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13/03/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


MADALENA – PARTE VI


Quando saí da igreja fui directamente para a minha casa e para bem junto do meu Teddy. Antes de adormecer, porém, ainda joguei uns níveis de Emily Grace. Já vos falei do Emily Grace? Trata-se de um jogo onde se matam pessoas e através do qual liberto a minha mente e faço aquilo que não posso fazer na realidade.
Sim, matei-os a todos na minha cabeça mas não na vida real.
Pensam que sou uma criança cruel?
Pensam que tenho pensamentos perversos?
Pensam que não possuo um coração capaz de amar e de sofrer como qualquer outra criança que brincava com as rodas das bicicletas ou com uma máquina de jogos arcaicos como o Tetris?
Ainda por cima como pensam que os encontraria nos tascos, nos cafés ou nos bares nocturnos assim sem mais nem menos? Eu não fazia ideia acerca do tipo de vida que cada um deles levava. Julgam que seria assim tão fácil? De caminho achavam que eu os mataria com o olhar ou com uma boneca de voodoo?
Acordem e não brinquem comigo!
Eu seria incapaz de cometer qualquer acto selvagem e violento.
Olhem bem para mim!
Vejam como sou riquinha e pisco os olhitos para que me achem uma queridinha. Eu sou a Madalena! A Madaleninha!
Tudo o que leram sobre mim não passou de um exercício de espírito, uma brincadeirinha. Até porque tenho andado com algum stress ultimamente. A professora tem exigido muito de mim e a minha mãe anda a reduzir-me o tempo de jogo na consola. Ando mesmo sob muita pressão.
Felizmente tenho o meu Teddy para me apoiar nestes momentos difíceis em que vacilo.
Acabei por adormecer enquanto o diabo esfregava o olho. O dele e o meu.
Acordei feliz no dia seguinte. Vesti-me a correr e apressei-me a sair de casa. Cheguei mesmo a tempo do início do funeral. Todos choravam a morte do padre Cardoso, incluindo aqueles que eu visitara na minha mente. Todos eles. O Jaime, bebendo uma cerveja e fumando um cigarro na primeira fila. A Rosalina em topless e apoiada no seu varão portátil. O Moustafa e a Maria e o Bruno com os seus cocktail molotov prestes a incendiar tudo e todos. A Graça e a sua bandeira do Brasil atada à cintura como se estivesse no campeonato do mundo de futebol. O Jeremias a focar todas as gajas para averiguar quais não eram gajas, ou melhor, quais as gajas que eram mesmo gajas.
E eu ansiava que todos se fossem embora, para bem longe dali. Eu e o meu Teddy precisávamos de estar a sós com o padre Cardoso. Afinal, eu não tinha encontrado a lista com as moradas de cada um deles em lado algum. De certeza que alguém a colocara no bolso da indumentária de enterro. Só podia estar ali. Os portugueses sempre foram muito apegados às suas coisinhas, mesmo diante da morte.
Quando houve fogo de artifício todos saíram para o átrio da igreja. E nesse instante senti que a minha oportunidade havia chegado.
Rebolei pelo chão frio da casa do Senhor e alcancei o caixão aberto. O padre Cardoso estava maquilhado. Onde já se viu? Um homem maquilhado! E ainda por cima morto! Por onde quereria ele esbanjar a sua beleza? Pelo menos não cheirava mal.
Vasculhei em todos os bolsos sem conseguir encontrar a lista.
Fiquei sem ter a certeza se havia guardado o maldito papel, se ficara caído no confessionário ou se alguém tinha pegado nele.
Praguejei e então encarei-o.
A quem?
Àquele que se dizia o meu melhor amigo.
Ele sorria descaradamente e eu fui invadida por um sentimento de raiva.
“Teddy! Foste tu, não foste? Onde está o maldito bilhete?”




FIM


06/03/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

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MADALENA – PARTE V


Assim que saí do bar fui direitinha de volta à igreja. Não que tivesse de rezar ou que o Senhor estivesse a chamar por mim. Ele nunca chamava. O único senhor que chamava por mim era o senhor meu pai, se bem que esse engolia a própria saliva à força quando se esquecia que quem chamava era eu - ou eu ou o Teddy.
Passei por floreiras lindas de morrer. Tão lindas que as pisei para não dar cabo dos olhos do resto da população.
Pelo caminho também parti o retrovisor do carro do Cerqueira. Soube que tinha sido despedido e que a mulher o deixara. Fi-lo pelo seu próprio bem. O homem precisava de seguir em frente, por isso não devia olhar para trás, fosse em que circunstância fosse.
Também parti o vidro da casa da dona Lurdinhas. Queixava-se que andava sempre com calor, logo brindei-a com ventilação natural.
Roubei a bicicleta do Toninho porque, em cima dela, ele já havia partido um braço e a bacia e eu não queria que ele se voltasse a magoar. Para além disso, deduzi que a dona Lurdinhas precisaria de passar pelo centro de saúde e não o queria entupido. Afinal, apesar de calorenta ela já tinha passado por duas pneumonias no último Inverno.
Depois deixei a bicicleta em casa do Tomané. Ele era surdo-mudo e dificilmente conseguiria explicar que não tinha sido ele a roubar o meio de transporte. Levaria uma coça, mas ao menos isso faria com que reflectisse e aprendesse de vez a escrever, pois com uma caneta e um bloco seria capaz de explicar que não tinha sido ele a roubar a maldita bicicleta.
Em seguida peguei fogo à loja de bicicletas, pois não queria que o Toninho gastasse dinheiro inutilmente. Afinal, mais tarde ou mais cedo a sua haveria de aparecer.
Por fim desloquei-me à agência de seguros e dispus os fios da campainha de forma a que quem tocasse nela apanhasse um valente choque eléctrico. Até porque o agente era meu primo e eu não queria que o gajo das bicicletas desse prejuízo à empresa que o sustentava. Mais a mais, eu estava em dívida para com ele desde que lhe colocara um anúncio com a sua morada dizendo que se recebiam casais para a prática de swing. Fi-lo apenas por diversão e sim, sei o que é swing. Sou madura para a idade e sou da geração da internet.
Eram quase 22H00 quando cheguei à igreja. Entrei e dei de caras com o Jeremias vestindo a túnica que o padre Cardoso costumava usar. Ele sorriu ao ver-me e eu sorri ao ver o castiçal que ele tinha mão. Parecia robusto e pesado.
“Olá, Jeremias.”
“Boa noite, Madalena. A esta hora na casa do Senhor?”
“Sim. Vim a mando do padre Cardoso.”
“Ó, pobre padre Cardoso. Estou a preparar o seu funeral de amanhã.”
“Mas tu és padre, agora?”
“Sou sacristão.”
“Mas ser sacristão é diferente de ser padre.”
“É só um passinho pequenino.”
“Todavia não é a mesma coisa.”
“A Lua também era inacessível até o Homem lá chegar.”
“Há quem diga que isso foi uma farsa.”
“Da mesma forma que acontecerá comigo, nunca ninguém o saberá verdadeiramente. O que te traz aqui, minha filha?”
“Vim matar-te.”
“Aqui? Na casa do Senhor?”
“Nem mais.”
“Mas porquê?”
“Podia invocar que o padre Cardoso me tinha ordenado; que arruinaste a empresa de guarda-chuvas do enteado da irmã da minha avó; que foste responsável pela venda de armas russas que resultaram na morte de milhares de inocentes no médio oriente ao fazeres com que aquela deputada com voz grossa não pudesse votar contra uma lei no parlamento que mais tarde permitiu essa mesma venda; que o último vampiro do planeta se suicidou num dia de sol ao perceber que, como tu, poderia perder um canino. Tenho muitos motivos para roubar a tua vida, Jeremias. Acredita em mim.”
“Mas, Madalena, então por que preferes prosseguir com o plano cruel de me quereres matar?”
“Queres mesmo saber?”
“Quero.”
“O meu Teddy não gosta de ti.”
“O teu Teddy?”
“Sim, o meu ursinho Teddy.”
“E porquê?”
“Não sei. Nunca lhe perguntei. Não tenho por hábito questionar os ursos de peluche quando se sentem abatidos. No entanto desconfio que ele acha que foste tu que o empurraste da cama, quando ele perdeu a sua perna.”
“Mas eu nunca fui à tua casa! Como poderia tê-lo feito?”
“Não interessa. Há quem diga que o Homem nunca foi à Lua. Nunca saberemos.”
E então peguei no seu belo e reluzente castiçal sem que o Jeremias fizesse o que quer que fosse para me impedir.


27/02/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

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MADALENA – PARTE IV


Deixei o Moustafa que nem sempre se havia chamado Moustafa em plena praça. A noite caíra rapidamente, pelo que quando cheguei à porta do único clube nocturno da terra só conseguia distinguir a cara pálida do segurança, que se destacava do seu fato preto de cangalheiro assim como do beco escuro e mal iluminado do edifício ao qual queria chegar.
Se ele tivesse uma máscara negra até seria capaz de o confundir com o Batman. Mas não. Tratava-se apenas do Billy the kid, não o cowboy, mas sim o pugilista amador com zero vitórias e dezassete derrotas que adoptara o nome do tal cowboy. Tratavam-no por Billy porque se chamava Zacarias e kid porque era um adulto. Claro que fui eu quem lhe dei o apelido por causa da tal cena que eu possuía e que me fazia inverter as coisas, um desarranjo psiquiátrico, como dizia o doutor.
Mal me viu, o Billy deu-me um high five e eu brindei-o com uma pancada na careca depois de ter subido às suas cavalitas. Disse-lhe que queria entrar, algo que ele negou, argumentando que eu não tinha idade para isso. Face a essa resposta, peguei num pedação do meu próprio cabelo e enfiei-o por cima do lábio, simulando um bigodaço à Eça de Queiroz. Ele focou-me por um par de segundos e esboçou um ar convencido. Abriu a porta e convidou-me para entrar, tratando-me por senhora Madalena.
Quando invadi o espaço havia um cheiro intenso a fumo e a álcool. A música estava nas alturas mas só uma mesa se encontrava ocupada. Afinal, a noite tinha acabado de chegar. No entanto, essa mesa onde estavam os únicos clientes valia tanto como uma casa cheia. Tratava-se de meia dúzia de homens e mulheres que falavam com sotaque brasileiro. Snifavam coca utilizando um espelho de maquilhagem e aquilo que me pareceu ser uma nota de 100 reais.
Antes de me dirigir a eles, fui ao balcão e pedi um sumo de amora, com gelo. Fi-lo com o bigode posto, claro, não fosse o empregado perceber que eu era apenas uma miúda de 12 anos. Ele serviu-me e quando me voltou as costas roubei-lhe o picador de gelo sem que se apercebesse. Era lindo, o picador, bem pontiagudo como a ocasião o exigia. De copo na mão e palhinha na boca, sentei-me junto daquilo a que alguém chamaria de escola de samba.
“Olá, Graça.”
“Oi, meu bem.”
“Ou devo dizer, ex-ministra Graça?”
“Você me reconheceu, garota? Estou tão feliz! Aprendeu muito comigo quando eu era ministra, moça?”
“Ó Graça, deixa-te de tretas com esse sotaque.”
“Está bem. Mas agora até os brasileiros perceberam que não sou brasileira. Bem, com esta droga toda, talvez não se lembrem que acabaste de me desmascarar.”
“Não creio que seja relevante aquilo que eles possam pensar de ti doravante.”
“Porquê?”
“Porque eu sou a Madalena e vou acabar contigo.”
“Espera lá. És a Madalena? A Madaleninha?”
“Sim, sou.”
“És a filha que eu tive com aquele polvo gigante que trabalhava na câmara nos tempos em que eu era vereadora?”
“Não era um polvo gigante. O meu pai apenas andava constantemente inchado devido aos gases e à dificuldade em digerir os alimentos. O homem doente, portanto. Para além disso, não era a cabeça que inchava, mas sim o estômago.”
“És capaz de ter razão. Não me lembro bem. Só o via nu quando estava drogada. Nem podia ser de outra forma.”
“Pois, eu compreendo.”
“Como está ele, o teu paizinho?”
“Não importa.”
“Então queres fazer mal à tua mãezinha?”
“Não. O padre Cardoso é que queria.”
“E tu não?”
“Eu não. Preferiria que regressasses à política e me arranjasses uma cunha quando crescesse. E depois sim, matar-te-ia.”
“Ó! Tão fofa! Sempre a pensar no futuro. Sais mesmo à tua mãezinha, sua riqueza.”
“Sim. Só que não preciso de cocaína para ter alucinações.”
“Não? Isso deve ficar mais barato! Como consegues?”
“É segredo e não tenciono revelá-lo porque também quero participar no Secret Story 31 quando atingir a maioridade.”
“Que pena. E afinal porque segues os desígnios do padre Cardoso?”
“Porque no fundo sou boa pessoa e seria incapaz de rejeitar o último pedido de um homem às portas da morte.”
“Eu também sempre fui incapaz de rejeitar um pedido, uma oferenda, um favor. Céus, somos mesmo mãe e filha.”
De repente calei-me. Não que as palavras me fugissem, mas porque me havia picado na ponta do picador de gelo enquanto o acariciava docemente.


20/02/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

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MADALENA – PARTE III


Depois de ter deixado o ciber café, já ele estava iluminado, desci a rua em direcção à praça central.
Já começava a escurecer, mas ainda assim detectei uma nuvem fofinha em forma de ursinho de peluche, igualzinha ao meu Teddy que dorme comigo todas as noites. É um querido, o Teddy, é cor-de-rosa e tem uns olhos pedinchões, nada condizentes com o gancho que ele roubou ao capitão que passa a vida a azucrinar a cabeça ao Peter Pan, nem com a perna de pau que tive de lhe colocar quando perdeu a perna esquerda numa queda da cama. É um bocadinho esquizofrénico, ele. Quando estou acordada é meiguinho comigo, mas assim que adormeço farta-se de fazer asneiras. Com jeitinho ainda vai espancar a minha mãe outra vez, agora que saí de casa.
Ao alcançar a praça, avaliei o espaço. Havia duas esplanadas vazias de gente. Os lampiões iluminavam o centro que possuía uma estátua do benfeitor da região, agora na prisão por fraude fiscal, abuso de poder, ocultação de provas, tentativa de fuga, tentativa de homicídio e falta de pagamento do condomínio e de dois refrigerantes no bar da câmara municipal da capital. Não se via vivalma, à excepção de um homem e de duas sombras.
Ele tinha um lenço envolvido na cabeça e gritava palavras de ordem contra um poder invisível. Havia também, num canto, três polícias que riam dele e gesticulavam na sua direcção. Por vezes até lhe atiravam umas pedritas para gargalharem em seguida. Contudo ele não reagia à provocação. Nisso admirei-o. Ele parecia mesmo revoltado. Depois ia e vinha, provocando alguém e fugindo no momento seguinte, como se esse alguém tencionasse responder aos seus impropérios.
Depois acabei por me chegar a ele e foquei-o, sem conseguir todavia captar as duas sombras que o rodeavam.
“És o Moustafa, não és?”
“Sou. Quem pergunta? És da CIA, não? Eu sabia que iam mandar um anão para me capturar!”
“Não sou anã, sou apenas uma miúda.”
“Isso trata-se de uma inovação! Muito bem, CIA. Um modo de operar inesperado.”
“Olha lá, contra quem te revoltas?”
“Contra o mundo.”
“Mas não está ali ninguém.”
“Na vida aprendi que é a mesma merda revoltarmo-nos contra ninguém ou contra toda a gente. Sou do contra e ponto final. Para além disso, descobri que não percebo um caralho de Geografia. E por isso fui despedido.”
“Estou a ver.”
“E agir contra ninguém é mais seguro, ao menos não apanho bastonadas.”
“Claro. E essas sombras?”
“Não trates mal a Maria e o Bruno, sua fedelha. Eles têm vida própria.”
“Pois.”
“Mas afinal quem és tu?”
“A morte.”
“Não és muito nova para isso?”
“Nada disso. A morte não tem idade.”
“Andas a ver muitos filmes.”
“Nos filmes não ensinam as crianças a usar uma mala da Sininho como arma de estrangulamento como vou fazer com esse teu pescoço fino e curto.”
“Estou dentro da média, sua fedelha.”
“Sabes qual a média da dimensão dos pescoços?”
“Ah, era do pescoço que estavas a falar...”
“De qualquer forma estavas dentro da média, porque em breve deixarás de existir.”
“Mas porque é que me queres matar? Não me digas que foi o padre Cardoso que te enviou? Ele também é da CIA, não é?”
“Enviou, de facto. Mas a minha tia também.”
“A tua tia?”
“Sim, a Julianinha, aquela a quem tu fazias a vida negra quando eram garotos.”
“A Julianinha? Como está ela?”
“Morreu engasgada ao comer umas coxas de rã na rua Rivoli em Paris.”
“Rãs? Odeio rãs e sapos.”
“Eu sei.”
“Vais, portanto, matar-me por ter feito a vida negra à tua tia?”
“Não propriamente. Antes de morrer, ela disse-me para te procurar e para te transmitir que te perdoava por todo o mal que lhe causaste.”
“Então porque me queres matar?”
“Porque o meu psiquiatra diz que eu faço tudo ao contrário. Quando me dizem um sim, eu ouço um não.”
“E o que tem isso a ver com o assunto?”
“Bem, eu odeio-o, por isso amo-o. Logo não o quero desiludir. Assim, tendo assumido a minha tia que te perdoa, o que ela quer é que te mate.”
“Não faz sentido.”
Encolhi os ombros, certa de que nem tudo na vida fazia sentido e agarrei a alça da mala da Sininho com ambas as mãos.


13/02/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

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MADALENA – PARTE II


Depois de ter saído da igreja, deu-me uma larica que não resisti em passar pela cadeia americana de hambúrgueres cujo dono é um palhaço. Comi um hambúrguer no pão, que noutra ocasião chamar-lhe-ia sandes de carne picada com molhos diversos, e batatas fritas com ketchup que mais parecia sangue coagulado. Ah, e para além disso ganhei um brinde, uma estrunfina em pose de modelo e carregando uma mala cor-de-rosa.
No final da refeição, arrotei e dei por mim a corar, receando que alguém tivesse escutado. Nunca fui uma miúda desinibida e, para ser sincera, para badalhoco já basta o meu pai. Juro que qualquer dia lhe isolo a saída do aparelho digestivo e me instalo no sofá até que ele rebente. É que não há minuto em que o homem não se manifeste, seja por cima, seja por baixo. Por falar nisso, parece ironia do destino ele chamar-se Varatojo. É que rima mesmo com nojo. Eu também me chamo Varatojo, mas no meu caso rima com estojo. Ainda ontem comprei um novo da Ovelha Choné.
Antes de deixar o restaurante, enfiei o punhal que conheceu o Jaime num caixote do lixo, sem que ninguém visse. Quando percorri o passeio, apercebi-me de um paralelo solto e enfiei-o na mala, certa de que me poderia ser útil dali a uns minutinhos.
Rapidamente me desloquei ao único ciber café das redondezas. Ao aproximar-me, escutei vivas, assobios e palmas. Ainda não tinha dobrado a última esquina e já se percebia que o espaço estava num alvoroço.
Assim que cheguei, entrei no café. Estavam uns cinquenta homens e cinco mulheres aos saltos e gritando para o ar. No centro, em cima da mesa, pude ver a Rosalina fazendo um strip tease para uma webcam, enquanto o resto da malta a incentivava.
Quis gritar para captar a atenção dela, mas a música do Barry White entoada nas alturas jamais permitiria que alguém me conseguisse escutar. Por isso dirigi-me ao quadro de electricidade que ficava na entrada. Na verdade não se tratava de um quadro convencional, pois não tinha tampa nem componentes plásticos e os fios encontravam-se à mostra, para além de estar todo enferrujado e de parecer ter resistido a uma guerra mundial. Nada de novo portanto. Com medo de apanhar um choque, fechei os olhos a atrevi-me a mandar a luz abaixo.
E resultou. Todos protestaram. Enquanto se acendiam isqueiros e se ligavam os telemóveis, agarrei na mão da Rosalina seminua e puxei-a para as traseiras.
Sentámo-nos em cima de dois bidons de cerveja de pressão e enfrentei-a.
“Não temos muito tempo, Rosalina. Rapidamente darão pela tua falta quando voltarem a ligar a electricidade.”
“Quem és tu?”
“A Madalena, prazer.”
“Prazer, Madalena. Mas quem és?”
“O teu carrasco.”
“Quem o disse?”
“O padre Cardoso.”
“Ele é padre, jamais faria isso.”
“Um padre marado da cabeça, queres dizer.”
“Ainda assim um padre, miudinha.”
“Madalena.”
“OK, Madalena. E porque queria ele que me matasses?”
“Não sei. Mas não interessa. Ele não é o único.”
“Quem mais deseja a minha morte?”
“Eu.”
“Porquê? O que te fiz eu?”
“Tornaste-me numa criança infeliz.”
“Sério?”
“Não. Mas podias ter transformado.”
“Por que motivo?”
“Porque fizeste com que os meus pais se separassem.”
“Sim? Como se chamava o teu pai?”
“Varatojo.”
“Não conheço.”
“Eu sei. Mas alguém lá em casa ficou viciado em ti. Rapidamente, em vez das telenovelas e dos jogos de futebol, começou a passar na televisão as tuas sessões de strip tease quando, nos teus tempos áureos, foste contratada para aquele canal porno por cabo.”
“Era um canal erótico. Eu não faço porno.”
“Seja. Isso levou a que os meus pais se separassem depois de vários ataques de ciúme.”
“Lamento, miudinha, que tenha esse efeito nos homens.”
“Quem se viciou em ti foi a minha mãe.”
“Sério? Nunca o fiz com uma mulher. Onde é que moras mesmo?”
“Nos teus pesadelos.”
Nesse instante tirei o paralelo do bolso da mala da Sininho, pois estava a incomodar-me de tal forma que já me estava a fazer doer o ombro. Aquele peso era terrível.


06/02/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

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MADALENA – PARTE I


Assim que enfiei o vestido de alças que a minha madrinha me tinha oferecido na Páscoa e prendi o cabelo com dois totós perfeitamente simétricos, sentei-me a ver os “Morangos com Açúcar”. A nova série, a vigésima sétima - férias de Verão em época natalícia - estava a ser uma seca. Já não havia amassos nem maluqueiras como antigamente.
Depois apareceram em cena três actores famosos. E aí passei-me. Eu estava habituada a ver desconhecidos a representarem tão mal que parecia que eu estava a falar com os meus próprios amigos. Era lindo, dessa forma. Fazia-nos sonhar que qualquer uma de nós poderia aparecer na TV. Por isso, quando detectei os famosos atirei-me à televisão. Esbofeteei-a, mordi-a, pontapeei-a e atirei-a ao chão.
Ah, e injuriei o maldito aparelho só porque contrariava a minha vontade.
Devo ter feito muito barulho porque a minha mãe apareceu de imediato na sala. Perguntou-me o que tinha acontecido para estar a agir daquele modo. Eu sorri e dei-lhe o mesmo tratamento a ela. A Lucrécia - assim se chamava a minha mãe - ficou no chão, a sangrar do nariz, e ainda lhe dei com uma joelhada na cabeça quando se tentou levantar.
Peguei no meu casaquinho de ganga e saí. Antes de fechar a porta disse-lhe que não contasse comigo para o jantar, pois tinha planos para aquele final de tarde. Ainda soltou um “hã?” mas fiz de conta que não ouvi, imaginando que talvez tivesse acabado de lhe rebentar com o outro tímpano. E só lhe restava aquele, porque no Verão passado tinha-lhe dado cabo do outro, depois de me ter dito que não podia ir ao cinema por se tratar da última sessão.
Enquanto percorria a rua, não evitei as velhas que se cruzavam comigo e fui-lhes dando pequenos encontrões com o ombro. Todavia, desviei-me daqueles que pareciam mais fortes do que eu.
E fui pensando no padre Cardoso, aquele que me havia confiado uma missão.
Só o deixei em pensamentos quando entrei no tasco mais frequentado da terra. Entrei e olhei em meu redor. Falava-se de futebol, de carros e de subsídios, mas todos se calaram à minha passagem. Parei no meio do espaço e inquiri bem alto: “Quem, daqui, é o Jaime?”
O gajo lá acabou por se levantar. E disse-lhe que me seguisse. Eu já sabia quem ele era, mas sempre quis invadir dessa forma um espaço cheio de gajos e ordenar que um deles me acompanhasse. E assim foi.
A meio do caminho ele perguntou-me se íamos para a casa dele ou para a minha. Sorri sem responder. Acabei por levá-lo para igreja que continuava desocupada desde que o padre Cardoso tinha batido a bota.
Entrámos e sentámo-nos na primeira fila, mesmo em frente ao altar, perante a curiosidade de Jesus Cristo, que nos olharia de frente se eu não lhe tivesse arrancado os olhos na noite anterior com o punhal que guardava na minha bolsinha da Sininho.
“Afinal, o que queres miúda?”
“Matar-te.”
“Porquê?”
“Foi um pedido expresso do padre Cardoso.”
“Como? O gajo foi desta para melhor.”
“Pediu-me para o fazer antes de morrer.”
“E só por causa disso vais matar-me? Se ele te pedisse para comeres fígado cru de um porco espinho alcoólico, tu farias?”
“Não. Claro que não.”
“Então porque obedeces se não queres fazê-lo?”
“Não disse que não queria matar-te, disse que não era por causa dele que o fazia. O padre Cardoso é apenas uma forma de justificar as minhas acções.”
“Como assim?”
“Na verdade, vou matar-te por outro motivo.”
“Qual?”
“Lembras-te quando cravaste a garrafa no teu melhor amigo?”
“Sim. És filha dele, é isso? És a Clarinha?”
“Claro que não, idiota. Sou sobrinha-neta da mulher que liga as máquinas da linha de enchimento da marca de cerveja que tu usaste para ferir o teu amigo.”
“E?”
“E até hoje ela não se perdoa por isso. Está num asilo. Ela acredita que se não tivesse ligado a máquina tu não possuirias a garrafa que usaste para desferir o golpe.”
“O quê? É louca, essa mulher.”
“Dizem que é de família.”
Nesse instante calei-me e vi no seu olhar que o medo se apoderara dele.


30/01/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

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CARDOSO – PARTE X


Quando cheguei ao meu lar, após a visita dos polícias, dei uma vista de olhos pela televisão. E, por milagre de Deus, estava a dar uma série que era mesmo aquilo que eu precisava de ver.
Era sobre um padre assassino! Vejam só! Um padre assassino! O padre era protagonizado por um gajo louro e de bom aspecto. Possuía um nome esquisito mas já tinha sido o Jack Bauer, logo tinha de ser duro.
E em que consistia essa série? O padre queria matar um gajo que se tinha confessado, e que por acaso tinha uma ligação com ele, tendo conduzido o padre ao infortúnio. Enquanto o pobre coitado se confessava, esperando pelo perdão, o padre saca de uma arma e diz “sabes quem sou?” E PUM PUM PUM. Mata o gajo! Quer dizer, não foi assim tão sórdido e repentino, mas contado desta forma tem mais emoção. E na verdade o assassino é que matava o padre, mas cada um vê as coisas à sua maneira, certo?
Que mensagem de Deus era esta? Bem, eu tinha de me redimir antes de ser preso.
Nem dormi nessa noite. A manhã veio e cancelei a missa das 11H00. Coloquei um cartaz onde se podia ler: “Hoje só aceito confissões.”
E aguardei no confessionário - o da igreja, não o da TVI.
O primeiro paroquiano entrou.
“Como te chamas?”
“Jaime.”
“Jaime, meu filho, que merda fizeste tu para estares aqui a lamentares-te?”
“Tentei matar o meu melhor amigo.”
“Foda-se que és rijo.”
“Vim da Biquinha.”
“Ok. Estás absolvido. Põe-te a andar que está alguém à espera.”
“Xau aí, padreco.”
“Espera. Antes de saíres deixa aí a tua morada.”
“Para quê?”
“Vou vender umas rifas e o prémio sairá a uma das pessoas que se confessar hoje.”
“Fixe, mete aí a morada da minha sogra também, assim tenho mais hipóteses de ganhar.”
Ele saiu, outra se sentou. Soube que era uma mulher pelo barulho dos sapatos de salto alto.
“Como te chamas, minha filha?”
“Rosalina.”
“Rosalina... Conhecia uma Rosalina da net, era bem boa, tinha uma anca de fazer ganir. Fantasiei com ela durante meses.”
“Ó senhor padre, se quiser faço-lhe uma lap dance só para si, ali no altar.”
“Você é essa Rosalina?”
“Nem mais e esse é o meu pecado. Quero mudar de vida, mas antes, se quiser, faço um show só para si.”
“Agora não dá que tenho gente à minha espera. Estás absolvida, sua tola. Tenho pena que deixes essa vida. Deixa aí a tua morada num papel para que Deus te possa visitar.”
“Obrigada, senhor padre.”
Ela saiu e outro entrou.
“Como te chamas, meu filho?”
“Moustafa. E também Maria e Bruno.”
“Que puto de nome é esse? És iraniano? Tens armas químicas no bolso, seu adorador do Sadam?”
“Sou português, mudei de nome.”
“Então és burro que nem um cepo. E porque não vens sozinho?”
“A Maria e o Bruno estão sempre comigo.”
“Quais são os teus pecados, Abdul?”
“Moustafa.”
“Isso.”
“Todo eu sou um pecado. A Maria e o Bruno não têm pecados.”
“Então eles que continuem a levar contigo porque a vida é equilíbrio mesmo.”
“Estou perdoado?”
“Desde que não me estejas a enganar e não idolatres o Alá. É que ele e Deus não se curtem muito.”
“Juro que só tenho olhos para Deus.”
“Então põe-te a andar e deixa a morada, Ahmed.”
“Moustafa.”
“Isso.”
“A minha, a da Maria ou a do Bruno?”
“A tua, parvalhão. Eles não pecaram.”
“Posso perguntar para quê?”
“Queres que te pergunte por todos os teus pecados?”
“Não.”
“Então escreve a morada e deixa à porta do confessionário.”
Moustafa saiu e novos tacões se fizeram escutar.
“Quem és tu?”
“Oi, eu sou a Graça, cara. Tudo jóia?”
“Foda-se, és brasileira? Isto aqui não é o reino de Deus. Põe-te a andar.”
“Ah, sou portuguesa. Vê o meu sotaque, agora? Estava a disfarçar. É a força do hábito, andavam à minha procura no Brasil, para além disso quando converso com sotaque brasileiro os gajos olham para mim de uma forma mais intensa.”
“Quero lá saber da puta da tua vida! Não te calas?”
“Fui política, é a força do hábito.”
“Política? Podes ir, já percebi quais os teus pecados. E deixa aí uns euritos pelo dinheiro que me roubaste através dos impostos.”
“Obrigado, senhor padre.”
“E escreve a morada numa das notas.”
“Para quê?”
“Ouvi dizer que o presidente da câmara vai ser preso. Alguém tem de substitui-lo.”
“Ah, ok.”
“Adeusinho.”
Ela saiu e outro sentou-se no lugar.
“Bom dia, padre.”
“Jeremias?”
“Ó padre Cardoso! Há quanto tempo?”
“Porque estás aqui, seu caralho?”
“Para me confessar. E ali atrás, na fila, está também a Carolina, aquela gaja boazuda com que me fizeste perder a virgindade.”
“Bons velhos tempos. Que pena não poder experimentá-los de novo. Agora vão fazer-me a cama...”
“Vão? Porquê?”
“Esquece. Quais os teus pecados, Jeremias?”
“Quais não são os meus pecados?”
“Tens razão. Estás perdoado. Voltaste à casa que herdaste da tua mãezinha?”
“Sim. Ficarei por cá durante uns dias.”
“Ok. Baza.”
“Xau aí, Cardoso Tenebroso.”
“Até à vista, Jeremias Enguias.”
“Não curto essas bocas.”
“Deus não gozará contigo. Faz-te à vida para que eu possa receber o próximo pecador.”
O Jeremias saiu e ouvi a porta bater, embora não me tivesse apercebido de qualquer sombra.
“Quem está aí?”
“A Madalena.”
“A arrependida?”
“Não, essa já morreu há que séculos, senhor padre.”
“A julgar pela tua voz, pareces novinha.”
“Tenho dez anos.”
“E já tens pecados?”
Preparei-me para escutar a sua voz, mas senti uma dor aguda no peito. Era muito forte e paralisou-me por completo. Ainda assim, levei a mão àquela zona e só quando escorregava do banco percebi que estava a ter um ataque cardíaco. Senti que perdia a consciência. No entanto, era capaz de ouvir risadinhas infantis do lado de lá do confessionário. Sabia que tinha poucos minutos de vida, por isso decidi agir.
“Madalena?”
“Sim?”
“Tenho uma missão para ti.”
“Não posso, tenho escola.”
“Devem estar aí uns papéis com umas moradas.”
“Já disse que tenho escola.”
“Suplico-te. Consegues ver?”
“Sim.”
“Tens de matar as pessoas que moram nesses locais. Jaime, Rosalina, Moustafa, Graça e Jeremias.”
“Matar?”
“Sim, tens de terminar a minha obra. Agora que vou morrer não conseguirei levar a minha tarefa avante.”
“Matar como no Emily Grace?”
“No quem?”
“Aquele jogo de computador no qual enfiamos balázios na malta.”
“Suponho que sim.”
“Altamente! Conte comigo, senhor padre.”
Nessa altura senti frio e a visão turva. Deixei de escutar e de sentir o chão que me sustinha. Ainda assim, mesmo antes de morrer, percebi que a Madalena me tentava furar os olhos com uma escovinha destinada a limpar a sujidade entre as gengivas, os dentes e o aparelho dos dentes.
E sucumbi de vez, felizmente sem ter sentido a escova a perfurar-me.



23/01/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CARDOSO – PARTE IX


No dia seguinte à recriação do “Lobijovem” acordei com a polícia a bater à porta da igreja. Gritei que se queriam falar com o padre Cardoso que batessem na porta da casa dele. Eles disseram que já o tinham feito mas que não o encontraram, pelo que só podia estar ali.
Eu praguejei e abri as portas da casa de Deus. Eram dois, os agentes da autoridade, ambos da GNR. Tinham as botas engraxadas e óculos de sol à aviador. Entraram e perguntaram a razão pela qual se sentia por toda a parte um cheiro tão intenso a álcool. Eu fui sincero ao responder que depois do “Lobijovem” tínhamos dado uma festa e que se não acreditavam que podiam ver a máquina de pressão e os barris de cerveja pousados em cima do altar. Eles disseram que acreditavam e eu respondi que era bom sinal, pois um homem de Deus nunca mente.
Um deles espreitou e perguntou quem era a velha que estava deitada no chão a um par de metros de mim. Encolhi os ombros e expliquei que a dona Amélia ficava doida quando via um órgão sexual masculino de dimensões exageradas e que se enfrascava até à inconsciência sempre que isso acontecia.
Depois estiveram uns minutos a avaliar uns quantos ressacados que ressonavam e se largavam quando o ronco se relevava mais profundo. Estavam todos deitados no chão, sem qualquer ordem nem orientação, como se tivessem caído redondos no chão, que nem os tordos que eu costumava caçar com a minha Magnum 44.
Um dos polícias tirou os óculos e encarou-me. “Parece que a festa do ano decorreu mesmo aqui.” Eu confirmei com a cabeça. “Porque é que não fomos convidados?”
Eu engasguei-me. Fiquei fodido, confesso. Como me podia ter eu esquecido de convidar a malta da polícia? Afinal, também eles eram filhos de Deus; até eles! Pedi-lhes perdão e prometi que me chicotearia mais tarde quando tivesse vagar. Eles disseram que não era preciso, que bastava um fininho para atenuar a tristeza que lhes invadia a alma.
Eles entraram e eu segui-os em direcção ao altar. Os agentes foram espreitando o pessoal deitado. Até que um deles, o mais velho, parou, especado, mirando uma mulher de cabelos ruivos. “Maria?” disse. “Conhece a Maria vai-com-todos?”, inquiri. Ele olhou-me de soslaio e respondeu: “A Maria é a minha esposa, que história é essa de ir-com-todos?” Eu tremi por dentro. Não queria que o senhor agente soubesse que ela ia com todos. Não era minha intenção aborrecê-lo. Depois lembrei-me que eu e ela havíamos tido uma conversa há uns tempos, tendo rido às gargalhas devido à estranha ironia do destino. “Eu disse vai-com-todos?” Ele confirmou com um breve aceno. “Então percebeu mal, eu disse Maria Viatodos; Viatodos, freguesia de Barcelos, não é a terra dela?” O polícia semicerrou os olhos e afirmou que sim, que eu tinha razão. Porém, voltou a insistir, querendo saber o que fazia ela ali. Eu tornei a encolher os ombros e prometi-lhe que quando acordasse a levaria para o confessionário, e que mais tarde lhe contaria tudo, quebrando o voto de silêncio relativamente aos pecados alheios.
Os agentes continuaram até ao altar e eu servi-lhes cerveja em copos de plástico.
Ambos beberam até que o mais novo, o que não era casado com a Maria Viatodos, percebeu que alguma coisa se encontrava fora do normal. Aproximou-se de alguns dos paroquianos deitados e disse: “Que líquido vermelho é este?” Eu respondi calmamente: “Groselha, a maior parte das patroas não gosta de cerveja pura.” Ele argumentou que o líquido estava junto de homens e não de mulheres. Eu contrapus, assumindo que eram homens por fora mas mulheres por dentro. E então ele detectou outro pormenor: “E que buracos são estes nestes corpos banhados a groselha?” Eu olhei e esperei um segundo para me mostrar mais confiante. “Buracos normais, estivemos a jogar aos dardos ontem à noite.” Ele perguntou-me se tínhamos jogado utilizando pessoas como alvo. Eu afirmei que sim, que era muito divertido e que era bastante comum em salas de tortura e assim.
Eles ficaram mais descansados e partiram.
Eu suspirei de alívio, feliz por não terem detectado que os buracos se deviam às balas disparadas pela minha Magnum 44 na noite anterior e por não terem reparado no pêlo do uivador sucumbido que se encontrava espalhado por toda a parte.
Então acordei os paroquianos e enxotei-os, ordenando que levassem os corpos dos defuntos para o rio mais próximo, a 7 quilómetros dali.
Depois sentei-me em cima da máquina de finos que por sua vez estava em cima do altar. Caí. Mas tal como Jesus Cristo, levantei-me.
Deduzi que a polícia acabaria por voltar e que um dos paroquianos daria com a língua nos dentes, pelo menos um dos que se lembraria do que havia sucedido.
Suspirei de tristeza por, afinal, a vida não ser um filme e nem sempre nos safarmos fosse de que forma fosse.
Por isso, assim que limpei a igreja, enfiei-me no meu quarto a ver televisão, aguardando ansiosamente que algum filme me dissesse como haveria de solucionar aquele imbróglio.
Mas isso fica para a próxima.


16/01/2014

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS

CRÓNICAS DE UM PORTUGAL DEMASIADO PORTUGUÊS


CARDOSO – PARTE VIII


Era uma segunda-feira e acordei num tremendo desespero. Tinha ficado adoentado durante o fim-de-semana e a minha rotina acabou por ser missa-casa, casa-missa.
Um autêntico descalabro.
O motivo? Bem, a razão é que não vi filmes, nem séries, nem telenovelas, nem sequer o telejornal. Passei sábado e domingo a vomitar e a dormir, isto quando não celebrava missas. Pois, até a mim o vírus da gripe pega.
Levantei-me, portanto, sem ideias para passar o dia.
Revivi na minha cabeça alguns filmes que havia visto, mas não me recordei de nenhum que não tivesse representado na paróquia. Todos os filmes protagonizados pelo anão dos dentes assimétricos, também conhecido como Tom Cruise, já tinham sido explorados, assim como os do actor que nunca envelhece, o Pierce Brosman. A actriz que é podre de boa mas que nunca fez um papel de jeito, a Angelina, e aquele que era dançarino e que acabou por engordar enquanto esteve no desemprego, voltando a emagrecer depois de reaparecer, o Travolta, já estavam mais do que gastos.
Enquanto as gotas de chuva colidiam com o chão da calçada eu gritava desesperado, puxando pelos lençóis da minha cama. Perguntava aos céus a razão por estarem desocupados. Onde estaria Deus quando eu precisava dele? Eu necessitava urgentemente de um filme para poder fazer uma missa em grande. E então o sino do meu cérebro começou a entoar quando uma ideia me surgiu, ao dar por mim a uivar que nem um lobo.
O “Lobijovem”! Tinha-me esquecido de representar o lobijovem. Sabem? Aquele filme para adolescentes da idade da pedra em que o Michael J. Fox começa a transformar-se num lobisomem. Ao recordar-me desse, lembrei-me de outro. Não era um filme mas sim um desenho animado. Não é que o Son Goku se convertia numa espécie de lobo ou macaco ou gorila - ou lá o que era - a determinada altura também?
Era mesmo isso.
Obviamente não seria eu o lobisomem. Afinal nunca tive jeito para uivar.
Duas horas antes da missa começar, afixei um papel à porta da igreja onde se podia ler: “casting para lobisomem - se tens entre 0 e 100 anos e muita vontade de uivar aparece.”
Passado dez minutos havia dezenas e dezenas de pessoas à porta. Ainda eram 9H30 quando comecei a receber os paroquianos, juntamente com a minha equipa da sacristia. Nós éramos um belo de um júri. Também convidei aquele moço, um tal Simon não-sei-quantos. Contudo ele recusou, assumindo que tinha um encontro com a Paris Hilton, num hotel do grupo Hilton em Paris. Ele era bom a humilhar as pessoas e às vezes um lobo precisa de ser humilhado para que possa uivar com toda a sua pujança.
Na ausência do Simon não-se-quantos - o único senhor que usa risca ao meio e que todos pensam que esteja na moda - teria de caber a mim esse angustiante papel.
Quanto ao primeiro candidato, rejeitei-o sem que se fizesse ouvir. Era careca.
O segundo tinha as unhas roídas, pelo que foi pelo mesmo caminho.
O terceiro concorrente tinha placa, logo os seus caninos não se revelavam proeminentes como era suposto.
A quarta candidata miou em vez de uivar.
Os sete que se seguiram uivaram em português. Logicamente, o filme seria legendado e não dobrado.
O décimo segundo uivava bem, mas demasiado baixinho. Num outro dia teria utilizado o sistema de som, mas o dito cujo ficara inutilizado devido a um descuido do hipopótamo.
O décimo terceiro elemento a concurso uivou na perfeição.
Era aquele. Estava decidido. Ainda por cima era bem peludo, de tal forma que havia quem o chamava de Teddy Bear.
Às 11H00 dei início à missa. Decidi que fosse uma missa cantada em formato lobisês. O gajo uivou que se fartou, do princípio ao fim. E continuou a uivar até à noite. Todos pareciam enfeitiçados com a rouquidão do seu uivo. Ninguém deixou a igreja até a lua se pôr. Fiquei extasiado com o sucesso da minha acção. Os paroquianos tinham-se tornado cada vez mais devotos. E depois, os pêlos do uivador de serviço começaram a crescer e a engrossar. Sofreu uma espécie de mutação, ou várias até. Nos dentes, nos olhos, na pele e até no material. Não é que tenha olhado, mas vi a dona Amélia babar-se mais do que era habitual.
E então o uivador perdeu o controlo. Galgou bancos, derrubou castiçais e atacou pessoas. Claro que eu não podia permitir semelhante comportamento na casa de Deus. Saquei da minha Magnum 44 gamada no museu privado do Clint Eastwood e com a qual costumava caçar tordos, e fulminei-o com dois tiros no peito. Todos se calaram, as pombas brancas no átrio da igreja esvoaçaram, as velas eléctricas apagaram-se e um coração parou de bater.
Os paroquianos aguardavam a minha reacção. Eu encolhi os ombros, revirei os olhos e disse-lhes: “Graças a Deus que o Simon não-sei-quantos não estava aqui, senão o uivador sofreria antes de morrer.”
Alguém por entre o silêncio gritou que o jurado que comia a Paris em Paris se chamava Simon Cowell e que pertencia aos júris dos programas “Britains's Got Talent”, “Factor X” e “American Idol”. Olhei de soslaio procurando quem que me tinha corrigido. Desconfiei de três e disparei sobre cada um deles. Dei por encerrada a missa e expliquei que quem voltasse a desrespeitar o silêncio do luto dedicado ao uivador teria o mesmo destino.