar do jornalista da licenciada da puta do bibliotecário, Alípio S. Marques (o famoso traques), o empreiteiro e até mesmo de Jaquité mas, para mim, ninguém supera o super-homem. 

No livro II encontramos três pós-fechos, que digamos, serão três soluções para este enigma. 

Sinto um amargo nas minhas leituras por não ver o nome de Luís Novais referido entre outros autores portugueses, sinto que merecia estar num patamar de notoriedade mais elevado... ao ler este autor, Luís Novais p.f. fixem deste nome, memórias muito minhas acordaram dum sono profundo fazendo-me viajar, sem um livro não serve para isto para que raio escrever. 

Um livro e um autor que recomendo vivamente.

26/04/2012

Clube Leitura Bertrand Braga (21 Abril 2012)



Primeiro encontro (O Heróico Major Fangueira Fagundes)

Não querendo fazer aqui uma compilação daquilo que se passou muito menos uma resenha do livro abordado nesta primeira sessão do clube de leitura Bertrand de Braga, ressalvo os vários pontos de vista abordados pelos participantes que enriqueceram a minha visão/opinião do livro bem como do autor.
Num ambiente descontraído lá fomos dissecando o livro de Luís Novais, desde o Major F. F. ao singular Jaquité nunca esquecendo o Super-homem e tendo na mente a universitária com os seus deliciosos cafés e oportunos obrigados, e aproveitando aqui esta simples palavra quero desde já agradecer, pois posso não ter uma deixa tão boa, a todos os participantes, ao autor, ao departamento de comunicação da Bertrand e ao staff da livraria Bertrand Liberdade Street Fashion braga, assim deixo aqui o meu muito obrigado.

Nesta conversa não nos cingimos somente ao livro, digamos que o próprio livro a isso o obrigou, trilhamos conversas pela sociedade actual o seu rumo as suas indefinições, divagamos numa troca de ideias amena e sincera.

Realmente um par de horas bem passadas e com a certeza e vontade de se repetir.

O 2º encontro do Clube está já marcado para dia 5 de Maio e o livro escolhido foi "A Fenda" de Doris Lessing (Editorial Presença).

03/04/2012

Crónica d'Orelhudos - Luís Novais (II)

Crónica de Orelhudos
de Luís Novais
Edição/reimpressão: 2012
Páginas: 234
Editor: NA
ISBN:NA





"Nestas serras e planícies que o tempo tornou distantes, existiram uma, duas, três e até mais aldeias. Algumas eram maiores do que outras, mas nenhuma tão grande que aldeia não fosse. Aí viviam agricultores e pastores e artesãos e até alguns curadores que este era o nome que então se dava àqueles que tratavam do corpo e da alma.
O que não existia nestas aldeias era aquele grupo a que hoje chamamos de governantes e que, é sabido, tanto se podem inserir na classe dos políticos, como na que se diz ser a dos estadistas, ainda que estes pareçam ser em número cada vez mais minguado, havendo mesmo quem diga que se extinguiram, ou, até, que nunca chegaram a existir e que mais não são do que heróis de mito, ombreando com os Ulisses e os Aquiles, os Prómeteus e os Ícaros."


Assim se inicia uma fantástica jornada comandada pelo não menos irrepreensível Fernão Vasques Colarinhos, um orelhudo levado a cair no sistema das mulas e andando de burocracia em burocracia até à mentira viu-se "obrigado" a liderar uma revoltar, encetando uma luta contra o sistema, sistema criado pelas mulas.
Luís Novais parte do básico do nosso sistema comunitário e cria, e como cria este senhor, de forma sublime e directa a nossa "nova" organização social, de como passamos de trocas directas para a troca através do contado (dinheiro), das decisões comunitárias paras as decisões judiciais, enfim tudo que possam imaginar da complexidade da nossa "nova" sociedade. 
Fernão Vasques Colarinhos um orelhudo (como orelhudos subentendemos o povo) "orientado" por uma mula (mulas serão os governantes) e levado pelo sonho dá um passo de gigante supostamente suportado pelas mulas, que mais não querem aquilo que os nossos governantes querem... e isso é: ninguém o sabe, nem os próprios. Nessa "viagem" sem destino Fernão Vasques irá deparar-se com inúmeros obstáculos criados pelas mulas para que ele não atinja os meios que as próprias supostamente lhe iriam oferecer, obedecerá as suas ordens cegamente e tudo perderá. Renascerá.
O nosso léxico sobre mulas fica garantido pois elas parecem tortulhos a brotar da terra, ele existe a mula dos relatórios, a prestamista, a sonhadora, a conselheira, a dos fundos, etc...  

Luís Novais suporta-se em personalidades como Fernão Vasques, Maria da Fonte ou a padeira Brites de Almeida com maior ou menor intensidade para ajustar as suas personagens dando-lhes ainda mais interesse e vivacidade.
O sentido irónico, mordaz e até perigoso com que Luís Novais escreve é delicioso e digo perigoso pois se algumas ideias expressas no livro caiem em mãos erradas quem sofre são os orelhudos e a bom sofrer. Como homem do Minho, Luís Novais, estão bem presentes referências a esta região tão Portuguesa sempre com universalidade como suporte essencial, um grande obrigado por dar a conhecer a nossa região de uma forma tão divertida e original, sente-se nos textos do autor como sendo um homem do mundo.
A escrita de Luís Novais, para quem não conhece mas devia pois está a perder uma escrita fantástica, é deliciosa, este senhor escreve muito bem com pormenores deliciosos, diria mesmo subliminares, pode-se não gostar do tema, mas não existe subjectividade em relação à sua escrita... é bom de escrita/sintaxe e ponto final.

Excertos do livro:
"Com estas trocas, cada um fazia o seu ter a partir do seu ser e não o seu ser a partir de seu ter, como viria a acontecer em tempos postumeiros, segundo o que vos contaremos adiante."

"Porém, um dia aconteceu aquilo que acontecer teria, que sempre que muito pensamos em algo, acaba esse algo por acontecer, seja tarde ou cedo. Será por isso que, ainda que tentemos em a morte não pensar, sempre ela surge em nossos pensamentos porque ela é inevitável e é inevitável que o inevitável nos surja em ideia para que em matéria de facto possa ser consubstanciado, ainda que não deveis supor que estejamos a desmentir que a ordem possa ser a inversa."

"Riram-se e dali se foram à casa da Sonhadora, a provar de saborosas viandas e a abrir uma garrafa de Porto que era para um homem nunca mais se esquecer."


Um livro muito bom, e grátis, sim é grátis sem necessidade de fornecer contado ao autor/editor/expedidor/etc..., claro que se o desejarem o podem, e devem, fazer através do site do autor.

Para completar um obrigado ao Manuel Cardoso por me ter dado este enorme prazer.




16/03/2012

Crónica d'Orelhudos - Luís Novais

Na sequência do tópico anterior (do Ângelo) aqui fica a minha opinião sobre o livro do Luís Novais.


Este quarto livro de Luís Novais surpreende-nos com uma espécie de literatura fantástica, ou mais propriamente uma sofisticada fábula, fundada sobre a ironia e o escárnio, com grande riqueza de elementos simbólicos, como a magreza das mulas, a relação entre o poder das mulas e os seus adornos, o elemento religioso na figura do Grande Mula, etc., que conferem à narrativa um extraordinário poder crítico. Nada escapa à sátira que, a espaços, lembra Gil Vicente.
Por detrás disto está a falácia da nossa democracia: escolham entre nós, as Mulas! Vocês são livres; podem escolher um de nós! bem como a crítica ao capitalismo: o dinheiro criou o pobre.
Mas o dinheiro (o contado) teria que ser doseado para bem dos orelhudos, mal habituados ao gastar. Uma dieta de contado para acabar com os maus vícios dos orelhudos: assim falou a troika dos reis magos que vieram aconselhar a Mula governadora. Achei fabulosa esta referência à troika sob a forma de reis magos do Oriente. Do Oriente ou do Ocidente, o certo é que Portugal não seria o mesmo sem os Magos quem de vez em quando nos caem do céu. Ou do Inferno.
Mas, gradualmente, eram as mulas a engordar de tal sorte que nem os colarinhos brancos lhes duravam mais que uma semana. E mais uma metáfora: A União; metáfora da união europeia. Aliás, toda a linguagem do livro é metafórica, apelando para elementos simbólicos.
De repente as mulas surgem com uma excelente ideia, com o apoio dos três magos do Oriente: reduzir os pagamentos aos orelhudos que trabalham para a governação :) Nada como um belo plano de empobrecimento! trabalhar para o governo já é um privilégio, portanto é justo que se lhes corte no ordenado.
A mula sonhadora é a excepção: havia uma mula que pensa. Uma mula que pensa, sonha, fala, come e bebe. Uma mula do futuro. A excepção, a mula que a sociedade de mulas nunca admitirá...
Poucos livros se terão escrito com tamanha actualidade: mais um exemplo dessa actualidade: os cientistas vendem rifas a sortear um garrafão de vinho para financiar a investigação, uma vez que o governo deixou de o fazer. Não estaremos muito longe disso.
O empreendedorismo da Mula Sonhadora parece condenado ao fracasso, em terra de mulas pragmáticas :) Mulas do bloco central, diria eu… não se pode agitar as águas…
Alguns pormenores que revelam bem, a actualidade e o sentido crítico deste livro:
- O funcionário encarregado de ouvir as contestações… é surdo. Kafka no seu melhor.
- No entanto, o cientista ganha mais dinheiro jogando bilhar do que fazendo ciência.
- A burocracia com a sua dupla função: dificultar o acesso dos orelhudos aos seus direitos legais e justificar o poder. Kafka no seu melhor, segundo episódio. Mas é mais que isso: a burocracia é uma das principais estratégias para servir plano de empobrecimento.
- O cerne da questão. O problema não se resume à União; o problema existirá sempre, enquanto houver mulas e contado.
- Maria d’Arcada, metáfora da da Fonte, a mulher minhota não podia faltar na revolta dos orelhudos. E a padeira Brites- com mulheres assim não há mula que resista
- E o povo só voltou a ser povo quando queimou os barretes de orelhudos que lhe haviam enfiado.
- Che Guevara ou Vasques Colarinhos; profissão: revolucionário :)
- Um final com um delicioso toque do Padre António Vieira.
Enfim, um livro divertidissimo, actual, crítico e mesmo mordaz.
Ainda por cima... DE BORLA! (pode-se, no entanto, contribuir para as despesas do autor, nos moldes que ele descreve)
No blogue do autor:

03/05/2011

Escritores na Primeira Pessoa - Luís Novais

Manuel Cardoso: O seu primeiro sucesso, Quando o Sol se põe em Machu Pichu, é um livro sobre viajantes. O luís Novais é, também, um viajante. Quem viaja procura o quê? Ou afasta-se de algo?

Luís Novais: Quando viajamos tomamos contacto com a diferença mas também com a semelhança. Chegamos talvez à conclusão de que a humanidade no seu todo enfrenta as mesmas questões, o que nos aproxima, mas difere nas respostas, o que será talvez a origem dos conflitos, quer estes sejam nacionais, pessoais ou culturais.

Dou um exemplo. Com uma boa dose de ocidentalcententrismo costumamos dizer que desde os Gregos que não se escreveu nada de novo ou até, indo mais longe, que se salvarmos Homero salvamos toda a literatura posterior.

Isto tem uma boa dose de verdade, afinal, na senda desse grande filósofo contemporâneo, Rollo May, eu diria que as questões mais humanas terão talvez apenas resposta mitológica, quer o mito se transvista ou não em romance, e os “mitos” homéricos buscam todas as respostas que ainda hoje buscamos.

Contudo, se ouvirmos um balobeiro (espécie de sacerdote animista) Papel ou Balanta na Guiné Bissau, falar dos seus mitos fundadores, das eternas lutas entre homens e semi-deuses, dos semi-deuses amigos e dos semi-deuses inimigos, diríamos que Ítaca é algures numa das ilhas do arquipélago Bijagós.

Dou apenas este exemplo mas, se quiséssemos entrar no domínio da antropologia comparada, teríamos às centenas, basta ler levy Strauss.

Ora, se culturas que nunca comunicaram entre si têm mitos que procuram responder às mesmas questões, isso só pode querer dizer que as questões humanas são comuns a todos os humanos. No fundo, nascemos à nossa medida num mundo que não o é e, como tão bem o demonstra Damásio, temos a característica única na natureza de sabermos que somos, de criarmos um personagem, ou mito, “eu”. Isto foi uma revolução na vida que, enquanto espécie, talvez não estejamos preparados para enfrentar e é também algo que nos ajuda a compreender a alegria e o drama de ser humano.

Viajar, contactar com a aparente diferença, ajuda-nos a perceber isto.

Mas também nos ajuda, por outro lado, a perceber que a centriptica mania da superioridade das ditas grandes civilizações não tem qualquer razão de ser, muito menos a do modelo capitalista que se espalha sôfrego pelos quatro cantos do planeta. Na amazónia peruana, por exemplo, assisti ao curioso despontar das chamadas “comunidades campesinas”, onde o autarquismo comunitário é o modelo. Casos idênticos, estes já baseados na tradição, podemos ver em África, em sociedades tribais onde a busca de equilíbrio supera a quimérica procura duma verdade transcendente e, por isso, sempre e sempre inalcançável, sociedades onde essa mesma preocupação com o equilíbrio suplanta a acumulação individual.

Enfim, após tantas e tantas horas de voo, após e tantos passos por cidades e selvas, poderia multiplicar os exemplos. Julgo que este não será o lugar para o fazer, mas sem dúvida que este contacto com os diversos outros me enriquece muito do ponto de vista da obra que criei e da que possa possa vir a criar.

MC: No segundo livro, Os Parricidas, há uma certa explicação da loucura. Será a loucura uma característica humana, uma condição essencial, ou uma anomalia incontornável?

LN: Em qualquer sociedade, louco é o que põe em causa o status quo. Seria talvez interessante tentar perceber a forma como este conceito, o de loucura, varia de cultura para cultura, quer numas dele se fale assépticamente chamando-lhe loucura, quer noutras se opte pela via mágica, chamando-lhe possessão. Fazer um pouco como Zaratrusta, agora já não em relação à não universalidade da moral, mas à não universalidade da loucura, até porque uma está relacionada com a outra. E fazendo-o, talvez cheguemos à conclusão de que o princípio é sempre o mesmo: quem põe em causa o equilíbrio é louco. Louco numa graduação que vai do que se considera aceitável a todos, excentricamente necessário a alguns, patológico a outros e ainda de internamento para uns tantos. Pois bem, qualquer acto de criação é em si mesmo um acto de loucura, pois nada põe mais em causa o regular andamento do sistema do que criar.

Acontece, porém, que criar é talvez como um parto, é extremamente doloroso e, assim sendo, deveríamos perguntar o que levará o ser humano à dor de criação, porque todos os humanos criam, em escalas diferentes, é certo, mas somos uma espécie de criadores. Haverá diversas respostas, eu confesso que só encontro uma: criamos porque não conseguimos suportar a tal ideia de “eu” de que falei na resposta anterior. Criamos porque o “eu” também implica a consciência do “outro” e assim a unidade cósmica, que é comum a todas as demais espécies, fica posta em causa para os que nasceram humanos. A única solução que encontramos é criando, criando mitos, criando respostas, criando perguntas, criando modelos… tudo e tudo na esperança de encontrarmos pela via criativa a integração que a natureza nos roubou quando nos deu a comer desse famoso e metafórico fruto que é o da árvore do conhecimento.

Sob este ponto de vista, e respondendo agora directamente à questão, a loucura é uma característica humana, é uma condição essencial e, curiosamente, é também uma anomalia incontornável, já que deriva da condição humana que, essa sim, é anómala.

MC: Pelo menos em parte, o terceiro livro, O Heróico Major Fangueira Fagundes, é uma espécie de caricatura do país e do mundo em que vivemos. Mas não lhe parece que Portugal encaixaria melhor numa tragédia de Eurípedes do que numa comédia de Aristófanes?

LN: Julgo que este livro será talvez esquizofrénico a esse nível. Aliás, a esquizofrenia é aqui uma constante. Temos vários narradores e de vários tipos, temos personagens que são narradoras e temos narradores autores e se opto por este plural quando falo de autores narradores, é porque também estes assumem diversas personalidades. ´

O mesmo se passa ao nível estilístico e agora é talvez a altura de dizer que eu enfrentei múltiplos desafios com este livro. Por um lado quis escrever algo que fosse realmente português; tão português que possivelmente apenas um português o pudesse entender plenamente.

Eu ainda não tinha escrito sobre Portugal. Nos livros anteriores navegara ou pela realidade mais vasta que é o Ocidente actual, no caso de “Quando o Sol se Põe em Machu Pichu”, ou pelo drama mental a que a crise filosófica que o Ocidente enfrenta está a levar cada ocidental. Este último é o caso de “Os parricidas”, um livro de quase um só personagem. Um personagem que subitamente se vê confrontado com uma questão moral e não é capaz de tomar uma decisão, acabando por tomá-la de uma forma trágica que, temo, a seguirmos este rumo, será a mesma forma para que caminha a nossa civilização.

São, portanto, dois livros centrados no tema que mais me inquieta e que é o da desagregação de tudo o que aprendemos com Sócrates e Cristo, enquanto personagens históricas que traçaram as nossas bases civilizacionais.

Isto para dizer que, com “O Heróico major Fangueira Fagundes (com todolos seus anexos)” quis ir até uma dimensão mais laboratorial; ajustei o microscópio e abordei Portugal, quis escrever um livro português. E que de tão português fizesse até uma ronda pelos estilos que marcaram a História da nossa literatura. Conseguindo ou não o efeito pretendido, ao nível estilístico, neste livro poderemos reencontrar Fernão Lopes, cantigas de escárnio e maldizer, um auto ao estilo vicentino, padre António Vieira, Alexandre Herculano (já agora, o quinto anexo que tão destacado é na vossa crítica é profundamente influenciado pela narrativa romântica e de interpelação ao leitor tão caras a Herculano e a outros depois dele). Encontra-se também Eça, nesse personagem central que é Alípio Severo Marques, representante do político oportunista e sabujo do poder financeiro, Alípio Severo que, diga-se, foi o nome que Eça deu ao seu Conde de Abranhos, símbolo do politiqueiro da segunda metade do século XIX. Também o modernismo de Mário de Sá Carneiro lá está, nesse personagem que é o Super Homem e lá estão também os que são considerados neo-realistas, pois António Paulo é um filho por mim criado de Mariano Paulo, o trágico personagem de “Casa na Duna”, uma obra que para mim é muito mais precursora do existencialismo do que do neo-realismo. E enfim, pelo meio aparecem outros estilos que serão talvez genuinamente meus.

Ora, sendo a obra tão eclética a estes níveis, julgo que também o pode ser quando a analisamos pela bitola dos clássicos dos clássicos, os Áticos. Eu não estou certo de que seja certo afirmar que estamos mais perante uma comédia de Aristófanes do que numa tragédia de Eurípedes. O trágico e o satírico entrecruzam-se e, se temos partes puramente satíricas, também as temos, e muitas, bem trágicas. Os diversos capítulos do Super Homem, a Puta, a estudante que servia cafés, algumas das reflexões do bibliotecário… julgo que quando entramos nos mundos destes personagens, entramos na tragédia. Será talvez por isso que o Prof Vitor Aguiar e Silva, que me honrou com o texto da contracapa e com uma, para mim inesquecível, apresentação pública, escreveu que “o cómico e o burlesco das personagens e das situações ressumam amargor e indignação ética, suscitando no leitor ora o riso irreprimível, ora a reflexão angustiada.” Ou seja, o livro balanceia entre Eurípedes e Aristófanes.

Ora, eu considero esta duplicidade algo de muito importante. O riso é bom e tem uma função na literatura mas não pode ser um fim em si mesmo e tem de contrabalançar com o drama para que se possa transformar em catalisador de reflexões e, quiçá, de mudanças. Nem de propósito, acabo de ler uma crítica que Antero escreveu por volta de 1878 a uma peça escrita por Guerra Junqueiro. Um crítica onde aquele que foi talvez, o mais sério dos homens da geração de 70, estaria também, julgo, a falar para outros pares bem mais importantes que Junqueiro, talvez até para Eça: “Uma certa dose de seriedade, ainda quando seja um pouco hirta, um pouco pedantesca na sua gravidade convicta, e por conseguinte um pouco ridícula, é condição essencial da vitalidade e da sanidade do espírito público. Quando um povo chega a rir-se de si próprio, é porque perdeu, com alguns preconceitos e uma certa estreiteza inerente a toda a convicção séria, uma boa parte, senão a melhor parte, da sua virtude colectiva”.

MC: Tolstoi, Dostoievski ou Kafka? Porquê?

LN: Dostoievski, sem dúvida. Porque escreveu antes de Freud e enquanto os Flaubert, os Zolá, os Eças escreviam como escreviam; equando os Victor Hugos e os Herculanos ainda escreviam como escreviam, Dostoievski escreveu o que escreveu.

Entranhou a alma humana, Dostoievski. Dissecou-a, mostrou-a, estendeu-a na mesa de autópsias, esventrou-a, pôs as mão em cada um dos seus órgãos, das suas misérias, dos seus anseios, dos seus medos… e tudo isto antes que alguém sonhasse que haveria de aparecer em Viena um fumador de charutos que dividiria a sua vida entre a rua Bergasse e o Landtman café, Sigemund, o Freud, claro.

Essa grandeza não faz de Dostoievski apenas um percursos do modernismo, mais do que isso, ele conseguiu ser um pré-precursor, pleonasmo que utilizo com toda a consciência.

MC: Qual é o maior defeito de escritor Luís Novais?

LN: Não saber estar calado, mesmo quando lhe pedem que fale dos seus defeitos…

MC: Luís Novais faz parte da nova geração de grandes escritores portugueses de ficção. Digo eu. Quer comentar?

LN: O insuportável vazio em que nos deixou a perda de Saramago, fez com que repentinamente surgisse uma obsessiva busca por uma nova geração de escritores. É comum ouvir-se que este ou aquele escritor são os sucessores de Saramago, numa atitude de júbilo que eu acredito que o próprio Saramago não teria se o dissessem sucessor de alguém. Logo ele, que nos Cadernos disse algures, e cito de cabeça, que aquilo que sempre quis foi fazer diferente.

Eu acho que há duas ideias que não ligam entre si, a ideia de “Novo” e a ideia de “Grande”. Só o tempo faz o grande e o tempo nunca é novo. Depois, a História está cheia de exemplos. No campo da pintura, por exemplo, cito um dos meus favoritos, El Greco, que no século XVI foi preterido por pintores de corte como Velazquez, quase se exilou em Toledo e a sua obra só viria a ser reconhecida já no século XX, como precursora do expressionismo e, até, do surrealismo, esta ultima opinião arrisco-a eu sem saber se sou secundado pelos especialistas.

Em Portugal, temos o óbvio caso de Fernando Pessoa, em vida um quase desconhecido fora dos círculos iniciados e, já depois da sua morte, é descoberto com uma grandeza que não faz de si apenas um património de Portugal, mas de toda a humanidade.

Dito isto, não há uma nova geração de grandes escritores portugueses, o futuro dirá quem para o futuro ficará.

MC: Que pensa da crítica literária portuguesa?

LN: Humm… não me peçam para me dedicar à crítica da crítica (risos)

MC: Voltando às viagens. Onde e com quem passaria um fim-de-semana a dois?

LN: Um fim-de-semana é muito pouco para quem tem alma de viajante. Os desafios que estou para enfrentar são o Próximo Oriente (em Junho vou para lá e conto ficar até Novembro). Depois a Russia, a China e o Sudueste asiático, com o que dou a volta ao calendário e me ponho a regressar por volta do mesmo dia de hoje mas no próximo ano

MC: Que importância atribui à blogosfera, no domínio literário?

LN: É um excelente meio de democratização da crítica. Acompanho e sempre que encontro referências, positivas ou negativas, aos meus livros coloco-as no meu blog e na minha página do Facebook. Quando me parecem particularmente pertinentes, costumo até deixar um comentário. E depois, eu também tenho o meu Blog… não de crítica mas de texto livre. Tenho até personagens que nasceram aí. Se pesquisarem no meu, encontrarão a personagem a”A Puta” deste ultimo livro, plasmada muito antes de eu sonhar sequer que iria escrevê-lo e o mesmo para Jaquité..

MC: Luís, dê-nos um nome de um livro que o tenha marcado desde sempre.

LN: Só um? “Crime e Castigo”… apesar de no final Dosteievski ter caído na tentação romântica.

MC: Luís, muito obrigado pela sua disponibilidade, a equipa do Destante deseja-lhe o maior dos sucessos

Obrigado eu

26/03/2011

O Heróico Major Fangueira Fagundes, com todolos seus anexos - Luís Novais

Depois de Quando o Sol se põe em Machu Pichu e de Os Parricidas, Luís Novais parece ter alcançado a maturidade literária com este “O Heróico Major Fangueira Fagundes com todolos seus anexos”; um grande título para um excelente livro.
A primeira coisa que me parece bem conseguida neste livro é a sua estrutura: há um narrador à maneira de cronista, que não dispensa uma belíssima linguagem em português antigo e múltiplos narradores/personagens que surgem como autores de anexos.
Também os nomes dos personagens são escolhidos criteriosamente e com um sentido de humor notável: desde logo Epifânio Fangueira Fagundes: é óbvia a aliteração “Fangueira Fagundes” mas o realce vai para o nome, que aliás é omisso no título da obra: Epifânio. Ele, o nosso herói, é na verdade, pelos actos “heróicos” que realizou, a personificação de uma epifania. Ele nasceu redentor, abençoado pelo Anjo, procurador do Céu “em um auto” vicentino. Por isso ele é Epifânio.
Um dos aspectos que mais impressiona neste livro é o contraste entre páginas de delicioso humor satírico e outras onde imperam o drama e a revolta interior, numa abordagem crítica e mesmo cáustica ao sistema político e socioeconómico em que vivemos. Um sistema que é um caldeirão de injustiças; um caldeirão que ferve em ebulição permanente, onde o político corrupto, empresário desonesto e o banqueiro ladrão sugam o suor e o sangue do povo. E a escrita de Novais, límpida e directa, surge como a voz de um trovão no silêncio das raivas contidas. Na minha opinião, é esta perspectiva crítica, por vezes descarada, sentida e brutal, que dá uma força extraordinária ao livro.
Mas esta voz brutal é também a voz (ou o clamor) da Liberdade. Não a liberdade mas a Liberdade! Porque só pode ser Livre quem for Criador. Qualquer conceito de liberdade não passará de uma ilusão se não envolver o acto de criar. Numa perspectiva marcadamente nietzschiana, Novais faz aqui uma clara distinção entre os diversos sentidos que o termo pode envolver: em termos políticos, a liberdade pode ser uma arma, um discurso ou uma ilusão. Assim, na Ocidental Praia, metáfora de Portugal, um país desgraçado, vive um povo nas mãos de políticos pacóvios ou ladrões e revolucionários bêbados. Um país onde a crítica e a capacidade de rir de nós mesmo parece andar perdida desde Oliveira Martins e que Novais (tão heroicamente como Fagundes) parece querer fazer renascer, pela pena de um cronista que poderia chamar-se Luís Fernão Novais Lopes, ou de um Eça revisitado na cáustica dissecação das tropelias do Traques, o político de Cidade Grande.
Mas para lá da sátira e das alegorias, do livro brotam também sinais de uma angústia latente. A angústia de um passado perdido, que não é pré-sebastianista, mas antes pré-capitalista. E essa angústia está plasmada num belíssimo texto que é o anexo quinto: um hino à natureza e ao homem do Minho profundo. E não é sebastianismo que aqui leio em Luís Novais; é a urgência da renovação; é o apelo à Revolução, não dos capitães nem de majores mas do Homem no seu todo. É de um novo Homem que precisamos; um Homem novo que restaure a Liberdade do ancião de Vilar dos Fornos.
Este caminho da libertação é o caminho da Utopia, não o da ilusão da Cidade Grande, onde novas escravaturas se emaranham num todo que é o progresso, ou o capitalismo selvagem, ou a tirania do Estado dito democrático.
E em cada anexo lemos um novo alienado, um tuga comum, homem sem presente que se multiplica por um passado pouco heróico e nada pátrio mas sempre escravizado: pobres anónimos e funcionários amestrados mas também empreiteiros, banqueiros e políticos escravizados às manhas e artifícios com que escravizam os outros: motoristas, bibliotecários, jornalistas, prostitutas, vendedores de seguros ou a licenciada que serve cafés… todos eles dentro da roda dentada onde se moem de tanto girar; nós de um emaranhado de fios de fantoche sem ponta visível. E todos eles cantados em forma de crónica, auto, cantiga de escárnio e maldizer. Todos aprisionados excepto talvez o super-homem, talvez apenas escravo da Liberdade.
Para lá de tudo isto fica a revolução: a utopia. A esperança. A ilusão de que é feita a vida do comum dos mortais. Mas é essa ilusão, essa esperança, que não morrerá enquanto houver utopias.
Enfim, estamos perante um livro que nos surpreende e encanta; uma obra que poderá marcar a epifania de um nome que um dia poderemos colocar ao lado dos maiores da actual literatura portuguesa, como José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe ou João Tordo. Assim os deuses da literatura portuguesa (críticos literários e mestres de marketing) o permitam.
Também publicado em http://aminhaestante.blogspot.com/

21/03/2011

Os Parricidas - Luís Novais

Um homem sem nome, uma identidade sem rosto, uma vida de onde se escoa a razão. Ele vê o Diabo que, no fundo, emana da sua própria incerteza, da ignorância que é o seu refúgio e inicia a espiral de busca dele próprio.
Ele somos nós, homens à procura da identidade, o mesmo é dizer, de ser feliz. A loucura que se aponta ao homem sem nome vai-se revelando, ao longo do livro, a normalidade da vida, desta vida que só conhecemos pela rama. Dentro de nós, dentro do homem sem nome, cresce a raiva do não saber quem somos, muito menos para onde vamos. Cresce a revolta e o Diabo emerge, nascido e criado no mais profundo da nossa alma. E a morte do pai, culpado de ser e de o fazer nascer, redimirá o mal de viver.
Normalidade ou loucura, Diabo ou consciência, destino ou vontade, tudo afinal se mistura num caos chamado vida. “Os Parricidas” não é, definitivamente, um livro qualquer; é a síntese da loucura normal, o repensar que todos procuramos de uma vida dominada pelo absurdo. As trajectórias que seguimos, aparentemente dominadas pelos cordelinhos de um fantoche que somos mas que julgamos manobrar, perdem um dia o sentido. É nessa altura que questionamos, repensamos e (tantas vezes!) encontramos o absurdo; ou o Diabo. Ou nós mesmos.
Podia dizer aqui uma série de banalidades sobre as influências de Dostoievski ou os traços indeléveis das leituras que o Novais terá feito de Kafka, mas por detrás disto tudo talvez esteja algo de muito mais profundo e, ao mesmo tempo, terrivelmente banal: a luta incessante pela busca da identidade. E as derrotas que todos nós sofremos nessa luta desigual. Por isso, não é Dostoievski que vejo por detrás dos Parricidas, embora “O Idiota” esteja por ali; nem o Joseph K de Kafka, embora ele espreite pelas frestas do livro; é Auster que eu leio por detrás das palavras do Novais.
Seja como for; com interpretações atrevidas como estas ou sem elas, ler Novais é algo que já não sentia há muito tempo: há ideias para lá dos clássicos.
Anteriormente publicado em: http://aminhaestante.blogspot.com/

Luis Novais - Quando o Sol se põe em Machu Pichu

Na sua primeira incursão pela escrita, Luís Novais conduz-nos ao ambiente místico do Império Inca, fornecendo-nos um testemunho da actualidade dessa cultura dita perdida. Vários personagens, provenientes de diversas partes do mundo, completam nas montanhas do Peru rotas de vidas que se cruzam num ponto de intersecção: um convite misterioso para uma viagem a Machu Pichu.
Trata-se de homens e mulheres comuns que um ser maior terá escolhido para a viagem. Todos excepto um (Jonathan) sofrem de um dos piores, talvez o pior mal que pode atingir um ser humano: a ausência do sonho. É à procura desse sonho que eles vão. De Paris, Berlim, Jerusalém, Nova Iorque, eles trazem sonhos perdidos e o desencanto perante um mundo onde parece ter desaparecido o sentido de humanidade. A Europa não interessa aos europeus; Israel não é a Terra Prometida porque o sonho não se cumpriu; Nova Iorque já não é a terra dos sonhos realizados… Todos procuram no terreno sagrado dos Incas o sonho que as suas vidas matara.
Este livro envolve também uma mensagem de descrença perante o mundo que construímos; um mundo que continua a ser colonialista, quinhentos anos depois de Colombo, substituindo os Pizarros de outrora por paradigmas mais ou menos interesseiros, como o frio e implacável capitalismo liberal. O indivíduo submerge sob a pressão desses paradigmas, muitas vezes escondidos sob a capa de um patriotismo cultivado pelo poder político e económico. Só o individualismo, o culto do ser humano enquanto ser livre e autónomo poderá dar à humanidade a capacidade de sonhar, indispensável para uma vida feliz e equilibrada.
Por outro lado, persiste a predisposição dos povos para a desunião; talvez a América do Sul seja o último reduto de um povo com a consciência da sua unidade cultural. E talvez o espírito de Machu Pichu continue a pairar sobre a humanidade como o ultimo reduto da redenção.
Luís Novais, no seu já inconfundível estilo de frases curtas (que António Pedro Vasconcelos – com evidente e infeliz exagero - diz representar a “geração SMS”) presenteia-nos com uma obra onde o misticismo Inca se mescla com uma visão ao mesmo tempo cosmopolita e individualista da humanidade; aparentemente estamos perante uma contradição filosófica. No entanto, a impressão que me fica do pensamento do autor é esta: a humanidade só poderá ser livre cultivando o ser individual e a soma dessas liberdades resultará num todo em que deixarão de fazer sentido quaisquer formas de dominação ou exploração do homem pelo homem. Só o sonho poderá manter viva a chama deste desejo de libertação; e esse sonho persiste nas misteriosas montanhas do Peru. Inca, de facto, está vivo.
Anteriormente publicado em http://aminhaestante.blogspot.com/