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28/02/2013

Aprenducar Com a Mãe Natureza, Miguel Almeida


Opinião:
Aprenducar com a Mãe Natureza é o segundo livro infanto-juvenil de Miguel Almeida.

É um livro que, para além de divertir os mais novos, visa sobretudo educar e alertar para os problemas do meio ambiente incutindo formas  de intervenção que têm como objectivo principal minimizar estes mesmos problemas. 

Assim, temos uma história que nos mostra o dia a dia de pais e filhos e inevitavelmente a convivência e os diálogos que se geram no seio familiar. Pessoalmente, revi-me na qualidade de mãe que pede constantemente para arrumar os brinquedos vezes sem conta e que no fim acaba por arrumar quase tudo sozinha... (sim, também me identifiquei com muitas outras coisas. O autor soube transpor para o papel toda a relação pais e filhos :D )

Mas de volta à história...

Esta é uma narrativa muito educativa no que respeita a alertar para o ambiente em que vivemos, aos recursos dos quais dispomos e do cuidado que devemos ter para com os mesmos. 
Os nossos pequenos leitores podem aprender com o pai de Gabriel e com o próprio Gabriel tudo sobre a reciclagem e da importância desta para com o meio que nos rodeia.

Ao longo da história existem imagens que podem ser coloridas e que ajudam os mais novos na compreensão do texto.

Sem dúvida que este é um livro a ter na sala de aula e em casa para ser explorado.

Gostei!

18/06/2012

O Lugar das Coisas - Miguel Almeida


Se a arte imita a vida ou vice-versa
Na arte ou na vida
Quem imita o quê?
Talvez em síntese se possa resumir a vida na arte de saber viver. Quase assim se abre o livro.
Uma poesia feita dos dias; dos atos quotidianos, uns de rima fácil outros que teimam em escurecer a vida. Uma poesia feita dos dias e das noites, de suores e das lágrimas, dos risos e de explosões de prazer, embora serenamente, dos tesouros incontáveis. Do tudo e dos nadas que nos rodeiam.
Como uma flor, que nasce
No lixo, para crescer e florescer
Alimentada nestes espantalhamentos.
E dos dias se levantam por vezes, em explosão, excessos e loucuras, arrebatamentos de poeta, gente normal afinal, gente que percorre o tempo de nascer, viver e morrer, gente que nasce para se fazer pó da terra. Mas, pelo meio há o sol, o mar, o céu e a alegria. A poesia. A poesia que não tem dono, não tem rei nem senhor. A poesia que é liberdade, sonho e vida.
E o homem o poeta o artista o que cria;
…e nisso há poder. Há divindade, há a magia de fazer nascer, de fazer viver. De fazer poesia.
Mas, afinal de contas, triste ilusão, a vida assim cantada em verso não é mais que a alma só de um poeta; um grito ou talvez apenas uma voz suave de alguém… Alguém: um mundo no singular. Sobre quem o cientista berra: Subjetivo!!! No entanto o mundo é inteiro na alma de um só: o poeta. Daí advém o lamento de quem é julgado “difícil”… porque difícil é entender quão simples é a alma.
Fácil é afinal viver e deixar viver. Ler e deixar sentir. Pensar e deixar pensar. E sonhar, acima de tudo.
Livro de capa azul, O Lugar das Coisas é uma espécie de céu, altar em que se celebra a vida, o amor, o lado solar da existência. Nestes tempos sombrios de crise e medo, a poesia de Miguel Almeida emerge como um fio de luz brilhante, ofuscante, por sobre esta vida de autómatos que todos, mais ou menos, carregamos como um fardo. Miguel Almeida, desdizendo o poeta que finge, é o poeta que faz nascer a luz da esperança, de uma vida onde (ainda) há futuro (sonho).
Atrevo-me a afirmar que este é o livro mais pessoal de Miguel Almeida; mais pessoal e talvez mais pessoano; mas deixo essa questão para os que sabem de poesia. Eu, que não sei de poesia, achei estas rimas de extraordinária beleza; de uma musicalidade muito bem conseguida e, acima de tudo, de uma sensibilidade pessoal tocante.
Publicado anteriormente em http://aminhaestante.blogspot.pt/

29/09/2011

Chireto, Miguel Almeida

Opinião:
Eis um livro que tem como objectivo a partilha e convívio entre pais e filhos.

Não é um livro para crianças nem um livro para os adultos; é um livro que exige interacção entre pais e filhos, ou seja, uma espécie de leitura em família, permitindo assim momentos de reflexão e aprendizagem mútua. Mais do que isso, pode ser o ponto de partida para reforçar os importantes laços que se criam a quando das leituras.

Chireto é constituído por sete histórias, uma para cada dia da semana. Porém não se trata de simples histórias de entreter; são histórias que levam a criança a reflectir e ir um pouco mais além – filosofar…a intenção será mesmo esta, levar a criança aos meandros da filosofia, note-se que dentro dos seus limites de criança, mas já antevendo um mundo infinito de interrogações. Aqui nota-se uma forte influência da formação do autor nesta área.

Nestas histórias, o personagem Chireto é uma criança que questiona incessantemente, levando por vezes o adulto ao extremo das explicações. Assim, a criança que ouve aprende com o menino do livro.

.Miguel Almeida correu o risco de tornar a leitura menos atractiva do que um vulgar livro de histórias infantis; mas é um risco assumido: não se trata apenas de divertir as crianças, mas de as encaminhar, lado a lado com o adulto, para o mundo das ideias, do raciocínio, da reflexão; numa palavra, da filosofia. A leitura é apenas o ponto de partida para um diálogo “socrático” entre a criança e o adulto, (em que o livro é o elo de ligação) e as ideias como guias do raciocínio e do diálogo.

Sendo um livro com objectivos didácticos bem claros, não deixa de ser também muito atractivo em termos de imagem: a capa é muito bonita, assim como as ilustrações. No entanto, deve ficar bem claro que o livro se destina a crianças a partir dos 11 anos. E, na minha opinião, não deve criar-se na criança a ideia de que se trata de um livro para divertir mas sim para aprender, para desenvolver o raciocínio, numa palavra, para crescer.

É um livro que pode e deve ser trabalhado nas escolas, explorado na sala de aula, onde se poderá dissecar todas as questões e intenções de Chireto.

17/05/2011

09/05/2011

Passatempo "Ser Como Tu" de Miguel Almeida

O blogue em parceria com o autor Miguel Almeida tem para oferecer um exemplar de "Ser Como Tu". 
Para participar no passatempo, terá de responder acertadamente a todas as questões do formulário.


Os poemas de Miguel Almeida transportam-nos por anseios e receios, por opções, feitas ou que ficam por fazer, que valem como outras tantas viagens de um Eu, numa busca constante de sentido para si próprio e para o Mundo.
Numa frase célebre, o poeta russo Osip Mandelstam disse que “na poesia é sempre de guerra que se trata”. Num registo diferente, Carl Von Clausewitz diz-nos que “a paz é a continuação da guerra por outros meios”. E esse também se pode dizer que é o ponto de vista assumido em Ser Como Tu. Em guerra incessante consigo próprio, o Eu que está por detrás dos poemas de Miguel Almeida mostra-nos que as piores guerras, as mais constan¬tes e perigosas, não são as que travamos com os outros, mas as que travamos connosco próprios e com as nossas circunstâncias. Mas estas também são as guerras que nos trazem as conquistas mais importantes e decisivas.

SOBRE O AUTOR:
Miguel Almeida, nasceu em Rãs, pequena aldeia do concelho de Sátão, distrito de Viseu, em 1970. Este é o seu quarto livro publicado, depois de Um Planeta Ameaçado: A Ciência Perante o Colapso da Biosfera (Esfera do Caos, 2006), A Cirurgia do Prazer: Contos Morais e Sexuais (Esfera do Caos, 2010) e O Templo da Glória Literária: Versão Poética (Esfera do Caos, 2010). Publicou também, desta vez em co-autoria, a obra Já não se fazem Homens como antigamente (Esfera do Caos, 2010). Licenciado em Filosofia (Variante de Filosofia da Ciência) pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde também fez o Mestrado em Filosofia da Natureza e do Ambiente, exerce actualmente funções docentes na Escola Secundária Cacilhas-Tejo, em Almada. Vive na Costa da Caparica, com a mulher, Carla, e o filho, Gabriel, na proximidade poética da família e do mar.

Regras do passatempo:
-O passatempo começa hoje dia 9 de Maio de 2011 e termina às 23.59h do dia 16 de Maio de 2011;
-O participante vencedor será escolhido aleatoriamente;
-O vencedor será contactado via e-mail;
-Apenas poderão participar residentes em Portugal e só será permitida uma participação por residência.
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PASSATEMPO ENCERRADO

Boa sorte aos participantes ;)

02/05/2011

Ser Como Tu - Miguel Almeida

Eu, aprendiz, me confesso: não sou perito em poesia, nem sequer fui alguma vez apreciador do género. Sobrevoei os clássicos, movido pela obrigação escolar, mais nada. Tive sempre um pequeno encanto pela Mensagem de Fernando Pessoa mas, fora disso, mantive uma distância consciente mas algo cobarde em relação aos poetas.
Um dia caiu-me do céu em pára-quedas um livro de Miguel Almeida. Li-o com esforço, dada a minha ausente (ou asfixiada) sensibilidade poética. Deixei-me levar pelo esforço e valeu a pena.
Este é o segundo livro de Miguel Almeida que leio e desta vez o esforço foi menor, talvez porque começo a ressuscitar para a musicalidade das rimas e para a sensibilidade dos versos.
Dez conjuntos de onze poemas fazem este livro em que há alegria e solidão, tristeza e intimidade, suavidade e rispidez.
Há até um auto-retrato, talvez brincadeira, servida com humor; o auto-retrato de um poeta que diz não saber se nos mente:
“Deidades! Não devoto para um só Deus o voto
Não sou esquisito. Prefiro mil, se forem mulheres
Pois ser ateu, não vem pró caso de nisto ser expedito.”
Simples, sensível, directo, positivo (sem lamechices).
Pessoal, íntimo, musical.
Suave como quem reza.
Por vezes, a solidão:
“O Caos das proximidades,
Tão próximas,
Afastam-me para longe,
Tão longe de mim.
Mas, agora, entregue a mim próprio
Tenho a sensação de estar só,
Acompanhado, na verdade fiquei tão só.”

Outras vezes, o sorriso da vida:
“E há uma flor no jardim, que me (a) guarda
Esperando paciente por mim, outra vez vigoroso”.
As palavras sobrevoam a alma, as viagens sucedem-se nas nuvens dos sentimentos que percorrem os dias. E o leitor, de início hesitante, vai inspirando os sons que descem ao fundo da alma. E começa a fazer sentido: ler poesia é sentir. Sentir a poesia não é como quem lê. É como quem respira sensações e sentimentos: inspira-os, absorve-os e expira uma espécie de paz.

Ler Miguel Almeida é também uma viagem no mundo reservado da alma:
“Por que é à volta de si mesmo,
Que é mais necessário e urgente viajar.”

E para o fim da viagem há a morte, ou melhor, a vida:
“Na angústia da minha prisão,
Não como ser que nasce para a morte,
Mas como ser que existe,
Resistindo e persistindo, sobre a morte”

26/04/2011

Ser Como Tu - Miguel Almeida

Opinião:
“Ser Como Tu” é a mais recente obra de Miguel Almeida. O seu segundo livro de poesia. Poemas que nos tocam e emocionam.
À maneira que ia lendo estes poemas e ia virando as páginas, ia também meditando sobre o título deste livro que não faz parte do acaso… “Ser Como Tu” que me estás a ler! É sem sombra de dúvidas a identificação entre livro e leitor. Pois todos estes poemas que compõem o livro, abrangem a quase, ou mesmo a totalidade do ser humano. Os seus anseios, receios, decisões, indecisões, confusões, ilusões, identificação ou falta desta, liberdade (uma busca constante), questões…
São poemas que encontram o seu eco na alma de quem lê, proporcionando a reflexão de acontecimentos passados ou presentes de acordo com as vivências de cada um.
Mais do que ler poesia, há que vivê-la, de outra forma não é possível extrair toda a beleza que ela contém, a beleza que um livro fechado protege e que as palavras escondem.
Os poemas de “Ser Como Tu” sentem-se como se tivessem vida, atormentam-nos ao mesmo tempo que nos felicitam! Fazem-nos oscilar entre risos, lágrimas, revolta e saudade!
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A voz do silêncio
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Hoje eu vi, mas calei
Os meus olhos cegos,
Perdidos, no vazio
A olhar, desviados no chão,
Onde agora conseguem ver,
Cobardemente,
A voz que dizendo, enche
O silêncio, que calado diz não.
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Miguel, estás de facto de parabéns por mais este livro que é especial!
Um livro de leitura obrigatória para quem gosta de poesia (e também para aqueles que pensam que não gostam).
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Comentário também publicado no blogue http://viajarpelaleitura.blogspot.com

07/02/2011

Escritores Na Primeira Pessoa - Miguel Almeida

Hoje no Destante, na nossa rubrica "Escritores na Primeira Pessoa" apresentamos Miguel Almeida, autor de "A Cirurgia do Prazer-Contos Morais e Sexuais", "O Templo da Glória Literária", "Já não se Fazem Homens Como Antigamente" (em co-autoria com mais três escritores) e "Um Planeta Ameaçado-A Ciência Perante o Colapso da Biosfera".
O Templo da Glória Literária já foi comentado aqui no blogue, uma leitura que não deixa ninguém indiferente.
..
Destante: Dizem que o poeta é um fingidor. O Miguel é poeta. Sem fingir, como é o verdadeiro Miguel Almeida?

Miguel Almeida: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.” Fernando Pessoa, Autopsicografia. Sim, Fernando Pessoa tem razão. Como poderia ele não ter razão?! Mas, se por fingir se entender apenas mentir, o poeta não mente, pelo menos, conforme se costuma dizer, não mente com os dentes todos. Falando, então, de mim. Falando de mim, enquanto poeta. Há poemas meus que nasceram de situações que me são estranhas, situações que são dos outros. Mas se me despertam e motivam a atenção, se me condicionam e motivam a escrever, é porque de alguma maneira me tocaram. Em quase todas estas situações, é porque me causaram emoções fortes que me levaram a escrever. Eu emociono-me muitas vezes, emociono-me muito, e, talvez por isso, escrevo muito, escrevo facilmente, e escrevo sobre situações que despertam e tocam as pessoas.

D: Como é que começou a escrever? Foi a resposta a uma necessidade interior ou apenas um hobby?

MA: Começo por dizer que esta é uma pergunta difícil de responder. Como penso que acontece com todas as pessoas que escrevem, podendo ou não vir a tornar-se escritores/as, escrevo desde que me lembro que aprendi a escrever. Mas escrever como acto literário/artístico, como exercício que busca o essencial da expressão e da comunicação, como forma de alívio, de compreensão e de partilha, se tiver que fixar um início, terei que o fixar nos meus tempos da Faculdade, enquanto aluno do Curso de Filosofia, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde aprendi muito e tive excelentes professores. Mas mais do que este ou aquele professor, foi o tipo de trabalho que me obrigaram a fazer que me levou a escrever. Excepção a uma ou outra “cadeira”, o tipo de trabalho que tinha que fazer era uma espécie de “pequeno ensaio”, acerca dos temas/filósofos mais diversos. Ler, pensar e, depois, escrever, tanto quanto possível de maneira autónoma e original, no essencial, era nisto que consistia fazer um Curso de Filosofia, pelo menos no meu tempo. Este tipo de trabalho foi determinante para me despertar o “bichinho da escrita”. Mas, é claro, com o seu manancial de ideias e de questões, umas claras e outras nem tanto, umas respondidas e outras por responder, a minha formação em filosofia também me continua a alimentar o meu hobby de escrever. Disse hobby, só pelo facto de não ser um profissional da escrita. Escrevo e só no ano de 2010 publiquei três livros, a saber, A Cirurgia do Prazer – Contos Morais e Sexuais, O Templo da Glória Literária – Versão poética, e Já não se fazem Homens como antigamente, este último um livro em co-autoria com mais três escritores, com distribuição nacional, o que é deveras notável, seja para quem for, mas sobretudo para mim, que continuo e continuarei a ser um professor de filosofia, ao nível do ensino secundário. Não abordei a questão de se começar/ou não a escrever movido por uma espécie de “necessidade interior”. Talvez possa falar disso mais adiante. Por agora digo apenas que esse tipo de motivação para a escrita não é contraditório com a escrita ser/ou não ser um hobby. Para mim, a escrita é um hobby, no sentido de não ser a minha ocupação principal, mas isso não quer dizer que não leve a escrita a sério, nem que a minha escrita não se alimente de uma espécie de “necessidade interior”. Quando não escrevo, quando passo muito tempo sem escrever, fico insatisfeito e sinto o peso enorme de uma falta dentro de mim.

D: "O Templo da Glória Literária" é o seu terceiro livro, porém é um livro de poesia. Como se revelou o seu "eu" poético? Ou melhor, como descobriu que havia um poeta no seu íntimo que precisava exprimir-se?

MA: Já o disse várias vezes: a escrita poética faz parte do ADN da minha escrita. Foi pela poesia que comecei a escrever. É pela poesia que continuo a escrever. E será ainda pela poesia que irei continuar a escrever. O Templo da Glória Literária, o primeiro livro de poesia que publiquei, é a prova disso mesmo. Trata-se de um livro de tributo e de homenagem aos grandes nomes da poesia de todos os tempos. Em parte, é também um livro de agradecimento a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, me levaram a gostar da poesia, a gostar de ler e de escrever poesia.

D: Logo no início do Templo há a seguinte referência: "Sinalética dos tempos: Urge (re) conquistar o selvagem O olhar da criança, o do louco e do poeta" Acha que realmente se perdeu o que é inato ao homem, ou seja, a sua essência que no fundo é a inocência, a loucura e o poeta que há em cada ser humano?

MA: Respondendo de forma directa e com total sinceridade: acho. O mundo actual é feito essencialmente de números e de coisas, de crises e de planos para ultrapassar as crises, de egoísmos e materialismos, de tantos e tantos outros “ismos”, mas não tem lugar para a inocência, a cândida inocência de um Voltaire, para a loucura, a sã loucura de imaginar e criar, nem para o poeta, que acredito que cada um traz dentro de si. Pessoalmente, sinto-me deveras satisfeito por saber que a minha poesia também se faz disso, ora denunciado este estado geral de coisas em que as pessoas deixam de ter disponibilidade para serem quem gostariam de ser, para fazerem o que mais gostariam de fazer, ora alertando para a necessidade de ter que se voltar atrás, de rebobinar o filme, para ver as alternativas, a meu ver diferentes, a meu ver melhores.

D: Depois da leitura do seu livro de poesia, fica bem claro o porquê da palavra "Templo" quer falar um pouco sobre isso?

MA: Como já o disse atrás, O Templo da Glória Literária é um livro de tributo e de homenagem aos grandes nomes da poesia de todos os tempos. Já não sei por que poeta é que comecei a fazer os poemas deste meu livro, nem penso que isso tenha muito interesse agora. A verdade é que só depois de ter descoberto um pensamento de Jean le Rond d’ Alembert é que fiquei com a noção de ter entre as mãos um projecto que poderia vir a ser muito interessante. Eis as palavras de d’ Alembert: “O interior do templo é somente habitado por mortos que não se encontravam lá quando vivos e alguns vivos que são postos para fora, a maior parte deles, quando morrem.” A partir destas palavras ficou claro o que poderia/deveria fazer: seguindo o critério da fama e da glória literárias, poderia/deveria fazer poemas de tributo e de homenagem àqueles que, para mim, são os grandes vultos da poesia de todos os tempos. Como imagem, pensei numa espécie de Panteão, onde só são sepultados os poetas que alcançaram a imortalidade, tendo conquistado o seu lugar por direito próprio, isto é, pela excelência da obra que deixaram atrás de si. Mas há uma particularidade interessante nas palavras de d’ Alembert: muitas vezes/quase sempre, a fama e a glória aparecem cedo de mais, torna-se efémera e perde-se com a mesma rapidez com que se ganhou; outras vezes/quantas vezes, só depois da morte é que se reconhece a fama e a glória, e nalguns destes casos … dura para sempre. É deste segundo tipo de situações que se faz o meu livro. O Templo da Glória Literária, o poema que dá título ao meu livro, dá conta deste critério, que segui para proceder à minha selecção.

D: A crítica em Portugal não é um pouco elitista? Como se relaciona com a crítica literária?

MA: Para além de uns quantos blogues literários que consegui despertar para as minhas obras, entre os quais se contam o Viajar Pela Leitura e o Destante, não me relaciono. É com alguma amargura que confesso o seguinte: a crítica literária em Portugal não é apenas elitista, também é direccionada, manipulada e, eventualmente, manipuladora. No poema de homenagem e tributo ao poeta Alexandre O’ Neill, chamo aos críticos literários “vadios ociosos, que passeiam o seu tempo pelo labor dos outros”. Mas vamos voltar um pouco atrás. Como já disse, no ano de 2010 publiquei três livros. O Templo da Glória Literária, em particular, mereceu imensas posições de destaque em muitas das grandes livrarias do país e até está a ser traduzido, para ser publicado, em Itália. Quem é que deu conta disso? Quem é que deu realce a isso? Ninguém.

D: Ainda temos em Portugal grandes escritores e grandes poetas?

MA: Sim, é claro. Comungo plenamente da ideia que das coisas boas que Portugal tem para oferecer são os seus escritores. Temos outras, felizmente. Ao nível da escrita, está aí uma nova geração de escritores, com muito valor e fulgor, uns já com créditos firmados por esse mundo fora, outros em vias de o poderem vir a fazer. Gonçalo M. Tavares, Luís Miguel Rocha, José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe, João Tordo, para ficar só por alguns nomes, estão aí para o provar. Não tendo o mediatismo deles, e possivelmente a disponibilidade para me dedicar em exclusivo à escrita, não me considero excluído desta grande vaga de novos escritores portugueses. Quanto à poesia … bem … a poesia é outra questão. Ouve-se muitas vezes dizer que Portugal é um país de poetas … Mas, como acontece em tudo, é preciso separar o trigo do joio. De facto, há muita gente a escrever poesia, mas muita dessa gente escreve apenas movido pela sua vontade de o fazer, quantas vezes sem o talento e o saber para o poderem fazer bem. Mas penso que devem ser incentivados para o continuar a fazer. Por mim, procuro sempre incentivar quem tem vontade de escrever.

D: Se pudesse construir um Templo da Glória Literária, (fisicamente falando, um templo com tijolos e cimento), em que cidade o construiria?

MA: O nosso Panteão Nacional continua pobre. Tem mais chefes de estado do que artistas ou escritores. O nosso grande Luís Vaz de Camões está sepultado no Mosteiro dos Jerónimos! Em Paris, pelo contrário, a imagem do Panteão Nacional é fortíssima. O Templo da glória Literária é uma imagem mental e cada um de nós tem a possibilidade de ter/fazer a sua própria imagem. Fisicamente falando, e só porque sou português, talvez tivesse que o construir em Lisboa, talvez no lugar onde está o Panteão Nacional, mas teria que virar a frente do actual edifício para o rio Tejo, a abraçar o mar.

D: O que pensa do acordo ortográfico? Vai adaptar a sua escrita ou vai resistir?

MA: Enquanto puder, vou continuar a resistir. Eu quero continuar a vestir um fato, apesar de o fazer poucas vezes, e não um acontecimento.

D: O Miguel é professor. Ser professor é ainda uma missão ou apenas um castigo do destino?

MA: Sim, sou professor de filosofia. Trata-se de uma profissão que comecei por abraçar com desconhecimento e desconfiança. Lembro-me de que quando fiz o meu Estágio Profissional, a ideia que tinha era a de ver se conseguia e/ou gostava de ser professor. A verdade é que acabei por gostar e abracei, depois, a profissão com enorme gosto e paixão. Nos primeiros anos de profissão, e ainda como professor contratado, disse várias vezes que me considerava um privilegiado: fazia o que gostava e ainda me pagavam para o fazer. Entretanto, com o tempo, como é público, a profissão de professor tem-se vindo a degradar: muita burocracia, alunos desinteressados e desmotivados, questões laborais delicadas …

D: Para terminarmos, faça referência a um livro e a um país/cidade e fale-nos um pouco de ambos.

MA: Um livro? O livro que estou a escrever. É um romance. É a minha primeira tentativa de fazer um romance. Mas não tem país nem cidades, porque os lugares melhores, os mais autênticos e aprazíveis, não vêm no mapa. Agora a sério. Um livro? Sem dúvida, El Quijote, de Miguel de Cervantes. Trata-se de uma loucura constante, mas sempre humana. Chorei várias vezes enquanto o li, mas foi sempre de tanto rir. Um país? Sem ser Portugal, conheço poucos países. Escolho França e, mais concretamente, Paris. Pelo seu cosmopolitismo. Pela sua frente sempre virada para as artes. Os grandes museus de Paris, por exemplo, podem-se visitar várias vezes, devem-se visitar várias vezes, devem-se visitar e revisitar, e continuam sempre a chamar-nos para lá voltar.

D: Miguel, o nosso muito obrigado e fazemos votos de muito sucesso.

MA:Quem fica agradecido, imensamente agradecido, sou eu. Sucessos também para os blogues Viajar pela Leitura e Destante.

22/12/2010

O Templo da Glória Literária - Miguel Almeida

Partindo de mim para além, de lá para a mim retornar sempre.

É assim a poesia, uma viagem do interior para além de limites imagináveis.
Porque nada é póstumo, os Imortais vivem e escrevem neste livro de M. Almeida, transportados pela voz da sua caneta.
No entanto, não são os poetas Imortais que falam pela voz de M. Almeida; é M. Almeida que se faz ouvir (por vezes gritando outras gemendo ou ainda sussurrando) na escrita do poeta de hoje.
É a voz viva do poeta vivo, vivo como os Imortais que se ouvem também eles. Homero em uníssono com Sophia, Solon de mãos dadas com Cesariny.
Vivos, todos vivos.
Mortos são alguns que vivem e não cantam nestas trovas.
E é com os Imortais que M. Almeida vive porque se faz ouvir neste livro.
Ler este livro é expor corpo e alma ao contágio. Sim, a poesia é contagiosa: dos Imortais para M. Almeida; de M. Almeida para quem lê.
É um contágio que liberta porque poesia é liberdade.
A poesia é a “dor do deus” (pg. 84)…

Este é o primeiro livro de poesia que coloco neste blogue. Se exceptuarmos alguns poemas de Fernando Pessoa, posso dizer que não gosto de poesia. Nunca gostei. Mas adorei este livro, que é um livro de poesia. Porquê? Não sei… talvez porque a poesia de M. Almeida me tenha dado este prazer imenso de viajar pelos Imortais mas também pelas palavras e pelos sons.
Sim, os sons; as letras de M. Almeida soam por vezes como música. Como disse Fernando Pessoa, citado neste livro: “a poesia é uma música que se faz com ideias e por isso com palavras”.
De resto, fica a liberdade.
Almeida escreve como quem voa.
As palavras viajam e as nossas ideias sobrevoam a alma de quem escreve.
Passeiam pela sabedoria da Grécia antiga, num tributo (que nunca pagaremos totalmente) aos clássicos.
Uma sabedoria que em excesso já não é sabedoria; é talvez prazer ou poesia.
Com os Imortais vivemos ao longo das páginas.
Com exaustão; a vida “esmurrando o amor” (pg. 51).
O amor… o delírio dos poetas… mas muito acima disso há a vida!
E a poesia de M. Almeida é, acima de tudo, uma poesia viva.
Livre.
(também publicado em http://aminhaestante.blogspot.com/ )

16/12/2010

O Templo da Glória Literária - Miguel Almeida

A minha opinião: O Templo da Glória Literária contempla poemas. Poemas estes muito especiais, uma vez que são dedicados e escritos tendo por inspiração grandes nomes da literatura.
Como diz o título – O Templo da Glória Literária – O Templo de grandes nomes, de todos aqueles que de alguma maneira marcaram a literatura de tal forma que se tornaram eternos e que Miguel Almeida reuniu neste magnífico livro.
Achei bastante interessante a forma que o autor dividiu o livro e por conseguinte os poemas. Assim, viajamos por 5 partes distintas mas todas elas ligadas entre si, pois umas não existem sem as outras.
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A primeira parte “Instantâneos Inspirados no Templo”, onde o autor e o leitor são levados a reflectir sobre o papel de escrever poesia. Escrever como refúgio e coragem para que se encontre aquilo que se perdeu “O olhar da criança e do louco e do poeta”*
O poema como arte de viver, sentimento extravasado, só compreendido por quem o escreve. Uma fuga para libertar as inquietações, a poesia como forma de liberdade e simplicidade.
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Na segunda parte: “Instantâneos Suspirados no Templo”, há toda uma interrogação à volta do poeta. O poeta questiona o “eu”, o seu “eu” solitário, quem foi, quem é e quem será…tudo gira à volta deste ser simples, ingénuo e às vezes louco…
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A terceira parte intitula-se “O Templo da Glória Literária” que dá nome à obra.
Esta foi das partes que mais gostei. Porquê? Porque aqui há toda uma reflexão sobre aqueles que fazem parte deste templo, que são todos os que triunfaram em vida, mas que não foram reconhecidos enquanto a tiveram, só depois da morte foram reconhecidos e coroados.“A fama e as glórias póstumas São triunfos tardios, já então alcançados Pela vida que se vence E não se viu em todo o esplendor a vitória”(…)Porque no templo da Glória Literária, a maior parte delas Os vivos que lá são postos são expulsos quando morrem E lá só moram os mortos que não lhe acederam em vida.”*
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Na quarta parte “As fundações do Templo da Glória Literária” – o autor recua no tempo e vai até às bases, aos pilares, às fundações (como refere o próprio sub-título que contempla esta parte) da literatura e o primeiro poema a quem dedica e se inspira é a Homero séc. VII a.c. e assim prossegue avançando no tempo e referenciando nomes até 17 d.c.
. A quinta e última parte é também dedicada a pessoas especiais “Os Imortais do Templo da Glória Literária” e confesso que nesta parte perdi-me e deliciei-me ao ler os poemas dedicados àqueles que já me proporcionaram viagens inesquecíveis.
. Transcrevo um poema para que possam apreciar as palavras de Miguel Almeida.
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EDGAR ALLAN POE
(1809-1847)
A liberdade e a Inquietação Poéticas
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Mensageiro perdido, um dos corvos de Noé
Regressa dos tempos imemoriais, da inquietação humana
Sem crocitar nem grasnar, esta negra e magra ave
Vadia e só, volta dos dias e noites sem fim
Por maus hábitos de vadiagem, esta negra e agra ave
Liberta-se miraculosamente, soltando o freio das palavras
E logo mergulha, afundando-se nos mistérios da mente e da morte
Amiúde semeados do terror mais íntimo da alma, no ser do homem
Fruto de sacrifícios espantosos, esta ave que ainda procura Noé
Encontra a terra seca, o mundo em ordem
Mas por hábitos da liberdade vadia, no tempo carregada de inquietações
Amiúde semeia as lágrimas das dores sentidas das almas, num mundo normal.*
.
Este é um livro para se ler com algum vagar, saborear e ver para além das palavras. Onde se vê reflectido o papel do poeta, as suas interrogações, incertezas, sonhos e sofrimento.
Um poeta que busca o seu passado, a sua realidade e que bebe daqueles que já viveram as mesmas inquietações e que foram incompreendidos e até condenados.
Esta é uma leitura que aconselho, não só a quem gosta de ler poesia, mas a todos aqueles que gostam de ler em geral.
* in O Templo da Glória Literária, Miguel Almeida
Texto também publicado no blogue ...viajar pela leitura...