22/07/2012

POR FAVOR NÃO MATEM A COTOVIA, de Harper Lee









Esta história desenrola-se num estado sulista, na América dos anos 30-40, onde a segregação era uma realidade natural. Embora tendo lido primeiro “As serviçais”, cujo tema é o mesmo mas cuja ação se passa nos anos 60, podemos verificar que nada mudou neste hiato temporal. A narradora é Scout, uma das personagens deste livro que nos descreve a sua infância, o seu dia-a-dia com o seu irmão mais velho, Jem, numa cidade Maycomb onde o calor sufocante grassava praticamente o ano inteiro. Pela voz de Scout depressa chegamos à conclusão que este livro tem o seu “centro” em Atticus, o pai de ambos. Atticus é viúvo, advogado, um homem íntegro, com um caráter a toda a prova, uma pessoa calma e serena. É um homem que luta pelas suas convicções, naquilo em que acredita serem causas justas embora tenha a consciência que a justiça do seu tempo ainda tem muito que evoluir. Atticus, sendo viúvo, luta por ser um bom pai, tem consciência das suas limitações nesse campo pois não é fácil conciliar a profissão com a educação dos filhos. Para isso tem a ajuda de Calpurnia, a sua empregada de cor, em quem deposita total confiança, tanto na lida da casa como na educação dos filhos. Scout e Jem obedecem a Calpurnia mas, acima de tudo, respeitam-na. Mais tarde chama a sua irmã para ajudar na educação dos filhos mas dispensar Calpurnia está absolutamente fora de causa. A família de Atticus é das poucas que não vê qualquer diferença entre brancos e negros e Atticus chega a dizer: “… qualquer pessoa que se aproveite da ignorância desta gente (negros), não passa de um miserável…”. Scout e Jem vão-se apercebendo da realidade que os rodeia e o pai tenta elucida-los, na medida do possível. Um acontecimento irá abalar a rotina da família assim como o “status quo” reinante na cidade. Atticus é nomeado para defender um negro acusado de estupro. A partir daí, Atticus será chamado de “defensor de negros” pelos habitantes da cidade, os filhos farão das tripas coração para evitar entrar em lutas para defender o pai, Scout nem sempre o consegue. Aqui é de realçar o carácter de Atticus que, não guardando qualquer rancor àqueles que o acusam, tenta mesmo justificar perante os filhos os preconceitos daquela gente que nunca soube viver de outra maneira. A realidade é que não é fácil viver daquela maneira, serem alvos de reparos e mesmo de ameaças. O simples facto de Atticus ter sido nomeado para aquele caso pelo juiz da cidade parece não ter sido decisão inocente, ele que é considerado o melhor advogado da cidade. Assim chegamos ao ponto alto do livro, o julgamento, a que os filhos de Atticus assistem (embora proibidos!) na tribuna dos negros, ao lado do reverendo que eles já conheciam. Atticus consegue desmontar toda a acusação e demonstrar que os factos trazidos a julgamento não passam de armadilhas e artimanhas sem quaisquer fundamentos que se destinam tão só a condenar uma pessoa inocente para salvaguardar a reputação de uma família branca. O facto de o júri ter deliberado durante horas só por si parece uma vitória. Será que a mentalidade reinante está a mudar? 

Matar uma cotovia tem a ver com uma injustiça pois a cotovia é um pássaro pacífico que passa a vida a cantar, não prejudica ninguém, é uma dádiva da natureza. Matá-la seria uma injustiça. Condenar um inocente seria uma injustiça ainda maior.

Neste livro vemos como a autora nos descreve com mestria, o dia-a-dia daquela cidade que representa fielmente todos os estados sulistas assim como a mentalidade preconceituosa das suas gentes. Mas nem todos são assim e isso pode ter consequências. Assim, vemos que certos acontecimentos podem mudar dramaticamente a vida das pessoas e, neste caso, assistimos ao amadurecimento precoce de duas crianças cujas únicas preocupações deveriam ser brincar, ir à escola, crescer.  
Para concluir não posso deixar de mencionar o surpreendente final (que não estamos à espera) em que o círculo se completa ao chegar ao seu 360º grau.

5 comentários:

MJ FALCÃO disse...

Um dos livros que mais me agradou ler nos últimos tempos!Harper Lee foi uma descoberta maravilhosa. Só conhecia o "amigo" dela (presente no livro), Truman Capote.
Parabéns por se lembrar!
o falcão

Odete Silva disse...

Adorei este livro, contado através dos olhos de uma criança, é lindo!

Paula disse...

Luís Miguel,
Este é um belo livro! Adorei!

Luís Miguel disse...

Boas,
Andava há muito tempo para ler este livro. Acho que valeu bem a pena. Altamente recomendável!

Numa de Letra disse...

Terminei-o recentemente... E que grande livro!

http://numadeletra.com/13274.html

Cumprimentos,

numadeletra